Traga-me Para A Vida
10 Capítulo 9
Notas iniciais
Os carros avançavam rapidamente pela zona rural de Caldwell. A Rota 22 ficava em uma região montanhosa com uma grande floresta cheia de vida selvagem. Foi em meio a esse cenário que Lisa despertou.
Um pouco atordoada e com uma enorme dor de cabeça, tomou consciência de que estava em seu carro com V. dirigindo, mas não conseguia se lembrar como tinha ido parar no banco do passageiro, já que saiu de sua casa como motorista.
Fixou seus olhos na estrada estreita, por onde passavam, tentando marcar um ponto distinto, mas não encontrou nada, parecia que toda a paisagem era exatamente igual para qualquer lado que olhasse.
V. diminuiu a velocidade dando passagem para o Escalade que estava logo atrás.
Lisa sentiu seu coração pular dentro do peito e pensou que talvez fosse naquele lugar ermo e longe de tudo que o vampiro ao seu lado meteria uma bala em sua cabeça e largaria seu corpo para apodrecer. Droga tudo terminaria ali – pensou ela.
– Não tão rápido. — ele a olhou sem piedade — Você ainda tem algumas horas de vida.
– O que disse?
– Você entendeu muito bem e não vou repetir.
– Está lendo meus pensamentos?
Do nada surgiram os enormes portões pretos de ferro fundido. Os carros passaram por eles e continuaram pelo caminho até se depararem com uma muralha de aproximadamente seis metros de altura e mais portões. Notou que o homem no carro da frente, parou e digitou um código em um aparelho ou fechadura digital enquanto as câmeras de segurança espreitavam curiosas.
Aquele lugar era uma prisão ou seria uma fortaleza? Rodaram mais um quilômetro até que ela avistou um pátio florido, no centro uma imponente fonte. Mais a frente desnudava-se um majestoso castelo todo em pedra, com suas linhas góticas que a fizeram lembrar da Catedral de Notre-Dameem Paris, era magnífico.
Ficou tão extasiada com a visão que não notou V. sair do carro e nem ouviu quando ele lhe mandou descer e segui-lo. Só recuperou a consciência quando ele abriu a porta transtornado e a puxou para fora do veículo com tamanha violência que ela tombou ao chão.
– Mandei você sair do maldito carro. Agora levante-se e comece a andar – gritou enfurecido.
Quando Lisa levantou sentiu o sangue escorrer por seu joelho esquerdo, tinha cortado a perna ao cair em cima do piso de paralelepípedos. Como já se sentia péssima, conteve a dor e as lágrimas. Sem demora começou a andar em direção a uma porta dupla de bronze escuro.
Que ótimo, provavelmente seria sugada até a última gota por causa daquele machucado. Quantos mais iguais a V. haveria dentro daquela mansão?
Ao passar pelas portas, ela esqueceu da morte. O local era incrível, um verdadeiro castelo europeu em sua época de glória. Aquele lugar poderia ter abrigado qualquer Rei ou Rainha da história mundial sem deixar nada a desejar. Luxo e requinte emanavam daquelas paredes ornamentadas com afrescos e com espelhos de cristal emoldurados em ouro e a frente uma suntuosa e ampla escadaria levava ao próximo piso.
– Espere... por favor... Butch posso olhar de perto aquele espelho. O que tem a moldura mais escura?
Não se atreveria a fazer tal pedido para V., nem sequer olhava mais para ele. Tinha receio de desencadear uma reação ou ação mais violenta do que já tinha sofrido. Sabia que ia morrer, mas quanto mais demorasse melhor. Ainda alimentava uma vã esperança de sobrevivência.
Antes da resposta de Butch, a voz grave de Vishous preencheu o salão.
– Deus, ela me irrita absurdamente. Não tem noção do que está se passando aqui, mulher? Está caminhando para o seu funeral. Continue calada e andando enquanto ainda pode.
Subiram pela escadaria. Butch na frente e V agarrando o braço de Lisa pesadamente. Ele nem percebeu que largou o baú de madeira em cima de um aparador quando a pegou para subir a escada. Quando alcançaram o último degrau um velhinho de fraque apareceu no corredor.
– Meus senhores, boa noite.
– Boa noite — Respondeu Butch, V. apenas balançou a cabeça levemente.
– Tomei a liberdade de trazer um pouco de gaze para limpar o ferimento da Senhora.
– Não há necessidade disso Fritz e ela não é senhora.
Em nenhum momento V. diminuiu as passadas ou largou do braço de Lisa, praticamente arrastava-a pelo corredor. Só parou diante do escritório de Wrath.
As portas estavam abertas então eles foram entrando. O último foi Butch.
Não estava acontecendo. Não era real. Era isso, encontrava-se no meio de um pesadelo e iria acordar a qualquer minuto era só uma questão de tempo. Então sentiu o sangue quase em seu tornozelo e retornou a realidade cruel.
Havia um homem com cabelo militar sentado em uma cadeira esverdeada, outro com o rosto marcado por uma cicatriz horrível encostado na lareira, mais um com cabelos multicoloridos apoiado num sofá de couro de dois lugares e junto dele um loiro que lembrava um ator de Hollywood, simplesmente lindo.
Dos seus sonhos Lisa reconheceu apenas o homem de óculos escuros e cabelos longos como sendo o Rei. Butch acomodou-se em outro sofá e V. ficou plantado em frente à porta de entrada mesmo estando fechada, deixando-a só no meio do escritório.
– Aqui está ela, meu Senhor, como pediu.
Encontrava-se acovardada. Eram sete homens a olhando, a examinando como se tentassem decifrá-la. Homens... não! Vampiros. Sentiu-se nua. O que fariam com ela? Tentou esconder o sangue que escorria por sua perna e já alcançava o sapato. Um calafrio de morte sombreou seu corpo e suas mãos começaram a tremer. Tentando contê-las cruzou fortemente os braços e baixou o olhar fixando-o no tapete.
Wrath foi quem questionou.
– Então, Lisa Helygor Barclay, conte como sabe tanto sobre o nosso mundo.
– Sonhos...
Sua voz não passava de um sussurrar e não conseguiu levantar o olhar para responder.
– Há quanto tempo isso ocorre?
– Uns dois... anos.
– Está me dizendo que sonha conosco?
– Só com alguns.
– E quem são eles?
– V., Butch... você.
Vários comentários soaram ao mesmo tempo, mas Wrath levantou a mão e pediu silêncio. A temperatura começou a cair na sala, mas sua voz continuava implacável.
– Sabe quem eu sou?
– Sim... o Rei.
– E sua mãe?
Ela estranhou a pergunta, mas no fundo sabia que eles já tinham revirado sua vida. Só restava saber o quanto.
– Está morta. Morreu em 2010.
– Ela também tinha sonhos?
– Não... acho... que não. Ela era... era... – não pronunciaria tal palavra. – era... doente.
– Existem anotações no prontuário médico que remetem ao nosso mundo. O que me diz disso? E olhe pra mim enquanto falo com você.
Lisa levantou seu rosto, perplexa. Todos ali conheciam sua história de vida, talvez até já soubessem as respostas, talvez a estivessem testando. Não suportaria aquele interrogatório por muito mais tempo, iria sucumbir ao terror e a repugnância. Olhou somente na direção de Wrath, buscou a pouca coragem que ainda lhe restava e continuou.
– Teve acesso ao prontuário de minha mãe? Como?
– Apenas responda a pergunta.
– Tenho o direito de saber.
– Não tem direito algum — retrucou soberano — Agora responda!
– Eu não sei.
– Não sabe... e quanto a mim? O que eu fazia em seu sonho?
– Sonhei com você apenas uma vez... mas... foi estranho porque... ao seu lado... Oh Deus...
Levou as mãos ao rosto escondendo-o e balançando em sinal de negativa.
– Continue — Wrath falava com austeridade, mas sua voz saia baixa e controlada.
– Ao seu lado... tinha... um dragão. Quero dizer... parecia um dragão. Faz muito tempo... eu não me lembro direito.
Vishous desencostou da porta, deu alguns passos na direção dela e perguntou.
– Não se lembra ou não quer se lembrar?
Por puro instinto de proteção Lisa recuou até bater suas costas na lareira, mais alguns centímetros e seu corpo tocaria o homem com a cicatriz no rosto. Acuada como um animal deu dois passos para frente, não sabendo que local ocupar no pequeno espaço reservado para o seu corpo. Naquele momento o desespero a atacou. Arrebatada por tal sentimento as palavras escaparam por sua boca e saíram em um tom de voz de ódio e desafiador.
– Gostaria de não me lembrar de nada do que diz respeito a você V. ou a qualquer um aqui. Nunca soube que eram... eram vampiros, até esta noite, até você me ameaçar em minha própria casa e me mostrar suas presas.
– Baixe o tom de voz mulher, está na presença do Rei.
– Ele é Seu Rei. Para-Mim-Ele-Não-é-Nada — ela fez questão de sublinhar vagarosamente cada palavra.
As velas lançaram labaredas como se estivessem vivas. O lustre acima de sua cabeça balançou com o rugido emitido por V., sua ira era tão tangível que podia ser sentida por todos. Apertou seus dentes até rangerem e rápido como um raio, atacou-a.
– Não!
Zsadist que estava mais próximo tentou impedir, mas não conseguiu. O tapa acertou o rosto de Lisa com tamanha intensidade que ela foi jogada ao chão batendo a cabeça contra a mesa de Wrath.
Imediatamente Z. segurou Vishous aplicando-lhe uma chave de braço. Butch também pulou sobre ele segurando-o duramente. Tohr tentou se levantar, mas o Rei colocou uma mão em seu ombro indicando que permanecesse onde estava.
Wrath esmurrou a mesa, olhou para Phury e o viu debruçado sobre a humana. Apesar de permitir que o Irmão ajudasse Lisa a se levantar, não demonstrava piedade alguma. Porém precisava colocar ordem naquela balburdia.
– Está completamente louco? Você perdeu o juízo?. Caralho o que pensa que acaba de fazer. V.? — os gritos do Rei ecoavam pela mansão.
– Essa vadia não tem respeito.
– Cale-se e afaste-se dela, isso é uma ordem.
Wrath circundou a mesa e aproximou-se de Phury que erguia Lisa do chão. Nenhum deles lhe perguntou se estava bem... é claro que não, iriam matá-la no próximo minuto, tal pergunta não cabia no contexto, pensou ela.
Tinha o lado direito do rosto coberto por sangue devido a um corte no supercílio. Aturdida pelo golpe e não enxergando claramente devido a quantidade de sangue sobre seu olho, ela sentiu a proximidade do corpo do Rei.
Deu-se por vencida, game over, acabou... Derrotada e com um buraco negro em sua alma, num gesto de desistência , ela pousou sua mão sobre o peito de Wrath. Ele recuou e pegou a mão afastando-a, mas ela não desistiu.
– Faça. Por favor, faça agora.
Todos sabiam qual era o objetivo da apelação. Ela estava pronta para morrer. Tinha aceitado seu destino e nenhum dos Guerreiros ali presentes lhe pouparia.
– Quando entrou nesta sala ainda tinha esperança de sair com vida, pude sentir. Porque agora desistiu, o que mudou?
– Nada. Nada mudou... Você sabe, todos aqui sabem. Leram o prontuário de minha mãe sabem o que ela pensava ao meu respeito e também sabem que me queria morta. Então... nada mudou. Apenas acabe com isso de uma vez por todas.
Bateram nas portas do escritório com força.
– Agora não – alguém respondeu com aspereza.
Giraram a maçaneta pelo lado de fora e as portas se abriram. Lassiter o anjo caído entrou.
– Wrath, desculpe. Não interromperia uma reunião da Irmandade se não fosse de extrema importância.
– Dê o fora daqui — gritou Vishous, ainda seguro por Zsadist e Butch. Raghe estava posicionado ao lado deles, caso V. enlouquecesse de vez.
O anjo sabia o que era ter inimigos. Tinha muitos e alguns procuravam por ele incessantemente. Em sua longa existência já tinha guerreado por vários motivos até que deixou tudo para trás.
– Jesus Cristo, o que fizeram com ela?
Lisa olhou para ele com espanto, pois não possuía presas, mas claro que não poderia ser simplesmente um homem comum vivendo entre eles.
– Diga o que quer Lassiter, não estamos para brincadeira — Wrath aproximou-se do anjo pronto para lutar.
– Esqueceram isso sobre o aparador da entrada principal.
O antigo baú de Lisa. Ele esticou as mãos e o ofereceu ao Rei, colocando-o em cima da mesa, enquanto os Irmãos se agitavam pela falta de sensatez do anjo por algo tão dispensável no momento.
– Está nos interrompendo por isso? — perguntou Tohr revoltado.
– Não. Interrompo porque sei o quê e quem ela é! — respondeu Lassiter calmamente, dirigindo-se para perto de Lisa.
Wrath olhou para a caixa e se reconheceu no entalhe esculpido na tampa e ao seu lado, o dragão só poderia ser a maldição que Raghe carregava. Assim como tinha um temperamento explosivo também sabia ponderar e aquele era o momento de ponderação. Sentou-se em seu trono e impôs calma ao lugar.
– Irmãos, vamos todos escutar o que Lassiter tem a dizer. Quanto a você V. controle-se ou saíra desse escritório agora. Você me entendeu?
– Sim, meu Rei.
– Z., Butch podem soltá-lo – virou-se para Lassiter e prosseguiu – Agora é a sua vez, fale!
O anjo guiou-a até o sofá de couro onde Phury estava escorado e pediu para sentar, como ela hesitou, ele fez um sinal para que o vampiro se afastasse.
– Pronto, acredito que agora está melhor. Tome trouxe uma toalha comigo. Que tal limparmos um pouco desse sangue?
Lisa estava em choque. Não esboçou reação nenhuma. Ele pegou a toalha e começou a passar sobre seu rosto delicadamente. Foi então que ela desmoronou. Primeiro um grunhido e depois uma tormenta de lágrimas. Com um movimento rápido ela puxou a toalha branca, agora manchada com seu sangue das mãos do homem que parecia ser seu salvador, pelo menos naquele momento, e escondeu o rosto. Encolhida no canto daquele sofá parecia menor do que realmente era.
Os segundos passaram e apenas seus soluços eram ouvidos, ninguém interrompeu ou disse qualquer coisa sobre o choro. Por fim se acalmou, quando baixou a toalha, percebeu que Lassiter estava sentado ao seu lado.
– Vou lhe fazer algumas perguntas, ok?
Ela não se mexeu, estava totalmente enrijecida.
– Olhe pra mim... e balance a cabeça se estiver me entendendo. Não é um interrogatório, só algumas perguntas.
Lisa balançou a cabeça afirmativamente.
– Ótimo. Seu nome é Lisa Helygor Barclay e você nasceu em três de dezembro de 1984?
– Sim.
– Vai fazer 28 anos?
– Sim
– Conheceu seu pai, Lisa?
– Não.
– Você sabe que no dia em que nasceu ocorreu uma tragédia mundial?
– Fiquei... sabendo há pouco tempo.
Ele sorriu para ela, passando confiança procurando sempre falar amigavelmente e continuou.
– Sabe qual a origem do seu sobrenome Helygor?
–Não.
– Como conheceu Adamo Smith?
– Ele era funcionário do orfanato onde morei depois que minha mãe... que ela... — as palavras não saiam, as memórias eram dolorosas e vergonhosas.
– Lisa, está tudo bem, já entendi, depois... que ela adoeceu.
– Sim.
Meu Deus havia compaixão e benevolência na voz e atitude dele – pensou ela.
– Wrath, por favor, abra o baú. Tem um caderno...
Ele foi bruscamente interrompido pelo nervosismo de Lisa.
– Lassiter... esse é seu nome não é?
–Sim.
– Não deixe que ele destrua as coisas que estão no baú. São muito importantes pra mim... por favor.
– Hei... calma... calma, você pode falar com Wrath ele é justo e...
– Não! Prefiro falar com você – ela agarrou-lhe a mão como se estivesse caindo num precipício e apertou-a forte – Não quero falar com nenhum deles.
Wrath abriu o baú e encontrou o caderno de capa vermelha, juntamente com uma boneca desgastada pelo tempo. Provavelmente era tudo que sobrara de sua infância, pensava ele enquanto o folheava.
– Não vou destruir nada, mulher. Prossiga anjo.
– Você é um anjo? Veio me ajudar? — surpresa e maravilhada ela sentiu uma pequena pontada de esperança.
– Sim. Sou um anjo, mas depois falaremos sobre isso... agora quero saber quem escreveu o último capítulo da estória no caderno.
– Não sei. Eu perdi a caixa em um incêndio depois que Adamo morreu e quando me devolveram já tinha sido escrito.
– Wrath, algum dos Irmãos poderia ler o parágrafo em voz alta?
– Eu lerei — V. se aproximou do Rei pegou o caderno e começou a leitura com voz alta e clara.
A cada 300 ou 400 anos nasce no mundo uma mulher marcada pelas trevas. Talvez ela nunca descubra que veio do fogo e que ele é o seu elemento. Seu poder pode ser assustador e se manifesta de forma rápida. O fogo não é um elemento para os fracos, mas ela jamais será fraca. Ela não controla apenas o clamar do sexo e o poder de enfeitiçar multidões. Ela também tem poder sobre a chama da divindade que brilha em todo ser vivo.
Essa mulher pode ler sua alma porque a luz que habita nela é energia gerada pelo fogo. Comanda os leões, as serpentes e também os magníficos dragões. Seu nascimento é anunciado sob a forma de uma grande tragédia humana. Quando sua transformação estiver completa terá o profundo conhecimento dos quatro elementos.
Seus sonhos serão habitados por um Guerreiro. Mas o Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28.
Quando terminou a leitura todos sabiam que a mulher era Lisa, não restavam dúvidas, só alguns pontos em aberto, que Lassiter começou explicando.
– Lisa, escute com atenção. Você é essa mulher. Seres como eu a chamam de mestiça, ou melhor, ser híbrido. São filhos concebidos por humanas, mas cujos pais são anjos ou demônios.
– E no meu caso é um...
– Sim. Seu pai é um demônio. Seu nome é Abigor ou Eligor, como era chamado na Babilônia e você carrega seu nome, só que com grafia moderna. Em vida foi um necromante de grande poder. Depois tornou-se o comandante supremo dos exércitos de Satanás. Existe uma lenda nos Céus que diz que na Batalha do Juízo Final ele matará muito anjos antes de perecer diante do Arcanjo Miguel.
– Eu não entendo... foi ele quem escreveu no caderno?
– Não, foi Adamo.
– Impossível ele já havia falecido.
– Não, Lisa. Adamo era um guardião. Seu guardião. Você é uma feiticeira.
– Não! Não conheço feitiços, não pode ser...
– Deixe-me terminar. As últimas feiticeiras que se tem registro morreram enforcadas em 1659, foram Giulia Tofana e sua filha Girolama, em Roma. Mas a linhagem era originária de uma pequena cidade que não existe mais no norte da Itália, a cidade de Adamo. Essas feiticeiras não eram híbridos. Mas eram descendentes de um, por isso morreram. Um legítimo híbrido, após sua mutação torna-se imortal.
– Deus... isso não existe — ela murmurou
– Olhe ao seu redor. Está numa sala cercada por vampiros e com um anjo ao seu lado. Acha realmente que não existe?
Ela fechou os olhos e respirou profundamente, enquanto ouvia Lassiter.
– Híbridos são seres raros, porque depois da relação sexual o demônio drena a energia da mulher para se alimentar e voltar para o inferno, na maioria das vezes deixa-a morta. O curioso é que quando se apaixonam não conseguem drená-las e como conseqüência ocorre à gravidez. A criança quase nunca sobrevive. Geralmente uma em cada 300 ou 400 anos consegue essa dádiva e segue vivendo entre os humanos. Após o nascimento são designados guardiões para acompanhar e proteger, mas cada um deles só pode permanecer por um período de seis anos. Você viveu com sua mãe até os seis anos, não foi?
– Foi, mas... espere, você disse que guardiões são para proteger, mas minha mãe tentou me matar. Por quê?
– Provavelmente sua mãe nunca soube o que seu pai era realmente e por amá-la, ele abriu mão da criança. Não sei como ou quem revelou o segredo a ela, mas isso não importa. O fato é que você teve dois guardiões. Sua mãe e Adamo. A corrente foi quebrada nesse ponto.
– Adamo também era um demônio?
– Talvez, não necessariamente. O fato é que você deveria ter três guardiões. Cada um deles cumpria seis anos. O que formaria o número da besta 666. Esses números somariam 18 que em idade é chamado “eclosão”. Após esse período os próximos 10 anos seriam de aprendizado, até que por volta dos 28 anos acontece o “despertar”, sua mutação.
– Despertar? É aí que eu me tornarei maligna como dizia minha mãe? É isso, não é? — suas lágrimas voltaram. Só que desta vez ela não as escondeu. A tristeza dela preencheu cada espaço do escritório.
– Por sua mãe ter ficado tão abalada, acredito que seu pai a possuiu diretamente, isto é, não incorporou no corpo de outro homem. Talvez fossem namorados, talvez tivessem um relacionamento, talvez por amá-la, ele nunca lhe contou o que era. O que está claro é que você deve ter herdado alguns poderes, como a capacidade de contatar com as esferas demoníacas e invocar os mortos.
Não. Aquilo que ele descrevia não se aplicava a ela. Nunca fora má, nem sequer sentia-se atraía por ocultismo e seu pai não era um demônio, não podia ser. Suas idéias e pensamentos ocupavam um lugar maior em seu cérebro do que podia comportar. Um cansaço anormal possuía todos os seus músculos, reparou que ainda não soltara a mão de Lassiter e que suas entranhas exigiam que continuasse assim.
– Você não respondeu... eu me tornarei maligna?
– Não sei. O que eu sei é que pela data de seu nascimento você é guiada pelo elemento fogo e como no texto que V. leu para nós, o seu poder, Lisa, poderá ser assustador. Acredito que é por esse motivo que você tenha sonhos vinculados a Vishous, a mão dele é energia pura. Se ele pode ser mortal para seus inimigos é também uma benção para... para outras coisas que serão explicadas a você se for possível.
– Eu sei... Já vi a luz que ele produz, sei lá... envolve Butch, por algum motivo ele parece ser curado do qual que o possui.
Wrath se remexeu em sua cadeira e interveio.
– Lisa, conte o que sabe realmente sobre nós — era uma ordem, só que com voz branda.
Apesar de sua raiva e ressentimento por todos os vampiros ali presentes, a prudência mandava que ela respondesse com civilidade e respeito.
– Com o Senhor, foi somente o sonho que já mencionei. Conversava com um dragão e nos olhos brancos do animal percebia-se que ele entendia e considerava suas palavras, mas infelizmente não me lembro o teor da conversa. Sobre Butch, eu o vi bebendo em um bar e depois estava em numa sala... havia uma mesa de sinuca, ele estava sentado num sofá envolvido pela luz de... seu amigo – ela baixou o olhar.
Cacete, agora teria que falar sobre V. Tinha tantas imagens dele em sua memória. Ele não ia gostar nada daquilo e provavelmente se lançaria contra ela novamente.
Sentindo seu estado de espírito, Wrath resolveu logo a questão.
– V. quero sua palavra que vai ouvir o que ela tem a dizer sem interromper e muito menos agredi-lá. Ou é isso ou pode sair daqui agora.
– Sim.
– Sim o quê? Quero sua palavra.
– Tem minha palavra, Senhor.
Mesmo contrariando seus instintos V. cedeu e obedeceu ao seu soberano. Porém, percebeu a leve movimentação dos corpos de seus irmãos Raghe e Zsadist aproximando-se dele casualmente. Pousou seus olhos sobre ela e a encarou serio, sabendo que ficaria exposto diante de todos.
– Pode falar Lisa. Ele não lhe fará mal, já deu sua palavra. E a palavra de um Guerreiro é indiscutível e marca de honra – disse o Rei.
Antes de começar a dizer tudo que sabia olhou para o anjo sentado ao seu lado e procurou em seu olhar a valentia que precisava. Ele fitou seus olhos decifrando o que ela precisava e apertou-lhe a mão encorajando-a.
– Ele tem o dom das visões, mas há algum tempo está cego. Tem encontros... quero dizer, tem uma cobertura no Edifício Commodore e... sei... as tatuagens são... o corpo dele... por Deus não consigo prosseguir com isso...
– Diga tudo que sabe sobre mim. Eu preciso saber e entender o porquê – V. falou baixo tentando manter-se calmo e centrado – Não há nada para esconder, aqui somos todos Irmãos e o anjo... bem ele é de confiança.
Afinal porque encontrava-se tão aflita em dizer tudo que sabia sobre ele? Não era possível, mesmo depois de ser agredida por aquele animal ainda queria preservá-lo de um constrangimento maior? Realmente tinha perdido a sanidade, estava totalmente louca como sua mãe que ousou ter um filho com o demônio - pensou ela desiludida. Então olhou para o pulso onde repousava a letra “V” tatuada e se lembrou que tudo se resumia em firmeza de espírito. Não podiam culpá-la de ser quem era, mas poderiam puni-la por isso e no mundo onde se encontrava as regras eram outras. Olhou direto para os olhos diamantados, aqueles olhos que tanto sonhou encontrar e que agora não expressavam nada por ela. Mansamente começou a falar com ele, para ele.
– Sei que você foi criado em um acampamento de luta ou guerra e é filho de Bloodletter. Suas tatuagens foram feitas para servirem como um aviso de perigo. Foi marcado no rosto por causa das visões, na mão, que veste a luva, por causa do poder de destruição e na região da virilha porque seu pai não queria que você procriasse, por esse motivo é parcialmente castrado. Eu pude ver claramente a cena, só que você estava diferente como se na época ainda fosse um adolescente. O que me levou a fazer o videoclipe é porque além da curiosidade voraz sobre você realmente existir, eu o vi completamente desnorteado, parecia estar destruído e segurava fortemente um medalhão em suas mãos. Você estava em um beco, perto da Rua Trade, era tarde da noite e um fantasma... eu não sei o que era aquilo... mas sei que não estava vivo... ele surgiu na escuridão, houve uma luta feroz e você o matou... eu não entendo isso... como se mata uma coisa que já está morta? Bem... seja lá o que era aquilo você enfiou uma faca no peito dele e aconteceu um clarão.
– Jesus... ela sabe tudo sobre você — falou Butch com olhar arregalado.
– O tiro... um tiro acertou seu peito... eu vi quando sua camisa ficou vermelha e você caiu no chão. Eu tinha... que encontrar você, tinha que lhe avisar. Contar o que eu sonhei, alías... esse sonho se repetiu ciclicamente. Eu... eu sei que vai acontecer... sei que é numa noite fria. Então se eu o encontrasse... eu... é... você teria uma chance... de talvez evitar o pior, de salvar... sua vida – ela olhou para o lado encontrando o Rei.
– Jamais poderia supor que existisse outra raça, sequer um mundo paralelo... minha intenção nunca foi lhe causar contrariedades ou ser sua inimiga... eu não podia imaginar que eu sou... indigna... de... viver.
– Você não é indigna – Lassiter a interrompeu – E tão pouco inimiga dos vampiros. Se for inimiga nata de alguém aqui, esse alguém sou eu. As Escrituras Sagradas colocam claramente a divisão entre anjos e demônios, desde a rebelião de Lúcifer. Se bem que além de não sentir uma áurea maligna em você... não sou mais tecnicamente um anjo do primeiro escalão, não depois da minha queda.
Enquanto Lassiter continuava a falar, V. desabava emocionalmente, com seu corpo ereto e atitude altiva ninguém dentro daquela sala percebeu tal consternação. Encontrava-se mergulhado em lama espessa como num pântano. Droga, ela queria lhe avisar sobre um tiro, uma provável emboscada na Rua Trade que salvaria sua vida. É certo que havia fantasiado coisas com ele, mas isso não lhe dava o direito de tratá-la com lixo e pior tê-la agredido gratuitamente. Porém, ele não sabia de toda aquela estória sobre demônios, mas e daí... ela também não. Puta que pariu de todas as merdas que já tinha feito em sua vida, poderia colocar aquele momento como mais um de seus grandes erros. O arrependimento começava a calcinar suas entranhas.
– Essa é a parte boa? Saber que sou inimiga? Puxa, agora me sinto bem melhor – ela gesticulou com as mãos abertas diante do corpo, em uma atitude de total absurdo – Sou sua inimiga, mas você não quer me matar e não sou inimiga de todos esses vampiros, mas eles querem me matar... — houve um silêncio — Lassiter, a frase do caderno... bem, diz que as trevas chegarão aos 28, isto é, quando eu completar 28 anos?
– Aos 28 se dará o “despertar”, como já falei e se você for à feiticeira poderosa. que eu acho que é. será capaz de telecinésia, que é o dom de mover objetos. Mas o que mais me preocupa é o poder que você já exerce sobre as pessoas e que provavelmente se acentuará.
– Poder? Que tipo de poder?
– O de encantar multidões. Hoje você é poderosa pelo seu canto e sua energia. Tornou-se símbolo sexual, é idolatrada e adorada. Mas daqui a alguns meses será capaz de envolver pessoas no reino físico e emocional, comandá-las. As feiticeiras nascidas do elemento fogo tem o poder da cura, dominam a energia do espírito e a chama da vida, mas também andam de mãos dadas com a destruição. Não é à-toa que pessoas como você sejam temidas e caçadas até a morte, seu dom também é sua perdição.
– Chega – disse o Rei – Continuaremos essa reunião sem a presença dela. Coloque-a para dormir, Lassiter.
Ela não teve tempo para esboçar sequer uma reação. O anjo tocou-lhe a testa e instantaneamente seu corpo tombou adormecido no sofá.
– Agora a leve para o quarto que mandei preparar, caso ela precisasse ficar, tranque-a e retorne para cá.
– Eu levo a mulher, Wrath.
– Não, não leva V. Vai ficar exatamente no maldito lugar onde se encontra e tente não me irritar mais do que eu já estou. Enquanto não chegarmos a uma conclusão do que ela representa para o nosso mundo, ficará isolada de tudo e de todos. Não quero nenhum contato com ela a não ser do doggen que levará a comida e sempre um de nós supervisionará a entrega. Estamos entendidos?
Houve um concordar geral e unânime no instante que Lassiter saia pelas portas do escritório carregando Lisa em seus braços profundamente adormecida.
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