Notas iniciais
Olá queridas leitoras compulsivas!!!!
Como vocês estão? Espero que todas estejam bem e aproveitando esse clima de véspera de FESTAS. E desde já desejo um Papai Noel repleto de presentes.
É claro que amor, paz e saúde... são as prioridades, mas sejamos sinceras:
Presentes são sempre bem-vindos!!!! ahahahahahahaha.
Para fechar o ano aqui está mais um capítulo. Aproveitem e leiam devagar, porque outro só em 2013!
Quero pedir licença a todas vocês que me seguem lendo esta história (que eu amo escrever) e dedicar este capítulo para FehVampira. Ela ficou tristinha nesses últimos dias e nada melhor para curar a tristeza do que mimos, carinho e bom humor.
Minhas queridas, que todas vocês (até aquelas que leem e não deixam comentários) tenham um 2013 MARAVILHOSO! Que os sonhos se realizem ou comecem a se concretizar, que o amor seja encontrado, que os amigos estejam mais juntos... que a esperança esteja sempre presente.
Que Papai do Céu abençoe e ilumine os caminhos e do fundo do meu coração MUITO OBRIGADO por dividirem comigo o tempo tão precioso e aos meus olhos vocês são pessoas especiais que Deus colocou no meu caminho para que nunca esqueça de como escrever é divino, gratificante e surpreendentemente emocionante.
Um grande beijo,
Fênix

– Raghe, preciso falar com você, agora!

A voz usada por Wrath não foi nada diplomática. Ele estada irritado, muito irritado.

– Vishous, faça-me um favor. Chame Gaya a quero no meu escritório imediatamente e... – ele virou-se para Phury – você como o Primaz, deve participar também, não quero ter que lidar com toda essa merda sozinho. Você vai ter que me ajudar nessa.

Sem sequer esperar pela resposta de Phury o Rei saiu batendo as botas duramente sobre o chão de carvalho.

– O que está acontecendo? – perguntou Z encarando Raghe – O que você fez?

– Eu? Ahhhh... Irmão, eu não estou sabendo de nada. Ando bem quieto no meu canto.

– Sei. Se você não tivesse pisado na bola, Wrath não estaria espumando.

– Não quero me meter... mas seu eu fosse ele também estaria puto. – Lassiter deu a deixa para inúmeras suposições.

– O que é? Fale, anjo! – Phury era um cavalheiro, sempre foi. Mas podia sentir que algo estava muito errado. Ele, Raghe e uma Escolhida grávida tendo uma conversa com o Rei em seu escritório, não era uma situação normal.

– Eu não preciso falar, eu vi... e aliás Vishous também viu e Wrath apesar de enxergar muito mal... também! Essa reuniãozinha vai ser animada. Graças aos céus... eu estou fora dela!

Com um rizinho cínico ele se afastou deixando o restante dos machos praguejando.

Quinze minutos depois, todos os chamados estavam no escritório do Rei, inclusive o anjo que foi convocado, sem direito a dizer não. Wrath estava sentado com Beth ao seu lado. A sua frente, também sentados, Raghe, Phury e Gaya. Lassiter e Vishous estavam em pé próximos à lareira.

– Quantas vezes você já alimentou Gaya? – perguntou ferozmente para Raghe.

– Quê? Mas que pergunta?

– Responda Raghe, não estou com paciência para esperar.

– Só quando... quando, caramba a cerca de dois meses quando nós...

– E você Gaya? Andava com fome ultimamente? – o tom do Rei era cada vez mais carregado.

Um calor subiu pelo seu rosto e ela ficou vermelha como um tomate. Baixou o olhar sobre suas mãos que estavam trançadas em seu colo, demonstrando claramente seu nervosismo. Não conseguiu dizer uma única palavra.

– Não se apresse. Posso ficar aqui até você decidir responder. – Wrath se recostou em sua majestosa poltrona, em seu trono e esperou. Por um breve momento pensou que era o melhor a fazer. Estava no ponto de estourar, mas mesmo assim sentiu o toque suave da mão de sua Rainha sobre seus ombros.

– Wrath, o que está acontecendo? Foi alguma coisa que Gaya fez? – perguntou Phury – Sabe, estou tentando lidar com todas as Escolhidas na casa de Rehvenge junto com Cormia e às vezes é necessária muita calma. Elas não conhecem nada do mundo. Então...

– Eu ainda estou esperando uma resposta Gaya. – falou quase sem mover a boca.

– S-sim.

– E porque não foi procurar por Raghe? Exigir o que lhe era de direito?

– Não queria... c-criar um conflito – Gaya gaguejava nervosa.

– E acha que não criou um conflito se alimentando de Eligor?

– O quê? – os olhos de Raghe estavam saltando de seu rosto – Eligor? Quando?

– Cerca de uma hora atrás. Eu... – ela queria explicar, mas sentiu-se sem coragem.

Raghe passou as mãos pelos cabelos, calculando as consequências do ato. A Virgem Escriba não ia gostar disso.

– Porque não me procurou? Tínhamos um acordo... Jesus Cristo, como pôde beber dele? Onde é que você estava com a cabeça para cometer tal loucura? E o bebê?

Poucas coisas impediam Raghe de rir ou fazer uma piada... esta era o novo tópico da sua lista. Era visível seu transtorno, sua irritação.

– Eu... quando o vi... – as lágrimas já teimavam em escorrer pelo lindo rosto de Gaya – Ele me pareceu ser um bom homem e...

– Pelo amor de Deus! – Raghe abriu os braços duvidando do que ouvia, enquanto que sua paciência chegava ao fim da linha – Ele não é um homem, ele é um demônio. Você não sabe nem o que ele é. Não tem sequer consciência da gravidade do seu erro. Não posso acreditar que fez isso, que puta idiotice!

Dito isso, Gaya desmoronou. Seus soluços preenchiam o escritório e ela tentava esconder o rosto cobrindo-o com suas delicadas mãos. Phury não sabia o que pensar. A fêmea estava prenha, carregava o filho de seu Irmão, um Guerreiro honrado e agora possuía sangue demoníaco correndo em suas veias. Não era à toa que Raghe estava tendo um ataque. Caralho... ele desejou não ser o Primaz. Como contornar a situação? Falar com a Virgem Escriba com certeza era necessário.

– Contenha-se Raghe. – o Rei tentava impor limites, apesar dele mesmo concordar com as palavras de Hollywood – Pelo que presenciei aquilo foi mais do que somente alimentação, não é certo Gaya?

– O que houve? – indagou Phury sem dar tempo para que ela respondesse ao Rei. Apesar de suas palavras saírem calmamente, suas perguntas doíam como picadas de vespas. – Você se deixou levar Gaya? Esqueceu o propósito pelo qual está aqui? Eligor não serve para você. Se havia algum problema deveria ter procurado por mim ou por Raghe. Sempre estivemos aqui, poderíamos...

Nunca. – a palavra soou forte, apesar de a fêmea estar tremendo – Nunca ninguém esteve aqui pra mim. E eu cumpro meu papel, todos os dias. Dia após dia... eu cumpro o meu papel e estou feliz por carregar este filho... mas isso não quer dizer que não desejo o mesmo para mim. Desejo o que a maioria de vocês tem. Não sou cega ou insensível.

Por essa reação ninguém esperava.

– Não entendo aonde quer chegar? – falou o Primaz.

– Eu quero amor... eu quero ser desejada... eu quero ser amada.

– Mas...

– Deixe-me terminar. Vocês queriam uma explicação. – de repente o choro cessou e o que sobrou foi coragem. Ela secou as lágrimas com as mãos. – Eu vejo isso nos olhos de Raghe quando olha para Mary e é assim também com você e seu Irmão gêmeo quando estão com suas shellans. Agora mesmo... se eu me atrever a olhar para o nosso Rei e ele estiver olhando para a Rainha, mesmo sobre esses óculos escuros... não há como esconder, como negar. Existe uma adoração, um sentimento maior do que tudo. Uma necessidade de estar perto dela e mantê-la em segurança. Então, sim! É isso o que eu quero pra mim.

– Ela está certa! – a afirmação de Beth pegou a todos de surpresa – Eu não sabia o que eu era até que Wrath apareceu em minha vida e agradeço por isso todos os dias e apesar de tentar aceitar os costumes de nossa raça eu tenho que admitir que ser uma Escolhida não é tarefa fácil. Simplesmente aceitar carregar em seu ventre um filho de um macho que não é seu hellren, que não está vinculado a ela. Deus... eu, eu jamais conseguiria. É cruel, se Gaya tivesse permanecido do Outro Lado para gerar essa criança, não teria vivido e presenciado o amor que está presente nesta mansão, mas convivendo conosco isso se tornaria inevitável.

A Rainha saiu de onde estava e se aproximou da fêmea.

– Você está fazendo um ótimo trabalho Phury, apesar de recente. Você as está ajudando a pensarem por si mesmas, a escolher o melhor caminho... e foi isso que Gaya fez. Ela escolheu e isso não quer dizer que não houve um erro. Mas será que tudo isso, não é um grande erro? Sou metade humana e nós humanos cremos em um Deus que nos deu o livre arbítrio e é assim... errando que aprendemos, com nossos erros. Só que nosso Deus é misericordioso. Gaya foi impulsiva e também incapaz de se controlar, não vou me aprofundar nessa atitude porque seria constrangedor demais para ela. Mas nenhum de nós notou que estava faminta... a não ser Bella. – Ele virou-se para Gaya e falou olhando em seus olhos. Até eu, sua Rainha, não fui capaz de notar o quanto se isolava de todos desta casa, o quanto estava só. Você pode ter errado, mas nós também erramos.

Era notável o orgulho por sua Beth no rosto duro e másculo do Rei. Ele chegou a esboçar um leve sorriso. Ela era simplesmente perfeita e acima de tudo justa o bastante para admitir seus erros e consolar a fêmea que encontrava-se sentada a sua frente. Em seus pensamentos ele agradeceu silenciosamente a Virgem Escriba por ter colocado-a em seu caminho.

– O sangue de Eligor, não será suficiente para você. – disse Raghe mais calmo.

– Eu sei, ainda tenho fome.

– Então me deixe alimentá-la e me perdoe por não notar sua fome. Eu fui...

– Não Raghe, você não é culpado de nada. Eu confundi as coisas, eu queria você pra mim, eu queria que você me olhasse como olha para...

– Não posso Gaya. Pra mim só existe Mary.

– Entendo, mas tenho que confessar que o desejo de tomar o sangue de Eligor foi maior do que eu. Não consegui resistir a ele e... para ser bem sincera depois disso, não consigo olhar para você do mesmo modo que antes.

No momento que a conversa se tornou paralela Lassiter e V. começaram a sair do escritório com o olhar aprovador do Rei. Eles foram seguidos por Phury e também por Wrath. Quem permaneceu para assistir a alimentação e o fim da discussão foi Beth... afinal ela era uma notável Rainha.



Évora não deixaria passar a próxima oportunidade. Não perderia outra chance. Eles estavam vivendo como pombinhos. Pois bem, era assim que ela conduziria as coisas... usando o bom e velho amor e claro, instigando o desejo doentio de Paul.

Presa naquela mesa de tortura, ela se deliciava com seus pensamentos de vingança, com a certeza de que não podia invocar qualquer tipo de criatura para lhe ajudar. Se fizesse isso, revelaria seu esconderijo. Ah... haviam “coisas” atrás dela. Homens que a matariam sem hesitação, ou melhor, um certo demônio. Havia antigas pendências a serem acertadas. Todavia de uma forma ou de outra ela tinha sobrevivido até agora e não iria se entregar facilmente.

Ela gargalhou sarcasticamente tentando imaginar o desespero dele. Seu ódio ao constatar que sua linda filhinha encontrava-se em poder da feiticeira que ele desprezou um dia, trocando-a por uma humana desprezível e inútil.

Mas agora, vendo-se presa naquele porão, Évora encontrou o que precisava, ou seja, tempo para pensar. Refletir calmamente sobre os passos seguintes e chegou a sua maior conclusão: Não havia razão alguma para manter Lisa Hendrix viva.

Tudo tinha sido um engano. Uma grande confusão. Pra que esperar pelo nascimento da criança? Para que sugar os poderes de Lisa? Évora já era terrivelmente demente e poderosa e com a ajuda de Ômega, poderia se tornar indestrutível. A verdade era uma só. Mataria Lisa e Paul e depois iria à captura de Julia que não passava de uma “putinha” traidora.

Não havia mais dúvidas. Esse era o caminho correto a ser trilhado. Seus pensamentos foram interrompidos por passos que desciam as escadas.

– Está com fome?

– Não. Estou com dor nas costas. Esta maldita mesa é muito desconfortável.

– É assim que tem que ser. – o risinho de Paul soou no ar – Lições são aprendidas melhores se forem ensinadas tendo a dor como companheira.

Seu grandessíssimo filho da puta, você quer jogar? Eu sei jogar!

– Como vai Lisa? – perguntou a feiticeira quase com um ronronar.

– Não é da sua conta.

– Não sente falta dela?

– Como poderia? Ela é minha. Agora mesmo estávamos juntos.

– É mesmo? – o sarcasmo de Évora era doentio – Estavam na cama? Fazendo amor? Você estava com o seu pau enterrado nela?

Aquilo foi um balde de água fria no autocontrole e na confiança de Paul.

– Ela gemia enquanto você a penetrava profundamente, demonstrando todo o seu amor e todo o seu tesão. Posso imaginar a cena. Já vi anteriormente. Se bem que para mostrar toda a sua virilidade... você precisa de mim.

Paul cerrou os punhos ao lado do corpo, seus olhos ardiam em desespero, principalmente quando Évora começou a sorrir, escancarando seus dentes brancos e perfeitos.

– Mas, espere! A cena que eu vi só você gemia... Lisa permanecia imóvel, desprezando o ato e em seu rosto eu podia jurar que a repugnância estava lhe causando náuseas. Podia apostar que ela vomitaria a qualquer momento.

Descontrolado pelas verdades cuspidas pela bruxa vadia. Paul avançou e socou-lhe o rosto.

– Você quer morrer Évora? – perguntou debruçado sobre ela – Porque estou tentado a lhe fazer tal favor.

– Quem vai fazer um favor a você sou eu, meu querido aliado – ela cuspiu no chão o sangue que o corte da sua boca produzia – Vou lhe dar uma ereção e vai ser agora mesmo, assim você poderá tirar suas dúvidas.

Paul deu um passo atrás, não acreditando no que ouvia.

– Eu sei que você tem dúvidas Paul. Não tente me enganar.

– Você não sabe de nada, sua piranha.

– Então, porque não fazer? Se vocês estão tão apaixonados, tão ligados... tenho certeza de que o sexo será tão prazeroso para Lisa quanto é pra você. Talvez ela esteja até ansiosa por um momento de maior intimidade. Agora que tudo está bem entre vocês, porque adiar?

Ele imaginou... e instintivamente sua boca entreabriu e seus olhos se fecharam. Essa era a oportunidade de Évora.

– Aceite Paul. Aproveite o momento e prove pra mim que eu estou errada. Tome Lisa como sua mulher, sua amada e não somente como um estupro.

Os três segundos que se seguiram antes da resposta de Paul pareceu ser a eternidade, mas a ordem brotou confiante e malévola da boca do redutor.

– Faça!



No centro de treinamento da Irmandade, a enfermaria foi o lugar escolhido para que acontecesse o “despertar” de Julia.

Vishous posicionou estrategicamente alguns equipamentos que poderiam ser necessários no processo, inclusive um desfibrilador. Não tinha idéia do que poderia ocorrer naquela sala, então, seu bom senso lhe dizia que todo o cuidado era pouco nesse caso.

Escolheu alguns medicamentos essenciais para a sobrevivência de um humano e até preencheu algumas seringas com eles. Tudo ficaria em fácil acesso caso as coisas saíssem do controle e ele tivesse que intervir rapidamente.

Enquanto arrumava e preparava os últimos detalhes metodicamente para o que viria a seguir, pensava no desabafo de Julia. Deus! Ele vivia o inferno em vida e nada podia fazer para aliviar a carga de sua amada que sofria dia após dia. As palavras ficaram alojadas em seu lóbulo frontal martelando... martelando:

Ela foi chicoteada, surrada. Eu vi quando Lisa se negou a aceitar ajuda de Évora, suas costas estavam infeccionadas, ela dizia que preferia morrer. Eu vi seu sofrimento... eu pude sentir sua dor.

Mas que porra! Estava a um passo da loucura total, do abismo sombrio que era a perfeita definição do seu íntimo doente e gelado. Seu ódio era tanto que V. tinha medo de atacar e matar alguns de seus Irmãos ou todos eles, quando o faziam falar sobre seus sentimentos.

E se não desse certo? E se Julia não suportasse a carga? E se ela morresse no processo?

Aí sim!!! Toda a merda estaria fudida, inclusive ele. E como solução... meteria um tiro no meio dos seus miolos. Que se foda a raça. Que se foda a Irmandade. Que se foda o Rei. Ele não suportaria viver séculos sem a sua Lisa.

Não, nada disso! Era melhor apagar seus pensamentos. O melhor a fazer era se esforçar para que a porra da sua concentração retornasse para a branca e azulejada enfermaria.

– Você está muito quieto, não que eu já o tenha visto falante.

– Estou concentrado – respondeu V. secamente.

– Concentrado ou preocupado? – insistiu Julia, puxando uma conversa.

Caralho! Estava tão perdido no meio de seus delírios que não reparou quando a garota entrou e se sentou na maca, ao lado dos equipamentos hospitalares, balançava os pés pra lá e pra cá como se a morte não a rondasse. Porra, ele não estava disposto a aturar papo furado. Portanto com o seu silêncio profundo e perturbador, talvez ou provavelmente ela entendesse o recado e não insistiria naquilo.

– Preocupado! – Julia afirmou franzindo a testa.

Silêncio... ele não respondeu e nem iria. Afinal o limite da sua sensatez era uma linha tênue, quase imperceptível e muito próxima do rompimento.

– Ela faz bem a você. Ao lado de Lisa você não parece tão frio e muito menos indiferente.

– Como sabe? Nunca me viu...

– Vi o bastante, em meus sonhos, para saber que você é outra pessoa ao lado dela. – Julia não estava para brincadeiras, ela respondeu quase que rispidamente. – É como se ela tivesse o poder de aquecer seu coração, além é claro... do seu corpo.

Ela corou ao terminar a frase, mas não recuou.

– Isso não funciona comigo – Vishous praticamente rosnou – Não vai conseguir que eu fale sobre ela.

– Não é sobre Lisa que quero falar. O que eu posso fazer por ela... já estou fazendo. É sobre você.

– Sobre mim? – aquilo era realmente incrível. Conversar com uma jovem de dezessete anos ingênua sobre seus problemas? Nem fodendo! Ela não acrescentaria absolutamente nada a sua história de vida – Não se preocupe comigo, sei me cuidar sozinho a um loooongo tempo.

– Somos parecidos.

Ele balançou a cabeça desdenhando.

– Se vê que não me conhece. Não tem noção do que está afirmando.

– Eu perguntei aos Irmãos sobre você. Temos praticamente o mesmo “dom”. – ela esperou que V. perguntasse. Ele estava de costas, não se virou e como também não perguntou... Julia continuou – Você sabe como as pessoas vão morrer, mas não sabe quando. E eu... eu sei que será dentro de vinte e quatro ou no máximo quarenta e oito horas, mas não sei como.

Aquilo foi como receber um soco no estômago. V. não esperava por uma revelação, pelo menos, não por uma desse tipo.

– Eu só preciso olhar. Eu as vejo desbotadas. E quanto mais se aproxima a hora de serem ceifadas, mais sem cor as pessoas ficam... no final são apenas uma sombra em preto e branco. Então, eu queria lhe perguntar se você consegue ver seu vou... vou...

– Não. – Vishous se virou e olhou profundamente nos olhos de Julia, seu semblante não exibia mais tanta fúria – Eu não sei o que vai acontecer aqui. Minhas visões secaram.

– Acho que assim é melhor. É melhor eu não saber – ela sorriu melancolicamente – Dessa forma, posso continuar com a ilusão de que vou sobreviver a tudo isso e que um dia vou encontrar uma versão masculina de abdômen definido de Lisa Hendrix para me amar. Amar plenamente... é assim que vocês se amam. Eu sei... plenamente, sem barreiras.

– Para uma desconhecida, você sabe muita coisa sobre nós. – Ele se sentou ao lado dela na maca.

– Desculpe, não quis parecer enxerida e nem abusada. – Julia estava novamente corada.

– Tudo bem, você precisa confiar em mim. Agora escute com atenção: Eu. Não. Vou. Deixar. Você. Morrer!

Ela balançou a cabeça afirmativamente como se sua coragem dependesse das palavras emitidas por Vishous.

– Que tal se agora você tentasse dormir um pouco? Relaxar.

– Eu não consigo.

V. fingiu que ia arrumar o cabelo que caía por cima dos olhos de Julia, mas levemente tocou-lhe a testa. Imediatamente ela adormeceu.



– Quero fazer amor com você.

Jesus Cristo, não!!! Por Deus, por tudo que há de mais sagrado, não!!!

– Você... você foi pedir isso para Évora? Foi isso que foi fazer naquele porão?

– Não, claro que não Lisa! Mas ela entende, ela sabe que precisamos disso.

Porque o coração de Lisa teimava em bater? Porque simplesmente não parava? Já não tinha sofrido o suficiente com os vários estupros e os espancamentos e também com as chibatadas?

Claro que não! E ela sabia que essa hora chegaria. Não há como mentir do jeito que ela mentia tendo Évora como prisioneira e tão accessível. Era mais do que lógico que um dia ela influenciaria Paul... porém ela se agarrava a idéia de que tal dia demoraria a chegar, que conseguiria fugir primeiro, que nunca teria que se deitar com Paul e fingir que o sexo era bom e que o orgasmo a atingia em todo o seu glamour.

O pânico a capturou por completo. Um frio percorreu sua coluna vertebral e cravou as garras em sua nuca. Seu cérebro travou. Não conseguiria, não havia como suportar a proximidade dos corpos colados, o cheiro, a boca dele percorrendo e exigindo seus poros, seus gemidos, seu suor. Começou a tremer, a respiração ficou difícil, seus olhos nublaram. Não. Não. Não.

Deus, não!!!

– Você não me quer? – com a pergunta Lisa percebeu uma sombra borrar o olhar de Paul, ele a mataria se ela o negasse.

– Não... não é isso.

Então o que é? – berrou o redutor – Não brinque comigo, não me provoque. Pensa que já esqueci que você se deitou com meu inimigo? Com aquele mostro.

– Paul... por favor, eu só...

Ele avançou sobre Lisa prensando-a contra a parede, colocando todo o peso de seu corpo contra o corpo dela.

Agora é o seu momento, Lisa – o Paul psicótico estava de volta e totalmente transtornado – Diga que me deseja. Diga que me quer dentro de você.

– Está me machucando...

– Vou fazer mais do que machucar você – os gritos ecoavam ensurdecedores e descontrolados – Vamos porra! Diga o que quero ouvir. É sua última chance.

– Eu...

Merda... não conseguia pronunciar as palavras. Como sustentar a farça? Lisa não tinha força física para evitar o inevitável e não tinha força mental para fingir... não quando sentisse o corpo, o membro de Paul entrando nela. Tinha que fazer alguma coisa. Mas o quê? Não havia saída.

É o fim...

Diga, AGORA ou eu juro, juro que eu te mato e vou começar cortando o seu ventre e arrancando tudo que tem aí dentro. Você vai poder dar uma olhada no seu bebezinho antes de morrer.

– S-sim... sim.

Para Paul era impossível se conter. As contrações que sentia em seu membro ereto o estavam deixando insano, precisa gozar dentro dela e ela tinha dito SIM. Ela o desejava tanto quanto ele a desejava.

Ainda pressionando-a contra a parede de tijolos ele começou deslizando suas mãos até baixá-las estrategicamente para agarrar o traseiro da mulher que ele tanto idolatrava. Ele empurrou o quadril contra o ventre de Lisa e começou a roçar sua ereção. No começo provocativa, depois mais rápido ansiando por mais, ansiando pela penetração. Mas ele não podia gozar. Não ali. Faria tudo direito, o momento precisava ser especial. Então a puxou para cima levantando-a do chão.

– Me abrace com suas pernas.

Ela obedeceu sem discutir. Estava tentando evitar que as lágrimas caíssem. Se acontecesse o choro ele a mataria.

– Vamos para o meu quarto. Vamos para a nossa cama.

Quando Paul começou a andar na direção do quarto com Lisa entrelaçada em seu corpo, ele se sentiu um gigante, capaz de tudo. Estava tão absorvido pelo momento que esqueceu de trancar a porta de entrada, deixando-a aberta.

A última visão de Lisa antes de adentrar à suíte foi o verde da grama do jardim e um pedaço da placa de entrada onde se lia: “Rancho Montanna”.

– Vou cuidar de você meu amor. Vamos fazer devagar... você vai gostar, vai gostar mais do que das outras vezes. Vou levar você à loucura... você vai gostar. Vai querer mais... você vai gostar. Você é minha, minha, só minha. Você vai gostar.



Estava tudo pronto para começar o “despertar” de Julia. Ela ainda dormia e V. achou que assim era melhor. A garota não precisava passar por uma expectativa ainda maior do que já estava passando.

Já tinha avisado a Wrath que poderiam começar. Ele podia sentir a chegada de seus Irmãos, um por um eles se acomodavam no salão de treinamento que ficava em frente à enfermaria. Butch foi o primeiro a chegar, como sempre seu melhor amigo nunca falhava. Depois foi a vez dos gêmeos Phury e Z. seguidos por Thor que provavelmente estava com Lassiter em seus calcanhares. O anjo não o largava.

Vishous abriu a porta a tempo de ver Wrath surgindo imponente pelo corredor, ele estava com Eligor ao seu lado e conversavam em tom baixo e amigável.

– Ela está dormindo? – Perguntou o demônio.

– Sim. Estava muito nervosa e eu achei melhor...

– Você agiu bem, Vishous. É melhor que ela não veja o que terei que invocar para que isso possa acontecer. – Havia uma nítida preocupação na voz de Eligor – Afinal ela é apenas uma garota.

– E você se importa com que o acontece com as garotas?

Raghe cuspiu a pergunta, como se ela fosse uma flecha e pudesse acertar diretamente o peito do demônio.

– Sim, eu me importo com Julia, porque ela pode ser a última chance de minha filha. Mas não é exatamente dessa garota que você está perguntando, não é mesmo vampiro?

Os olhos de Eligor expressaram um fogo brilhante por cerca de três ou quatro segundos, transformando suas íris esverdeadas em vermelho incandescente. Raghe não se intimidou com a demonstração de força, pelo contrário seus próprios olhos ficaram totalmente brancos. A besta estava à espreita.

Alguém murmurou, enquanto outros praguejaram alto e em bom tom. Os que estavam sentados, logo se levantaram e esperaram o pior.

– Ainda bem que você sabe entender uma pergunta demônio, por um minuto cheguei a pensar que não era inteligente. Vou lhe dar um conselho, fique longe de...

– Cuidado Raghe – Eligor sorriu friamente e de alguma forma a agonia do inferno se revelou em seu rosto – Eu sei lidar com “bestas” melhor do que você. Você não é o único ser vivo a carregar uma dessas. E de onde saiu a sua existem muitas outras. Se eu substituir a que você controla por uma que controle você... seus dias não serão tão divertidos quanto foram até agora!

– É uma ameaça demônio? – Raghe fechou os punhos e serrou o maxilar de modo que a pergunta saiu rosnada. Suas botas foram fincadas no chão e a posição de ataque surgiu.

– Não, é um fato! E para você será bem doloroso. É assim que deve ser com seres insignificantes que não sabem sua posição no mundo.

Quando o confronto tornou-se irremediável e os machos estavam a ponto de se mataram, um grito horroroso saiu da enfermaria... Julia.

Ela estava caída ao lado da maca, seu corpo tremia violentamente dentro de um rodamoinho de pequenas convulsões. Com olhos arregalados ela vomitava sangue e o pavor estampava seu delicado rosto, lágrimas rolavam e espasmos violentos faziam com que ela contorcesse o corpo em profunda dor.

Por Cristo! O que tinha presenciado em seu sonho foi demais, insuportável, tenebroso, nefasto. Lisa... ela... estava sendo violada, massacrada. Não era apenas seu corpo que não suportava mais, sua alma encontrava-se partida, estilhaçada.

Julia tentou falar, mas o que saiu de sua boca foi mais um grito... agudo e cortante.

– O que está acontecendo? – Perguntou o Rei, enquanto Eligor irrompia pela porta.

Vishous já estava ajoelhado, amparado à cabeça da adolescente em seu peito e virando-a de lado para que ela não engasgasse enquanto vomitava, travou suas poderosas pernas ao redor do pequeno e frágil corpo evitando que ao se debater a garota pudesse se ferir batendo nos vários equipamentos dispostos pela sala.

– Shhhh, vai passar... relaxe... – Enquanto a voz de V. saía hipnoticamente de seus lábios, uma de suas mãos formava pequenos círculos nas costas de Julia acalmando-a. – Apenas deixe passar.

Wrath sentiu o peso de uma forte mão sobre seus ombros. Eligor apoiava-se nele como se fosse cair ao chão, como se seus joelhos estivessem a ponto de se curvarem.

– Ela sabe – murmurou o demônio consternado.

– Espere só um minuto. – Respondeu o Rei, só para Eligor ouvir – Vishous sabe o que está fazendo. Confie por apenas um minuto.

Não precisou tudo isso, somente alguns segundos. Julia parecia ter emergido do transe que a torturava. Olhou para os machos ao seu redor e depois diretamente para Vishous, preenchida internamente por uma angústia cruxificante ela murmurou entre lágrimas de desespero.

– Racho Montanna... uma placa na entrada... Rancho Montanna. É... onde Lisa está presa!



Notas finais
Antes de me xingarem... eu não vi outra maneira de encerrar o Ano do que nossa querida Julia descobrindo finalmente onde Lisa está presa. Por mais que a cena seja terrível, precisava ser impactante!
Julia não sobreviveria ao despertar, então foi à única forma que eu encontrei.
Paul tomar Lisa daquela forma e toda a angústia que ela sentia no momento, certamente chegaria e atingiria Julia como uma flecha... foi isso que eu quis transmitir.
Por enquanto é só!
Ahhhhhh.......não, para tudo.... ahahahahah
Tem outra coisa que eu quero comentar: O que acharam do confronto entre Raghe e Eligor? Contem-me tudinho!!!!
Bom... agora terminei. Encontramos-nos em 2013!
Beijos,
Fênix