Tragedia Peccaminoso
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Enfim, me amem.
Juro que eu nunca havia me sentido daquela forma.
Haviam se passado três semanas da confissão do garoto que era uma obra-viva e eu simplesmente não conseguia parar de pensar no que ele dissera. Em certa noite, tive um sonho aonde nos beijávamos e declarávamos amores, fazendo infinitas promessas. Lembro-me que eu dissera a ele que largaria a igreja e minha vida celibatária para podermos viver nosso amor proibido e consequentemente montarmos uma vida juntos. Depois que acordei, senti-me culpado e ao mesmo tempo curioso sobre o sentimento que sentia. Era algo novo para mim. Eu já havia lido alguns contos e romances sobre amor, mas nunca havia o sentido realmente. Amor, eu sentia por todos, já que um dos dez testamentos é amar ao próximo. Porém, o que eu senti por ele foi algo diferente de qualquer coisa que eu já sentira em meus vinte e seis anos de vida. Eu tinha vontade de estar ao lado dele, abraçá-lo e que Deus me perdoe, mas de beijá-lo também.
Se alguém da comunidade religiosa soubesse que Frei Domenico, um homem muito sábio e viajado havia me apresentado a obras humanistas e modernistas, era capaz de eu ser excomungado. Eu sabia demais sobre assuntos que não eram de meu respeito e tentava ao máximo esconder isto de qualquer um. Sexo era um tabu entre padres e madres. Todos sabem que cabe ao indivíduo escolher a vida espiritual ou a vida mundana e bem, quando se escolhe Deus, se abdica de todos os prazeres e bens que desfrutarias em Terra. Frei Domenico apresentou-me os dois, iniciando-me em literatura laica e chegou a levar-me a uma casa de concubinas. Sim, não sou mais virgem, mas ninguém, nunca, deverá saber disto. E não, não fora apenas uma única vez em que fui ao local, eu e Frei Domenico fomos inúmeras vezes que cheguei-me a assustar-me com seu fôlego, se entendes o que quero dizer. Lembro-me que uma das garotas que sempre me atendia dissera que eu era bonito demais para ser padre. Que mais pessoas no mundo deveriam ter a chance de beijar-me e tocar-me. Fiquei sem graça, mas aquilo fora uma injeção e tanto de auto-estima. As vezes eu pagava pela noite e apenas conversava com as moças, que pediam perdão pela vida que acabaram tendo como destino. Ao contrario do que muitos dizem, algumas eram mais religiosas do que muitos membros do clero. Eu fingia ser idiota, o jovem diácono, mas absorvia muito do que era dito atrás do altar. O desvio de doações e do dízimo era algo deixava-me perplexo, mas eu não me manifestava. Em algum momento iriam dar falta do que some e então iriam atras para ver que fim tinham as doações.
Praticamente todos os membros do clero são ou induzidos ou ensinados que o amor é algo que apenas se compartilha com Deus. Que o desejo carnal e o amor entre duas são para os fracos. Que apesar de Deus amar a todos, o estado mais elevado espiritual é quando você tem a capacidade de se entregar de corpo, alma e coração ao Senhor. Eu infelizmente ainda não havia chegado a um estagio tão elevado. O sentimento de querer ter alguém em minha vida, acompanhando-me todos os dias era conhecido e ao mesmo tempo novo, pois era a primeira vez que eu o sentia.
Eu como padre nunca deveria estar tendo este tipo de pensamento, mas além desse inicial afeto, a queimação e o desejo que me consume é algo incrível. E por mais que eu tentasse negar, era impossível. O garoto andava invadindo meus pensamentos a qualquer momento e em qualquer lugar. E nas ocasiões mais impróprias, como na hora do jantar ou nas reuniões com o clero local. Sim, a esta altura eu já devia estar queimando no fogo do inferno, mas eu, assim como o garoto, não via motivos de o porquê nutrir aquele tipo de sentimento fosse errado.
Não fora o próprio Jesus Cristo que ensinara a amar todos sem distinção?
Isto sempre fora um dos grandes questionamentos que eu fazia para com a igreja, porém, eu nunca conseguia chegar a uma conclusão que enteasse em acordo com o conceito pregado pela religião ao qual acredito, mas de certa forma, não mais piamente.
Eu estava tão imerso em minhas próprias indagações que sequer notei que já passava das onze da noite e o coroinha da paroquia, Enzo, — um garoto de quinze ou dezesseis anos — estava parado junto à porta de meus aposentos. Ele me fazia lembrar de quando eu ainda morava no convento de Santa Helena, junto das madres que foram minha família por toda a minha infância e adolescência. Ao lembrar-me de Madre Rose, senti uma forte pontada, como se houvessem cravado um fina lança afiada em meu peito. Era como se uma súbita sensação de mal estar-estar tivesse me invadido, de que algo ruim acontecera ou estava prestes a acontecer. Pude sentir minhas mãos tremerem ligeiramente e meu coração disparar esperando já o pior.
— Padre, trouxe-lhe duas notícias. Temo que ambas não são boas nem para o senhor nem para a comunidade.
— Diga logo o ocorrido, garoto — pedi apreensivo.
— A primeira noticia chegou por meio de uma carta, postada há mais ou menos duas a três semanas — fez uma pausa e baixou a cabeça. — Vinda do Reino Unido, do convento de Santa Helena.
— O que houve?
— Madre Rose veio a falecer.
Minha respiração e uma batida de meu coração falharam por um momento simultaneamente e pude sentir meu corpo ceder e sem perceber, já estava sentado em minha cama com o coroinha me amparando.
— Padre John disse-me para que eu fosse cuidadoso ao dar-lhe a noticia. Disse-me também que a Madre era muito importante para o senhor. Sinto muito.
— Tudo bem, Enzo — falei tentando normalizar minha respiração. — Isso é processo da vida. Todos um dia vamos morrer, é algo natural do ser humano. Mas diga, qual a outra noticia?
— Ah sim, há um casal que veio a falecer em um acidente esta tarde e deixou seu único filho desamparado. É preciso a benção do senhor para que possam começar o velório dos corpos.
— Alguém sabe a idade do filho deles?
-Não sei exatamente mas disseram que tem mais ou menos minha idade — ele explicou. — Deve ter algo perto dos quinze anos.
-E aonde estão os corpos? — perguntei. — Quero dizer, o garoto é novo, não tem autoridade sequer conhecimento... Alguém providenciou os documentos obituários e o funeral?
— Desculpe Padre, mas isto não sei lhe informar. Só sei que o garoto está em estado de choque e ainda não conseguiu proferir sequer uma palavra — ele disse e inclinou o pescoço para o lado, talvez querendo aliviar seu cansaço. — Também não encontraram nenhum parente. Por enquanto, um amigo da família está com ele.
-Certo, vou até lá agora mesmo.
— Quer que eu peça para que o zelador leve o senhor ou...
— Não é preciso — o interrompido. — Sabes muito bem que sei dirigir e não gosto de perturbar o sono alheio. Eu mesmo vou. Apenas dê-me o endereço. Talvez eu possa reconfortá-lo e acalmá-lo. Tentarei encontrar algum parente também. Seus avós ou algum tio, não sei.
— Certo — ele concordou ligo saindo de meu quarto, juntando as mãos e baixando a cabeça, pedindo benção. Sorri levemente e repeti seu gesto. — Vou buscar o endereço e volto em um instante.
— Obrigado — respondi em um sussurro e logo fui vestir uma roupa casual. As pessoas acham engraçado quando vêem os padres usando qualquer outra roupa senão a batina, mas eu sempre o fazia. Apesar de alguns superiores reclamarem, eu vestia a batina apenas em missas, batizados e outros eventos que realmente fosse necessário usá-la. Senão fosse, eu apenas vestia uma roupa normal.
Logo Enzo voltou com um pequeno filete de papel em suas mãos e me entregou, sendo o endereço que eu havia requerido minutos atras. Peguei a chave do carro que um dos zeladores da igreja possuíam — que acabou por se tornar propriedade comunitária — e tratei de dirigir para a fazenda que estava indicada no rascunho que o garoto havia feito. Não era muito longe da igreja, sendo que dirigi por cerca de trinta minutos até sair do centro da cidade e chegar na área rural. Estava por uma estrada de terra quando avistei uma pequena placa de madeira pregada a um portão de mesmo material com os dizeres "Fazenda da Felicitad, 582".
Parei o carro e saltei para fora do veículo a fim de destrancar o simples cadeado de metal que mantinha o portão fechado e logo o abri, dirigindo fazenda adentro, a procura da casa.
Segui a trilha já formada por pneus e enfim cheguei ao meu destino, uma pequena e simpática casa bege, com uma varanda igualmente familiar, que possuía uma janela que dava para a sala do imóvel e uma cadeira de balanço. Pendurado ao teto havia uma lamparina que iluminava o chão e o apertado ambiente, aonde estava um grupo de quatro ou cinco pessoas, que ao notarem minha presença, rapidamente enviaram-me olhares curiosos por não identificarem de primeira de quem se tratava a visita.
— Ah sim, o senhor é o padre — uma mocinha finalmente disse depois de me encarar fixamente por longos segundos e deslizar os olhos pelo meu corpo, avaliando minhas roupas. — Estranho ver o senhor sem a batina...
— Prefero não usar o tempo todo — declarei. — Sinto que intimido as pessoas a serem naturais, ficam pensando que somente pelo fato de eu ser da igreja, se disseram ou fizerem algo errado, eu os mandarei para o inferno no mesmo momento.
— Acho que o senhor tem razão — a mesma garota assumiu e virou a cabeça para o outro lado, desviando seu olhar do meu. — Venha, vou levar o senhor até o quarto aonde está Frank.
— O filho do casal? — perguntei, esperando a resposta óbvia.
— Sim — ela respondeu. — Ele está no quarto a horas, não saiu para nada desde que recebeu a noticia. Ele também expulsou todos que tentaram sequer falar com ele.
— E aonde estão os corpos? — indaguei delicadamente. Não havia sido exatamente para benzê-los que eu vira?
— O serviço funerário está cuidando disto, em pouco tempo estaram aqui, devidamente arrumados para o enterro.
— E quer que eu tente falar com o garoto?
— Se o senhor puder... — ela sussurrou. — Frank nunca foi de demonstrar fraqueza. Se ele está deste jeito, deve estar doendo muito.
— Perder os pais não é coisa pouca, perder os dois de uma vez só deve ser muito pior.
— Ele era muito ligado ao pai — ela comentou. — Era o herói dele.
— Imagino — sorri levemente. Infelizmente eu não tinha base para poder concordar completamente com o que a garota havia dito já que eu sequer conhecera o meu.
— Vamos? — perguntou abrindo a porta e indo em direção as escadas. Subimos um pequeno lance de escadas e então chegamos ao segundo andar, um estreito corredor com três portas, sendo que duas estavam encostadas e a outra fechada.
— É a porta fechada — ela disse apontando para a mesma. — Espero que consiga algo, Frank não merece sofrer deste jeito — desceu as escadas deixando-me parado em meio as portas.
Fiquei em silêncio por certo tempo e tive certeza que pude ouvir um choro abafado vindo do tal quarto. Parei junto à porta e levei meus dedos à madeira, batendo timidamente com o nó dos dedos. Esperei uma resposta e como não a recebi, bati mais uma vez.
— Vai embora — a voz ralhou e eu senti um leve espasmos correr por meu corpo. Aquele timbre era infinitamente parecido com um que eu não conseguia tirar da cabeça há semanas a fio.
— Eu só quero conversar um pouco — falei usando um tom de voz baixo e sereno, tentando transmitir tranqüilidade.
— Não quero conversar — ele rebateu com a voz vacilante e eu permaneci parado em frente a porta, com a cabeça recostada na mesma. Meu cabelo caiu sobre meu rosto mas eu não fiz esforço nenhum para retirá-la do lugar, apenas continuei a ouvir atentamente seus soluços em meio ao choro que ele tentava reprimir.
— Por favor — pedi. — Sei que deve ser difícil para ti, mas preciso que me ouças.
- Já disse que não quero ouvir nada – ele falou aumentando levemente seu tom de voz. – E duvido que entendas.
- Eu poderia explicar.
- Não quero explicações.
- Por favor, Frank – falei já levando minha mão à maçaneta. – Só ouça, não precisa dizer nada.
- Tudo bem – ele sussurrou de dentro do quarto após um longo silêncio. – Deixe-me destrancar a porta.
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