Notas iniciais
Olá minhas amigas, leitoras, confidentes, parceiras...

Eu sumi, não é mesmo?
Sim. É verdade, mas a culpa foi da gripe horrorosa que me pegou. Ela se apossou do meu frágil corpo e me transformou em um monte de nada febril. Uma semana de agonia habitando um corpo totalmente dolorido e inútil. Foi trágico.

Todavia, não vou ficar chorando pitangas. Vamos ao que interessa!!!
Aqui está o continuar da história de Lisa e Vishous... o momento esperado.
Ahhhhh... eu sofri, eu chorei... eu me emocionei.
Espero que vocês todas sintam isso também, porque para mim tudo foi tão intenso de escrever e viver.
Sim... eu vivi o momento juntamente com Lisa. Eu me sentia do lado dela (observando passivamente).
Uma ótima leitura!
Um grande beijo!
Fênix

A dor era excruciante, estilhaçava-a de dentro para fora. Os tentáculos impiedosos tomavam todo o seu ventre. Uma queimação atingia sua virilha e líquida, escorria por suas pernas.

Com o corpo curvado, ainda tentou se apoiar na mesa de Wrath, quando a terrível pontada a subjugou, porém não foi rápida o bastante em sua ação. Lisa desabou ajoelhada em cima do tapete persa que aos poucos se manchava com uma mistura de sangue e líquido amniótico.

O cheiro do sangue fresco inundou o escritório e espalhou-se rapidamente por toda a mansão. Talvez isso tenha acontecido porque os gritos histéricos e descompassados rugiam com a mesma ferocidade que o escorrer avermelhado dominava o piso. Lágrimas banhavam o rosto transfigurado e toda a sua força e esperanças foram arrancadas de sua existência. As mãos envolviam a barriga em uma tentativa dramática de conter os acontecimentos.

– Precisamos levá-la para a enfermaria. – disse Beth tentando levantar Lisa do chão.

– Mas quem fará o parto? – perguntou Julia com olhos arregalados.

Wrath percebeu a linha tênue que as fêmeas se encontravam. Mesmo não enxergando, ele conhecia todos os cantos da casa e tomou para si a responsabilidade. Chamou Butch ao telefone, mas não obteve nenhuma resposta.

O Rei sabia que não haveria resposta, pois tinha muita experiência no campo de batalha e no momento seus Irmãos deveriam estar ajudando o ferido, no caso Vishous, e ele rezava a Virgem Escriba para que o Guerreiro ainda estivesse vivo. No entanto, agora, precisava agir com total sensatez. Aproximou-se das fêmeas e curvou-se para pegar Lisa do chão e erguê-la em seus braços para levá-la a enfermaria.

– Lisa, deixe-me ajudá-la – disse ele com o cuidado de pronunciar as palavras calmamente e em tom baixo.

– Ele está morto – ela ergueu os olhos enevoados em sua dolência e ao ver o rosto de Wrath estranhou a mansidão que lhe estampava a fisionomia.

Isso foi uma pergunta ou uma afirmação? Questionou Wrath para si mesmo, não deixando suas emoções transparecerem. Quando finalmente ficou de pé com Lisa em seu colo, Tohr adentrou ao escritório.

– Eu a carregarei meu Senhor.

Ele se aproximou e com cuidado colocou as mãos em torno de Lisa, porém não conseguiu substituir os braços de Wrath pelos seus. A Virgem Escriba pairava diante deles.

Beth fez uma reverência e imediatamente Tohrment a seguiu.

– Não temos tempo para isso. Se bem que aprecio o respeito – o capuz de seu manto negro estava levantado e seu rosto não podia ser visto – A mulher que está grávida de meu filho necessita de minha ajuda.

– Não – Lisa pronunciou gemendo a única palavra que ela não poderia dizer. Feito isso, agarrou-se aos fortes músculos dos braços do Rei encostando a cabeça em seu peito largo. Estava perdendo as forças, sentia-se fraca.

– Não pode me negar nada, humana. Vou deixar passar essa desfeita por que não sabe quem eu sou e o que represento. Não passa de uma ignorante diante dos nossos costumes – retrucou a Virgem Escriba em toda a sua onipotência.

Lisa sentiu uma pontada de raiva consumir sua dor. Ah, sim... a raiva era bem vinda, era excepcionalmente melhor que a dor. A raiva era tão odiosa que se tornou libertadora e jogou em seu organismo a adrenalina necessária para poder abrir seus olhos e encarar a Deusa da Raça de igual para igual.

– Conheço seu tipo. Tive uma mãe como você... ausente. Sempre preocupada com um “bem maior” e nem um pouco com os filhos – dito isso ela segurou a carne dos braços do Rei em suas mãos que se tornavam punhos para não gritar de dor – Se quer fazer algo por mim, busque por Vishous.

Julia deu um passo atrás, o medo estampava seu rosto. O ar do escritório mudou. Tornou-se carregado e sombrio, era difícil respirar. O oxigênio pesava nas respirações contidas e um frio torturante invadiu o ambiente.

– Seu filho vai nascer e EU estarei aqui para fazer com que ele venha em segurança.

– Não toque nela – Legassa falou ameaçadoramente entrando no escritório – Morrerei por Lisa, ela é minha responsabilidade e não permitirei que a toque sem o seu consentimento. Afaste-se.

Lassiter se posicionou ao lado de Wrath como se fosse etéreo, como se fosse uma névoa. Tão sutil que ninguém notou seu deslocamento.

– Pensa que me intimida, demônio inútil?

– Não tenho essa pretensão – respondeu Legassa firme – Porém sei que se me matar... ganhará novos inimigos e sua raça não precisa disso.

– Acha que sua vida é tão preciosa ao ponto de levantar as Legiões Demoníacas contra mim? – Um pequeno riso escarioso rugiu no ar. A Virgem Escriba era implacável em suas colocações.

– Não. Minha vida é fútil, nem um pouco lamentável – ela fez uma pequena pausa para frisar a próxima frase – Porém Lúcifer é narcisista e Eligor, o pai de Lisa, sabe que quanto mais aliados deste lado melhor. Ele saberá atiçar Lúcifer o suficiente para que Ômega seja mais um brinquedo útil para seus propósitos. Por enquanto ele só se preocupa com os humanos... acredite, você não gostaria de ter Lúcifer em seus calcanhares e muito menos interessado em sua raça. Então eu lhe peço, deixe que Lisa decida seu futuro. Não vamos cruzar a linha que divide as espécies e suas conflagrações.

Lisa gemeu baixinho e tornou a apertar as mãos nos fortes braços de Wrath, cravando-lhe as unhas em agonia e naquele momento de tensão só ele sentiu descer por seu corpo o sangue que escorria e que era tão vital a sua sobrevivência dela e do bebê.


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– Vishous...

O grito foi tão rápido quanto o salto que Butch deu em direção ao seu amigo. Porém dessa vez o disparo mudou de direção e acertou a perna do tira, na altura do joelho. Ele caiu ao chão, deixando seu sangue manchar a neve e por dois segundos, tempo que ele demorou para se colocar em pé novamente, o terceiro disparo ressoou no ar.

– Porra! – Butch sacou sua automática e começou a atirar na direção de onde os disparos foram efetuados.

Vishous tinha plena consciência de que não podia mexer seu braço direito, ele simplesmente não respondia aos comandos de seu cérebro. O tiro tinha acertado em cheio seu ombro bem na junção com o braço e seus tendões desintegraram como gelo exposto ao sol.

Foi uma tremenda sorte Butch ter lhe chamado para falar ao telefone com Wrath. Caso contrário, se tivesse continuado parado onde estava, supunha que o tiro atingisse certeiro seu coração. Viu tudo se desenrolar rapidamente como um filme em alta definição e ficou furioso ao ver o tira tombar ao chão. Porém, antes que pudesse revidar o ataque, a silhueta de um homem surgiu a sua frente e caminhava em sua direção. A pistola brilhou cintilando antes do próximo disparo. Esse o mataria sem dúvida alguma.

Ali estava acontecendo o milésimo de segundo que os estudiosos e cientistas pesquisam. Era o retrospecto de uma vida inteira perante a morte eminente. Na mente genial de Vishous, ele só conseguiu imaginar Lisa com a criança que ele jamais carregaria em seus braços.

Como era possível sentir falta de algo que nunca teve? Porém, era exatamente isso que ele sentia. Ele sentia saudade dos momentos preciosos que jamais viveria com sua amada e seu filho querido, sentia saudades de vê-lo crescer...

Tudo sempre foi verdadeiro, o pesadelo. Lisa estava certa, ele morreria ali e agora. Em uma noite fria de inverno, no meio da nevasca como ela tinha previsto. Instintivamente ele soube quando apertaram o gatilho e esperou o impacto sobre seu peito.

Vishous ouviu o som do disparo, mas não sentiu a bala atingi-lo, então abriu seus olhos e Eligor estava parado de costas para ele, como um muro de contenção, como um escudo de proteção.

– Você está bem? – perguntou Eligor virando-se e logo atrás, em segundo plano apareceu o rosto de Butch.

– Sim... acho que estou, mas...

Ele se pegou olhando para o peito de Eligor e o tira também olhava. Havia um grande buraco, só que o sangue que havia escorrido até abaixo do abdômen, começava a voltar. Percorria o caminho contrário. Subia pelos músculos e corria para dentro da caixa torácica. Aquilo era impossível... o orifício começou a empurrar, fazer pressão para fora e rapidamente cuspiu a bala amassada do corpo de Eligor. Logo em seguida a pele se fechou completamente e não sobrou sequer uma cicatriz no local.

– Não sou como vocês – o demônio explicou vendo a surpresa nos rostos dos vampiros – Eu já morri, quando era humano. Agora, é preciso mais do que armas comuns para matar o que eu me tornei.

Além dessa informação para processar, Vishous e Butch não sabiam o que pensar sobre os dois seres indescritíveis, de cor “magenta”, com enormes chifres torcidos e totalmente deformados, que espancavam o atirador com grande crueldade. Um deles havia arrancado com uma mordida, um pedaço de carne, perto do cotovelo e mastigava com extrema satisfação. O homem gritava de dor... um homem alto, negro.

– Nick. – chamou Vishous incrédulo.

– Caralho! É o segurança da Lisa – disse Butch.

Por um momento Eligor olhou para o humano.

– Sou mais do que isso, seus assassinos – gritou Nick ensandecido, enquanto se debatia – Vou matar todos vocês. Vou vingar Lisa. Isso não vai acabar assim.

Com um golpe, ele acertou a cabeça de um dos diabinhos carnívoros e conseguiu afastá-lo o suficiente para apertar uma única tecla em seu celular. Ninguém percebeu o leve toque quando o aparelho caiu ao chão.

– Mas o que é que está dizendo? – perguntou Eligor, enquanto o diabinho deformado voltava e mordia a mão de Nick arrancando-lhe um dos dedos com uma dentada. – Quem é você?

– Ele matou Lisa. Seus filhos da puta... me soltem – ele tentou se soltar debilmente – Eu matarei todos... todos. Não sobrará ninguém. Assassino.

Butch, V. e Eligor assistiam Nick se debater em desespero e numa escuridão sem fim. Vishous se aproximou de Eligor e começou a explicar, falando baixo.

– Ele acredita que Lisa está morta e que eu sou o assassino. Nick era amigo e segurança dela.

– O que fazemos agora? – falou Butch.

– Eu o mato e fim. Acabou-se o drama. – respondeu Eligor.

– Lisa não vai gostar disso – argumentou V. negando com a cabeça.

– Ela vai entender assim que eu lhe contar que o amigo ia meter uma bala bem no meio do seu peito e assim, acabar com as chances de criarem um filho juntos. Acredite, ela ainda vai agradecer pelo que fiz.

– Ele está certo Vishous – falou o tira – Deixe que Eligor faça o que acha ser correto.

Enquanto decidiam o destino de Nick, o cheiro de talco chegou aos narizes.

– V.? Está sentindo? – perguntou o tira.

– Sim, porra. Quantos Butch?

– Cinco, talvez mais...

Ele mal tinha terminado a frase e seis redutores fecharam à entrada do estacionamento. No meio daquela nevasca, não havia preocupação em ser discreto. As ruas estavam desertas por causa da baixa temperatura.

Aproximaram-se em um padrão de três, espalhando-se pelas laterais e logo acima de suas cabeças, no telhado da boate, notou-se mais quatro deles.

Vishous sentiu pela primeira vez em sua vida a falta que lhe fazia o “dom” herdado de sua mãe. Ele continuava lá, mas não respondia a seus comandos cerebrais por causa do ferimento no ombro. Mesmo assim se pôs em pé e assumiu posição de ataque, seguido por Butch.

Que dupla formavam. Estavam a ponto de tombar ao chão, mas a honra os empurrava para a Guerra. Era assim que tinha que ser. Era para esses momentos que eles foram duramente treinados e assim o fariam.

Os três redutores da direita avançaram alguns metros, dando tempo para os do telhado se posicionar em um lugar estratégico. Portavam pistolas com silenciadores para não chamar a atenção dos humanos e espalhavam-se rapidamente. Fechando um cerco perigoso.

– Tem algo errado – sussurou o tira para Vishous – Não acha estranho dez redutores juntos?

– Alguém os avisou. Sabiam que estávamos aqui.

Sem avisar o que ia fazer, V. saltou para frente de Nick, que continuava seguro nas mãos das estranhas criaturas e pegou o celular que estava caído ao chão.

– Vamos ver o que temos aqui – disse o vampiro ameaçadoramente.

Vishous procurou por chamadas recentes e discou o último número listado. Imediatamente ouviu-se o toque de um celular, vinha do telhado.

– Como vai Nick? – a voz irônica do Sr.H veio do alto, carregada de escárnio – Vejo que está numa situação difícil.

– Seu idiota! – rosnou V. – Eles são os culpados por tudo que Lisa passou – E socou o rosto do traidor.

Nick arregalou os olhos atormentado pela afirmativa. Não! Não podia ser verdade. Ele não se enganaria de tal maneira. Como em um relâmpago ele voltou ao dia em que foi ao Hospital St.Elizabeths procurar por informações sobre a mãe de Lisa e então as palavras de Anne, a mulher que ele ainda amava, soaram altas e claras em sua memória:

“O Guerreiro da Luz hesitará e a maligna revelará as trevas na era 28” – Se o guerreiro hesitará, quer dizer Nick... que provavelmente ele não vai matá-la!

O que eu fiz! – Pensou Nick em agonia, porém agora era tarde demais. Estavam cercados e provavelmente todos morreriam.

O primeiro ataque veio do lado esquerdo de um redutor completamente desequilibrado que exibia um enorme alargador em seu lábio inferior e olhos pintados de preto. Como um pitbull treinado para matar ele avançou sobre Butch como uma faca militar serrilhada, com agilidade o ex-policial girou o corpo por sobre seu joelho que não estava ferido, ficando de costas para seu agressor. Empunhando uma adaga em uma das mãos ele cravou-a profundamente, até o cabo, e empurrou-o na direção de Vishous que imediatamente entendeu o que deveria ser feito. Com a mão esquerda ele puxou uma adaga do coldre e administrou um golpe preciso no peito do redutor. A luz iluminou o estacionamento e serviu para atiçar a ira dos demais que fecharam ainda mais o cerco. Um tiro passou muito perto, zunindo nos ouvidos de V. A coisa se complicava a cada segundo.

Eligor juntou-se aos dois Guerreiros tentando protegê-los e se preparou para lutar, quando tiros começaram a soar atrás deles. iAm e Trez derrubaram dois que estavam no telhado, os irmãos estavam completamente armados e prontos. Então um dragão com escamas verdes surgiu atrás da fileira de redutores que avançavam determinados. O urro da besta fez com que alguns morto-vivos ficassem paralisados, o que foi um enorme erro. O animal avançou e com suas garras afiadas estraçalhava tudo pela frente. No meio do frenesi a silhueta de Tohrment surgiu. Ele passou pela batalha e foi direto ao encontro de Vishous.

– Tem que vir comigo agora, meu Irmão – disse ele sem demora.

– Estamos no meio de uma luta – respondeu V.

– Pode se desmaterializar? – insistiu Tohr.

Um redutor foi jogado aos pés deles e quem surgiu para apunhalar o redutor foi Qhuinn. John e Blaylock estavam logo atrás. O Sr.H não acreditava no que via, mais uma vez estava perdendo a chance de matar aqueles filhos da puta e provar seu valor para Ômega. Há apenas alguns segundos atrás, tinha tudo sob controle e agora a vitória lhe escapava das mãos inexoravelmente.

Em um ato desesperado, já que dos dez redutores que ele havia convocado só dois estavam ainda em pé e temendo por sua existência mirou em seu alvo e apertou o gatilho justamente quando o vampiro de cicatriz no rosto jogava-se em cima dele. O tiro acertou o corpo de Vishous, atravessando o braço já ferido, no bíceps.

Foi o último ato do Sr.H. Zsadist primeiro quebrou-lhe a mão que segurava a automática, depois lhe rasgou a garganta, abrindo-a de fora a fora e por último fincou a adaga no meio do peito. Os outros dois redutores foram engolidos quase que inteiros pela besta. O confronto enfim tinha terminado.

– Vishous, outro tiro... – disse Tohr enquanto escorava o peso do Irmão – Vamos...

– Por favor, estou bem. Esse braço já estava todo fudido mesmo – V. tentou se soltar do amparo oferecido – Ainda posso andar.

– Você pode até estar bem, seu teimoso de merda, mas Lisa não está. É por isso que estou aqui.

A cor sumiu do rosto de V. e ele sentiu seus joelhos cederem apesar de não comentar o fato.

– O quê...

– O bebê. A bolsa rompeu. Ela pensa que você está morto, ouviu o tiro pelo telefone. Não aceita ajuda de ninguém. – falou Tohr, omitindo que a hemorragia estava cada vez pior – Pode se desmaterializar?

Sua resposta foi o desaparecimento do macho. Eligor também sumiu ao ouvir a notícia.



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– Lisa, faça força. Deixe a criança nascer – pedia Elena desesperada – Logo Vishous estará aqui.

Em meio a pensamentos confusos, a uma hemorragia constante e a dor que lhe assolava o ventre, Lisa flutuava no terror de ter perdido seu amado. Ela sempre sonhou em tê-lo ao seu lado para o parto do filho deles, para viverem a vida. Agora não conseguia discernimento suficiente para compreender o pedido daquela bondosa e preocupada enfermeira. O que fazer? No meio do furioso furacão da dúvida, tanto a vida de Lisa quanto a da criança que ela lutou para proteger se esvaiam rapidamente.

– Wrath... ele disse que V. estava vivo... porque não está aqui? Onde ele... está?

– Tenha calma, Lisa. – pediu Gaya que também estava na enfermaria e que dentre outros treinamentos que recebeu “Do Outro Lado” estava ser parteira.

– Pela Virgem... preciso que você respire e faça força na próxima contração, por favor, me ajude a ajudar você – o pedido de Elena vinha carregado de incertezas.

– Ele está morto... Oh, meu Deus... Vishous está morto.

A afirmação dolorosa provocava ondas lancinantes pelo corpo de Lisa. Tudo misturava-se dentro do buraco negro que era sua alma e seu coração. Seria possível que teriam vivido toda aquela história em vão? Tantos desencontros e desafetos... tanto amor e desejo. Porém a certeza do pesadelo concretizado, da morte certa de Vishous lhe tirava a esperança de sobreviver.

Num momento de extrema lucidez ela agarrou fortemente a não de Gaya e fez seu pedido.

– Salve a criança. – seu rosto estava banhado por lágrimas de dor – Tire o bebê, não se preocupe comigo. Apenas faça.

Gaya olhou para Elena sem saber o que responder. A vampira grávida de oito meses sabia o que significava um nascimento dentro de sua raça. Ainda mais se tratando de um filho de um Guerreiro da Irmandade. Quantas fêmeas preferiram a morte a perder suas crias, optando por salvá-los? Ela mesma tinha ouvido estórias sobre o parto de Bella. O futuro parecia negro.

– Precisamos de um médico – afirmou Gaya sem saber direito o que dizer.

– Salve a criança – gritou Lisa.

Uma forte contração explodiu em seu corpo exausto. Tudo parecia estar arrebentando por dentro, Lisa segurava na maca hospitalar com tanta pressão que seus dedos ficaram roxos, a circulação parecia estar sendo cortada, o suor escorria por sua testa ao ponto de pingar sobre o travesseiro. A barriga dura avisava que havia chegado à hora de empurrar, contudo não havia forças e mais uma vez a oportunidade passou.

– Tenho que fazer uma cesariana – disse Elena – Mas, eu não posso fazer isso sozinha.

– Onde está Havers? Porque não o chamaram? – perguntou Gaya.

– Ele estava em cirurgia.

– E só existe ele? Porque não mandam outro no lugar?

– Eu não sei direito o que está ocorrendo na clínica. Mas Lassiter saiu com Julia atrás de um médico humano.

As portas se abriram e Beth entrou trazendo mais toalhas limpas. No momento que olhou para Lisa sabia que o seu tempo estava no fim. Aproximando-se da humana, sentiu seu esmorecimento.

Respirava com certo alívio e parecia ter relaxado o bastante para não gemer. Estava entre uma contração e outra. Aquele intervalo de alguns minutos onde o corpo descansa e recupera as forças para a próxima batalha. A Rainha limpou o suor do rosto e os olhares se encontraram.

– Cuide da criança Beth... cuide dela como se fosse seu filho... prometa-me.

– Você não vai morrer – afirmou a Rainha complacente – Vai ter a chance de criar seu filho.

– Não quero criá-lo sem Vishous – a voz de Lisa era praticamente um sussurro e os lençóis denunciavam mais uma perda significativa de sangue – Preciso que prometa...

Ela não conseguiu terminar a frase, sentiu uma fraqueza aplacar todo o seu ser e concentrou as últimas forças em ouvir a promessa de Beth.

– Sim. Eu...

Como se fosse à chegada de um tornado furioso e avassalador Vishous escancarou as portas da enfermaria, arrancando uma delas e entrou sem qualquer impedimento. Sangrando bastante no ombro direito, ele sequer vacilou em ir ao encontro de Lisa.

Ela esboçou um sorriso, seus olhos brilharam com o choque dele estar vivo e ela estendeu a mão para alcançá-lo. Precisava tocá-lo, precisava de seu calor.

– Você está vivo – com as mãos agora entrelaçadas, Lisa notou os ferimentos – Está ferido.

– Não se preocupe com isso – disse ele em tom baixo e calmo – Eu estou bem e agora tudo vai dar certo. Estou aqui com você, meu amor.

Mas era nítido que não estava nada bem, sua palidez revelava o verdadeiro estado de saúde de Lisa e V. tinha notado assim que entrou a quantidade de sangue no leito hospitalar.

– Ela precisa de uma cesária – falou Elena – Não tem mais forças para o trabalho de parto.

Vishous olhou diretamente para sua companheira e fez um pedido.

– Lisa você vai ter que me ajudar. Sei que está cansada, mas sem você, sem a sua ajuda, não conseguirei trazer nosso filho vivo para esse mundo.

– Sim... – murmurou baixinho.

– Não tenho como mover meu braço direito devido ao ferimento – ela desviou o olhar para o ombro dele que sangrava – Sabe que se eu te tocar com esta mão, teremos uma chance. Mas não tenho mobilidade. Portanto é você que vai segurá-la e não vai soltar. Não vai soltá-la por nada, a sua vida e a vida do nosso filho depende disso. Pode fazer isso lelaan? Pode fazer isso por mim?

– Mas eu vou machucar você...

Vishous tirou a jaqueta de couro e desnudou o ferimento. Seu braço não obedecia, então precisou da ajuda de Gaya. Depois retirou a luva de sua mão e pediu para as fêmeas se afastarem. Com cuidado pousou a mão sobre a mão de Lisa.

– Segure-a e não solte.

Lisa não teve tempo para responder a contração chegou de subido, arremessando-a para o mundo da dor. Ela agarrou a mão brilhante de V. com todo o seu coração, com suas últimas esperanças.

– Agora lelaan... – a dor que ele sentia não era nada comparada ao momento crítico. V. suportaria o que fosse preciso por sua amada – Faça força agora. Estou com você.

Ela curvou o corpo, levantando-o da cama. Serrou os dentes e gritou, apertando insanamente a mão que Vishous tinha lhe oferecido. A impressão que se tinha é que tirava todas as forças daquele gesto, daquele homem, para poder cumprir a tarefa de expelir a criança de seu ventre.

Sem esmorecer, Lisa quase que sentou na cama. Escorou seu corpo com a mão que estava livre e então fez o máximo de força possível.

– Posso ver a cabeça – gritou Elena – A criança está nascendo.

– Solte a minha mão. Solte agora!

A ordem de V. foi direta e Lisa obedeceu. Assim que o contato foi quebrado, Elena correu para auxiliar a criança e Gaya escorou o corpo de Lisa na parte de trás.

– Beth, pegue a tesoura – pediu Elena e com um leve puxão tirou a criança de dentro de Lisa.

A Rainha se aproximou trazendo a tesoura e depois pegou uma série de lençóis para embrulhar o pequeno ser.

– É um menino...

Elena cortou o cordão umbilical e um choro alto e forte inundou o ambiente, ecoou pelas paredes, preencheu a mansão, enquanto a enfermeira passava o recém nascido para os braços da Rainha. Não foi preciso nenhum tapa para que a criança chorasse... o pequenino parecia fazer questão de mostrar que tinha vindo ao mundo saudável e cheio de vida. Com certeza era um sobrevivente, um verdadeiro Guerreiro.

Sem mais demoras Vishous voltou a entrelaçar sua mão brilhante nas mãos de Lisa e percebeu que com o contato a hemorragia diminuía. Tinha tantas coisas para dizer a ela. Era tão grato pelo milagre que aquela mulher tinha feito em seu mundo, antes tão sem graça e destrutivo.

– Diga o nome dele – pediu Lisa olhando para o amor da sua vida – Preciso ouvir você pronunciar o nome dele. Diga.

Por alguns segundo V. pensou...

Notando sua hesitação, Beth se aproximou com o bebê em seu colo. Imediatamente V. levantou a mão esquerda para que ela permanecesse onde estava.

– V., está tudo bem. Não vou encostar em sua mão brilhante. Relaxe – falou a Rainha com um sorriso nos lábios e com ternura – Apenas olhe para seu menino e lhe dê um nome. Ele é perfeito...

Sem perceber que chorava, que as lágrimas molhavam seu rosto, Vishous olhou para seu filho e percebeu o quanto ele tinha suportado para nascer. Tão pequeno e tão determinado a sobreviver. Ele lutou a mesma luta de Lisa... e conseguiu, e ganhou.

– Stronger. O nome dele é Stronger.

– Eu sabia – murmurou Lisa, enquanto acariciava o rosto de V. e chorava de felicidade – E ele terá seus olhos... não chore meu amor... não chore. Stronger é o nosso pequeno milagre.

– Eu amo você Lisa Hendrix e quero que seja minha companheira para todo o sempre – disse apressadamente, com medo que ela voltasse atrás – Sei que sou teimoso, que tenho um péssimo gênio e que não entendo nada de sentimentos, mas prometo melhorar. Vou mudar...

– Você já mudou.

Dentro daquela sala, naquele mundo isolado, ninguém notou os curiosos que se espremiam para conseguir assistir ao feliz desenrolar do destino. A porta que tinha sido arrancada por Vishous não era uma abertura suficientemente grande para todos que estavam em pé, espionando.

Raghe, mesmo passando mal do estômago aguentava-se da melhor maneira possível ao lado de Mary. Butch sangrava abraçado a Marissa, admirando a felicidade de seu amigo. Bella e Z. tinham Nalla no colo. As silhuetas dos demais se embaraçavam umas nas outras e Wrath vinha logo à frente do grupo.

– Pelo que entendi, acho que a mão dela deve ser pedida a mim – brincou Eligor parando ao lado do Rei – O que acha Wrath?

– Concordo plenamente. Afinal você é o pai da noiva.

Ouviram-se alguns comentários e risinhos.

– Beth – chamou V. – Por favor, apresente meu filho ao meu Rei e Senhor.

Ela caminhou com a criança nos braços e estendeu-os na direção de Wrath. Mesmo não enxergando ele sentiu o momento exato em que sua shellan parou a sua frente.

Com a mão onde o diamante negro repousava sendo símbolo de honra e soberania de uma raça, ele tocou a cabeça do menico e falou alto e claro no Idioma Antigo.


Strong, filho de Vishous! Seu nascimento é motivo de alegria, júbilo e exultação. Que sua vida seja repleta de bem-aventuranças e virtudes. Seja bem vindo a nossa família.


Todos aplaudiram e saudaram com alegria as palavras do Rei e foi nesse exato momento que Julia e Lassiter surgiram. O anjo vinha puxando um homem encapuzado.

– Aqui está a encomenda. – disse ele pretensiosamente retirando o capuz – Chegou o médico. Senhores e Senhoras este é o Dr. Manny Manello, cirurgião chefe do Hospital St.Francis.

– Isso é uma arbitrariedade. – grunhiu o médico.

Porém antes de continuar a falar reconheceu na mulher que acabara de dar a luz, sua paciente Lisa Hendrix.

– Não é possível...

– Sou eu Manny. Mas ninguém pode saber que estou viva.

Sentindo a força que ela fazia para falar o Dr. Manello se esqueceu dos pormenores e tratou de se antecipar aos demais para examiná-la.

– Você é enfermeira? – perguntou para a mulher ao lado de Lisa.

– Sim. Meu nome é Elena.

– Ótimo, porque vamos entrar em cirurgia. Pela quantidade de sangue perdida posso dizer que a placenta não se soltou de maneira adequada e que provavelmente um trombotamponamento, ou seja, um coágulo está obstruindo o útero – ele chegou ainda mais perto de sua paciente e sorriu – Vai dar tudo certo.

– Ele está ferido – ela desviou o olhar para o ombro de V. que continuava a sangrar.

– Vou cuidar de você e depois cuidarei dele. Confie em mim.

– Eu confio – e então se virou para falar com Vishous – Ele é um bom médico, deixe que ele faça a cirurgia. Manny era meu médico particular.

Assentindo com a cabeça V. se afastou, cedendo espaço ao médico.

– Ficarei dentro desta sala enquanto você a opera Doutor – o tom usado pelo macho era ameaçador e autoritário – Portanto seja eficiente.

– Eu sempre sou. – respondeu o médico sem se abater.



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– Mas porque o trouxeram para cá? – perguntou Wrath em uma das salas de treinamento do Complexo, próximo da enfermaria.

– Houve uma discussão... e não conseguimos chegar a uma conclusão – respondeu Butch, ainda ferido.

– Eu queria matar o fodido. Não me deixaram – argumentou raivosamente Eligor – Ele não passa de um traidor. Não me interessa se era amigo ou não de Lisa.

– Foi ele que chamou os redutores. – complementou Butch.

– Filho da puta! – disse Wrath austeramente – Então é aliado de nossos inimigos. O correto era tê-lo matado sem demora.

– Sim... mas por outro lado, ele pensa que foi Vishous quem matou Lisa. – disse Butch, enquanto passava as mãos pelos cabelos – Ele queria vingança. Disse que éramos assassinos. Depois que percebeu que não conseguiria nos matar, ou pelo menos matar V., que perdeu o controle da situação, então fez a ligação para o redutor.

– Vingança, isso eu posso entender. Apesar de ele estar completamente errado – falou Wrath.

– Ainda quero matá-lo. Que tal acabarmos logo com isso? – insistiu Eligor.

– É melhor esperar – disse Z. – Deixe que V. decida, acho que ele pretender conversar com Lisa sobre o que aconteceu.

– Veja só... o macho que era totalmente instável dentro dessa Irmandade, até outro dia, nos aconselhando a manter a calma e pensar antes de puxar o gatilho – falou Wrath com cinismo – O que mais falta acontecer?

Todos riram e resolveram dar um tempo na questão.



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– Obrigado Elena. Você foi realmente ótima.

– Não precisa agradecer Dr. Manello. Operar com o Senhor foi um prazer. O Senhor é muito bom no que faz.

– Bem... acho que devemos deixá-la descansar. Ela fica nesta sala – o doutor olhou para V. que estava sentado em uma cadeira – Agora é a sua vez. Existe outro local onde eu possa...

– Nós ficamos aqui. – V. se levantou – Elena pode levar Lisa para a sala ao lado, por favor? É mais privado e tranquilo.

– Sim, claro – respondeu a enfermeira.

Enquanto Elena movia a maca para a saída, rapidamente Legassa e Julia surgiram a sua frente.

– Vá descansar Elena. Eu fico com ela – disse a adolescente – Se precisar chamo o Doutor. Você deve estar cansada e Lisa vai dormir por algumas horas.

– Obrigada Julia. Eu realmente preciso de um banho – aceitou Elena.

– Também ficarei aqui, do lado de fora. Caso precisem de mim. – lembrou Legassa de sua presença enfaticamente.

– Você também precisa descansar – falou V. para Legassa – Está em pé feito uma estátua, parada ao lado da porta desde que cheguei.

– Dei minha palavra. Ninguém toca em Lisa se ela não desejar.

– Não entendo o que isso quer dizer. – falou V. franzindo a testa.

– Sua mãe – explicou Julia – É por isso que Legassa está aqui. A Virgem Escriba veio para ajudar no parto, mas Lisa respondeu que ela deveria ir atrás de você. Disse que não queria a ajuda dela.

– Ela fez isso? – perguntou V. incrédulo.

Ninguém desrespeitava ou afrontava a mãe da Raça. Porque sua mãe não tinha punido Lisa ou até ele mesmo com a desfeita?

– Sinto muito interromper a conversa familiar – rosnou Manny – Mas você ainda está ferido e pelo que pude notar, tem outro cara com o joelho bem ruim e certamente vai precisar dos meus cuidados. Será que posso dar uma olhada no seu ombro. Eu também prometi isso a Lisa e ela não vai ficar nada feliz se acordar e ver você ainda não foi costurado.

O cirurgião indicou outra maca para que Vishous se deitasse.

– Veja lá o que vai fazer. – murmurou V. ameaçadoramente – Tenho outro braço e ele está perfeitamente bem para matá-lo.

– Você pensa que me intimida, não é mesmo? Agora cale-se e deite-se aí. Não pense que gosto mais do que você o que vamos compartilhar. Mas eu fiz um juramento e vou cumpri-lo.

Vishous avançou na direção do médico, mais Butch entrou na enfermaria no minuto exato.

– Que bom que estão se entendendo e V... foi realmente uma ótima ideia ter arrancado a porta, caso contrário vocês já estariam se pegando.

O tom de voz usado pelo tira era mais alto do que o esperado. Ele estava nervoso.

– Se não se importam de começar... sou o próximo da fila e eu estou com dor, Caralho!

– Ta legal. Fechado. – disse V. deitando-se na maca – Vamos lá Doutor, faça o seu melhor.


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Notas finais
Então??? Foi o que esperavam???
Eu consegui fazer jus as minhas queridas leitoras e também aos meus personagens?
Comentem...
Botem tudo para fora. Quero ouvi-las.
Beijos.
Fênix

P.S.: Minha próxima história será sobre Dean Winchester (Supernatural). Vai ser bem diferente da série. Espero que gostem da ideia.