Traga-me Para A Vida
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Como o tempo é duvidoso e perverso. Quando se espera que corra rapidamente ele chega sereno, letárgico. Seus minutos transformam-se em longas e tediosas horas e você assiste o dia marchar em câmera lenta. Mas quando o instante é agraciado por uma felicidade palpável e concreta, o tempo torna-se seu inimigo. Ele dispara com a ousadia ou necessidade de subtrair e roubar o momento. Era esse pensamento que Lisa tinha em sua cabeça ao cair da noite enquanto esperava pelo retorno de Anne e Nick do Hospital St.Elizabeths.
Tirando os criados, estava sozinha. Paul Staple que estava hospedado em sua casa até o final das filmagens do videoclipe tinha saído para se encontrar com amigos. Já havia se passado três dias e ela não tinha feito nenhum comentário sobre seu último e desastroso sonho, aquele em que seu “desconhecido” estava prestes a iniciar uma sessão de ”sadismo” com aquela mulher lindíssima, aliás, ela estava mais do que disposta a satisfazê-lo, levando em conta, claro, a belíssima lingerie negra que vestia.
Mas que merda... Lisa estava indignada com a descoberta dele ser um filho da puta pervertido ou estava com ciúmes? A dúvida em sua cabeça tinha uma resposta fácil e direta.
Ela estava com ciúmes. Ciúmes de tudo que desejava ter com ele. Queria cumplicidade, beijos, toques, o calor do seu corpo, o sexo. Fechou os olhos e pode ver a imagem nascer em sua mente clara como o raiar do sol, vislumbrou ambos....
Os dois deitados nus em sua cama, no seu quarto, ele com seu forte corpo em cima dela, suas pernas estavam trançadas na cintura dele, suas mãos acariciavam o corpo do “desconhecido”, ela gemia enquanto ele se movia dentro dela ferozmente, penetrando-a num movimento vai e vem poderoso. Ela se segurou nos ombros dele e deixou que o ritmo avassalador lhe guiasse até o orgasmo.
– Se perca em mim, Lisa. Goze pra mim, agora!
E ela gozou, foi selvagem. Ondas de calor a envolviam freneticamente era tudo tão intenso que sem pensar ela cravou suas unhas nas costas dele arranhando-o dos ombros até a base da cintura. Aquilo o pegou de surpresa, fez com que jogasse a cabeça para trás pelo prazer proporcionado e então impulsionou seu membro mais fundo dentro dela. O orgasmo dele chegou forte, alucinante, gemeu alto com se fosse uma fera. Ele ardia, queimava, delirava. Olhou-a profundamente nos olhos, sentiu o estremecer do seu corpo e se soltou em cima dela. Ficaram ali agarrados, juntos, puxando o ar, respirando com dificuldade e escutando os sons de seus corpos após o sexo.
Depois de alguns minutos entre o imaginário e o presente conseguiu finalmente abrir seus olhos, se sentia zonza por vários motivos, balançou a cabeça forçando-se a voltar para a realidade imediata, então percebeu que estava totalmente úmida entre as pernas, pronta para recebê-lo, seu corpo encontrava-se em chamas, mas essas chamas a consumiriam totalmente porque tudo aquilo eram somente fantasias. Igual a uma miragem no meio do deserto, um artifício estúpido para uma felicidade que não existia. Olhou para o relógio. Os minutos continuavam lentos.
Levantou furiosa do sofá e investiu em direção à piscina. Precisava nadar, ia mergulhar de roupa e tudo quando o som do vidro espatifando no chão fez com que olhasse para trás espantada. O grande e majestoso espelho de cristal que ficava dependurado na parede ao lado do sofá em que ela a pouco estava sentada se partiu em mil pedaços.
O que foi aquilo? Provavelmente o suporte atrás da moldura se soltou ou o prego não suportou o peso. O objeto era uma relíquia do século XVIII, um dos poucos mimos e peças de mobília que ela mesma havia comprado para decorar a casa em que vivia. Com exceção desse espelho e do seu quarto o restante era tudo obra de um decorador contratado por Bob, seu agente.
Ela se abaixou para juntar os cacos...
Ela se sentiu como aquele espelho...
Estava estilhaçada, retalhada. Como iria se recompor? Queria poder respirar sem sentir mágoa, ao estender a mão e pegar o primeiro caco de vidro por um descuido se cortou e o sangue jorrou vivo e vermelho.
Ela só queria esquecer as chagas que carregava, queria apagar o dia e a noite, apagar a lembrança do abuso quando tinha seis anos.
1990 – Chicago.
Era madrugada e a pequena Lisa dormia no mesmo quarto que sua mãe. Acordou assombrada e sentiu uma dor pungente em todo o seu rosto. Estava jogada ao chão, sua mãe em cima dela com uma perna de cada lado de seu corpo magro e frágil. Ela só entendeu o que se passava quando foi golpeada novamente no rosto com o abajur que ficava sobre o criado mudo. Sem chance nenhuma de se defender sua mãe repetiu os golpes até a cúpula florida rasgar e a lâmpada explodir sobre suas mãos pequeninas que se cortaram imediatamente.
Amedrontada e totalmente desprotegida Lisa começou a gritar e para que calasse a boca sua mãe lhe puxou pelos cabelos. Com o que tinha sobrado do abajur, ou seja, a base de madeira, deferiu mais um golpe em seu rostinho. Em seus lábios abriu-se um corte profundo e seu maxilar quebrou ao meio. Por simples instinto de sobrevivência Lisa conseguiu se virar de costas pensando em fugir, escapar. Foi então que o espancamento ficou mais violento, mais desastroso. Sua mãe golpeou uma, duas, três, quatro... só Deus sabe quantas vezes... até que além das manchas roxas em suas costas ouvia-se os estalar dos ossos das costelas.
Alguém gritando pelo nome Rachell e batidas na porta de entrada do apartamento não tiveram o poder de cessar o ataque enfurecido, mas o arrombamento da mesma, SIM!
Tiraram sua mãe de cima dela e a seguravam com força porque ela se balançava e se debatia insanamente, seus gritos saíram medonhos.
– Me soltem, o mal corre dentro dela. Preciso matá-la. Seu pai é satânico. Ela tem que morrer.
As lágrimas escorriam pelo seu rosto, traçando um caminho sem volta até seu pescoço e não paravam de cair. Aquilo era uma terrível lembrança, uma mistura de tristeza e ódio, mas Lisa não queria odiá-la, ela queria o amor de sua mãe. Não fazia a menor ideia do que tinha feito para merecer aquilo, não sabia como entender tal atitude, mas sabia que era algo de muito ruim e que a culpa era toda e exclusivamente dela.
Sua vida mudou para sempre após esse fato. Foi o primeiro surto psicótico de sua mãe.
A pequena Lisa foi socorrida por um vizinho e passou dias em estado crítico. Depois foi submetida a várias cirurgias, para colocar seu maxilar no lugar, estancar uma hemorragia interna e colocar pinos no ombro e clavícula esquerda.
A mãe ficou isolada em um hospital psiquiátrico, totalmente sedada onde foi constatado que ela não tinha capacidade, pelo menos temporária, para exercer a maternidade e a guarda provisória da criança foi destinada ao Estado.
Ainda olhando para os estilhaços do espelho que estavam no chão, pensou em como seria fácil acabar com todo o sofrimento. Um pequeno pedaço do vidro com uma ponta protuberante, um corte profundo em cada pulso e em algumas horas não haveria mais desolação. Poderia fazer isso enquanto nadava em sua piscina, sim... era seu lugar preferido.
Alimentando a ideia seriamente pensou em como seu jardim estava florido e como seria agradável registrá-lo como a sua última visão do mundo. Começou a procurar o carrasco perfeito entre os cacos quando uma voz soou em suas costas.
– Dona Lisa, o que aconteceu? O Espelho... A Senhora se cortou, meu bom Jesus, olhe sua mão... Venha, levante-se. Deixe tudo isso que eu limpo. Vamos desinfetar o corte e fazer um curativo.
Era Maria, uma das criadas da casa ou talvez o anjo salvador disponível no momento. Talvez, alguém, sobrenatural e poderoso estava guardando sua miserável vida, por enquanto, reservando-lhe mais sofrimento. Deus? Não... Deus não...
Lisa era assim, ela ainda não conseguia negar que Deus tinha lhe virado as costas, que Deus não existia e que cada ser humano estava só e por conta própria, mas não era exatamente isso que acontecia com ela?
–---------
Nick e Anne optaram pelo trem já que o Hospital St.Elizabeths fica em Washington e o percurso leva em média de 3 a 4 horas. Pegaram o primeiro as 05h30min da manhã no Grand Central Terminal em Manhattan. Este terminal é o maior do mundo em número de plataformas,são 44 com 67 trilhos, é subterrâneo dividido em dois andares e na sua fachada há um lindo relógio com as estátuas dos deuses gregos: Hércules, Minerva e Mercúrio ao seu redor.
Chegando ao hospital, não foi difícil ter acesso ao histórico da paciente. O médico que a teve sob seus cuidados foi contatado por Lisa e ela havia lhe informado que estava escrevendo sua biografia e que ficaria agradecida se ele colaborasse com informações referentes ao tratamento e se poderiam citar seu nome, afinal tinha sido muito dedicado. O que era uma enorme mentira. Mas com certeza para o médico seria uma forma de propaganda e uma tremenda injeção em seu ego. Pena que a biografia não existia, mas é daí? Ele não tinha conhecimento disso.
O Dr. Collins já tinha cerca de sessenta anos, era calvo, barrigudo e cultivava a ideia de que não ganharia mais dinheiro do que já ganhava com sua profissão. Então, quando recebeu o telefonema da Grande Celebridade mostrou-se disposto a colaborar e aceitou de bom grado um cheque como forma de agradecimento. Há muito tempo tinha desistido de lutar a favor de seus pacientes e contra a loucura de uma forma geral.
– Então em que posso ajudar? — perguntou ele, fingindo simpatia e interesse.
– Primeiramente, gostaríamos de agradecer por disponibilizar parte do seu tempo conosco. Estamos pesquisando para a biografia de Lisa Hendrix e ficamos felizes de que tenha nos recebido Dr. Collins. Sabemos que é um médico ocupado. — Nick falou diplomaticamente demonstrando um apreço que não tinha.
– Como não faria? A mãe de Liza era uma paciente muito querida. Foi uma pena a doença ter evoluído de uma forma tão desumana.
– Pode nos falar um pouco sobre isso? Gostaria de fazer algumas anotações. Não quero esquecer alguma passagem importante — Anne apoiou o Tablet na mesa do médico, pronta para começar.
– O caso da mãe de Lisa era clássico. Ela chegou aqui com um histórico de psicose. Sua consciência do mundo real estava seriamente comprometida. As exigências com a vida e as obrigações diárias para ela não valiam de mais nada.
– Que horror... para ela e principalmente para Lisa, que era apenas uma criança.
– Devo dizer que você tem toda a razão sobre esse ponto, Srta. Anne. Lembro-me que Lisa vinha visitá-la e ficava horas sentada com ela. Nos melhores dias Rachell não dizia uma única palavra e nos piores eram gritos seguidos de convulsões. Com o passar dos anos ela perdeu completamente o vínculo com o mundo. E para poupar Lisa de seu sofrimento, eu achei melhor que as visitas fossem mais espaçadas e acompanhadas sempre por um enfermeiro, porque sua mãe nos dois últimos anos tentou agredi-lá várias vezes.
– Não posso imaginar tal cena, quanto sofrimento.
Os olhos de Anne se encheram de lágrimas. Nick percebendo a tristeza pousou sua mão no antebraço dela apertando-o levemente para demonstrar seu apoio.
– Separei o prontuário. Podem dar uma olhada se quiserem na sala ao lado.
– Obrigado, Dr. Collins, é muita gentileza. — Nick se levantou amparando Anne, sem soltar seu braço por um minuto sequer e dirigiu-se para o local que o médico lhe indicava.
– Quando terminarem deixe tudo aí. Só avisem na recepção que estão indo embora. Espero ter ajudado.
– Ajudou muito e obrigado mais uma vez.
O médico se afastou andando devagar voltando para seu consultório.
Os dois examinavam atentamente o extenso prontuário médico de Rachell Barclay, esse era o nome da mãe de Lisa. Afinal ela ficou naquele lugar por nove longos anos até sua morte em 2010. Aquilo era de impressionar. Tudo o que se podia imaginar sobre transtornos mentais encontrava-se descrito ali.
Nas folhas escritas e amareladas pelo tempo via-se: poesia, contos sombrios e estórias aterradoras sobre coisas sem nexo e irreais. Símbolos esquisitos e seres monstruosos estavam rabiscados de forma desvairada. Palavras sem sentido, desenhos inacabados, arabescos.
Não havia propriamente um relato, do que ocorrera todos os dias, ou pelo menos o médico não tinha entregado isso a eles. Seu maior terror estava ligado à concepção de uma criança amaldiçoada. Um nascimento daninho. Culpa, pecado, erro, desgraça. Só a morte pouparia um sofrimento maior, a morte era a solução. E o desaparecimento da indigna tinha que ser consumado antes da passagem.
Encontraram um caderno brochura que conforme o registro no prontuário era do final de 2008, quase dois anos antes de sua morte. Tudo tinha sido preenchido, as margens, as bordas, até a parte de cima antes da primeira linha. Capa e contracapa também não foram poupadas. Não havia um único espaço em branco... tudo, tudo com uma só frase repetida insanamente.
O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28. O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28.
– Meu Deus Nick. Está lendo a mesma coisa que eu? — a cor havia drenado do rosto de Anne.
– Infelizmente sim e estou com medo dos meus pensamentos no momento. Por Cristo, tenho que pensar sobre isso seriamente.
– Será possível esse guerreiro ser o homem dos pesadelos da Lisa?
– Não sei. Não tenho a menor ideia do que tudo isso possa significar.
– Acho que tenho uma vaga ideia...
– Então... comece a falar Anne, porque as minhas conclusões são inconvenientes.
–Inconvenientes, mas corretas. — disse ela com uma amargura profunda na voz. – A mãe da Lisa sabia o que estava acontecendo, não está totalmente explícito o que é, mas o homem...
– O homem misterioso é real e em 2008 a mãe dela já sabia.
– Tenho certeza de que sabia antes disso. Olhe esse desenho todo rabiscado... é um homem com uma faca ou punhal na mão e no rosto parece que tem um círculo desenhado e a data dos registros é de 2003. A Lisa sempre fala de uma tatuagem no rosto do homem misterioso. É muita coincidência, não acha?
– Quantos anos a Lisa tem? — as palavras saíram tremidas, a garganta de Nick estava seca. Ele parecia petrificado.
– 27. Ela tem 27 anos e faz 28 em 03 de dezembro.
– O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28 — leu Nick, devagar — O Guerreiro é ele, a maligna é Lisa e as trevas... a morte. Ele vai matá-la, ela vai morrer quando tiver 28 anos, é isso?
– Jesus, Nick... não sei... estou tão confusa quanto você — Anne estava visivelmente abalada.
– Mas que diabos vamos fazer agora? Ficar sentados esperando pelo aniversário? — sem perceber a voz de Nick subiu mais do que o necessário.
– Estou assustada... me dê alguns minutos para pensar.
Anne tremia, não conseguia controlar seu corpo. Se não estivesse sentada, provavelmente já teria caído ao chão. Precisava se acalmar e precisava pensar com clareza se quisesse chegar a algum lugar. Como se Nick adivinhasse seu pensamentos segurou sua mão fortemente apertando, o ato fez com que ela voltasse a si.
– Anne, me desculpe... Olhe, vamos repassar os primeiros anos, procurar por mais alguma coisa. — virou-se para as pastas amontoadas em cima da mesa, pegou algumas e entregou para ela — Vamos começar novamente, ok? Vamos fazer isso juntos.
A voz dele saiu baixa e centrada acalmando-a imediatamente, como se acendesse uma esperança de descobrir fatos novos. Ela abriu uma das pastas que ele havia lhe entregado e começou a devorar tudo que podia. Sacou seu celular, filmou e fotografou o que achava importante, revirou os papéis, fez anotações.
– Nick, pode ter outro significado...
– E qual seria?
– O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28...Se o guerreiro hesitará provavelmente ele não vai conseguir matá-la.
– Então Anne, qual o significado das trevas?
– Acho que essa parte é ainda pior, porque se a parte do Guerreiro estiver certa, então Lisa é a tal criança amaldiçoada que trará a escuridão quando completar 28 anos.
– Que maravilha! Qual das duas opções é a mais pavorosa? O que vamos dizer a ela?
– A verdade — respondeu a loira sem hesitar — Vamos contar o que descobrimos e não vamos esconder nada.
Os dois ficaram remexendo todos os documentos. Esmiuçando tudo que podiam por mais ou menos seis horas, quando caíram em si já era tarde e tiveram que correr para pegar o último trem de volta a Nova York, que partia da estação às 18h00min.
–----------
A tempestade de verão chegou forte assombrando a mansão. Thorment estava de volta. Lassiter o anjo caído tinha encontrado o guerreiro praticamente morto na floresta, já fazia quase um ano da morte de sua shellan Wellsie. grávida do primeiro filho pelos redutores. Thor estava desnutrido e muito magro, não conseguia suportar seu próprio peso em cima das pernas. Estava apenas sobrevivendo e não tinha a menor vontade de se esforçar. Não havia mais nada nele que lembrasse o antigo Thor. Forte, poderoso, equilibrado.
– Olá, trouxe sua comida — Lassiter escacarou a porta e marchou quarto a dentro, colocando a bandeja em cima da mesinha, ao lado da cama.
– Nunca bate antes de entrar no quarto dos outros?
– No seu caso nunca e vou permanecer aqui até ver com meus próprios olhos que vai comer tudo que eu trouxe, até a sobremesa.
– Então o anjo virou minha babá?
– Alguém tem que ser.
Lassiter era alto, uns 2 metros de altura, forte, rosto bem definido e tinha cabelos de duas cores, pretos na raiz e loiros nas pontas, eram bem longos, lembrava os roqueiros dos anos 80 e sempre usava calças camufladas, camisetas pretas e coturnos. Possuía um tom brincalhão, mas era extremamente mortal, capaz de arrasar uma cidade inteira apenas com um movimento. Nunca dormia.Os anjos não precisam dormir.
– Escute bem, Thor, porque não vou repetir. Não deixei você morrer na floresta e não deixarei você morrer agora que está de volta a Mansão. Se precisar de mais um tempo, terá. Mas não irei embora até ver que se recuperou. Agora coma e depois vá tomar um banho.
– Me dando ordens, anjo? — retrucou emputecido.
– Se você não se aguentar nas pernas, eu o banharei e o secarei. Depois vou vesti-lo e levá-lo até a sala de sinuca para que conviva com os seus. Eles sentiram sua falta e sofreram por você. Eles estão preocupados.
No fundo Thor sabia que aquele anjo estava coberto de razão, seu sumiço, além de enfraquecer a Irmandade tinha deixado seus Irmãos numa torturante espera. Por mais que houvesse uns treinamentos para novos recrutas a maioria dos machos ainda não tinham passado pela transição e alguns com certeza não sobreviveriam. Então o melhor a fazer naquele momento era obedecer a ás ordens de Lassiter.
–--------------
O telefone tocou na casa de Lisa e ansiosa como estava correu para atender.
– Alô?
– Oi Lisa, sou eu Anne. Desculpe a demora em ligar, mas nós nos atrasamos e quase perdemos o trem da volta.
– Tudo bem, já chegaram?
– Ainda estamos no trem. Provavelmente só as 22h00min.
– Ok... então vocês querem vir pra cá direto?
– Se não for pedir muito. Sim.
– Não. Claro que não. Na realidade é um alívio. Escute vou esperar vocês para jantar alguma coisa.
– Não precisa Lisa, comeremos no trem mesmo.
– Se não jantarem comigo, provavelmente não comerei nada. Então, vou esperar por vocês.
– Está bem . Até mais.
– Espere... Espere Anne... vocês, vocês encontraram alguma coisa? — como é possível uma pergunta ser tão difícil de pronunciar?
– Sim e Lisa, só vou falar sobre isso quando chegar à sua casa. Tenho certeza que você pode esperar mais um pouquinho, não é? — a resposta foi pronunciada em tom amigável e triste.
– Sim... acredito que sim.
Certo... ela teria que esperar por quase duas horas. Droga! Foi até a cozinha e avisou que o jantar seria servido mais tarde e que colocassem mesa para três. O tempo continuava perverso.
Aquelas duas horas... foram meses para passar. Então, finalmente ela viu o brilho dos faróis do Chrysler 300Cpreto adentrando na garagem. Não conseguiu se conter e correu ao encontro de seus amigos. Nick e Anne ainda estavam descendo do carro quando Lisa chegou no portão.
– O que houve com sua mão? — perguntou Nick.
– Nada de mais, o espelho soltou da parede e quebrou, fui recolher os cacos e me cortei. Deus... por favor o que descobriram? — ela ofegava. Falava rapidamente e sem coordenação.
– Vamos entrar Lisa, vamos conversar com calma.
Nick aproximou-se seguido de Anne que tinha acabado de fechar a porta, começaram a andar em direção a entrada da casa quando Lisa perguntou?
– Tinha algo sobre o meu pai? Quero dizer... quem ele era? Porque sobre minha mãe e o que ela pensava e pretendia fazer comigo eu sei tudo.
– Sabe de tudo? — a leal secretária virou-se e a encarou seriamente — Então porque me deixou ir até lá procurar por mais informações?
– Eu não pedi para ir Anne é só que você estava obstinada com isso.
– Eu estava obstinada? — um vermelho saltou no rosto de Anne. Raiva, frustração, nervosismo — Não pediu é verdade, porém, também não me impediu, não é?
– Ohhhh... calma. Anne... Lisa... por favor — Em um minuto Nick estava entre as duas mulheres — Estamos todos confusos e cansados. Essa discussão não vai nos levar a lugar algum. Só magoar a todos. Vamos entrar, por favor.
Elas se olharam, mas não disseram nenhuma palavra, andaram juntos até a casa e se dirigiram para a sala de estar. O primeiro a falar foi Nick.
– Lisa, o que sabe sobre a doença de sua mãe? E por favor, vamos conversar e achar um ponto em comum como bons amigos.
Ela baixou os olhos e começou a falar juntando as mãos. Relatou a primeira crise de sua mãe e sua estadia de quase dois meses no hospital em Chicago. Eles somente ouviram, cada um imaginando e somando as informações aos fatos que conheciam pelo prontuário.
– Lisa, acho melhor ver isso. Filmei o caderno para que você saiba como sua mãe estava insana e quais eram seus pensamentos.
Anne acionou seu celular e quando o filme começou a rodar a frase apareceu.
“Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28”
– Quem escreveu isso?
– Foi sua mãe, ela escreveu repetidamente no caderno todo. Não há um ligar no papel que...
– Quando ela escreveu?
– No hospital St. Eliza....
–Não é isso, em que ano ela escreveu? — Lisa estava gritando.
– Espera, eu anotei isso em algum lugar — Nick começou a procurar os dados nas anotações — Achei, foi no final de 2008. Quando as visitas foram interrompidas, para a sua maior segurança.
– Não é possível.
Lisa levantou-se e subiu as escadas correndo. Precisava chegar ao seu quarto, precisava encontrar a caixa.
Eles foram atrás dela perguntando onde estava indo e o que estava fazendo, mas ela simplesmente entrou no quarto e começou a remexer em seu closet. Havia um compartimento, na parte de trás, onde haviam coisas e roupas que eram apenas lembranças e faziam parte de um passado de sofrimento. Um tipo de arquivo de coisas amontoadas. Ela começou a remexer.
Lá estava ela. Era uma caixa bem antiga, em mogno, possuía uma fechadura e estava muito arranhada. Detalhes em prata de lei faziam os contornos em todos os lados. Tinha entalhado na tampa um dragão e ao seu lado um homem que parecia estar olhando ou conversando com a fera.
Abriu a tampa e dentro encontrava-se uma pequena boneca que lembrava uma fada com asas coloridas, vestido e cabelos compridos, além de um caderno de capa vermelha.
– Depois que minha mãe foi decretada incapaz, eu fui para uma instituição infantil do Estado, passei dois anos nesse orfanato e então um funcionário que trabalhava lá, disse que me adotaria. Mas não houve adoção, nem papéis. Na realidade até hoje não sei como ele fez isso. — ela acariciava a tampa da caixa como se estivesse em choque — Eu tinha oito anos na época.
– Lisa, aonde você quer chegar?
– Shhhh... somente escute Anne. Escute com atenção. O nome dele era Adamo Smith. Ele foi o que eu tive de mais próximo a “família”. Cuidou de mim como se cuida de uma filha e eu cheguei a ser feliz nesse período. Quando me tirou do orfanato, trocou de emprego rapidamente e nos mudamos para La Porte, Indiana. Uma vez a cada dois meses nós voltávamos à Chicago para visitar a minha mãe. Eu sempre esperava nos jardins, junto com outros visitantes que não queriam entrar. Adamo não gostava que eu a visse daquele jeito. Conforme eu ia crescendo e adquirindo responsabilidade para ficar em casa sozinha, ele parou de me levar nas visitas. O que pra mim foi realmente um alívio.
Lisa olhou os dois, ali em pé, no meio do seu quarto, ouvindo atentamente suas palavras. Não podia acreditar que ia despejar tudo pra fora.
– Que tal se todos nós nos sentarmos? Acho que vou demorar um pouco pra contar tudo?
Ela apontou para o sofá com as mãos. Nick e Anne sentaram-se lado a lado, enquanto Lisa sentou nos pés da sua cama.
– Você já me contou alguma coisa sobre essa parte da sua vida, lembro-me vagamente, mas ainda não entendo o que quer dizer com tudo isso — Anne estava ansiosa para saber mais.
– Quando Adamo abria a porta e chegava em casa, minha primeira pergunta era se a minha mãe estava curada. Como ele nunca trazia boas notícias, eu começava a chorar... então, numa tarde de inverno, no retorno de uma dessas visitas, ele me deu esta caixa. A boneca, estam que está aqui, ele dizia que era apenas um símbolo para que nós não nos esquecêssemos dela e o caderno era para escrever uma das mais importantes lendas de todos os tempos.
– Foi uma ótima ideia para amenizar sua dor — Nick disse.
– Com o passar do tempo, o foco mudou. Eu esperava para escrever a estória junto com Adamo e não para saber como ela estava. Tínhamos um pacto, um juramento, nunca comentar sobre a nossa estória com ninguém. Era o nosso segredo, aquilo era tão divertido. Divertido até que descobrimos o tumor cerebral em janeiro de 1998... tudo se deu tão rápido e em maio eu estava sozinha novamente.
– Sinto muito Lisa — Nick pronunciou seu pesar verdadeiramente — Não deve ter sido fácil depois de tudo que você passou, ter mais essa perda.
– Voltei a estaca zero Nick, de volta ao orfanato com 14 anos de idade. Nunca mais me adaptei ao lugar ou as pessoas que ali viviam. Se todas morressem não faria a menor diferença pra mim e foi isso que quase aconteceu — Lisa suspirou profundamente antes de continuar — No ano seguinte houve um incêndio e tudo foi queimado. Quando soaram o alarme a correria foi geral para alcançar a saída de emergência. Conforme eu corria, me lembrei dessa caixa e voltei para pegá-la, mas já era tarde.
– Como assim? A caixa ainda está com você — Anne disse sem entender.
– Os adolescentes foram transferidos para várias instituições, eu permaneci em Chicago por causa da minha mãe. Chegando ao novo orfanato fui arrumar minhas coisas no armário marcado para ser meu. Quando abri, a caixa estava lá e no caderno, uma nova parte da estória estava escrita. E é essa parte que eu vou ler para vocês agora:
A cada 300 ou 400 anos nasce no mundo uma mulher marcada pelas trevas. Talvez ela nunca descubra que veio do fogo e que ele é o seu elemento. Seu poder pode ser assustador e se manifesta de forma rápida. O fogo não é um elemento para os fracos, mas ela jamais será fraca. Ela não controla apenas o clamar do sexo e o poder de enfeitiçar multidões. Ela também tem poder sobre a chama da divindade que brilha em todo ser vivo.
Essa mulher pode ler sua alma porque a luz que habita nela é energia gerada pelo fogo. Comanda os leões, as serpentes e também os magníficos dragões. Seu nascimento é anunciado sob a forma de uma grande tragédia humana. Quando sua transformação estiver completa terá o profundo conhecimento dos quatro elementos.
Seus sonhos serão habitados por um Guerreiro. Mas o Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28.
Nenhum dos três disse nada quando a leitura acabou. Ficaram pensando como aquilo poderia ser real. Como a caixa foi parar naquele armário? Quem teria feito isso? Deveria ter uma explicação normal e objetiva para todas essas questões, mas nenhum deles queria ser o primeiro a falar sobre lógica.
– Então eu estava certo desde o princípio. Você tem que procurar um médium.
– Por Deus Nick... dá um tempo isso é sério — clamou a loira.
– Você tem alguma ideia melhor Anne? Porque sinceramente não sei o que dizer e nem o que pensar.
Lisa olhou seriamente para os dois, colocou a mão sobre seu coração e disse calmamente.
– O que eu sou? o que eu...
– Você é nossa amiga, uma celebridade, uma mulher que atingiu o sucesso por mérito próprio, uma pessoa boa que no momento está com um problema.
– Não, Anne. Há mais, há muito mais. Eu sou a mulher maligna que está citada nesses cadernos. Por isso minha mãe tentou me matar. Eu nasci em 03/12/1984. Dia em que aconteceu a tragédia de Bhopal, nesse dia vinte e sete mil pessoas morreram.
– Por favor, Lisa... — o desespero começou a tomar conta de Anne — Isso é tudo besteira. Não acredito em nada disso.
– Até uma semana atrás acreditava no homem misterioso dos meus sonhos, Anne. Agora não acredita em mais nada? Não me tome por boba. — Lisa desviou o olhar — Nick o que você acha?
Nick passou as mãos pelos cabelos e jogou a cabeça para trás antes de começar a falar tudo o que pensava. E seu pensamento ia detonar uma bomba.
– Será que não enxergam? O Guerreiro é a chave de tudo, ele é o foco. É por ele que temos que procurar. Não acredito que você é má ou maligna Lisa, isso que está descrito aí não é você, não combina com você... e tenho a certeza que Anne concorda comigo.
– Ele tem razão, Lisa e nós vamos encontrá-lo.
– Já terminaram as filmagens para o videoclipe? — perguntou Nick esperançoso.
– Amanhã, terminam amanhã.
– Ótimo, acabe logo com isso! Solte o vídeo na mídia o mais rápido que puder e com uma exibição maciça em todos os canais convenientes. Não poupe qualquer tipo de divulgação. Se esse homem existir e principalmente se carregar um segredo, você não precisará mais procurá-lo, Lisa. Ele virá até você.
– É isso Nick... você é um gênio.
Anne ficou aliviada por ter sido apresentada à uma pequena solução, sem pensar se atirou pra cima de Nick, tomando um abraço apertado.
– Amanhã mesmo vou cobrar uma data para o lançamento — disse Lisa — Eles são muito profissionais, portanto não deve demorar. Talvez no máximo uns quinze dias.
Uma branda esperança começou a ocupar o lugar da amargura e incerteza no peito de Lisa.
– Anne, escute... Bob está me atormentando a respeito de uma festa para o lançamento do videoclipe. Eu não queria nada disso, mas agora depois de tudo que conversamos, acredito ser uma boa idéia. Acerte todos os detalhes com ele. Faça propaganda de modo sutil, afinal esse tipo de evento é somente para convidados. Permita que a data e o local caiam na imprensa como se a informação tivesse vazado. Quero um furo de reportagem. Se vai gerar tumulto ou frenesi na porta do local escolhido, não me importa. Com certeza isso chegará aos ouvidos de muitos e também aos do Guerreiro que estamos procurando. Se ele souber a hora e o local onde vou estar, mais fácil ele chegará até mim.
– Isso é perfeito. Amanhã mesmo falarei com Bob e acertarei tudo.
– Isso é perigoso — amaldiçoou Nick — Isso é extremamente perigodo. Você vai se tornar uma isca, Lisa. Olhe, sei que não entendo muito de divulgação, ou sei lá o que é isso, mas tenho uma sugestão que pode atiçar ainda mais esse plano.
– Fala logo, Nick... — os olhos de Lisa tinham voltado a brilhar.
– Solte o clipe na mídia um dia antes da festa — ele estava quase murmurando.
– Porquê? — perguntou Anne.
– Essa é fácil de responder — Nick sorriu diabólicamente – Vamos nos colocar no lugar dele... Você chega em casa, liga a TV e de repente um homem com suas características, que não são nada comuns, está em um videoclipe da famosa cantora Lisa Hendrix.
Houve um silêncio, as mulheres estavam considerando as especulações de Nick.
– Acreditando nas anotações que temos... como acha que um G.u.e.r.r.e.i.r.o vai lidar com isso? Ele terá 24 horas para pensar no assunto e se impacientar por uma resposta. Será uma tortura, um tormento crescente e doentio — quando terminou de explicar, sorriu satisfeito.
– Eu já disse que você é um gênio? — brincou Anne.
– Disse e não tem nem dez minutos. Acho que devo acreditar.
Algumas fracas risadas foram ouvidas.
– Obrigado... Eu realmente tenho muita sorte por ter vocês como meus amigos. Já posso ver uma luz no fim do túnel e com sorte..
– Eu também vejo essa luz — cortou Nick, o discurso de Lisa — E junto com ela uma mesa de jantar enorme, com comidas deliciosas. Além do gênio aqui... alguém mais está com fome?
Mais risadas. Todos saíram do quarto e desceram as escadas, certos que havia esperança. Enfim... chegou a hora do jantar.
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Notas:
A tragédia de Bhopal, na Índia, foi um desastre industrial que ocorreu na madrugada de 03/12/1984, quando 40 toneladas de gases tóxicos vazaram da fábrica de pesticidas da empresa norte-americana Union Caribe. É o pior desastre industrial ocorrido até hoje. Mais de 500 mil pessoas, a sua maioria trabalhadores, foram expostas aos gases e pelo menos 27 mil morreram por conta disso. A Union Caribe, empresa de pesticidas de origem americana, se negou a fornecer informações detalhadas sobre a natureza dos contaminantes, e, como consequência, os médicos não tiveram condições de tratar adequadamente os indivíduos expostos. Cerca de 150 mil pessoas ainda sofrem com os efeitos do acidente e aproximadamente 50 mil pessoas estão incapacitadas para o trabalho, devido a problemas de saúde.
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