Era assim que Elyssa se sentia em relação a sua vida. Era como ela pensava. Sua vida estava longe de ser um conto de fadas, não existia príncipe encantado e ela jamais se consideraria uma princesa. Até porque ela odiava o mundo da fantasia. Realista, era o que ela era realmente. Sua única fonte de alegria eram seus amigos. Sua melhor amiga, Flávia, parecia ser a única capaz de ouvi-la. Elyssa sentia-se completmente só em sua família. Na escola era considerada a garota estranha que amava livros. Realmente sua paixão era ler. Era a única maneira que ela encontrava de fugir do mundo quando estava cansada dele ou revoltada com as pessoas. Ninguém achava que Elyssa era infeliz. Para todos ela não passava de uma garotinha tímida, reservada. Aquela garota que não tinha namorado, não se apaixonava, não saía de casa a não ser para ir ao trabalho ou à escola. Ela passava a imagem de uma garota sem sentimentos. Mas isso não era verdade, ela tinha sentimentos. E esse é o principal assunto dessa história, sentimentos. — Hey, acorda Elyssa — era a voz de Flávia chamando na janela do quarto de Elyssa. — O que você quer? Me deixa dormir, são 7 da manhã ainda. — resmungou Elyssa com a voz um tanto sonolenta. — Preciso de sua jaqueta emprestada. — disse Flávia. — Caramba, o que deu em você? Nunca te vi indo pra aula no horário certo, está sempre atrasada. O espírito da responsabilidade finalmente tomou conta de você? — brincou Elyssa. — Haha! Muito engraçado. Agora me empresta logo sua jaqueta e vamos pra aula. — disse Flávia quando já havia pulado a janela e já estava abrindo o guarda-roupas da amiga para pegar o que queria. Elyssa nem se importava mais com o comportamento invasivo da amiga. Sempre foi assim, desde que se conheceram na infância. Flávia sempre foi dependente de Elyssa, que a considerava uma criança muito irresponsável e maluca. Vinte minutos depois as duas amigas já estavam no portão da escola. Elyssa odiava aquele lugar, apesar de amar estudar.
Ela não suportava a falsidade com que as pessoas viviam naquele colégio. Todos fingiam estar bem, mas era visível que ninguém ali era totalmente feliz com a vida que tinha. Elyssa era apaixonada pelos estudos, por isso nunca faltava ás aulas, ao contrário de Flávia que só ia quando sentia vontade. Por esse motivo continuava no ensino fundamental enquanto Elyssa já estava no último ano do ensino médio. — Vou embora na última aula — disse Flávia antes de ir para sua sala de aula. — Outra vez? — indagou Elyssa. — Você anda perdendo aula demais ultimamente. — Eu sei, mas é por um bom motivo — respondeu Flávia. — E esse motivo se chama Allan. Acertei? — Sim, encontrarei ele na lanchonete hoje e depois iremos ao cinema. Agora deixa eu ir, te encontro na locadora depois. Vai trabalhar né? Espero que sim. Até mais. — Flávia disse isso rapidamente e saiu correndo, saltitando pelos corredores da escola logo que o sinal tocou. — Até mais. — Gritou Elyssa, mas a garota já havia desaparecido. Elyssa trabalhava todas as tardes em uma video locadora. Fazia isso para ficar menos tempo em casa. A locadora era seu refúgio. Filmes eram sua segunda paixão, depois de livros. As horas naquela manhã passaram lentamente e Elyssa já estava cansada de ficar presa na sala de aula. Quando o sinal da última aula tocou avisando que era a hora de ir embora, Elyssa saiu depressa para ir para a locadora. Ao chegar na locadora notou que a porta estava aberta. Pensou ser o Matheus, seu colega que quebrava seus galhos quando Elyssa precisava de uma folga. Mas ficou surpresa ao ver que era Miguel, o dono da loja. Sua surpresa devia-se ao fato de que ele nunca chegava antes dela, normalmente seu horário era duas horas depois de Elyssa. — Elyssa, que bom que chegou. Cheguei mais cedo hoje para retirar algum dinheiro e já estou saindo. Passarei a tarde fora, não voltarei hoje. Qualquer coisa estou no celular. — Falou Miguel assim que Elyssa passou pela porta. — Tudo bem, pode deixar comigo Miguel. — disse Elyssa, aliviada por poder passar mais uma tarde sozinha. Miguel era legal, mas Elyssa adorava ficar sozinha na locadora, se sentia mais a vontade assim. Ligou o computador e ficou ali, eperando que alguma alma viva aparecesse para locar algum filme e livrá-la do tédio finalmente. A tarde foi tranquila. Alguns clientes apareceram. E no final do expediente, Matheus chegou para ajudá-la a fechar a locadora e acompanha-la até em casa como sempre fazia. Matheus era um ótimo amigo, divertido e apaixonado por Elyssa. Esse fato ela preferia ignorar, pois não via nele mais que um bom colega de trabalho.

Ao sair da locadora, o celular de Elyssa tocou. E pra sua surpresa, era alguém que ela não esperava, mas queria muito.