Traga-me Para A Vida
45 Capítulo 44
Notas iniciais
Estão com saudades? Porque eu estou.
Tenho que confessar que travei! Isso mesmo... eu sabia o que tinha que escrever, porém não sabia como e os dias foram passando e fui ficando cada vez mais ansiosa e foi aí que tudo piorou. Então fiz de conta que minha história não existia e relaxei por dois dias.
Quando me sentei novamente em frente ao computador nessa terça-feira... tudo fluiu!
Aproveitem o capítulo... o bicho vai pegar!!!
Beijos,
Fênix
Lisa já sabia o que tinha que fazer e estava disposta a arcar com as consequências de seus atos. Sabia que Vishous não iria aprovar, mas ela nunca precisou de aprovação. Ia seguir seus instintos, precisava retornar ao começo e acreditar que suas decisões ainda valiam alguma coisa.
Seu cérebro processava pensamentos tão rápido que não percebeu que o crepúsculo já chegara. Sentada em um dos bancos do jardim da mansão e coberta com um grosso cobertor para se proteger do inverno ela por um minuto se sentiu em paz.
Claro que não era como estar no jardim de sua casa, mas era igualmente agradável e tudo ficou melhor quando sentiu duas mãos quentes e fortes sobre os seus ombros, uma de cada lado.
– Está frio.
Lisa puxou Vishous que estava atrás do banco. Ele contornou o móvel e sentou-se ao lado dela, ganhando também uma parte do cobertor.
– Fique você enroladinha lelaan. Estou...
– Shhhh... com você assim pertinho, é melhor. – ela se enroscou como uma gata no abraço de V. e o cobertor aqueceu os dois.
– O que esta fazendo? Sentada aqui fora, sozinha?
– Nada. Apenas apreciando o jardim e... aí. – ela riu – Depressa, me dê sua mão.
Lisa agarrou a mão de Vishous e colocou-a sobre a barriga de quase oito meses. Agora ela parecia enfim, uma grávida. Tinha ganhado peso, não muito é verdade, mas o bastante para a gestação correr segura.
– Está sentindo? – Por um breve momento nada aconteceu.
– Não... – ele franziu a testa, quase juntando as sobrancelhas – O bebê mexeu?
Ela abriu um sorriso e olhou para a barriga enquanto a alisava e falava com a criança.
– Você vai ficar quietinho? – ela disse em tom baixo e carinhoso – Seu papai está aqui, é agora que você tem que... aí...
– Jesus Cristo! – Vishous ficou pálido, seu coração disparou no peito, quase esqueceu como era respirar, mas seus olhos brilhavam de alegria – Ele chutou... você viu?
A expressão no rosto dele era de total perplexidade. Seu filho, seu filho estava vivo e chutava com força a barriga de sua mãe. Tirando o momento em que ele levou Lisa de volta para a mansão, não se lembrava de outro tão feliz em toda a sua vida miserável.
– Eu senti V., eu senti – disse ela sorrindo do jeito bobo de seu macho e o bebê mexeu novamente.
– Nossa... ele parece ser tão forte, bem... ela. Talvez seja ela, uma menininha rechonchuda, assim como Nalla. O que você acha lelaan?
– O que você acha? – perguntou curiosa.
Lisa não quis responder a pergunta, lembrou-se do sonho, do menininho nos braços de Vishous. Se em vez de um simples sonho, o que viu, poderia muito bem ter sido uma visão do futuro e não era hora para falar sobre isso. Afinal V. foi e era acometido por visões, nada agradáveis, a sua vida inteira. O assunto teria que esperar.
– Fala Vishous. – Insistiu brincando e dando-lhe um tapa de leve no braço. – Fala logo. Menina ou menino?
Estavam pela primeira vez falando sobre a criança. Naquele pequeno mundo, por um ínfimo momento o passado, o trauma e a culpa não existiam. Sentados no banco de concreto em meio ao jardim castigado pelo inverno, lado a lado, estava um homem e uma mulher que se amavam e reverenciavam uma nova vida. Uma esperança no futuro.
– Um menino. – murmurou ele, admirando a barriga pontuda de Lisa.
Ahhh, eles tinham seus problemas e não eram poucos. Mas o que realmente importava era a comunhão em que se encontravam... depois de muito tempo havia paz.
– Também acho que é um menino. – Ela virou para lhe tocar o rosto, mas V. já estava ajoelhado aos seus pés, entre suas pernas.
Com suas mãos fortes, ele acarinhava com maciez todo o ventre fecundo. A emoção tomou conta de Lisa e ela tentou conter as lágrimas. Não era hora para chorar feito uma manteiga derretida. Estava realmente farta de suas sessões de choro e lamentos. Tinha que virar a página, tinha que voltar a ser a mulher forte que um dia foi. Por ela, por Vishous e pelo bebê.
– Ele terá os seus olhos e a sua força. – afirmou convicta.
– Como sabe? – perguntou desconfiado olhando-a sério.
– Eu não sei – precisava dar uma boa desculpa, não era hora para levantar o assunto – Eu só imagino. Quando perco o sono fico imaginando, só imaginando... um menininho de cabelos escuros e olhos adiamantados correndo pela casa e você correndo atrás dele.
Ela soltou um sorriso de empolgação e ele acompanhou. Sonhavam de olhos abertos.
– Parece divertido – falou com voz baixa e depois lhe beijou a barriga.
– E será.
Vishous queria dividir suas dúvidas e seus temores, mas tinha plena consciência de que sobrecarregaria Lisa. A verdade é que ele não sabia como ser pai, nunca se preocupou com tal caso porque nunca quis ter filhos. A maldição de suas visões e de sua mão mortífera era demasiada assustadora para pensar em passar de geração para geração. Uma sombra triste obscureceu o brilho em seu olhar por um segundo, porém Lisa captou sua angústia.
– Você é um honrado Guerreiro, um macho de valor e será um ótimo pai – ela disse as palavras como se fosse possível ler os pensamentos de Vishous. – Eu também sei disso.
Sem titubear, sem esperar mais V. fez o que queria fazer desde que ela retornara para sua casa, seu quarto, sua cama. Ele a beijou com voracidade e fome.
No primeiro momento ela hesitou, seu corpo tremeu assustado. A vergonha e a culpa martelavam forte em seu cérebro. Ela oscilou envolta nos braços dele, aturdida e confusa.
– Relaxe a boca pra mim, Lisa. – a ordem saiu envolta a um desejo poderoso.
E ele estava em pé, debruçado sobre ela. Uma mão apoiada no banco de concreto, a outra emaranhada nos cabelos longos, na altura da nuca onde a prendia com precisão junto a sua boca sedenta. Não demorou muito para ele entrar. O gosto de Lisa era como Vishous se lembrava. Inebriante e quase doce. Ela era diferente de tudo, era especial.
Quanto mais ela relaxava, mais ele se aprofundava. Queria tomá-la, queria montá-la... mas era certo que não faria isso. Por mais que sua ereção doesse, por mais que sentisse falta dos luxuriantes momentos, ele não podia perder o controle. Tinha que ir com calma, tinha que esperar. Porém, ali, naquele jardim, o impulso o dominou, soou mais forte em seu cérebro e ele teve que beijá-la.
Aproveitou o beijo ao máximo, passou a língua pelos dentes dela bem devagar e sugou-lhe a língua descaradamente, eroticamente. Sentiu quando ela deixou de apertar o cobertor e subiu uma das mãos pelas suas costas à outra continuou agarrada, isso só mostrava o quanto ainda estava dividida. Mas já era um progresso.
Vishous se sentiu forte, poderoso. Sua fêmea ainda habitava naquele corpo e com o tempo ela despertaria. Ahhhh, com toda certeza ele a faria despertar, todavia, agora era a hora de manter o trato. E o trato era esperar a criança nascer e o trauma diminuir. Lembrando-se disso ele lutou para se separar daqueles lábios carnudos e saborosos.
– Eu poderia trepar com você aqui, agora mesmo. Sinto falta de você, sinto falta do sexo, mas sei que não está pronta, então vou esperar até você pedir, Lisa – ele praticamente sibilou as palavras entre os dentes, seu desejo doía e seu autocontrole estava por um fio – Agora vamos entrar. Não quero cometer nenhuma loucura.
Quando ele se afastou Lisa respirava com dificuldade e seus lábios estavam vermelhos por causa do pecaminoso beijo.
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– Como está você Irmã? – Perguntou Selena ao ver Gaya no salão de entrada.
– Selena? O que faz aqui?
Elas se abraçaram, já fazia algum tempo que não se viam e geralmente quem estava sempre na mansão era Layla.
– Fui chamada para servir aos Guerreiros. Precisam se alimentar. O Primaz me trouxe e Cormia também está aqui.
– Ela está bem?
– Sim – Selena sorriu alegremente – Cormia e Phury se amam tanto, são tão felizes. Será que algum dia também receberemos tal graça, minha Irmã?
– Você talvez. – respondeu conformada e quase que com tristeza – Quanto a mim estou certa que nasci apenas para servir e vou tentar cumprir meu papel o melhor que puder.
– E está cumprindo, sei disso, Gaya. Você sempre foi muito dedicada a tudo no Santuário. Tenho certeza de que está orgulhosa por carregar a continuidade de nossa raça.
A pesada porta de entrada se abriu e Vishous entrou com Lisa, interrompendo a conversa. Selena imediatamente curvou o corpo em reverência.
– Guerreiro! Estou aqui para servi-lo. – disse enquanto olhava para o chão.
– Obrigada Escolhida. Irei ao seu encontro em um minuto. – respondeu V.
Lisa não sabia do que se tratava, não tinha a mínima idéia de que era sobre alimentação. Sequer supunha tal ato. Aquela fêmea esguia, de corpo perfeito queria servir Vishous? Servir como? O sangue ferveu dentro dela e seu cérebro começou a levantar hipóteses de todos os tipos, tamanhos e cores. Porem só uma se encaixava nos parâmetros que eles viviam: sexo.
Só podia ser sexo. Pensou Lisa totalmente transtornada e as palavras que a pouco Vishous pronunciara em seu ouvido voltaram à tona:
“Eu poderia trepar com você aqui, agora mesmo. Sinto falta de você, sinto falta do sexo, mas sei que não está pronta .“
Ele continuou andando em direção ao buraco, enquanto de Lisa estancou na frente das fêmeas.
– Lisa? – Ele chamou, mas ela não ouviu.
Não podia ser verdade, não fazia o menor sentido... mas é claro que fazia sentido!
Vishous era grande, poderoso, sensual e... se não estava fazendo sexo com ela, por que ela estava com a cabeça totalmente ferrada e nem com nenhuma das suas submissas... Ela sabia que nunca mais ele havia procurado por nenhuma daquelas mulheres. Ele mesmo havia lhe dito isso, então, a solução da necessidade sexual era uma fêmea vampira digna de seu posto de Guerreiro... assim como Raghe um dia havia usado Gaya para... para...
– Jesus Cristo! – foi tudo o que Lisa conseguiu pronunciar, sua respiração tornou-se pesada, difícil.
Ele já estava segurando-a pelo braço, já estava ao seu lado.
– Você está pálida. Está se sentindo bem, lelaan?
Ela queria perguntar o que estava se passando, queria uma explicação da fêmea e principalmente de Vishous, como ele poderia sequer cogitar tal possibilidade? No entanto, de repente tudo pareceu se encaixar e a culpa era dela.
– Sim. – respondeu obrigada – Eu só me lembrei de que preciso ter uma conversa com Gaya.
Mais uma mentira, mas o que Lisa podia fazer? Ele precisava de sexo e ela tinha plena consciência disso e por mais que isso lhe doesse, ainda se considerava indigna e principalmente suja. Ela estava a ponto de desmaiar.
– Vá Vishous. – disse secamente – Vá fazer o que tem que fazer.
O olhar de V. foi o mais interrogativo possível, não entendeu absolutamente nada. Há exatos dez minutos tudo parecia bem e caminhando para uma recuperação. Agora, Lisa tinha regressado ao ponto de partida. Tudo era no mínimo causticante para não dizer desanimador. Levantando as mãos em sinal de desistência ele tentou ignorar o ínterim e caminhou para as escadas, subindo-as rapidamente, esquecendo-se totalmente de Selena e de sua alimentação.
Agora as três mulheres encontravam-se paradas e sem assunto. Uma olhando para a outra sem saber o que dizer. Lisa suspirou profundamente achando a situação ridícula e patética.
– É sobre Eligor? – a pergunta de Gaya veio junto com um brilho no olhar.
– O quê? – a princípio tinha esquecido de sua própria desculpa – É... sim. Claro, é sobre Eligor.
Selena não se moveu, permaneceu parada ouvindo discreta como já era esperado de uma Escolhida. Aquele gesto natural irritou Lisa, ainda mais. A vampira era tudo que Lisa não era, a vampira era submissa e...
Então é isso! É a submissão. Ele não foi ao encontro de “uma qualquer” para se satisfazer, porém escolheu uma igualmente submissa. A constatação quase a matou de ciúmes.
– É particular Gaya! – estupidamente Lisa respondeu e não escondeu sua raiva ao olhar funestamente para Selena e perguntar: – Será que é pedir demais que você suma daqui?
Desnorteada com o mau tratamento, mas ciente de que Lisa havia passado por um sequestro horrível, Selena relevou e sorriu acanhadamente se despedindo.
– Você tem toda razão. O melhor a fazer é cumprir com as minhas obrigações, agora mesmo – e com uma nova reverência, ela também subiu as escadas apressadamente.
A porta da saída foi novamente aberta e Lisa voltou para o frio do inverno... com Gaya correndo atrás dela.
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– Então Évora, está disposta a falar?
Ela sangrava e tinha hematomas por todo o corpo. Seus órgãos genitais não eram nada mais do que carne esfolada e sem formato. Todos os dias eram formados da mesma tortura. O ritual dos soldados de Eligor em fila para usá-la nunca tinha fim.
Évora gritava em desespero, pedia perdão, implorava por clemência, mas de nada adiantava. Nada fazia Eligor mudar de idéia. Quanto mais sofrimento, mais ele ambicionava e a comparação perfeita era com uma bola de neve, quanto mais rolava montanha abaixo... mais aumentava de volume.
– Sei que pensa em um dia fugir, consigo ler seus pensamentos, Évora. Você acredita mesmo que um dia poderá escapar por um dos seis portões que ligam o inferno a Terra?
Ele gargalhou divertindo-se da desgraça da feiticeira.
– Você é mais ingênua do que eu pensava. – os olhos brilharam diante de sua supremacia – Quando um dia eu me cansar de tudo isso, quando eu me cansar de perguntar sobre o maldito anjo que lhe ajudou, eu mesmo matarei você.
– Por favor... Eligor, eu me arrependo... por favor, eu...
– Quem era o anjo que enganou Legassa?
Nos olhos arregalados de Évora notava-se o pavor e também a dúvida, porém Eligor era sempre persistente e sua paciência era ilimitada. Ele tinha tempo e não pretendia ceder.
– O anjo caído não foi idéia sua. Não é mesmo? Tem mais alguém por trás disso. Quem?
Évora não respondeu, apenas continuou gemendo baixinho.
– Você se juntou com meus inimigos, provavelmente um dos outros Reis do Inferno que desejam tanto a minha posição e agora está pagando a conta sozinha. Ele a esqueceu, virou-lhe as costas e assiste o seu martírio sem se importar. – ele esticou a mão para alcançar o chicote que estava em cima da sua mesa – E é por esse tipo de aliança que permanece fiel?
– Por quê? Acha que eu deveria ser fiel a você? – a raiva dela podia ser sentida no ar, ela praticamente gritou as palavras – Já fui fiel a você. Fui mais do que isso. Talvez você não se lembre, mas eu te amei e o que foi que ganhei?
Dentro da caverna escura, os olhos da feiticeira brilhavam de ódio e repulsa. No meio de toda aquela obscuridade as verdades começaram a serem ditas como se fossem picadas de vespa.
– Uma humana. Rachell era o nome da vagabunda por quem você me trocou – o tom de voz aumenta a cada verbete pronunciado – Ela nunca foi mais bonita, poderosa ou esperta quanto eu. Mas mesmo assim você correu atrás dela como um cachorro corre atrás de um osso.
– Sua atitude é patética. Não sabe nada sobre isso.
– Sei que fui abandonada e trocada por um ser inferior e desprezível. E até hoje, você, o Grande Eligor, o Poderoso Rei dos Exércitos de Lúcifer não admite que traiu a todos e não só a mim, amando uma humana. Eles não passam de gado e só servem para serem sacrificados.
O chicote reverberou no ar e acertou em cheio os seios desnudos de Évora, cortando a carne sem qualquer piedade. Ela gritou.
– Eu não traí ninguém – afirmou ele calmamente, com sua fisionomia fria e distante – Fui sincero, principalmente com você. Por isso não me venha com esse discurso virginal, não combina com a Évora que eu conheço. Você sempre soube que eu transava com outras e nunca se importou, mas a coisa só mudou porque Rachell ficou grávida. Tudo isso que você fez foi por causa de poder e não por mim.
Mais uma vez ele levantou o chicote e com força arremessou-o na direção do corpo já mutilado de sua inimiga. Um novo grito tétrico e sinistro cortou o ar.
– Você me irritou Évora. – a voz de Eligor era tão baixa e ameaçadora que no vale infernal um nevoeiro de pura maldade apossou-se de todas as almas que ali habitavam, para desespero de todos – Meu interesse é exclusivamente sobre o tal anjo caído e você não respondeu, portanto não tenho outra alternativa a não ser me divertir.
Uma gargalhada sombria ecoou juntamente com mais uma de muitas chibatadas a serem proferidas por todo o corpo de Évora.
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Lisa não conseguia dormir. Ela não falou com V. quando ele retornou das ruas naquela noite e também não desceu para se juntar a todos na Primeira Refeição.
Agora ele estava deitado ao seu lado, dormindo e ela vivia mais uma de suas insônias. Sentia-se mal por ter inventado uma desculpa e uma conversa qualquer com Gaya, a vampira não merecia tal atitude, estava sofrendo por Eligor e não era justo usá-la daquela maneira. Mas o assunto “Selena” tirou-lhe o chão. Será que Vishous era capaz de...
Sem ter mais esperanças de voltar a dormir ela se levantou com cuidado para não acordá-lo, pegou seu longo e pesado casaco de lã negra e saiu rapidamente do Buraco, rezando para não encontrar com Butch ou Marissa.
Atravessou todo o percurso até a mansão, já sabendo o que ia fazer e foi direto para o quarto de Julia. Ela bateu e esperou até que a porta se abrisse.
– Acordei você?
– Não – Julia estranhou tanto o horário como a ansiedade na voz de Lisa – Pra falar a verdade ainda não me acostumei a trocar a noite pelo dia. Eu estava lendo.
– Vou sair – ela falou com tamanha intensidade, que a adolescente teve a certeza de que não era uma boa idéia – Pode vir comigo?
– Vishous? Ele sabe?
Era apenas uma pergunta, mas aos ouvidos de Lisa soou como uma ofensa e um grande equívoco.
– Foi um erro. – disse ela já virando para o corredor – Volte para o seu livro.
– Espere – Julia agarrou-a pela manga do casaco – Aonde vai?
– Se você não vai comigo, porque quer saber?
Lisa puxou o braço, arredia e irritada. Soltou-se do agarre da adolescente deixando-a para trás e determinada andou pelo corredor das estátuas. Desceu à longa e imponente escadaria que dava na sala de jantar e agradeceu por não cruzar com ninguém. O que não era de se estranhar já que todos deveriam estar em seus quartos com suas shellans.
É claro que o que estava por fazer irritaria Vishous e muito, pensou Lisa enquanto alcançava as portas de saída, mas ela tinha que fazer.
O Escalade estava lá estacionado perfeitamente, esperando para ser usado. Quando tirou as chaves do carro do bolso de seu casaco, ela podia jurar que os faróis do veículo lhe lançaram um olhar incrédulo, como se tivessem vida, como se a estivesse censurando.
Acalme-se.
O que tinha que ser feito, tinha que ser feito e ela convicta iria fazer. Portanto a melhor coisa era entrar rapidamente no carro e sair antes que alguém a surpreendesse e foi o que quase aconteceu quando ouviu passos atrás dela.
– Eu vou com você. – disse Julia com um meigo sorriso nos lábios, oferecendo uma cumplicidade e uma amizade única.
– Obrigada.
Entraram no carro e Lisa rapidamente girou a chave, dando partida e acelerando.
– Gosto desse carro – falou Julia maravilhada com o luxo – É lindo.
– Gosta? Eu prefiro os esportivos, meu carro é aquela belezinha ali atrás. A Mercedes prata conversível, mas eu não achei as chaves.
Ela parecia magoada por não poder dirigir seu próprio carro e Julia pensou que era sensato não fazer perguntas sobre o assunto.
Chegaram rapidamente aos portões e eles se abriram quando Lisa digitou a senha correta no painel de controle. Em questão de segundos seguiam pela Rota 22 tranquilamente.
Por cerca de dez minutos nenhuma palavra foi pronunciada até chegarem ao local onde Lisa tinha sido sequestrada e Vishous deixado para morrer. Ela parou no acostamento, mas não desligou o motor. Olhou tudo minuciosamente e tudo estava exatamente igual àquele dia.
– Tudo começou a desmoronar aqui. – ela apenas sussurrava – Eu me lembro da felicidade que eu sentia antes dos redutores chegarem e...
Fechou os olhos fortemente tentando apagar as imagens de sua mente e quando os abriu acelerou e voltou para a estrada.
– Julia?
– Hum.
– Me desculpe pelo jeito como falei com você, eu...
– Deixa disso. – a garota abriu um sorriso largo e colocou a mão sobre a barriga pontuda – São os hormônios. Grávidas ficam assim mesmo.
– Ficam?
– Sim, algumas choram por qualquer coisa outras dão “piti”.
Ambas gargalharam alto e a sensação foi muito boa, para Lisa... quase libertadora.
– Eu perdôo você – acrescentou Julia descaradamente – se pudermos dar uma paradinha no Starbucks e comprar um delicioso milk shake de chocolate.
– Fechado. – concordou ainda rindo – Na volta faremos isso com certeza.
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Foram as batidas na porta e depois a voz de Butch ao seu lado que tiraram V. de seu sono profundo.
– Acorda V., vamos.
– O que está fazendo no meu quarto?
Vishous estava incrédulo. Antes de Lisa vir morar com ele o tira tinha livre acesso ao seu quarto, entrando e saindo quando bem quisesse, mas depois passou a se comportar tal e qual a V. depois que Marissa tornou-se companheira de Butch. Nunca entrava no quarto sem bater e depois chamar em voz alta.
– Cadê a Lisa?
– O assunto é justamente esse. – o tira suspirou passando a mão pelos cabelos, transtornado – Ela saiu.
V. deu um pulo da cama e colocou-se em pé tão rápido que não foi possível acompanhar o movimento com os olhos.
– O quê?
– Fritz viu o Escalade passando pelos portões à uns dez minutos.
– Que horas são?
– Quase meio-dia...
– Caralho. – V. saiu do quarto tão rápido que esqueceu que estava vestindo apenas uma “boxer” preta.
Sentou em frente à parafernália cibernética potente e sofisticada que eram seus computadores e começou acessando o rastreador do carro via satélite.
– Ela vai me enlouquecer. – desabafou furioso e socou a mesa – Porra!
Butch lhe atirou uma calça de couro e enquanto o programa buscava a localização exata V. começou a vestir a peça foi justamente nessa hora que Marissa saiu do quarto.
– Vou fazer café. – disse calmamente em direção a cozinha.
– Para mim vodca, não...
– Café é uma boa idéia, querida – afirmou o tira e depois olhou sério para V. – Café forte para todos nós. É disso que precisamos.
V. cerrou os dentes e travou o maxilar, estava perdendo o controle e sua vontade era socar o tira por querer lhe dizer o que fazer naquele momento.
– Se é isso que quer – falou Butch como se pudesse ler os pensamentos – Pode vir, mas nós dois acabaremos no chão.
Um bipe soou apontando que o computador finalmente tinha rastreado o Escalade e os dois se aproximaram da tela esquecendo o confronto.
– Manhatann...
– Está indo para a casa dela? – perguntou o tira.
– Não sei se ela faria isso – respondeu V. largando o corpo de qualquer jeito sobre a cadeira – Alias, não sei nada a respeito dela ultimamente. Não tenho a menor idéia do que pode acontecer. Uma hora estamos conversando e acreditando no futuro na outra somos apenas estranhos.
Ver Vishous naquele estado de fragilidade não era certo, não combinava com sua personalidade e também não era justo. O vampiro já tinha sofrido tudo que podia naquela relação, até mesmo a morte de sua fêmea... e agora, ela é que lhe pregava um novo golpe? Inacreditável.
– Cara, eu não sei o que dizer sobre tudo isso. – Butch encontrava-se desnorteado e com muita raiva de Lisa – Se ela consegue me tirar do sério, imagino como você não está. E agora o que fazemos? Simplesmente esperamos?
– Sim. – disse Marissa atrás dele.
– Isso é tortura, shellan. Ela não pode simplesmente sair por aí sozinha, depois de tudo o que aconteceu.
Ela os serviu, sem perguntar como queriam, já conhecia o gosto dos dois. Primeiro V. e depois entregou a xícara para Butch.
– Você está exagerando. – disse Marissa em um tom amigável, mas firme – Tire a pior parte e tente pensar que ela só precisava dar uma volta.
– Se queria dar uma volta podia ter pedido que Vishous a levasse.
– Butch, você não está ajudando em nada! – agora era ela que ficara irritada – É melhor guardar essas idéias agourentas somente para você. Ninguém quer ouvi-las no momento.
Ela olhou brava e com as bochechas coradas para seu hellren, Marissa só queria que ele parasse de falar sobre o que para ela também era o maior temor: Lisa desaparecida novamente. Não era hora para incitar uma loucura maior do que Vishous poderia suportar, nada podia ser feito até o sol se pôr e até lá, talvez, Lisa já estivesse em casa.
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Julia ficou surpresa quando carro foi estacionado diante dos portões do “Morvain Cemetery” que teoricamente era o lar eterno da cantora que tantos veneravam.
– Lisa, o que viemos fazer aqui?
Um breve sorriso entristecido brotou nos lábios de Lisa. Ela desceu do carro e fechou o casaco até em cima, levantando o gorro. O ar frio cortava a pele e chegava até os ossos, fazendo-a tremer. Esperou por Julia e assim que ela veio ao seu encontro, caminharam lado a lado silenciosas. Passando pelos túmulos, lápides, estátuas de anjos e de crianças.
O lugar estava deserto, talvez pelo vento gelado do inverno ou pelo fato de que o aniversário de seis meses da morte de seu maior hóspede: “Lisa Hendrix”, já ter acontecido a mais de uma semana. Portanto era difícil encontrar fãs ou pessoas curiosas sobre a dimensão espetacular que o Mausoléu todo em mármore branco italiano proporcionava ao ser visto pela primeira vez.
Foi fácil encontrá-lo, além da estátua em tamanho real que cantava alegremente ao lado das portas duplas, ele estava coberto de flores, cartazes e vários tipos de objetos pessoais.
Lisa se aproximou olhou para sua figura esculpida em mármore, tocou-lhe o rosto gélido com as pontas de seus dedos, como se fizesse carinho e... chorou.
Estava fechando-se um ciclo. Era preciso encarar a realidade e admitir que era impossível voltar. A vida que um dia foi vivida com altos e baixos tinha ficado no passado. A estrada percorrida para o sucesso, os prêmios, os shows, a energia do palco jamais seria sentida novamente.
Tudo que havia conquistado financeiramente também não lhe pertencia mais. Seu dinheiro, seus carros e sua casa com seu lindo jardim teriam que ser esquecidos. Mas o que realmente doía, o que lhe dilacerava a alma era a falta de seus amigos: Anne e Nick e o que lhe consolava é que sua fortuna tinha ficado para eles, em testamento.
Preocupada com a intensidade das emoções de Lisa, Julia se aproximou e parou ao seu lado, porém não interferiu no choro, não quis consolá-la, sequer a tocou. Ficou ali, quieta... esperando a desolação passar.
Não supunha quanto tempo estavam paradas às portas do Mausoléu, ouvia os soluços e algumas lamúrias de vez em quando, contudo agora, o silêncio dividia o Cemitério com o vento forte e gelado que balançava as árvores sem folhas. O que deixava a paisagem melancólica e cinza, como a alma da cantora.
– Lisa.
Chamou Julia baixinho, tirando-a do transe pesaroso que se encontrava.
– Sim.
– É hora de irmos...
– Nunca pensei que sentiria falta... eu pensei, quando olhei para V. pela primeira vez, que ele sempre seria o bastante, que eu poderia deixar tudo para trás e seguir só com ele.
– E você pode! – disse Julia tentando animá-la, enquanto a abraçava.
– O que vou fazer? Não sei como superar tudo isso...
– Lisa? – uma voz feminina chamou ao fundo – Lisa, é você?
Anne estava parada bem à frente, nos braços carregava com um buquê de flores. Seu cabelo castanho claro preso em um coque deixava o rosto completamente à mostra. Ela tinha emagrecido e havia olheiras escuras marcando os olhos. Olhos que continuavam expressivos só que agora eram extremamente tristes.
As pernas de Lisa não suportaram a presença, seus joelhos dobraram e ela foi de encontro ao chão devagar, enquanto levava as mãos ao rosto para se esconder.
– Por Deus... é você mesma. – Anne largou as flores e correu para abraçar a amiga que considerava uma irmã.
Não houve perguntas, não quis explicações, nenhuma censura. Só um abraço carinhoso e hospedeiro. Julia se afastou permitindo a aproximação total das amigas.
– Querida, deixe-me olhar para você. – A voz de Anne era afetuosa como sempre foi – Você está bem? Graças a Deus está viva...
– Eu... você... não era para você... – o choro e o susto do reencontro impediam que ela completasse a frase.
– Shhh, está tudo bem. Não precisa ficar preocupada, pode confiar em mim.
Lisa tirou as mãos do rosto e levantou o olhar sem entender o que Anne dizia, mas no fundo do seu coração ela sabia... sua amiga jamais a julgaria, ela era boa demais. Sempre a perdoava de suas maluquices e decisões errôneas e não seria diferente naquele momento.
– Estou tão feliz por estar viva... venha, agora levante desse chão.
– Oh... Anne, senti tanto a sua falta. Não quero parar de abraçá-la. – mas assim que Lisa ficou em pé, a barriga foi notada.
– Você vai ter um bebê? É dele, não é? Do seu V.?
– Tenho tantas coisas para falar – Ela se jogou novamente nos braços da amiga, dentro de um novo abraço.
– Será que podemos sair daqui e ir para um lugar mais discreto e seguro? – perguntou Julia e antes que Anne perguntasse foi explicando – Sou amiga dela, também!
– Então estamos em família – respondeu sorrindo a humana – Agora vamos para a minha casa. Lá poderemos conversar em paz.
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Já eram quase cinco e meia da tarde quando o Escalade alcançou os portões da mansão. A câmara de segurança de alta definição estrategicamente colocada em um dos muros dava uma visão perfeita do rosto de Lisa para Vishous que continuava sentado atrás de seus malditos computadores e com seu fiel amigo Butch sentado escachado no sofá.
Como ainda era dia, Vishous nada mais fez do que esperar. Afinal ele já tinha esperado por horas, o que eram mais dez ou quinze minutos? Encontrava-se no limite da razão, a ponto de estourar. Podia ser descrito como um animal confinado, enjaulado e totalmente perigoso.
Quando finalmente os portões se fecharam e no seu íntimo, uma pequena luz fazia-o entender que não havia lugar mais seguro do que a sede da Irmandade... ele se permitu ter um pensamento sádico e sombrio:
Se você fosse apenas uma de minhas submissas, seria punida por sua desobediência!
Ele sabia que a melhor coisa a fazer era terem uma conversa franca e sincera, assim que Lisa colocasse os pés do Buraco.
Ele sabia que deveria ponderar o fato dela estar grávida e que seu dever era ter paciência e principalmente complacência.
Ele sabia que... ele sabia!
Ele balançou a cabeça com a expressão totalmente séria e o seu cavanhaque só o deixava mais sombrio, mais malvado.
Que se foda! Ele era um macho vinculado e Lisa teria que explicar que porra aconteceu para ela surtar e sair sem considerar a sua segurança e principalmente a segurança do filho deles.
Maldição!
Notas finais
O que vem por aí?
O que vocês esperam da reação de Vishous?
E Lisa?
Contem tudo! Aguardo ansiosa.
Beijos infinitos...
Fênix
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