Três Batidas do Destino

2 Capítulo 2: O Laços Que Nos Une


Notas iniciais
Oi, pessoal. Como a história é um pouco triste decidi inserir algumas músicas para envolver as cenas. Vou deixar a sugestão aqui nas notas. https://youtu.be/6TrrwyoLKns?si=QqLv8z0cKEuA8OdZ

A playlist tocava. Sarah deixava-se envolver pelo ritmo de Déjà Vu, do cantor Kevin Woo; as batidas traziam memórias de momentos em que aquelas músicas serviram de trilha sonora para sua vida.


— Os coreanos estão dominando todos os gêneros — comentou Matt, tamborilando os dedos no volante.


— O R&B é sedutor, dançante... já nos embalou em muitos momentos — ela sorriu, mordiscando os lábios.


O toque do celular interrompeu a conexão. Matt atendeu no viva-voz enquanto sinalizava para entrar na rua do irmão.


— Oi, Sam — disse Matt.


— Onde vocês estão? Não me digam que desistiram! — Sam respondeu com ansiedade, já caminhando pelo gramado em direção à calçada.


A rua estava quase deserta. Apenas uma vizinha passeava com o cachorro e, um pouco mais distante, um homem empurrava o que parecia ser um carrinho de compras.


— Se me deixar falar... e pare de gesticular como um professor de artes! — Matt brincou, piscando os faróis ao encostar o carro.


Sarah desceu e correu para abraçar o cunhado, sentindo também a aproximação de Vitor, marido de Sam.


— Você está linda, cunhada! — elogiou Vitor. — .Cuidado para os convidados não terem um ataque cardíaco, ou nossa cardiopediatra favorita terá que trabalhar em plena ceia.


— Achamos que não viriam mais. Da minha parte da família, só vocês e a Hannah chegaram... — Sam começou a dizer, mas sua voz fraquejou ao notar um movimento estranho na calçada oposta. — O que está acontecendo ali?


Matt caminhou até o porta-malas. Disfarçadamente, sua mão buscou a barra de ferro antes de segurar uma das travessas de comida.


— Vai embora daqui, seu lixo! — o grito da vizinha ecoou, cortando a paz da vizinhança. — Um bairro caro desses e esses andarilhos importunando!


A mulher empurrou o senhor de idade avançada. Um cachorro, preso ao carrinho de compras, tentou se aproximar do dono, acabando por tombar o veículo e espalhar embalagens plásticas pelo chão.


— Me desculpa, senhora... eu só perguntei... — o senhor tentava explicar, sob o peso da humilhação.


O barulho atraiu os parentes da mulher, que saíram da casa em direção ao idoso com gestos agressivos. Sam correu para intervir.


— Calma! Parem! — Sam pediu, colocando-se entre eles e o homem. — Vamos ouvir o que ele tem a dizer. Não vamos estragar o Natal por causa de um mal-entendido..


— Fique na calçada, Sarah! — Matt gritou, a voz cortando o ar carregado de tensão.


O idoso tentava se levantar com dificuldade, os movimentos lentos denunciando o peso da idade e do impacto. Ao notar o desequilíbrio do homem, Vitor adiantou-se, oferecendo o braço como apoio, enquanto Sam permanecia ao lado.


— Obrigado... Eu só estava perguntando se ela poderia doar um pouco de ração para o Dante — explicou o senhor, com a voz trêmula. Sam não pôde deixar de sorrir ao ouvir o nome do cão.


— Eu gostava de ler a história de Dante, aquele que enfrentou o inferno para reencontrar sua amada... — continuou o andarilho.


— Eu gostava de jogar no PlayStation — Vitor respondeu com um riso leve, tentando dissipar a hostilidade com um pouco de humor.


A tentativa de leveza, porém, foi estraçalhada pela voz estridente da vizinha:


— Realmente, está insuportável morar aqui. Um bairro tradicional agora é obrigado a conviver com mendigos e gays!


As palavras atingiram Sam como um golpe físico. O sangue subiu-lhe ao rosto e ele iniciou uma discussão acalorada, exigindo o mínimo de respeito. Ao ver Sam confrontando a mãe, o filho da mulher avançou, fechando o punho para desferir um soco no rosto dele.


O golpe, porém, parou no ar. O rapaz congelou ao ver Matt cruzar a rua. O jornalista tinha o olhar fixo e a barra de ferro em punho, emanando uma fúria silenciosa.


— Matt, não! — Sarah gritou da calçada, correndo em direção ao marido para evitar o pior.


— Matt, para... Vamos resolver isso de forma pacífica — pediu Sam, segurando o braço do irmão, sentindo a rigidez dos músculos dele.


A mulher, percebendo que a situação fugiria do controle e que não estava mais em vantagem, puxou o filho pelo braço, batendo em retirada.


— Vamos, filho. Deixe que os iguais se entendam — sibilou ela, lançando um olhar de desprezo antes de arrastar o rapaz para dentro e bater a porta.


Sarah aproximou-se e, com calma e firmeza, tomou a barra de ferro das mãos de Matt, retirando-a vagarosamente de seu aperto.


— Meu amor... — Matt murmurou, quase num sussurro, o corpo ainda vibrando pela adrenalina.


— Depois conversamos sobre isso, Matt. Agora não — interrompeu Sarah, com um olhar que não admitia réplicas. Ela caminhou de volta ao carro e guardou o objeto no porta-malas, encerrando o momento de violência.


Enquanto Vitor auxiliava o idoso a caminhar até a calçada, Sam permanecia parado por um instante, observando com tristeza o carrinho tombado e o desconforto do cachorro preso às amarras improvisadas.


— Ele não morde, meu filho — tranquilizou o senhor, percebendo a hesitação. — Dante só tem tamanho; é uma criança cheia de brincadeiras.


— Junte as embalagens que eu cuido do cachorro — disse Matt ao irmão, assumindo o controle para tirar Sam do transe.


O senhor voltou-se para o animal com carinho:

— Eles são amigos, Dante. Deite-se para que o jovem possa te soltar. Segure pelo cinto do pescoço, meu jovem. Assim evitará que ele o arraste.


Matt encarou o animal com certa apreensão, mas surpreendeu-se ao ver que Dante obedeceu prontamente, deitando-se no asfalto.


— Isso aí, amigão... Vou te soltar. Por favor, não corra — pediu Matt em voz baixa. Ele desprendeu a corrente que ligava o cão ao carrinho e segurou firmemente a coleira. O animal parecia compreender o gesto, caminhando comportado ao lado do jornalista até ser entregue ao dono.


Enquanto isso, Sam tentava erguer o carrinho de compras. Após algumas tentativas sem sucesso, sentiu o peso ser aliviado pelo irmão, que se aproximou por trás.


— Sinto falta da época em que minhas pernas me ajudavam em tarefas simples, como manter um equilíbrio decente... — murmurou Sam, a voz carregada de frustração.


Matt soltou o carrinho por um momento e envolveu o irmão em um abraço apertado.


— Eu amo você, meu caçula. O importante é ter você aqui, agora. Nada mais importa


Na calçada, Dante recebia o carinho de seu tutor, que lhe retribuía com lambidas no rosto. Sarah aproximou-se com uma vasilha de água fresca, enquanto Vitor trazia de casa potes com alimentos da ceia e um saco de ração.


— Deve haver uns dois quilos de ração aqui para o Dante — disse Vitor.


— Não precisava de tanto, meu filho. Como as lojas estarão fechadas amanhã, eu já pretendia comprar o alimento do meu amigo no dia 26.


Após se hidratar, Dante encarou Sarah e Matt, que permaneciam abraçados. Vitor, com um sorriso de cumplicidade, abraçou o marido antes de se voltar ao idoso:


— Sou grato pelas guloseimas e, mais ainda, pelo carinho com o fiel Dante. Eu percorro este bairro há muitos anos, muito antes de instalarem as cancelas e guardas nestas ruas. Minha falecida esposa adorava caminhar por aqui para admirar as decorações extraordinárias.


— O senhor é viúvo há muito tempo? — perguntou Sarah, com doçura.


— Três anos... A recordação mais forte que guardo da minha Raquel é o relógio da praça central. Ela amava o som das badaladas às 6h, 9h, 12h, 15h, 18h e 21h. À noite, o silêncio voltava após as nove, retornando apenas na manhã seguinte. Nós tínhamos uma barraca de churros e pipoca, as crianças adoravam... Mas, infelizmente, Raquel foi vítima de uma bala perdida em um assalto. Eu me joguei no chão, mas ela... — O velho silenciou por alguns segundos, o olhar perdido no horizonte. — Ela não se abaixou a tempo. Tentei ajudar, fiz de tudo para que ficasse comigo, mas falhei.


Sarah e Sam expressaram suas condolências em silêncio. Vitor ajudou o senhor a se levantar do degrau da varanda.


— Meu filho, se puder me guiar até o carrinho e me ajudar a prender o Dante, ficarei grato — pediu o idoso a Matt.


Matt recolheu as sacolas e ofereceu o antebraço como apoio.


— Notei que o senhor recolhe recicláveis — comentou Sam na despedida. — Passe aqui sempre que puder; sempre teremos itens para doar.


— Até breve, meus jovens.


Matt caminhou calmamente ao lado do homem, acomodando as sacolas no carrinho e prendendo a guia na coleira de Dante. Antes de partir, o velho observou Matt com um olhar profundo e fraterno.


— Você é amável com sua esposa.


— Ela é tudo para mim — respondeu Matt. — Tudo o que faço é para vê-la feliz e segura.


— Como Dante Alighieri — sorriu o velho —, capaz de enfrentar o inferno pela mulher que arrebatou seu coração. Bem, ele não foi exatamente salvar a alma de Beatriz, mas sim, purificar sua própria alma e outros pontos. Entretanto, como existe diversas adaptações, eu gosto de romantizar as coisas. Demonstre todo o seu amor por ela, meu amigo, pois nunca sabemos quando será a última oportunidade. Feliz Natal. Vamos, Dante.


Matt permaneceu parado, observando o caminhar cansado do homem se afastar na penumbra. Ao olhar para o lado, viu Sarah de braços cruzados contra o frio, esperando-o. Uma urgência súbita o dominou; ele correu até ela, segurou seu rosto e a beijou com um fervor desesperado.


— Eu te amo tanto — sussurrou entre carícias.


— Eu também te amo, meu amor — Sarah respondeu, deslizando as mãos pelas costas dele. — Vamos entrar? Hannah e os convidados não devem estar entendendo nada..