Três Reis Contra O Tempo
33 Para Cima e Para Baixo
Depois de várias horas caminhando, Mikayla já conseguia andar sozinha, contando apenas com o machado, como muleta.
Eles haviam alcançado a montanha por volta do meio dia, quando pararam para beber água, comer um pouco de carne de pato e depois voltaram a seguir o curso do rio, subindo a montanha.
Há primeira hora foi fácil, o caminho era uma subida leve. Mais a partir da segunda hora de caminhada eles se encontravam a centenas de metros do solo, a altura incomodava Brady que começou a caminhar mais devagar, por causa das vertigens. Não era possível ver o céu, da trilha serpenteante da montanha, porque uma densa neblina cobria tudo. Também não havia vegetação ali, apenas rochas por todos os lados e o rio agora reduzido a um simples córrego de água gelada.
— Minha bermuda medieval, não parece tão legal agora... — diz Brady tremendo de frio, enquanto espiava um gigantesco abismo, cujo fim não podia ser avistado.
A montanha tinha muitos daqueles profundos buracos, espalhados pelo caminho. Armadilhas da natureza, para eliminar qualquer desavisado. Por isso Mikayla ia na frente perscrutando os perigos.
— A loja não aceita devoluções. — diz Mikayla de forma irônica, enquanto tomava um gole de água do riacho. — Vamos continuar... Sinto que estamos muito perto.
— Você disse que estávamos muito perto cinco horas atrás... — diz Brady voltando a caminhar atrás de Mikayla.
— Dessa vez é sério.
— Então quer dizer que das outras vezes era mentira? — diz Brady inconformado.
— Tente compreender, que se eu dissesse que estávamos longe, você teria passado cada minuto reclamando. — diz Mikayla. — Agora pare de falar, está tirando minha atenção do caminho.
Os dois andaram por mais alguns minutos, o caminho agora parecia mais uma escalada do que uma caminhada.
— Parece que estou vendo algo a frente — diz Mikayla. — É uma caverna... Ela está próxima, cuidado para não tropeçar e cair nela.
— Tomarei cuidado, senhorita comandante... — diz Brady arfante.
— Disse alguma coisa? — diz Mikayla se virando.
— Não vossa guarda, eu apenas estou cansado de caminhar! — diz Brady de mal humor.
— Está se sentindo suicida hoje, rei Brady? — diz Mikayla com um sorriso.
— Depende, se a morte levar a dor das minhas pernas embora... — diz Brady.
O caminho virava diante da caverna, serpenteando ainda mais íngreme para o alto. De repente um rugido furioso se alastrou pela montanha, ecoando em cada canto.
— Deixe-me adivinhar — diz Brady suas pernas bambeando. — O dragão voltou? — Brady olha para o céu, e diz baixinho. — Deus aquilo que eu disse sobre morrer era brincadeira... Pode deixar a dor nas pernas eu não ligo.
— Provavelmente... — diz Mikayla seus olhos luzindo. — Essa é a minha chance.
— Sua chance de que? — diz Brady horrorizado.
Uma enorme sombra passa sobre eles.
— AAAAAHHHHHHHH!!!! — diz Brady se jogando no chão, para que as garras do dragão, não o matasse.
Mikayla por sua vez girou no calcanhar, empunhando o machado com as duas mãos. Em um movimento circular ela tentou atingir a sombra, mais o dragão passou longe de sua lâmina. Um rugido diferente escapou do dragão, um chiado gorgolejante. O dragão estava rindo dela. A sombra subiu pela montanha desaparecendo de vista.
— Sem vergonha, ele riu de mim — diz Mikayla levantando o rei.
— Espera só ele te ver dançando, vai gargalhar por horas a fio. — diz Brady limpando a poeira do corpo.
— Ele vai ver algo logo, logo — diz Mikayla girando o machado nas mãos. — A dança dessa belezinha, vai ser a última coisa que ele vai ver.
— Não está pensando em enfrentar o dragão está? — diz Brady. — Porque se lembre que os planos idiotas são meus, não seus.
— Ele é meu pesadelo Brady. — diz Mikayla séria. — Se eu não der um jeito nele, ele vai nos perseguir até nos matar...
— Sei lá, não tem algum outro jeito de resolver isso de forma pacífica?
— O que você espera, que o dragão venha conversar com a gente de forma civilizada, enquanto tomamos chá? — diz Mikayla. — Espere aqui, eu vou atrás dele.
— Então eu...
— Não, desta vez você não vai — diz Mikayla. Depois sua expressão se abranda e ela prossegue: — Por favor Brady, eu te suplico, me espere aqui, ele é meu problema.
Brady ficou parado enquanto Mikayla continuava subindo o caminho, até desaparecer diante da neblina.
O corpo de Brady tremia e não somente de frio. De repente ele ouviu um novo rugido do dragão, e uma grande explosão iluminou as regiões mais altas da montanha.
— MIKAYLA! — diz Brady para as brumas.
A única resposta foi uma avalanche de blocos de pedra, caindo do alto da montanha.
— Essa não... — diz Brady se desviando da chuva de pedras menores.
Uma pedra do tamanho de um carro, desce em sua direção, e ele é obrigado a se lançar para frente. Brady se levanta assustado, vendo que por pouco a pedra não o esmagou por completo.
— Puxa que sorte... — diz Brady dando um passo para trás, seu pé atingiu o vazio e ele caiu. — AAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!
Ele começa a rolar, e rolar, até desaparecer engolido pela escuridão da caverna.
Fale com o autor