Traga-me Para A Vida
30 Capítulo 29
Notas iniciais
Muitas emoções compõem esse capítulo. A cortina subiu e a peça deve continuar. Assim é a vida, sempre nos impulsionando para frente para o novo.
E como é enfrentar o novo? Ninguém sabe se não vivenciar. O novo é desafiador, doloroso, amargo e excitante... o novo é o que nos faz continuar!!!!
Assim é essa história para mim.
Eu dedico esse capítulo em especial para Daiane. Lá embaixo depois explicarei o por que.
Um grande beijo a todas e boa leitura!!!!
Bjs.
Fênix
Nada, nem sinal. Évora não apareceu na reunião marcada com a Irmandade no ZeroSum.
Wrath. Z. e Butch estavam conversando com Rehv em seu escritório.
– É... parece que a feiticeira não vem mais – disse Butch estalando o pescoço, enquanto balançava a cabeça de um lado para o outro – Faltou coragem?
– Não acho que se trata de coragem. Tem algo mais, a grade emocional dela é muito escura, arriscaria dizer que chega a ser sombria.
– E como um bom devorador de pecados você entrou na cabeça dela, não foi cunhado?
– O nome correto é symphato e não, não consegui ver nada... apenas senti, Zsadist.
– Então, o que faremos?
Todos olharam na direção de Wrath, esperando por uma resposta, uma ordem. Ele se remexeu no sofá e arrumou os óculos. Seu semblante carregado e sua testa franzida denunciavam que o Rei encontrava-se pensativo e preocupado.
– Tem alguma coisa errada. Para falar a verdade acho que Lassiter está coberto de razão.
– O que quer dizer Wrath? Perguntou Rehv.
– É uma cilada. – o Rei pegou o celular e ligou para Hollywood – Vamos ver como estão às coisas do lado de fora.
– Pode falar Wrath.
– A mulher não apareceu. O que temos por aí?
– Tudo tranquilo. Eu e Phury estamos alerta, Lassiter também não viu nada estranho, pelo menos por enquanto.
– Ok. – Wrath desligou – Estou com um mau pressentimento.
– Quer que eu peça para os Sombras darem uma volta e...
– Não. Tudo bem Rehvenge, aguardaremos mais um pouco em seu escritório, se assim você permitir.
– O que é isso Wrath? Eu já lhe disse: minha casa é sua casa. Tudo o que precisar.
– Obrigado.
– Vou ligar para V. – o tira pegou o telefone – Avisar o que está acontecendo.
– Já deve estar na mansão – disse o Rei – Diga a ele que pode vir se juntar a nós, ele não deve estar muito feliz por não estar aqui.
O celular de V. tocou, tocou...
– Não atende.
Butch sequer terminou a frase quando o celular de Wrath tocou.
Paul cruzou uma porteira onde numa placa entalhada lia-se Rancho Montanna. Na verdade ele não dirigiu muito depois de ter deixado o vampiro estirado no chão, não levou mais do que dez minutos para chegar ao seu destino.
Lisa permanecia imóvel sentada ao seu lado. Tinha centenas de interrogações em sua cabeça e não encontrava resposta para nenhuma delas.
Quando ela viu e escutou o tiro que acertou Vishous nas costas, seu primeiro e lógico impulso foi deter Paul liberando sua ira em cima dele em forma de um poderoso rodamoinho, porém nada aconteceu. Concentrou-se novamente tentando atingi-lo dessa vez fazendo com que a porta da BMW abrisse e o acertasse fazendo-o perder o equilíbrio e dando chance para que V. pudesse reverter à situação, mas mais uma vez seus poderes falharam.
Agora lá estava ela, sentada no carro ao lado de um redutor, um monstro, inimigo de seu macho amado, que fora abandonado a própria sorte, ferido gravemente. Tinha consciência que havia evitado a morte eminente de Vishous, contudo não conseguia sequer compreender o que se passava com ela. Talvez fosse o desespero do momento, a surpresa horrível de um destino cruel...
Não... suas idéias soavam contraditórias. Foi no ápice de seu desespero e de sua renúncia que destruiu todo o quarto em que dormia quando ainda vivia como uma prisioneira na Mansão. O que estava acontecendo? Onde estavam seus poderes?
Só podia ser a preocupação pela vida de V., só isso fazia sentido. Quando estivesse mais calma e recuperada, então tudo voltaria ao normal e ela poderia se libertar e voltar para Vishous.
Oh meu Deus... Vishous! A agonia e o medo a envolveram de modo insuportável. E se ele não conseguisse pedir ajuda? E se os Irmãos não o encontrassem? E se ele não resistisse aos ferimentos? E se o sol...
Tomada por um desatino mental, Lisa abriu a porta do carro e pulou para fora, rolando sobre a grama. Enquanto escutava o frear do carro, ela levantou rápido apesar de estar atordoada e começou a correr desesperadamente sem olhar para trás.
Correndo ela tirou o celular do bolso e apertou apenas uma tecla. Enquanto os segundos pareciam se arrastar para completar a chamada ela focava apenas os muros de entrada da propriedade com a placa de madeira que balançava no meio deles, aproximava-se rapidamente.
Atenda... atenda! Jesus... por favor...
– O que aconteceu?
– Wrath... Vishous está ferido, Rota 22... eu...
– Sua vagabunda – gritou Paul, enquanto a derrubava no chão – Vai aprender a me respeitar.
– Lisa?
O chamado de Wrath ficou sem resposta. Paul fechou a mão direita transformando-a num punho maciço e socou o rosto de Lisa com tamanha força que ela desmaiou imediatamente.
– Lisa?
Tomado por uma raiva descomunal, Paul pegou o telefone e continuou com gritos descontrolados sem suspeitar que era o Rei do outro lado.
– Seu amigo já deve estar morto e...
Ele sequer conseguiu terminar a frase. Wrath o interrompeu falando claro e com uma calma terrível e assustadora.
– Morto ou não, o que interessa a você nesse maldito minuto é que eu pessoalmente irei caçá-lo e matá-lo. Você não tem como se esconder de mim, vou até o inferno se for preciso para triturar seus ossos.
– Pensa que tenho medo? Quem deve ter medo aqui é você desgraçado! Já matei muitos vampiros, inclusive mandei um bilhetinho para o seu Rei.
Enquanto Paul gargalhava insanamente pensando que tinha ganhado a guerra de palavras, Wrath terminou a conversa dizendo uma frase que fez congelar o sangue negro que corria pelo corpo do redutor.
– Escute bem. Sou o seu pior pesadelo, não existe nada ou alguém mais mortal do que eu, nem mesmo Ômega. Por isso... tenha medo!
Wrath apertou o celular com tanta força que no final da conversa o aparelho partiu-se ao meio apagando totalmente. No escritório de Rehvenge a temperatura havia despencado cerca de vinte graus e as luzes tremeluziam como se tivessem adquirido vida própria.
– V. está ferido em algum lugar da Rota 22. – Disse isso se levantando do sofá e olhando para todos na sala, sua expressão era mortal – Lisa foi capturada por redutores.
Enquanto a granada detonava psicologicamente nos cérebros de cada um dos presentes, Wrath foi objetivo.
– Quero todos, agora... procurando por Vishous. Z. vá ao encontro de Raghe e Phury explique a situação e espalhem-se por toda a extensão da Rota 22.Butch pegue o carro, é provável que V. precise ser transportado até Havers.
– Posso ajudar. Se precisar dos meus homens, eu e...
– Obrigado Rehvenge, assumimos daqui.
Não demorou mais do quê um minuto para toda a Irmandade começar a vasculhar a Rota 22, quem achou V. foi Zsadist. O local parecia uma zona de guerra com aquele carro totalmente incinerado, com as quatro rodas pra cima... bem, o que sobrou dele. Porém havia um problema. O Irmão estava cercado.
Escondidos no meio da floresta, Z. pôde contar facilmente a presença de dez redutores. Era claro que haviam transformado Vishous em uma isca, mas o que mais lhe impressionava era a mancha de sangue no asfalto próximo ao corpo de V.
Merda... devia estar muito mal, não havia qualquer movimento, apenas uma leve e fraca respiração. Mandou uma mensagem para todos avisando onde estava e qual era a situação. O momento exigia estratégia, mas V. não tinha o privilégio do tempo e...
Tiros soaram a direita e foi fácil entender o que estava acontecendo. Que se dane a tática militar, a estratégia e toda essa baboseira.
No contra fluxo da lógica e da mais pura razão Wrath atacou e tudo a partir dali se transformou em corpo a corpo. Venceria o mais forte.
Zsadist posicionou-se ao lado do corpo de Vishous com as Glocks em punho, uma em cada mão e esperou uma saraivada de balas, a primeira passou de raspão do lado de seu rosto, a segunda acertou o antebraço esquerdo. Porém ele era rápido e conseguiu atingir os dois redutores que se aproximavam rápido em sua direção. A sua prioridade era proteger V.
Do outro lado da estrada resplandeceu um clarão seguido de outro, era Phury mandando de volta a Ômega dois de seus “filhinhos”. Mas apesar de todos os esforços a quantidade de redutores que surgiam do nada era assustadora. Chegavam em grupos de três ou quatro e com munição suficiente para arrasar e destruir tudo em seu caminho.
Enquanto a estrada se transformava num campo de batalha, Raghe rolava de costas pelo chão e em seu abraço apertado batia ferozmente cabeça contra cabeça os crânios de dois redutores com uma facilidade esmagadora. Quando o sangue jorrou pelos ouvidos, Hollywood apunhalou a adaga no peito de ambos. Levantou-se rapidamente e correu ao encontro de Wrath que estava cercado por um bando de sete morto-vivos.
O som do motor do Escalade ecoou por cima da cabeça de Z. e já não era sem tempo. Butch posicionou o carro de modo que esse protegeu o flanco esquerdo de V. e Zsadist.
– Entre. Gritou o tira.
Agarrando Vishous pelos ombros e o levantando do chão rapidamente, Z. acomodou-o no banco traseiro. Deitando-o e percebendo a gravidade do ferimento.
– Vá, Butch. Ele não está nada bem. Leve-o.
– Mas você também está ferido... Entre.
– Não! – Z. tinha uma frieza sóbria e um olhar que remetia a uma despedida, com um sorriso sincero ele completou – A Irmandade precisa de mim, assim como você precisa sair daqui agora. Vai, pisa fundo!
Enquanto acelerava na direção contrária da guerra, Butch perguntava a si próprio se veria todos os seus Irmãos vivos novamente e pensava o quanto Zsadist era um macho de valor. Sabia que naquela hora devia estar pensando se retornaria no final da noite para Bella e Nalla, mas nem seu enorme amor por essas duas fêmeas o fez recuar de seu destino, de sua lealdade.
– Não ouse morrer. Ouviu V.? Não ouse fazer isso comigo. Aguente... por Cristo, aguente cara!
Buscando ser ouvido em sua prece, levantou a voz e rezou com fé e esperança pela vida de seu amigo que agonizava no banco traseiro e também por todos que ele deixou para trás.
“Pai Nosso, que estais no Céu...”
Correndo em direção a floresta, em direção a Wrath, Z. notou como o círculo estava se fechando. A coisa realmente fugiu do controle, tomando proporções inesperadas. Vinte ou trinta, talvez mais... esse era o número provável de redutores. Atirando em todas as direções e atingindo todos os inimigos que se mexiam ele continuou até encontrar Phury no meio do caminho. Foi um alívio ver seu irmão gêmeo bem.
– Qual o plano? Perguntou Phury.
– Manter Wrath vivo e matar quantos desgraçados pudermos.
– Maravilha... vamos nessa.
Aproximando-se do Rei e de Raghe tiveram uma surpresa. A besta emergiu, libertando toda a sua fúria em cima dos inimigos. A carnificina estava apenas começando.
Como baratas tontas os redutores começaram a se dispersar, aterrorizados com o que a mandíbula do Dragão podia fazer e assim abrindo uma brecha no cerco. Era a oportunidade de agir e tentar... Mas, então, os tiros começaram a ter um único endereço. A besta.
É certo que o corpo coberto de poderosas escamas proporcionava uma armadura e tanto, mas quanto podia suportar? Essa pergunta só seria respondida com o rumo da batalha.
– Protejam Raghe. Gritou Wrath, enquanto direcionava seus disparos para os redutores que chegavam do lado leste.
Uma voz pairou atrás da besta. Era Lassiter.
– Dragon – O anjo encarou o animal nos olhos – Seu corpo pode suportar calor?
Com quase três metros de altura e no meio de uma rajada de tiros, o Dragão de escamas esverdeadas, balançou a juba afirmativamente e entendeu o que tinha a fazer. Esticando suas poderosas garras ele trouxe para próximo de si o Rei e depois virou em direção a Zsadist e Phury fazendo a mesmo gesto.
Os Irmãos ficaram quietos, pois nunca tinham ficado tão próximos da besta ao ponto de seus corpos se tocarem.
Quando todos estavam praticamente embaixo dele, Dragon se curvou até tocar a cabeça no chão e envolveu todos os Guerreiros com seu corpo, rodeando com o rabo. Praticamente um invólucro se formou.
Uma rajada de calor sacudiu as árvores. O chão tremeu, a claridade expelida foi tão descomunal que se tinha a impressão de ser um dia escaldante no meio do deserto. O sol parecia ter raiado no anoitecer. O ar ficou pesado e cinzas caíram do céu.
O Dragão soltou um urro alucinante de dor, seu corpo oscilou, suas garras cravaram no solo. Mas como era de se esperar não se mexeu, mesmo quando suas poderosas escamas passaram de verde para marrom escuro. Ele cumpriu sua obrigação.
Minutos depois, Lassiter sussurrou no seu ouvido.
– Acabou. Está tudo bem e todos estão salvos graças a você. Agora deixe-me ajudá-lo.
Dragon continuou encolhido.
– Parece que eu queimei você, não é amigo? – Na voz do anjo a culpa soava comovente – Eu sinto muito, não pensei que fosse liberar tamanha energia.
As ventas do animal sopraram fortemente, parecia querer mostrar que a queimadura era só externa e que o sofrimento não era assim tão terrível. O que com certeza era uma grande mentira.
– Vou ajudar você a erguer esta pata, apenas o necessário para que o Rei e seus Irmãos saiam de baixo do seu corpo.
Com delicadeza e força, Lassiter puxou as garras enterradas na terra e levantou o suficiente para abrir uma pequena passagem. Sustentou o peso sozinho até que Phury, o último a sair, conseguiu se arrastar.
– Obrigado, salvou nossas vidas, mais uma vez.
O reconhecimento de Wrath agiu como um bálsamo no Dragão. Ele fixou seu olhar no Rei, um feixe de luz brilhou e Raghe apareceu nu no segundo seguinte...
Tinha as costas completamente queimadas. A vermelhidão e as bolhas ocupavam e se espalhavam por toda a extensão da tatuagem e mais. Ragheconvulsionava de dor gemendo baixo com seus olhos estavam vidrados em Wrath.
– Estão todos bem? Perguntou quase sem voz.
– Sim – Respondeu Wrath agachando-se e acomodando a cabeça de Raghe em seu colo – Tenha calma, meu Irmão.
– Precisamos de um carro para transportá-lo. Disse Phury.
– Vou chamar Fritz – Z. abriu o celular – Pedirei que venha com a caminhonete, assim Hollywood terá mais espaço.
– Faça isso. – ordenou o Rei – E cuide do seu braço também. Vou para a clínica de Havers, ver como V. está.
– Vou com você...
– Nada disso Phury. Será mais útil na Mansão, Z. também está ferido.
– Eu irei.
Todos olharam na direção do anjo e só então notaram a devastação ao redor. Tudo fora consumido. As arvores, a vegetação, os redutores... tudo, tudo desapareceu. Só cinzas ocupavam a paisagem.
– Devemos um obrigado a você, Lassiter.
– Não me devem nada Wrath. – Olhou para Raghe desesperado – Veja como ele ficou, eu deveria saber que...
– Raghe irá se recuperar em breve – o Rei se aproximou do anjo e colocou as mãos em cima de seus ombros – Nem eu e nem meus Irmãos estaríamos vivos se não fosse por você, portanto é digno de toda a nossa gratidão. O que fez não foi apenas por nós, mas também por toda a nossa raça. Obrigado.
Dizendo isso puxou Lassiter e o abraçou fortemente. Os tapas que ambos deram nas costas um do outro ecoaram alto. Um gesto de agradecimento que selava uma amizade duradoura.
Cambaleante, com dor e esgotada fisicamente, era assim que Évora caminhava ao longo do caminho que levava ao Rancho de Paul. QuandoLassiter interferiu no desenrolar da luta praticamente liquidada pelos redutores e “soltou” sua ira, ela tratou de se afastar o mais rápido possível, abrigando-se em um buraco.
Sua sorte ao descobrir a cavidade no solo salvou sua vida, mas não evitou as queimaduras. O fogo gerado pelo anjo atingiu seus longos cabelos loiros queimando-os totalmente e espalhando-se pelo pescoço e parte de seu rosto. Nem mesmo o manto preto que vestia para se ocultar nas sombras foi capaz de apagar as labaredas, pelo contrário ajudou a atiçá-las ainda mais conforme era consumido.
Agora seu único pensamento era conseguir chegar à casa de Paul e permanecer escondida até se recuperar. Nunca sequer pensou que depararia novamente com aquele maldito anjo. O que estaria ele fazendo junto aos vampiros?
Ela era forte, mas dependente de seus feitiços e poções. Tinha alguns poderes, mas nada comparado ao que Lisa conquistaria e muito menos ao anjo.
Droga... agir rapidamente era o que precisava fazer. Talvez o melhor remédio para a péssima situação que se encontrava era trocar imediatamente de corpo com Julia. Sim, era isso. Ficaria sem seus poderes por aproximadamente doze anos, mas... não, claro que não!
Havia outra possibilidade.
Lisa!
Trocaria de corpo com Lisa, mas é lógico. Toleraria a onipotência ridícula e tosca de Paul enquanto a mulher não completava 28 anos e faltava tão pouco... cerca de quatro meses. Depois exerceria sua supremacia em cima da ingenuidade da humana e lhe roubaria a vida juntamente com tudo que ela herdaria por direito.
O plano perfeito. Nem Paul notaria a mudança. Com certeza Lisa já tinha alguns “belos” poderes e conseguiria fugir facilmente de seu cativeiro e então quando isso ocorresse à ocasião certa apareceria e ela se transformaria em Lisa Hendrix. Depois era só tirar Paul da jogada, matando-o e procurar Ômega. Fechando o ciclo com um filho.
Finalmente chegou ao Rancho.
Enxergava tudo com nitidez. Qualquer outra criatura jamais veria a casa e tudo que se encontrava dentro do círculo ilusório que tinha criado. Tudo não passava de uma ilusão de ótica.
Não precisou bater na porta. Paul veio ao seu encontro.
– O que aconteceu? Perguntou nervoso.
– Perdemos. Isso foi o que aconteceu.
– Como isso é possível? Mandei para lá mais de quarenta homens e...
– Você poderia ter mandado cem e mesmo assim não teria mudado nada – Évora apresentava um tom de voz ácido e seco – Porque não me disse que um anjo vivia com os vampiros?
– Um anjo? – Paul ficou surpreso. Então anjos também existiam? – Não sei nada sobre isso.
– Como é que você quer que seus planos dêem certo, se não sabe o que se passa ao seu redor?
Ela forçou a passagem e entrou na casa. Escutou a voz de Paul ao longe, pensando como se sentiria melhor se o matasse naquele instante.
– Veja como fala comigo Évora.
– Falo com você, como eu quiser – Ela riu desafiando-o – Aposto que também não sabe que sua linda prisioneira já possuiu alguns poderes e que é só uma questão de tempo para que ela se liberte e fuja de você.
– Se ela pudesse fazer isso, já teria feito. Você está blefando.
– Não. Não estou e quero vê-la.
– Com essa cara? – Seu desdém era sarcástico e impiedoso – Toda queimada e sem cabelo? Não... não é uma boa idéia.
– Não brinque comigo Paul. O que eu fiz aqui... posso desfazer.
Nenhum dos dois estava brincando. Ambos eram mortais, bárbaros e cruéis. Matar era o verbo mais conjugado em suas vidas e nunca com remorso ou arrependimento.
– A melhor coisa que temos a fazer agora é nos unir – Évora olhou para ele duramente – Precisamos um do outro, mesmo que não gostemos disso.
O redutor pensou por um breve momento.
– Por enquanto. Até que seja conveniente, depois cada um seguirá seu caminho.
– Que assim seja.
– Agora, me diga... algum vampiro morreu?
– Só o que você acertou. Os demais...
– Minha Lisa precisa saber disso. Precisa saber que seu sacrifício foi em vão. – Ele gargalhou alto – Eu venci... venci. Matei aquele maldito.
– Uau, que alegria!
– Pensando bem e por você ser a portadora de notícias maravilhosas, eu a deixarei falar com Lisa. Venha.
A casa era estilo moderno. Os pais de Paul tinham um gosto arrojado e clean, então à construção era toda branca com grandes janelas. A decoração e a mobília acompanhavam o mesmo padrão. Se a situação fosse outra... aquelas instalações serviriam para fazer uma família feliz em seus dias de férias.
Chegaram à dispensa e no piso, debaixo de um tapete havia um alçapão, uma porta incrustada. Puxando-a para cima Paul revelou uma profunda escadaria. Daquele ponto em diante, a atmosfera da casa mudava. Tornou-se sombria e escura.
Caminharam sem dizer uma única palavra, mas atentos às ações que cada um fazia até que alcançaram o enorme porão.
Évora olhou tudo minuciosamente. Ora, ora, ora... não é que Paul era um filho da puta de um sádico dominador?
Uma poltrona de veludo vermelho posicionava-se estrategicamente em frente à mesa de tortura em formato triangular e ela logo entendeu que Paul deveria se sentar ali para assistir a agonia final das suas vítimas. Na parede ao fundo os objetos: chicotes, máscaras de vários formatos e utilidades, correntes e algemas, separadores de braços, mordaças, palmatórias, cordas, coleiras e asfixiadores.
– Então Paul... parece que você não gosta de feiticeiras, não é?
Ele não respondeu, só a olhou com um olhar raivoso.
– Essa cama de madeira onde sua querida amada está amarrada foi muito usada na Inquisição, a Santa Igreja matou muitas de nós.
Évora andou com passos suaves até parar ao lado de Lisa. Estava completamente indefesa, com os antebraços, as coxas e as panturrilhas presas por faixas de couro. Em volta do pescoço tinha um colar, ou melhor, uma coleira de cachorro onde se lia o nome Paul.
Um hematoma horrível cercava todo o seu olho esquerdo que estava completamente fechado. A expressão da cantora era de puro terror.
– Isso é porque você a ama – Évora apontou para o rosto de Lisa – Fico imaginando o que faria se a odiasse. É assim que vai conquistá-la? Nossa... estejacerto de que será um longo caminho.
Desdenhando e desmerecendo sua conduta Évora atingia Paul diretamente em seu ego. Se tinha uma coisa que aprendeu a identificar durante os séculos, eram as emoções dos humanos. Distinguia até a mais sublime mudança.
– Sabe quem morreu, Lisa?
Não ousou perguntar, não queria escutar...
– Não está curiosa?
Paul foi para o outro lado da mesa e se debruçou sobre ela, apoiando um braço de cada lado da engenhoca e chegou seu rosto tão perto de Lisa que seus narizes se tocaram.
– Não vai perguntar? – Ele colocou a língua para fora e lambeu-lhe o rosto. Da ponta do queixo até a testa – Deliciosa, como imaginei.
A única coisa que Lisa podia fazer era fechar os olhos. Como se tal atitude pudesse evitar ouvir a tenebrosa frase.
– Seu vampiro está morto! Não adiantou nada o seu sacrifício, pelo contrário... só facilitou as coisas para mim.
Ela quis gritar, o ódio florescia dentro dela. Respirava com dificuldade, seu peito não conseguia captar o ar. Estava sendo esmagada sem que ninguém a tocasse. De repente os objetos que estavam pendurados nas paredes começaram a balançar, cada vez mais rápido. Alguns caíram ao chão outros voaram pelo porão... mas foi só o que aconteceu.
– Está mentindo. – Murmurou, não contendo as lágrimas.
Quando Paul viu que chorava por seu oponente, perdeu o controle. Bateu no rosto de Lisa. O tapa saiu forte e ele fez questão de atingir o mesmo lado do hematoma. Quando levantou a mão novamente para socá-la, Évora interferiu segurando a mão dele ainda acima da cabeça.
– Se continuar assim ela ficará cega.
Ao fazer o movimento para parar o que ia se transformar em espancamento, Évora desequilibrou-se e teve que se segurar no braço de Lisa para não cair. Foi nesse mísero momento que tudo mudou...
O tempo parou. Ficou atordoada, perdida. Não era possível. De tudo que poderia acontecer no mundo aquele fato era a pior desgraça, o pior empecilho sobre todos os seus planos e os de Paul também.
Precisava pensar, precisava de tempo.
Arrume tempo, arrume tempo... arrume tempo! Agora!!!
– Paul, vá buscar uma toalha e uma bolsa de gelo.
– Para quê? – Ele a olhou descrente – Quando foi que ficou boazinha?
– Cale a boca. – A bruxa dramatizou mais do que era preciso, mas o redutor as vezes era tão ingênuo que engoliu a mentira – Ela pode perder a visão...isso está horrível, não está vendo?
Pateticamente e confuso, mesmo assim Paul foi buscar o que ela pediu. Ouvindo a trava do alçapão Évora olhou para Lisa com uma expressão quase de desolação.
– Seus poderes enfraqueceram. – Não foi uma pergunta e tudo era falado em tom baixo – Eles estão diminuindo.
– Você é a feiticeira que estava me procurando?
– Sim, sou Évora. Porém isso agora deixou de ser o item principal da lista. Seus poderes...
– Como sabe?
– Porque toquei em você... e senti.
Lisa olhou para o lado e viu a mão de Évora sobre seu braço.
– Logo seu corpo estará fechado à magia e seus poderes a cada dia ficarão mais fracos até sumirem totalmente. Acredite em mim, sei do que estou falando, já vi isso acontecer antes.
– Você está tirando eles de mim, não é?
– Não Lisa – Évora sorriu tristemente e passou a mão sobre seu rosto queimado – Bem que eu queria tirá-los de você, agora mesmo. Mas não é mais possível.
– Porque não faz isso? Não me ajudaram em nada... perdi o que eu mais amava. Porque não faz? Porque?
– Porque você está grávida!
Lisa arregalou os olhos, mas somente um respondeu ao seu assombro.
– Que alguém tenha piedade de você, quando o psicopata descobrir.
Agora as lágrimas começaram a cair. Caíam em abundância, não podiam mais ser contidas.
– Não... – Lisa balançava a cabeça insanamente de um lado para outro em negativa – Não... Oh meu Deus, o que eu fiz? Eu... eu tentei... ele morreu... sozinho...
– O destino é mesmo uma merda! Olha só pra mim? Você toda disponível, a oportunidade perfeita. Porém estou de mãos atadas... grávida, você está grávida.
O desespero tomou conta de Lisa e ela implorou.
– Não conte! Não conte para Paul... não conte, não conte!
Notas finais
Devo confessar que não acreditei que V. e Lisa pudessem chegar a esse ponto, mas depois de tantos altos e baixos... e o amadurecimento real da idéia resolvi que esse era o momento certo.
Lisa atravessa seu pior pesadelo e Vishous com certeza também... eles precisavam de um elo que os deixem ligados apesar da distância e da certeza da morte.
A parte (o elo) de Lisa já foi revelado. Qual será o de V.?
Agora comentem...
Digam tudo...
Espero ansiosa!
Bjs.
Fênix
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