Traição

4 Capítulo 4 - O Que Pode Ser Perdido


Edward ficou no carro por longos minutos depois que Bella entrou no prédio com Anthony.

As mãos ainda repousavam no volante, mas ele não lembrava de ter estacionado. Tudo o que via era o sorriso dela — não o que ela lhe dera, mas o que oferecera a outro homem sem perceber.

Paz.

Era isso que o apavorava.

Não havia raiva em Bella. Nem cobrança. Nem lágrimas contidas. Ela não o olhava como alguém que esperava algo dele. Olhava como quem já aprendera a seguir.

Edward fechou os olhos.

Pela primeira vez, a perda não era uma ameaça distante — era concreta. Real. Bella não estava indo embora por orgulho. Estava ficando… sem ele.

— Você demorou — murmurou para o vazio do carro. — E agora talvez seja tarde demais.

Ele pensou em tudo o que não dissera. Em cada vez que escolhera o silêncio, o controle, o medo. Sempre acreditara que o amor de Bella era uma certeza imutável.

E certezas, descobriu tarde demais, também se perdem.


Bella aceitou o café naquela tarde quase sem perceber.

Não foi um sim pensado. Foi um cansaço manso. Um desejo simples de normalidade.

Alec a levou a um lugar pequeno, aconchegante, onde ninguém a conhecia como “a mulher que foi embora” ou “a ex de alguém”. Ali, ela era apenas Bella.

— Você fica linda quando se distrai — Alec comentou, empurrando a xícara na direção dela. — Parece que o mundo fica um pouco menos pesado ao seu redor.

Ela riu, mas sentiu o comentário mais fundo do que esperava.

— Você fala como se eu fosse um projeto de recuperação.

— Não — ele sorriu. — Eu falo como médico. Reconheço alguém que sobreviveu a uma fratura profunda… e está reaprendendo a caminhar.

Bella baixou os olhos. Havia algo seguro nele. Nenhuma urgência. Nenhuma exigência. Apenas presença.

— Às vezes eu tenho medo — confessou, baixinho. — Medo de estar seguindo em frente só para não sentir dor.

— E se for o contrário? — Alec perguntou. — E se seguir em frente for justamente escolher não sangrar mais?

O silêncio entre eles não era desconfortável.

Quando ele tocou a mão dela, foi suave. Um convite, não uma tomada. Bella não afastou. O coração acelerou — não por culpa, mas por surpresa.

Ela pensou em Edward.

No passado que ainda doía.

No homem que ainda amava… mas que sempre chegava tarde.

Os olhos de Alec encontraram os dela.

— Bella… eu não quero ocupar um espaço que ainda não está vazio. — Ele falou com honestidade. — Mas também não quero fingir que não sinto nada.

Ela respirou fundo.

Por um segundo — apenas um — pensou em ceder. Em permitir-se algo simples. Um começo sem feridas abertas.

Mas retirou a mão devagar.

— Eu ainda estou aprendendo a ficar de pé — disse, com um sorriso triste. — Não sei se já sei caminhar em direção a alguém.

Alec assentiu, sem frustração.

— Então fico aqui. — Ele piscou. — Como sol. Não invade. Só aquece.

Bella riu, emocionada.

E naquele instante, longe dali, Edward sentiu algo que não sabia nomear.

Não era ciúme.

Era o reconhecimento brutal de que outro homem podia cuidar de Bella… sem machucá-la.

E isso, mais do que qualquer rivalidade, o obrigaria a decidir:

Ou lutaria por ela de verdade

ou aprenderia a viver com a perda definitiva.