Notas iniciais
Esta é Lisa Hendrix, a mulher que idealizei para se tornar o grande amor de Vishous. Ela foi criada após a leitura do livro "Amante Liberto", escrito pela extraordinária J.R.Ward. Apesar de admirá-la não posso deixar de admitir que fiquei frustrada e profundamente triste com o desfecho desse querido Guerreiro. Por esse motivo escrevo aqui minha versão para esse querido e amado Guerreiro.
Espero que gostem!

Terminou...

Colocaram um roupão sobre meus ombros e me entregaram uma toalha branca e macia, que peguei rapidamente para secar o suor do rosto. Caminhando pelo corredor ainda podia ouvir gritos e o ecoar do meu nome que vinham da arena onde alguns milhares de fãs se espremeram para ver minha performance. Eu estava satisfeita. O show, a adrenalina, o público, tudo se encaixava e pra mim aquilo não era trabalho, era pura diversão. Afinal qual é o cantor que não sonha em algum momento de sua carreira se apresentar no Madison Square Garden, ou simplesmente MSG como é chamado carinhosamente?

Eu consegui, coloquei 30 mil pessoas, nesse templo sagrado e ainda tive o privilégio e a audácia de cantar músicas inéditas, que certamente no dia seguinte estariam sendo tocadas em todas as rádios do país. Eu havia vencido, consagrada finalmente, eu tinha alcançado meu objetivo. Aquela loucura idealizada por mim de três shows no MSG tinha dado certo, os ingressos esgotaram rapidamente e meu agente e produtor estavam mais que satisfeitos... Meu Deus a expressão em seus rostos era de algo melhor que satisfação era sublimação. A sublimação de rios de dinheiro chegando de todos os lados e a certeza da renovação de um contrato gordo com a gravadora.

Eu estou bem, todos estavam bem, não me importa nem um pouco se além de amigos e colegas de música estavam por ali também os aproveitadores, os bajuladores e os desconhecidos que se passavam sem nenhum pudor por íntimos de meu contato. Tudo está perfeito, esta noite é minha, não havia estrela maior para brilhar do que EU.

Então... uma sombra passou por meus pensamentos como um caminhão desgovernado que arrasta tudo que está a sua frente. Senti tudo ruir, o desastre iminente criado por meu cérebro doentio fez com que meu corpo estremecesse diante do inevitável. Não, não posso permitir... não quero ser uma tola psicótica sozinha e isolada, vivendo no mundo dos meus sonhos... Oh, Deus e agora? Estou a ponto de travar, não consigo andar.


– Lisa, está tudo bem? Que foi está tropeçando nas próprias pernas? A voz de Bob, meu agente e de certa forma conselheiro soava brincalhona e descontraída. Mas ele sabia que tudo estava prestes a desmoronar dentro de mim.


Demorei a assimilar suas palavras, sua voz me chegava abafada e meu corpo tremia freneticamente eu não tinha nenhum controle sobre isso. Percebendo minha mudança de humor, ele abriu caminho pelo emaranhado de pessoas que estavam ao nosso redor e abriu a porta do camarim, somente ele e eu entramos. Do lado de fora Bob teve a sensatez de postar dois seguranças enormes com cara de mau e ordens expressas de “ninguém entra”.

Meu corpo se deixou cair no grande sofá a esquerda, levei as mãos à cabeça e sentindo meus cabelos enrosquei os dedos nele e puxei-os com força para que a dor pudesse me trazer de volta à razão. Fixei meus olhos em Bob, ele estava encostado no sofá debruçado sobre mim, mas não próximo o bastante para socorrer ninguém. Acredito que ele imaginava que no momento eu não conseguia respirar, o que de fato não era mentira.

Bob não era nenhum galã, pelo contrário não passava de um homem comum na faixa dos 45 anos, olhos escuros, grisalho com uma barba muito bem feita, ternos impecáveis e cheirando a Starwalker de Mont Blanc.

Acabara de sair de seu terceiro casamento, que por sinal tinha sido um desastre. Mas ele não se importava. Seus relacionamentos chamados “sérios” terminavam assim que uma garota de 19 anos com grandes peitos e traseiro arrebitado se jogasse em cima dele. Não dispensava nenhuma, afinal como ele mesmo dizia – Não sou lindo, mas tenho poder e dinheiro.


– Fale comigo belezura. Deus você... você vinha bem. Tem tomado os remédios? Está pálida como cera, vamos volte garota, está tudo bem!

Ele estava tão assustado que sua voz parecia um fio esticado pronto para se romper.


– Não adianta Bob. Nada do que eu faço... adianta! Ele está em mim, cravado no meu cérebro. Ele existe... pra mim ele existe! Não sei onde ele está, onde vive, mas ele é real.


– Porra Lisa, é sério? Vai começar com essa merda toda novamente? Pesadelos, alucinações — sua voz saiu alta e opressiva, ele estava transtornado e esperando respostas.


Ela fechou os olhos demoradamente se dando a chance de escolher as melhores palavras para o momento. Não queria entrar em uma batalha verbal, mas não teve chance. Ele continuou implacável e desapiedado.


– Concentre-se no que conquistou hoje. Eu entendo que celebridades são cheias de manias e fobias, mas por favor escolha medo de altura ou horror a insetos. Essa coisa de obsessão por um homem vestido todo em couro preto com tatuagens pelo corpo e rosto já cansou. Ele não existe Lisa, não é real. Habita apenas em seu inconsciente atormentado e se continuar a existir vai levá-la ao mesmo destino de sua mãe o St. Elizabeths – a última frase saiu aos gritos.


– Como disse?


– Você me ouviu perfeitamente, cacete! — sua voz era dura como rocha — hoje você se tornou uma das maiores cantoras de sua geração. Provou pra muita gente que não é apenas um monte de carne com curvas e um rosto bonito. Tem uma turnê mundial pela frente e quero muito ajudá-la, mas para isso precisa parar.


Olhava-a com olhos raivosos e agoniados. Um grande silêncio preencheu o camarim. Ele podia sentir o drama no ar carregado, não falou mais nada ficou esperando uma atitude da parte dela.


– Sinto muito, me desculpe, estou assustada... confusa. Isso tudo é uma completa estupidez, só uma fantasia exacerbada. Céus... estou perdendo o juízo – seu peito estava ofegante e suas mãos tremiam — o que vou fazer?


Finja Lisa! Minta pra si mesma que nada disso está acontecendo. E tente acreditar nisso. Procurarei outro psiquiatra e você vai tomar novos remédios, talvez uma dose mais alta resolva o problema. Se distraia, arrumo pra você um “barato”, um cara metrossexual, tome um porre se for o caso, mas chega dessa insanidade. Não quero mais ouvir uma palavra sobre essa loucura.


– E acha que isso vai resolver meus problemas? Perguntou quase sussurrando.


– Lisa preste atenção, não há nada que seu sucesso e seu dinheiro não possam resolver ou comprar, inclusive discrição e silêncio.Estamos entendidos?

Bob virou-se e foi em direção até a porta.


– Aonde vai? Indagou ainda se refazendo da frieza contida nas palavras dele.


– Aonde vamos você quer dizer! É hora do social, da badalação. Temos uma noitada na Double Seven está tudo pago e foi bem caro, por isso coloque um sorriso nesse rostinho lindo e vamos celebrar a sua e a minha vitória. Afinal fui eu que descobri você naquele bar de “quinta” em Chicago, se não fosse por mim, ainda estaria cantando e bancando a stripper para uma cambada de bêbados perdedores e homens falidos. Você tem 10 minutos para trocar de roupa. Não me faça esperar.



Notas:

St. Elizabeths Hospital, localizado em Washington D.C, é considerado o primeiro hospital psiquiátrico de grande porte dos Estados Unidos. Foi a habitação de milhares de pacientes até a metade do século XX. Desde então tem caído em desuso e está em grande parte abandonado, embora ainda abrigue alguns pacientes e áreas operacionais.

Double Seven – boate nova-iorquinha frequentada por modelos, empresários, rappers e atores famosos de Holywood.


Notas finais
Então? O que me dizem? Por favor comentem e deixem suas opiniões, críticas e sugestões. Todas serão bem recebidas e se tornarão motivo de reflexão e muito prazer.