Notas iniciais
Olá minhas queridas!
Enfim mais um capítulo. Mas eu posso explicar a demora!
Eu ia postar no sábado (18/08), mas na última hora resolvi reescrever. Resolvi que era o momento da divisão de águas. Foi por esse motivo que me atrasei.
Peço desculpas antecipadas... mas meu coração não me permitiu postar o que escrevi da primeira vez e hoje relendo (o que vocês lerão agora), me sinto segura, porque tenho certeza de que a minha opção foi a correta para o bem da história.
Mas... sei que vocês estão ansiosas e não me demorarei mais.
Um beijo a todas e sejam bem-vindas as novas leitoras.
Boa Leitura!

Três dias depois...



Eram aproximadamente quatro horas da tarde. Raghe tentava dormir inutilmente, já que depois da partida de Mary ele apenas rolava de um lado para o outro na cama e tinha pesadelos horríveis com a segurança e o bem-estar dela.


Não havia um momento do dia que ele não pensava em Mary, até quando lutava ela permanecia presente.


Gaya se revelou uma boa fêmea. Uma surpresa na realidade, mais ouvinte do que falante. Por essa característica Raghe conversou com ela, contou o drama que estava vivendo e o motivo por tê-la chamado.


Com a TV ligada assistia de tudo um pouco, no entanto se alguém lhe perguntasse o que estava vendo ele não saberia responder.


Bateram na porta do quarto. Batidas leves e delicadas. Ele se levantou, vestiu uma calça de moletom e abriu.


– Meu amo. – Ela fez uma reverência.


– Gaya. Eu já lhe disse que não precisa fazer isso e meu nome é Raghe. Olhe não está mais no Santuário e eu não curto essas reverências. Estamos entendidos?


– Sim... Raghe.


Ela deu um sorrisinho e ficou sem graça ao pronunciar o nome. Quando ela pousou seu olhar em cima dele, seus olhos brilhavam com tamanha intensidade que pela primeira vez ele percebeu que tinham algo em comum: A luz vibrante e magnífica do olhar!


– Gaya...


– Eu não sangrei meu am... Raghe – Ela se abriu um sorriso tão maravilhoso que era possível ver suas presas nitidamente – Seu filho está a caminho. Fui abençoada. Você foi abençoado!


Raghe caiu aos seus pés. Não se importando que estivesse no meio do corredor das estátuas.


– Obrigado.


– Eu é que devo agradecer por me deixar dar-lhe esta graça. Agora se levante você não... como é mesmo?... curte... você não curte reverências e eu também posso viver sem elas.


Com um ato inesperado ela o puxou para cima, erguendo-o. Gaya exalava orgulho e satisfação. Uma felicidade visível e por pouco palpável. Segura e plena tinha a sensação do dever cumprido.


– Raghe... chegou à hora de buscar sua shellan. Vá!



Em uma requintada suíte do The New York Palace um luxuoso hotel de Manhattan próximo a Catedral Saint Patrick`s, Évora fazia uma narrativa assustadora e tentava explicar a Julia sobre um “maravilhoso mundo novo”. Sem bem que do jeito que caminhava a situação a garota temia vomitar a qualquer momento.


– Sei que tudo isso é muito confuso, mas você pertence a esse mundo e terá que se adaptar rapidamente se quiser viver.


– Anjos e demônio, vampiros e redutores, feiticeiras... o que mais existe? Sou muito nova pra tudo isso.


– Basicamente os demônios são a nossa raça. Um dia dominaremos a Terra. Os vampiros nunca foram nossos inimigos é só você não mexer com o humor deles. Pode acreditar eles pouco se importam que os humanos se destruam, acho que até torcem para que isso aconteça... assim como eu. A maior preocupação dos vampiros são os redutores e o “papai” deles – Ômega!


– Ômega?


– Sim. Ele não sabe que estou viva e que você existe. Ele consegue apenas sentir Lisa.


– E qual o porquê disso?


– Você carrega consigo esse colar e nele um pentagrama e eu – Évora tirou a blusa e virou-se de costas para Julia – tenho esta marca.


O enorme pentagrama ocupava toda a área das costas de Évora, só que não em forma de tatuagem, mais parecia uma queimadura cicatrizada.


– Isso é uma queimadura?


–Sim. Antigamente era assim... e você vai fazer uma tatuagem ainda hoje desse símbolo. Não é seguro tê-lo apenas como um amuleto pendurado em um cordão envolto do pescoço, se você o perder estará exposta. O perigo ronda todas as feiticeiras e Lisa não possui um pentagrama para protegê-la... eu sei o que ele quer.


– E o que é?


– O mesmo que ele quis de mim um dia... um filho.


– Como?


– Somos descendentes ou no caso de Lisa, filha direta de um demônio poderoso: Eligor – Comandante supremo do nosso Exército. Pode imaginar qual seria a força de um ser gerado com características tão destrutivas? Ômega é a personificação da maldade na raça dos vampiros e os demônios na nossa.


– Jesus Cristo... eu... como você conseguiu se esconder dele?


– Não consegui.


Julia congelou. Não teve coragem para fazer a pergunta e nem precisou Évora continuou com a história.


– Naquele tempo eu morava no Antigo País. Hoje seria algo como a Irlanda... Ômega me encontrou, eu era solitária como você e nem tinha idéia de que ele existisse. Só queria estudar e me tornar a maior feiticeira de todos os tempos. Ter poder para comandar os quatro elementos. O fato é que ele me possuiu assim que colocou os olhos em mim e eu gerei um filho. Fiquei aprisionada em um castelo pelos meses que se seguiram e quando eu estava próxima a conceber houve uma grande batalha. Os vampiros tomaram a fortaleza e o Rei dos vampiros por piedade me libertou. Eu contei tudo a ele e... ele em sua honra e sabedoria ficou comigo até a criança nascer. Então nós a matamos e a queimamos, para que não sobrasse nada. Eu ainda me lembro do choro, mas não olhei para seu rosto. Ele me protegeu e depois me marcou para que jamais Ômega me encontrasse novamente.


– Eu sinto muito...


– Não sinta – Ela franziu a testa e olhou para Julia com escárnio e frieza. – Aquilo era um monstro e nada mais. Você precisa a aprender que o que tem que ser feito será feito, não importando as conseqüências. Porque acha que eu sobrevivi por milênios? Pela minha beleza? Não... e não pense que feiticeiras são boazinhas como você e Lisa, isso sim é patético.


– O que quer dizer com isso?


– Eu fiz um juramento de sangue a Wrath, o Rei vampiro e o cumpro até hoje. Não me importa que ele já tenha morrido e que seja seu filho a governar. Eu manterei o segredo sobre aquela aberração. Matei todas as feiticeiras que nasceram para que não pudessem gerar tal criatura e acredite-me a maioria delas geraria tal “desgraça” por um pouco mais de poder. Só que Lisa é diferente de nós. Ela é um híbrido e por seu pai ser quem é... eu acredito que seja esse o motivo por não ter havido sua revelação, por ter permanecido oculta todo esse tempo. Porém está próxima de completar 28 anos e agora se transformou em um alvo certeiro. Ômega deve estar atrás dela assim como nós estamos.


– Não pode matá-la. Você mesmo disse que ela não é má.


– E também disse que o que tem que ser feito será feito. Um juramento é para sempre, dei a minha palavra e vou cumpri-la até o último dia de minha existência. Não falharei com Wrath, ele tinha acabado de subir ao trono. Cheio de obrigações e uma raça inteira para liderar e salvar. Porém em toda a sua sabedoria e misericórdia ele cuidou de mim e me poupou a vida... depois do que Ômega fez comigo eu não era digna sequer de olhada por quem quer que fosse... mas aquele vampiro foi generoso e... enfim... Esta noite buscarei pela Irmandade de Adaga Negra e pedirei ajuda para encontrar Lisa Hendrix rapidamente.


– Por favor Évora, tenha compaixão.


– Isso não depende de mim. Se eles acharem que Lisa merece ser marcada, assim será, caso contrário, como manda a nossa tradição eu mesmo lhe tirarei a vida e só estou fazendo isso porque é nesta cidade que o descendente de Wrath vive. Portanto aqui é o seu Reino e terei que obedecer a sua Lei. Por mim eu iria até Lisa e lhe cortaria o pescoço sem qualquer piedade. Se ela vivesse em outro lugar do mundo há essa hora já não estaria mais respirando.


– Depois que resolver isso também vai me matar?


Évora lhe sorriu mansamente...


– Não Julia. Você é minha sucessora, não lhe farei mal algum.



Mais braçadas... a água se movia revolta e ela continuava a nadar de um lado ao outro buscando um profundo cansaço. Aquele que se tem quando não há mais nada o que fazer, mais lugar para onde ir. Na piscina iluminada por uma luz azulada a maratona aquática continuava ininterrupta e o nado era feroz.


Era assim que Lisa nadava nos últimos dias. Esquecendo-se de contemplar a beleza de seu jardim e do prazer que sentia quando se jogava naquela água cristalina, ela queria parar a dor, queria que a falta de Vishous não fosse uma tortura, queria poder se libertar da maldita realidade que estava vivendo.


Vivendo? Com certeza esse não era o verbo correto a ser usado. Bebia todas as noites para poder dormir e por mais difícil que fosse admitir tinha procurado Bob para que ele lhe fornecesse “pó”.


Chegou à borda e parou um pouco para descansar, já sentia câimbras nas pernas, o melhor a fazer era sair e tomar um banho. Afinal hoje a noite era de festa. Pra falar a verdade nem se lembrava de ter concordado em ir para a tal boate, mas... ficar em casa, dentro de seu quarto escuro na companhia de drogas lícitas e ilícitas também não era uma boa opção. O que logo se conclui que não tinha nada a perder ou ganhar. Tanto faz!


Com um impulso forte ergueu o corpo, sentando-se do lado de fora. Levantou e caminhou até pegar a toalha que estava sobre a espreguiçadeira. Fechou os olhos por alguns segundos respirando profundamente enquanto secava o corpo.


– Oi Lisa.


O susto foi tão grande que um grito ecoou pelo ar. Raghe estava parado a sua frente.


– Por Deus... quer me matar... Jesus... porque não entra como todo mundo pelo portão?


– Eu...


Correndo de dentro da casa saiu Nick com uma automática na mão mirando direto no peito de Hollywood. Lisa imediatamente se colocou na frente do vampiro.


– Está tudo bem Nick... esse é Raghe, marido de Mary.


– Como ele entrou? Não vi nada no sistema de segurança?


– Baixe a arma Nick agora!


– É amigo do idiota que veio me visitar enquanto você estava seqüestrada? Perguntou ele enquanto baixava a Glock.


– Sim... ele é meu amigo e realmente um idiota por ter deixado você vivo.


– Ei... é melhor parar por aqui – Lisa virou-se para Nick muito séria – Você não falou que ia sair para jantar com Anne? Acho que já está atrasado e posso acrescentar que... está muito elegante e cheiroso.


No final da frase ela sorriu para seu segurança e o amigo lhe retribuiu entendendo que a situação estava sob controle.


– Até mais tarde Lisa.


Ao passar por Hollywood não deixou de encará-lo mostrando que não tinha medo dele, apesar de ter plena consciência que o cara poderia parti-lo ao meio.


– Cuidado com ele – Nick apontou para Lisa e depois olhou o homem nos olhos – E sua esposa está realmente triste, sabia? Ela é uma ótima pessoa. Não deveria pisar na bola dessa maneira.


– Você não sabe de nada. – Murmurou Raghe raivosamente.


– Isso é verdade, mais não muda o fato dela continuar triste... A gente se vê por aí grandão, talvez no Zero Sum.


Enquanto Nick se afastava em direção a garagem andando calmamente, Hollywood balançou a cabeça, não acreditando no que acabara de ouvir.


– Esse cara é louco?


– Não, só corajoso. Então, veio buscar Mary?


– Se ela me aceitar...


– Por favor, você acha que ela deixou de te amar em quatro dias? Quanto drama, porque não dá logo a ela o que ela tanto deseja...


– Sim.


–Sim? Então você...


– Sim.


Por um rápido momento, Lisa vislumbrou parte do que Raghe viveu nos últimos dias e uniu-se ao sacrifício do vampiro.


– Tenho certeza que não foi nada divertido...


Lisa tomada por um impulso abraçou Hollywood. A demonstração de carinho e aprovação o deixou menos apavorado com o que esperar sobre a reação de Mary e colocou água em seus olhos. Como se isso fosse novidade. Ultimamente ele era uma torneira aberta.


– Você é espetacular – Ela falou enquanto se separava dele – Sabe o que isso significa? Amor... uma enorme prova de amor. Venha vamos entrar, você precisa ir ao encontro dela.


– Onde ela está?


– Me disse que ia tomar um banho.


Passaram pelas portas de correr e logo estavam na sala.


– Não vai me perguntar sobre V.?


– Não. – Ela continuou andando.


– Ele sente sua falta.


Lisa parou no pé da escadaria. A última coisa que ela precisava ouvir era sobre a dor de Vishous e seus problemas existenciais. Afinal, sua rotina era tomar no mínimo uma garrafa de vodka para conseguir deitar o corpo sobre a cama todas às noites e para dormir... bom, isso era outra história.


– Ele não sente minha falta. Se sentisse... viria até mim.


Raghe percebeu o odor carregado de madeira queimada, era tristeza, angústia, medo, raiva, solidão... e tudo exalava de Lisa.


– Ele vem! Todas as noites depois que acabam as rondas, as lutas... Vishous vem até aqui. Ele vela por seu sono e só aparece na mansão segundos antes do primeiro raio de Sol.


É impossível descrever o que Lisa sentiu ao ouvir tais palavras. Ela sempre esteve certa, o cheiro que sentia todas as manhãs quando acordava era dele. Por um momento pensou que ia explodir numa fúria descontrolada e assustadora. Tinha tantas coisas em sua cabeça, tantos questionamentos, tantos “porquês” que raciocinar deixou de ser a prioridade. A prioridade era manter o controle.


– Vou chamar Mary ou você quer subir? – Sua voz estava contida quando se virou e o olhou nos olhos.


– Você escutou o que acabei de dizer? Vishous ama você. Ele é cabeça dura, mas ele ama você. Lisa...


Com uma calma assustadora que chegava a beirar a insanidade a voz dela ecoou com profunda tristeza e desapego. O momento era tão crítico e desastroso que não perceberam que Mary estava parava na parte superior da escadaria, no andar de cima, ouvindo tudo que era dito.


– Você mais do que ninguém sabe o que é amar. Vai dar um filho a Mary, um filho que é a sua continuidade. Por mais que isso tenha o ferido, machucado e levado você ao limite... você fez, se sacrificou, se doou. Vishous não pode ser comparado a você. Ele não sabe o que é ceder, o que é compartilhar, o que é se importar com alguém. Ele se quer tem a capacidade de amar.


– Por favor, ele só precisa de mais tempo... Ele e Z. sempre foram distantes e...


– O que eu posso esperar dele? Nada... ele vem até aqui para conseguir me esquecer aos poucos, ele está esperando que eu siga em frente e mais nada... não sobrou nada. Agora suba e vá buscar sua mulher.


Mary desceu a escadaria devagar, depois de ouvir da boca de Lisa o que Raghe já não precisava mais se preocupar em falar. Mesmo não conseguindo sentir as próprias pernas, caminhou na direção deles sem saber ao certo o que dizer.


A revelação de um filho latejava em seu cérebro da mesma maneira que latejava a passividade extrema de Lisa, geralmente eram com semblantes como aquele que as pessoas tiravam a própria vida.


– Vou deixar vocês a sós. Acho melhor subirem para o seu quarto Mary, lá terão mais privacidade.


– Lisa você está...


Lisa não queria ouvir mais nada. Ela balançou a mão num “basta” silencioso, precisava de uma trégua. Precisava sumir. Precisava esquecer quem era e toda aquela merda que carregava sobre os seus ombros. Ela não pediu nada... ela só queria um lugar onde ninguém a conhecesse.


– Eu adoro você Mary, sinceramente. É uma boa amiga, uma mulher incrivelmente forte. Então por favor, seja inteligente tanto quanto eu acho que você é. Seja o bastante para admitir que Raghe se sacrificou por vocês dois, mas muito mais por você. Coloque-se no lugar dele, porque para se deitar com outra fêmea com certeza ele se colocou no seu. Você pode ficar o quanto quiser nesta casa, é bem-vinda aqui, mas... por Deus... vá embora com seu homem. Vá viver sua vida da melhor forma possível, vá viver plenamente e me faça um favor, se é que tem alguma consideração por mim... Quando sair por aquela porta esqueça que eu existo – Então ela olhou para Raghe – Aliás, seria muito bom que todos da sua raça também esqueçam que um dia colocaram os olhos em cima de mim. Vishous foi o pior dos meus erros, o pior dos meus enganos, a pior coisa que desejei pra mim. Eu não quero vê-lo nunca mais.


Virando-se ela começou a subir as escadas.


– E Raghe... ela irá com você, eu posso sentir.


– Lisa... Lisa... espere. – Gritou Mary.


Ela continuou subindo e não respondeu ao chamado.


– Lisa... não irei embora, não vou deixar você nesse estado.


– Faça o que quiser... eu vou sair, marquei com Bob.


Depois de alguns segundos não se ouvia mais nada. A porta do quarto foi fechada abruptamente.


– Raghe sei que temos muito para conversar, mas... não posso deixá-la dessa forma. – Mary estava aflita, tinha experiência suficiente para saber que sua amiga estava por um fio. Vida ou Morte.


– O chuveiro foi ligado, ela está tomando banho agora. Posso ouvir, agora só nos resta esperar.


Mary olhou para ele profundamente. As roupas de luta. A calça preta de couro, a camiseta negra, o casaco comprido... imaginou as armas escondidas por baixo de tudo aquilo... ele era realmente um guerreiro e... seu amor.


Ela se atirou nos braços dele abraçando-o fortemente. Quando os poderosos braços de Raghe a envolveram, Mary se sentiu voltando para o lugar de onde jamais deveria ter saído. Com a voz entrecortada e chorosa tentou explicar o turbilhão que sentia.


– Aquela noite que você me encontrou na casa de Bela... já faz tanto tempo, aquela em que eu fugi do hospital depois da consulta... quando voltei para a mansão, pensei que nunca mais nos separaríamos.


– Eu também.


– Droga... não podemos parar de conversar, temos que falar sobre os nossos sonhos... eu nunca pedi que...


– Você nunca me pediu nada – Raghe ergueu as mãos e alcançou o rosto dela, sua voz saia delicada e carinhosa – A única coisa que me pediu eu não quis ouvir. Fechei-me dentro de uma concha e não levei em conta seus sentimentos e nem a sua necessidade de ser mãe. Eu sinto muito.


Mary apoiou a cabeça sobre o peito de Raghe e escutou as batidas do coração. Ela fechou os olhos e pensou que palavras como “eu sinto muito” poderiam e eram tão boas como um “eu te amo”.


– Senti saudades minha shellan, mas não liguei porque queria lhe dar espaço e tempo para pensar.


– Eu também senti.


– Posso beijá-la?


– Oh... Deus, sim.


Raghe a puxou cuidadosamente e aproximou sua boca até a dela. O contato macio e quente dos lábios lhe provocou um enxame de sentimentos. Mas ele continuou com o ritmo calmo. Estavam se reencontrando e ele tinha medo de estragar tudo. Os beijos trocados foram leves, porém recheados de esperança.


– Como eu amo você. – Ela disse quase num murmúrio, enquanto as lágrimas rolavam por seu rosto delicado.


– Mary... eu, não sei se você vai aceitar o que fiz. Eu acho... droga, mas que droga. Acho que deveria ter falado com você.


– Que tal se fossemos para o meu quarto? Aqui tem sempre muitos empregados e seguranças.


– Tudo bem.


Eles subiram em silêncio. O quarto onde Mary estava hospedada ficava ao lado do de Lisa. Na realidade tinha até uma porta onde eram interligados. O antigo casal que morava na casa dormia em quartos separados, talvez por privacidade ou talvez receassem um divórcio complicado onde provavelmente um deles sairia perdendo.


– Quer se sentar? Perguntou ela apontando para um sofá verde estilo Georgiano.


– Sim... obrigado.


– Pode tirar a jaqueta... se quiser.


– Claro.


Raghe tirou a jaqueta e acomodou-a sobre o sofá educadamente. Se estivessem se sentindo como sempre ele a teria pegado em seu colo e a jaqueta estaria jogada em qualquer lugar enquanto a beijava... mas não era esse o caso.


– Não sei por onde começar, talvez você possa falar sobre o que fez. Pode me contar? – Perguntou ela apreensiva enquanto se sentava de frente para ele na cama.


– Tudo que você quiser saber minha doce Mary. Pergunte o que quiser.


– É melhor que você fale, preciso escutar o que tem a me dizer.


– Sabe, não sou ninguém sem você... eu me senti como daquela vez em que pensei que não voltaria mais pra mim. Então, fui até a Virgem Escriba e pedi um filho. Talvez ela pudesse lhe dar o dom de procriar.


– Mas ela não aceitou.


– Não.


Silêncio.


– Não me deu opção. Ela não vê as coisas da mesma maneira como eu ou você. A Virgem me perguntou se seria um fardo muito pesado me deitar com uma Escolhida a fim de manter minha nobre linhagem e presentear minha shellan...


– Presentear? Esse foi o termo usado por ela?


– Sim... eu hesitei, não queria, mas o argumento da Mãe da Raça é indiscutível. Sem sacrifício não há dádiva.


Ele arrumou os cabelos, passando as mãos pela cabeça e jogando-os para trás e Mary se pegou pensando como sentia saudades desses pequenos gestos corriqueiros do dia-a-dia, mesmo expressando a agonia do momento.


– Quando eu disse que faria qualquer sacrifício por você, então a Virgem Escriba falou suas condições: servir a Escolhida respeitosamente pelo seu período de necessidade, alimentá-la e cuidar dela por todo o período da gestação, porque ela não poderá retornar ao Santuário e...


Mary estava com os olhos arregalados e seus braços estavam cruzados em seu peito com se abraçando a si mesma. Então não foi uma única vez... ele esteve com a Escolhida por horas e muitas... muitas vez.


Oh... Senhor o que eu fiz? Como pude querer tal coisa?


– Continue... fale tudo... por favor. Sua voz tremia tanto quanto o seu corpo.


– Você terá que olhar por ela também Mary. O sacrifício tem que ser mútuo. – As palavras saíram tão baixas que quase não foram ouvidas. – Eu concordei... me perdoe, mas eu concordei.


Raghe dividia-se em culpa, em dúvida, em sofrimento. Olhar para sua shellan era difícil pois só conseguia enxergar o cair das lágrimas e aquilo o fazia pensar que talvez tivesse estragado tudo entre eles.


– O nome dela é Gaya... eu lutei por horas, eu não queria servi-la. Mas quando percebi que não havia saída...


Mais silêncio.


– Deus...


Não conseguindo mais conter as palavras e não tendo a menor idéia do jeito certo de dizer tudo aquilo, Raghe simplesmente despejou de uma vez.


– Eu nunca machuquei fêmea alguma, eu nunca humilhei... Mas eu a tratei como uma vadia, fui cruel, repulsivo e tenho certeza de que lhe proporcionei dor. Era virgem e eu não me importei com isso, pelo contrário eu a virei de costas porque olhar para ela me dava nojo. Eu a possuí completamente vestido, no chão duro, não a toquei e cobri seu corpo com o lençol para não ver... Era menos que um objeto pra mim e só me dei conta disso porque a Escolhida foi rezar no banheiro à Virgem Escriba por perdão. – Nesse momento ele olhou diretamente para os olhos de Mary – Perdão por me causar repulsa e horror.


Ambos choravam. Raghe sentia as lágrimas, porém era como se estivesse se confessando. Agora, Mary estava aos prantos. Totalmente absorta em seus pensamentos. O relato de seu hellren era lancinante e feroz.


– Como eu poderia olhar para meu filho, sabendo que foi concebido de uma forma monstruosa? Então pensei em como você olharia pra mim se soubesse de tudo isso e cheguei a conclusão que seu olhar seria o mesmo que eu dei a Gaya: Desprezo!


Ele limpou a garganta para prosseguir.


– Fui até ela e me ajoelhei implorando por seu perdão. Não suportava...


E foi exatamente isso que Mary fez a Raghe. Ela se ajoelhou diante de seu grande macho, do amor de sua vida, da razão de sua existência e pediu perdão. Segurou-lhes as grandes mãos ao redor das suas e com toda a emoção do mundo começou a falar sem tirar os seus olhos cinzentos de cima daquele rosto perfeito.


– Perdão meu querido. O que eu pedi... foi atroz, desumano. Raghe... eu não passo de uma tola. Eu...


Ele não permitiu que ela permanecesse ajoelhada por nem mais um segundo. Com um movimento rápido puxou-a para cima, para seus braços e acomodou-a em seu colo, num abraço profundo que provavelmente duraria para sempre, uma eternidade.


– Eu amo você. Amo você Raghe.


– Você é tudo pra mim Mary.


No quarto ao lado, Lisa já estava pronta para a “noite”. Um vestido provocante de couro preto perigosamente curto com um enorme zíper que facilmente o abria ao meio, ela estava sexy. As curvas do seu corpo bem marcadas podiam ser notadas com facilidade e havia um leve toque de vulgaridade, mas essa era exatamente a imagem que desejava passar.

\"\"



Estava virando a página. Naquela noite começaria, ou pelo menos tentaria esquecer Vishous. Foi até seu closet para calçar os sapatos, mas antes disso procurou pelo “estímulo” e foi fácil encontrar.


Lá estava. No fundo de uma gaveta jaziam pequenos pacotinhos do afrodisíaco e eufórico pó branco. Ela pegou um deles foi para o banheiro e estendeu a carreira na pia, sem hesitar abaixou o rosto e tampando uma de suas narinas aspirou profundamente. Quando levantou procurou na imagem refletida no espelho a sua frente algum indício da droga e não viu nada... estava tão perfeita que ninguém desconfiaria de nada.


Voltou para o closet calçou os sapatos e fechou a gaveta, para que se preocupar com mais pó? Se quisesse repetir a dose no decorrer da noite era só pedir para Bob, certamente teria aos montes.


Um minuto... só levou um minuto para se sentir cheia de energia, confiante e sociável. Sua temperatura subiu, junto com seus batimentos cardíacos e seu sistema nervoso central varreu do cérebro a desolação em que se encontrava sua maldita vida. A partir daquele momento encontrava-se anestesiada e dentro de um mundo ilusório.


Desceu as escadas e já estava quase na porta saindo em direção à garagem, quando ouviu chamarem por seu nome. Ao olhar para trás Raghe e Mary desciam as escadas.


– Aonde vai?


– Sair. Eu lhe disse Mary não lembra? Tinha um enorme sorriso estampado no rosto.


– Não acho uma boa idéia – Falou Raghe, percebendo o uso da droga, seu tom era seco e profundo e mais se assemelhava a uma ordem do que um conselho – É melhor ficar em casa.


– E quem é você pra dizer isso? Meu pai? Meu irmão? Espere... eu nunca tive nada disso, não é verdade? Então não tenho que lhe dar satisfações. Você não é nada meu.


Continuava a sorrir expressando uma falsa felicidade, enquanto que Raghe se tornava mais sério.


– Lisa. Não. Faça. Nada. Que. Se. Arrependa. Depois. – As palavras saíram marcadas e pausadas para que fossem bem compreendidas — Há determinados caminhos que trilhamos e que depois não poderemos retornar.


– O único caminho pra mim hoje é o Double Seven. A propósito... o lindo casal não quer me acompanhar? A balada vai ser ótima.


– Porque não espera por Vishous?


– Esperar? – A risada sombria se espalhou no ar. – Ele é página virada.


– Não acredito nisso.


Raghe tirou o celular do bolso.


– Não faça isso! Eu não quero migalhas. – Gritou Lisa.


As luzes piscavam freneticamente, a temperatura do ambiente aumentou de tal forma que podia ser comparada ao Deserto do Saara. Uma onda invisível de desespero foi sentida por Raghe e Mary mesmo não conseguindo sentir ficou toda arrepiada, como se tivesse um mau agouro. Os espelhos trincaram e os arranjos de flores naturais espalhados sobre as mesinhas secaram como se estivessem ali há anos, afinal a água dos vasos ferveu instantaneamente e evaporou.


– Migalhas? Que merda! Vocês precisam conversar. Parecem dois zumbis ou talvez estejam caminhando pra isso é nítida a vontade que vocês têm morrer. Será que não entende que ele não pode se afastar, se pudesse não viria aqui todas as noites.


Foi à gota d’água!


Eu entendi perfeitamente Gritou Lisa totalmente descontrolada – E sabe o que penso sobre isso? Que seu amigo é um tremendo masoquista, um imbecil filho da puta, um egoísta. Vem até a minha casa, entra no meu quarto para me ver dormir? Não tem a dignidade ou seria a coragem de falar comigo. Mas... com certeza ele vê as garrafas vazias sobre o criado mudo, só não vê a cocaína porque eu a cheiro no banheiro. Ele quer somente me olhar? Quer dar uma de “voyer”? É mais um de seus fetiches pervertidos? Pois bem, eu lhe darei um bom motivo para olhar para mim.


Raghe trancou as portas com sua mente impedindo que ela saísse e ficou totalmente atordoado quando elas foram destrancadas segundos depois.


Lisa olhava para ele com um ar de superioridade e uma frieza que chegava a doer.


– O que foi vampiro? Pensa que só sua raça é capaz de fazer truques? Vou sair agorae você não tem o direito de me impedir...


O celular de Raghe tocou.


– Diga!


Do outro lado a voz de Z. foi categórica.


– Rua Trade com Rua 5, precisamos de reforços Phury foi ferido.


– Entendido. – Ele olhou para Mary – Fique aqui volto para buscá-la daqui a pouco.


– Não posso largar Lisa sozinha do jeito que está. Não sei do que ela é capaz. Tenho medo que cometa alguma loucura. Deus... eu não sabia da cocaína.


– Acharemos um jeito de consertar isso.


– Agora vá Raghe, precisam de você.


– Eu te amo.


E se desmaterializou tão rápido como a saída de Lisa noite afora, Mary não conseguiu evitar... só ouviu o ranger do motor do carro.



No beco os Irmãos estavam bem ocupados. Redutores pareciam minar de todos os lados como se fossem baratas saindo do esgoto em uma noite quente de verão.


Phury estava caído com as costas apoiadas na parede de tijolo e na sua frente Wrath o guardava com sua própria vida e ele viu perfeitamente quando o Rei cravou uma das adagas no peito do inimigo mandando-o para Ômega. Ninguém jamais cruzaria aquela muralha. Apesar de muito ferido na perna que usava uma prótese, e que por sinal estava completamente destruída, o Irmão não precisava se preocupar em ser pego indefeso num ataque. Wrath não permitiria isso.


Mais seis mortos-vivos chegaram para ajudar seus “amiguinhos”.


Vishous lutava contra três. Zsadist cortava a garganta de um enquanto segurava outro debaixo de suas poderosas pernas e Butch chegava dirigindo o Escalade.


Nesse cenário de Guerra, Raghe se posicionou a frente dos redutores recém chegados e exibiu um lindo sorriso. Lutar era bom, mas vencer o desgraçado do inimigo era supremo. O primeiro golpe fez o redutor da direita bater com a cabeça fortemente na caçamba de lixo e sua caixa craniana se abriu em duas metades provocando um ataque epilético, o segundo golpe acertou duas jugulares de uma só vez. Do jeito que as coisas iam terminaria seu serviço rapidamente... senão fosse por um disparo.


– Maldição.


– Merda, você está bem Hollywood? Perguntou Vishous enquanto corria ao encontro de Raghe. O ombro do loiro estava sangrando.


O irmão não respondeu, porém quando olhou para V. já tinha os olhos completamente brancos. A besta estava se libertando e iria terminar o trabalho...



Na boate Double Seven a pista de dança fervia. Corpos suados se esfregavam sem qualquer constrangimento. Mãos, cabelos, olhares, vestidos curtíssimos, bebidas caras, charutos cubanos, homens lindos, mulheres gostosas e personalidades compunham o ambiente caríssimo e requintado da noite de quem podia pagar ou tinha algo a oferecer para estar naquele ambiente.


Lisa dividia a mesa com Bob, algumas vadias e Paul. Já tinha dançado e bebido muito, conversado com algumas pessoas sem nenhuma importância, cheirado mais cocaína e agora estava ouvindo da loira sentada ao seu lado que ela queria fazer filmes, queria ser “tipo” a nova Angelina Jolie... só que Angelina é morena, não é mesmo?


Que burra! Será que sou capaz de fazer sua língua queimar até virar carvão só com um pensamento? Seria divertido... nunca mais ouviria sua irritante voz.Pensou Lisa.


– Bob... você tem mais aí?


– Ei garota vai com calma. Quanto já cheirou Lisa?


– Só uma. –Mentiu ela.


– Ok, mas essa é a última da noite. – Ele entregou a droga piscando o olho charmosamente.


Quando Lisa esticou a mão para pegar o pacotinho Paul pegou primeiro e se levantou da mesa.


– Me dá isso.


Ele não foi muito longe, só o bastante para alcançar o ponto mais escuro da área VIP. Encostou-se à parede espelhada e esperou... até que Lisa fosse até ele. E ela foi rapidinho depois de dar mais um gole em sua vodca.


– Me dá isso Paul. – Sua voz saiu exigente e ela postou seu corpo na frente do dele.


– Não devia usar essa porcaria, esse tipo de coisa não é pra você. – Falou calmamente, enquanto mantinha a droga em sua mão.


– Sei até onde posso ir.


– Não sabe não. Já consumiu demais, pode ter uma overdose.


Lisa fez um gesto rápido, jogou-se em cima dele para tentar retirar das mãos de Paul o que tanto ansiava... mas Paul era esperto e ela não conseguiu. Agora estavam com seus corpos colados e suas bocas distanciadas por apenas alguns centímetros.


– Eu deveria estar apaixonar por você, sabia? – Ela passou as mãos pelos loiros cabelos dele – Apenas um cara comum e preocupado... um cara que gosta de mim.


Ele não respondeu, passou um dos braços ao redor da cintura e o outro subia pelas costas dela lentamente.


– Me responda Paul, se você me amasse você me deixaria partir? Você me esqueceria?


As palavras dela ressoavam em sua boca e ele podia sentir o gosto da vodca que ela tinha bebido há pouco. Ela estava tão perto, muito perto, perto demais... e aquela proximidade era tudo.


– Nunca! Se você fosse minha eu jamais deixaria que partisse. Mesmo que implorasse por isso eu nunca permitiria que se afastasse de mim.


Ela sorriu com os olhos fixos nos dele enquanto apoiava as mãos nos seus ombros. Uma delas continuou em sua nuca.


– Quer saber... você deu a resposta certa.


Com um puxão ela o trouxe para sua boca e o beijou profundamente. Sua língua entrou macia sem resistência alguma.


Ele congelou por uma fração de segundo... então envolveu seus braços ainda mais apertados ao redor dela e correspondeu ao beijo com toda a intensidade possível. Desejou por aquilo, tê-la em seus braços. Chegou a visualizar infinitas vezes em seu cérebro doentio aquela cena, porém nunca imaginou que seria em uma boate e sim no porão que mantinha escondido de tudo e todos. Nem os Membros da Sociedade Redutora que ele escolhera tão bem para formar sua equipe pessoal, seus capangas fiéis sabiam do lugar.


Inalou profundamente para capturar todo o perfume que ela exalava, mas não parou com o beijo. Pela primeira vez na vida achava que se sentia... feliz.


Sim. De um modo geral as coisas caminhavam muito bem. Lisa começou a baixar a mão pelo corpo de Paul. Passou pelo abdômen e continuou sem parar até encontrar seu membro flácido. Nada, nenhuma ereção. Lógico, ele não passava de um bastardo impotente e merda... merda, naquela noite em especial era só isso que lhe interessava, depois da cocaína e do álcool, uma grande e grossa ereção para preenchê-la totalmente.


– Eu esqueci. – Disse Lisa emudecendo e separando seus corpos.


– Está tudo bem, não é sua culpa e eu gostei...


A expressão no rosto dela mudou. Desinteresse. Ficou totalmente desinteressada.


– O eu que preciso esta noite, você não é capaz de me dar. Quero sexo!


Ficou surpreso! Mas ele nunca era pego de surpresa. Não fez nenhum movimento. Parado com cara de bobo. Parecia que tinha sido atingido na cabeça por um tiro de uma calibre 40. Lisa se aproveitou do momento e pegou o pacotinho com a droga pelos dedos de Paul. Foi fácil.


– Continue aproveitando a noite com Bob, vou procurar pelo que preciso... e a propósito... mude seu perfume. Você está cheirando a talco de bebê.


Lisa deu dois passos e...


– Paul, você pode olhar se quiser. Estou acostumada com pessoas me olhando.


Ele continuou parado enquanto ela se afastava segura de que seria fácil encontrar pelo sexo casual que tanto precisava.



– Levaremos Phury para a clínica de Haver´s. Ele está sangrando muito. Raghe vem conosco, não está em condições de se desmaterializar.


Enquanto Wrath dava ordens Z. não gostava nada do que estava ouvindo, queria ficar com seu gêmeo.


– Que tal se você retornar agora e me deixar ir com eles? Beth já deve estar preocupada...


Raghe murmurou alguma coisa no meio da sua agônia.


– O que você quer Hollywood? Perguntou Butch.


– Mary… preciso buscá-la… eu... prometi que... voltaria... esta noite.


– Calma grandão, eu vou!


– Não vai, não! – Disse Wrath – Vai dirigir o Escalade. Butch e eu vou com você levar Phury para a clínica e Raghe que também vai dar uma olhada nesse ombro. Vishous e Z. vão buscar Mary, mas antes precisam pegar um carro na mansão.


– Não... meu GTO está... na casa de Lisa... do lado de fora.


– Então é isso. Vemos-nos mais tarde. – Disse o Rei.


Assim que se materializaram do lado de fora da casa avistaram o carro estacionado.


– Vá, eu espero aqui.


– Acho melhor você entrar, afinal essa é a casa da sua garota.


– Vá se ferrar Z. Ela não é minha garota.


– Idiota. – Disse ele balançando a cabeça sumindo no ar.


Mary estava sentada no sofá esperando por Raghe ou por Lisa e naquele minuto não sabia por quem estava mais preocupada. Já passavam das três horas da manhã. Lisa não atendia o celular e seu hellren...


– Zsadist? – Ela levantou num pulo. – Onde está Raghe... meu Deus... ele, ele não...


– Está tudo bem – Disse ele se aproximando – Calma, ele está com Wrath e Butch foram até Haver’s porque Phury foi ferido.


– E o que você está fazendo aqui?


– Vim buscá-la.


– Por favor... Eu poderia esperar mais um dia. Você deveria estar com seu Irmão. Sei o quanto é importante.


– Raghe me mataria se eu não a levasse de volta. Agora vamos sair daqui.


– Não posso ir. Lisa ainda não voltou.


– Mary...


– Não vou a lugar algum sem saber que voltou para essa casa segura.


– Mary, eu...


– Não adianta argumentar comigo, Z.


Pelo jeito que Mary se posicionava não iria a nenhum lugar messsmo. Era pura teimosia.


– Ok. Você vem comigo e eu mando Vishous atrás dela. Sabe onde ela foi? Porque ele está lá fora esperando por nós.


– Graças a Deus. Vamos logo.


Não foi difícil passar pelos seguranças. Vishous jogou o mhise se algo saísse do controle, era só apagar a memória dos humanos.


Assim que avistou Vishous atrás do volante, Mary apertou o passo e entrou no carro enquanto V. arrancava rapidamente. Ela não lhe deu tempo para cumprimentos.


– Temos que ir para a boate Double Seven, agora. Buscar Lisa.


– Mas não vamos! – Negou seriamente, mesmo se perguntando o porquê da preocupação de Mary, V. se manteve calmo, pelo menos aparentemente. – Vou levar você para a mansão.


– Ela saiu totalmente descontrolada, temos que achá-la. – Murmurou com tristeza.


Cara... Mary não estava brincando a situação parecia ter fugido do controle. Deixaria a shellan de Raghe em casa e depois iria até a tal boate para...


– Estava drogada, usou cocaína.


Os pneus colaram no asfalto. A freada foi tão brusca que se Mary não estivesse usando o cinto de segurança provavelmente teria atravessado o para-brisa. Quando olhou para V.,o que viu a fez estremecer. Se estivesse do lado de fora do carro teria corrido. Seu rosto estava transtornado. A fúria expressa em sua fisionomia era descomunal, perigosa.


Zsadist saltou imediatamente de dentro do veículo e abriu a porta do motorista arrancando V. do volante. Eles se olharam e Vishous sumiu no ar.



Imóvel entre as sombras da rua da famosa boate V. checou a vizinhança antes de entrar. Apesar dos diversos carros estacionados, traficantes de drogas discretos e humanos bêbados vestidos com roupas de grife, tudo parecia normal.


Dirigiu-se a porta de entrada onde dois seguranças que mais pareciam gorilas enormes tentaram barrar sua entrada. Não durou... ele entrou sem sequer diminuir as passadas. Sempre tão manipuláveis.


Um mar de gente. A boate bombava naquela noite. Sentiu diversos olhares em cima dele, afinal tinha que admitir que chamava a atenção. Era alto, forte, com ombros largos que pareciam querer partir uma pessoa ao meio, vestido todo em couro preto e tendo tatuagens nas têmporas. Aqueles humanos certamente olhariam para ele. Os mais espertos sairiam do seu caminho, as mais ousadas o devoravam com os olhos e esperariam que ele notasse que elas existiam.


Era deprimente. Vishous olhou o salão minuciosamente por duas vezes. Nada de Lisa. Próxima parada os banheiros.


Nos que ficavam perto da pista, não encontrou nada. Nos que ficavam atrás do bar, também não. Sobrou a área VIP.


Entrou e deu uma olhada geral no lugar. Dentre as oito portas dos boxes somente duas permaneciam fechadas. Sem hesitar abriu a primeira. Um homem caído ao chão enfeitava o local.


Então ele abriu a segunda. Lá estava Lisa prensada no meio de dois homens. O que estava atrás tinha as mãos sobre os quadris dela, as calças abaixadas e esfregava a ereção naquele belo traseiro pronto para penetrá-la. O da frente tinha baixado o zíper do vestido de Lisa e estava agarrado e beijando seus seios.


Presa entre eles, Lisa exibia uma expressão desalmada, um rosto falecido e um olhar vazio. O preto do lápis e o rímel dos olhos haviam escorridos e a marca chegava até o queixo... talvez por causa de algumas lágrimas. Apática, indiferente e sem reação alguma. Ela não sentia absolutamente nada sobre o sexo... ela era uma “coisa” e não a uma participante.


Por sua espinha dorsal subiu um calafrio selvagem, sua natureza vampira ativou os primitivos e mortais instintos do macho vinculado. A necessidade de reivindicar seu território, de dominar deixando bem claro que ele era o macho daquela fêmea, só ele tinha o direito de tocá-la. Ela era somente dele. Vishous explodiu em agonia enquanto um silvo emergia por sua garganta e destruía totalmente a barreira que separava suas longas presas do mundo que não existia para os humanos.


As mãos que estavam sobre os seios de Lisa foram agarradas e os dedos se transformaram em cartilagem, praticamente esmagados. Quando Vishous puxou o homem de cima dela, sua força era tão descomunal que os ombros do indivíduo fraturaram expondo os ossos da clavícula para fora, o sangue forrava em abundância.


O cara das calças abaixadas levou um golpe no rosto que quebrou seu nariz e seu maxilar. Vishous o estava estrangulando quando foi seguro por trás com uma chave de braço que lhe envolveu o pescoço, deixando-o sem ar.


– Chega. Acalme-se V. – Era Wrath.


– Saia do meu caminho. – Vishous tentou se soltar, mas o agarre do Rei era afrontador e ele não conseguiu.


– Não vai matá-los.


– Só pode estar brincando comigo. Lutarei com você se for preciso, mais vou matar esses dois fudidos.


– Cale a boca, V., cale a porra da boca e olhe para Lisa – Estava caída ao chão, com o zíper do vestido aberto até a cintura, seios a mostra e o sangue do primeiro homem gotejando sobre eles – Olhe o seu maldito estado. Você precisa tirá-la daqui agora. Então espalhe omhis e vamos dar o fora, seu idiota.


A imagem de Lisa desacordada puxou-o para fora do transe insuportável e infernal que estava vivendo. Quando Wrath o soltou e recuou ele não se importava com mais nada que não fosse o bem estar da sua fêmea.


Era isso cuidar e proteger.


Saíram rapidamente da boate, sem maiores problemas. No estacionamento Wrath arrombou uma Captiva, estilhaçando o vidro. Vishous acomodou Lisa no banco de trás.


– Leve-a para a mansão. Voltarei para a clínica e nos encontraremos mais tarde.


– Ok.


Wrath desapareceu no ar e Vishous pensou que não poderia levar Lisa para lá e muito menos para a casa dela. Sequer cogitou a idéia. Estava fragilizada, totalmente exposta aos olhos de quem quer que fosse que a olhasse. Já bastava Wrath ter visto o que viu. Só havia um lugar para ir.


Sua cobertura, no Commodorre! Por mais bizarro que tal idéia pudesse parecer... naquele espaço pervertido ele podia chegar mais perto do seu verdadeiro “eu” e tanto V. quanto Lisa precisavam disso. Precisam expor suas feridas, suas fraquezas e todo o desespero que cercava suas amaldiçoadas vidas.


Foi com esse pensamento que Vishous acelerou o carro e partiu.


Do outro lado do estacionamento, no meio da escuridão Paul assistia a tudo passivamente.


Notas finais
O que me dizem?
Deus... eu realmente sofri com Lisa e me despedacei ao imaginar Vishous vendo a terrível cena nos banheiros VIP.
Eu posso atrasar um pouco, mas quero deixar bem claro que jamais abandonarei essa história. Tanto ela como vocês são muito gratificantes.
Agora deixo com vocês. Comentem...
bjs
Fênix