Três Anos

2 Apenas saudade


Notas iniciais
Boa leitura!

Até hoje ver o sorriso dele continuava sendo uma das coisas mais gostosas na vida de Denise. Depois desses quase três anos de namoro Xavier continuava praticamente o mesmo. Um pouco mais maduro, é verdade, mas por dentro o mesmo menino brincalhão de antes.

Enquanto ele tentava irritá-la fazendo cócegas, ela não conseguia parar de rir, rolando de um lado para o outro na cama e tentando se desvencilhar dos braços dele, que não a largavam de jeito nenhum. Era comum que ele fizesse aquele tipo de brincadeira, principalmente quando tinham alguma discussão.

Quando ele finalmente parou, ela teve que ficar alguns segundos parada olhando para o teto para normalizar a respiração. O loiro deitou a cabeça na barriga dela, a olhando com um olhar um pouco chateado.

— Eu achei que agora nas férias a gente ia ter mais tempo de ficar junto. – ele confessou, fazendo bico.

A verdade é que apesar de terem se livrado temporariamente dos trabalhos, estudos e provas, o casamento de Xabéu estava ocupando quase todo o tempo livre, já que Denise era uma de suas madrinhas e fiel escudeira na escolha dos detalhes da festa.

— Eu também! – ela concordou, chateada. – Tem certeza que você tem que ir?

— Hmm... – ele murmurou, pensativo. A encarou por alguns segundos, antes de beijá-la repetidas vezes. – Tenho. – respondeu, beijando-a outra vez. – O Astro com certeza já xingou até a minha vigésima primeira geração. – riu.

— Ah... – ela entrou na brincadeira, prendendo-o num abraço apertado. – Eu não vou mais te atrapalhar então... – riu, ao mesmo tempo em que os beijos se tornavam mais intensos, as mãos dele passeando pela cintura da garota.

— Ok, tenho que ir. – ele sorriu, se afastando alguns centímetros. – Que droga. – suspirou pesadamente.

Ele se levantou, tentando inutilmente dar um jeito nos cabelos, que se tornaram uma confusão de cachos que se espalhavam por todos os lados. Ela assistiu aquele movimento, apreciando a expressão de aborrecimento que ele fazia sempre que tinha que tentar se arrumar. Depois se levantou da cama para leva-lo até a porta de casa. Sua mãe o cumprimentou animadamente como sempre e ele demorou mais do que o necessário para sair.

Quando já estava abrindo a porta do carro ele parou e a olhou novamente, com um quê de preocupação estampado no olhar.

— Denise... – começou – Eu amo você, ok? – completou, franzindo as sobrancelhas.

— Eu também amo você. – ela sorriu, antes que ele a puxasse para um último beijo, mais lento e carinhoso do que os anteriores.

Ela entendia o porquê de ele ter dito aquela frase com tanta seriedade. Enquanto via o carro dele se distanciando na rua, ela tentou se lembrar de quando as brigas começaram.

Os dois eram um casal mais tranquilo do que ela (e a turma toda) imaginara que seriam. Passados os muitos anos que demoraram para assumir que se amavam e os dramas iniciais que os levaram ao relacionamento, eles imediatamente se entenderam muito bem. Já se conheciam, sabiam as qualidades, manias e defeitos um do outro e estavam dispostos a fazer aquilo funcionar.

Apesar de discutirem de vez em quando, nunca haviam pensado em terminar ou dar um tempo. Eram os dois contra o mundo, felizes como provavelmente foram na realidade paralela.

Mas, como sempre, aquele futuro alternativo era o maior obstáculo que precisavam enfrentar.

Com o passar dos meses aquela história foi ficando cada vez mais distante. Agora já faziam quase cinco anos que não tinham notícias de Xavecão ou da Denise do futuro. Seria mentira dizer que não havia uma curiosidade para saber o que acontecera com eles, mas com o tempo tudo aquilo fora sendo deixado para trás.

Há três dias, no entanto, isso mudara.

Denise havia acabado de chegar do Limoeiro, ainda exausta por conta da loucura que sempre era o final dos semestres. Chegara em seu antigo quarto, feliz por poder tirar um tempo para si, mas logo que cruzou a porta sua atenção se prendeu em um envelope branco em cima de sua escrivaninha. A letra era uma velha conhecida sua, a mesma caligrafia miúda e um pouco difícil de ler que estampava todos os cadernos de seu namorado.

Sem entender muito bem porque, como e quando ele entrara em seu quarto para deixar aquilo, ela abriu o envelope e já nas primeiras frases se deu conta de que não era bem ele que escrevera a mensagem.

Bem, era ele, mas ao mesmo tempo não era.

Deus, ela se esquecera de como era difícil conviver com dois Xavecos ao mesmo tempo.

Ainda não tivera coragem de ler a carta inteira. Achou melhor contar ao loiro e assim as discussões começaram.

O garoto tentava não sentir ciúmes de Xavecão, afinal aquele cara era apenas ele mesmo. Porém sempre seria difícil se esquecer que Denise se apaixonara primeiro por essa versão “melhorada” de si. Enquanto parte dele queria saber o que levara seu eu do futuro a procurá-la novamente, outra parte queria apenas que ele continuasse o mais longe possível. Se sentia ridículo por causa disso, mas não conseguia evitar.

Até porque algo lhe dizia que o que o motivara a escrever aquela carta não era apenas saudade. Alguma coisa muito grande estava prestes a acontecer.

Marina sorriu alegremente ao entrar em sua casa de infância. Durante o ano letivo seus pais se dividiam entre o Limoeiro e a casa que compraram em São Paulo, onde estava sua escola de artes. Durante o primeiro ano de faculdade eles passaram o tempo quase todo lá com ela, mas ao passo que iam se acostumando com a rotina de ficarem distantes, eles foram começando a passar mais tempo na casa antiga. De qualquer forma, as visitas deles continuavam constantes.

Sua vida passara por algumas crises depois do ensino médio. A faculdade era mais difícil do que imaginara e a adaptação sem os amigos a fizera sofrer bastante. Mas o aprendizado fazia tudo isso valer à pena. A cada dia que se passava ela tinha mais certeza de que as artes eram sua verdadeira vocação e descobria mais talentos e paixões dentro desse universo.

O grupo de mensagens das meninas da turma fervia, fazendo o celular apitar insistentemente. Magali e Mônica chegaram naquele dia, Denise já estava no Limoeiro há algum tempo, Ana queria fazer uma recepção para elas em seu novo apartamento e Carmem planejava um encontro com a turma do colégio. Seria bom reencontrar todas elas e partilhar as novidades, já que tanta coisa mudara.

Depois de se acomodar direito em casa e passar um tempo com os pais, a morena foi tomar um banho para relaxar. No momento, o único temor que tinha para aquelas férias era o de encontrar o ex-namorado.

Franja fora sem dúvida uma das pessoas mais importantes em sua vida e por muito tempo ela acreditara que ficariam juntos para sempre. O término deles, quase um ano antes, surpreendera a todos, principalmente os dois. Ela queria que tivessem concretizado todos os planos que fizeram. Queria de verdade.

Mas os tempos eram outros, ele era outro. Nos momentos finais, às vezes ela nem o reconhecia.

Sabia que ele estava vindo para o casamento e que inevitavelmente teria de vê-lo. Será que conseguiria encará-lo sem se perder na vontade de estar novamente junto com ele?

Essa era uma pergunta que ela não estava ansiosa para ter a resposta.

Tudo o que Magali conseguia ver era neve e gelo, embora não sentisse frio. Os pés praticamente deslizavam pelo piso congelante e mesmo descalça ela não sentia nada, nem um pequeno desconforto. Era como se ela fosse uma parte daquela imensidão fria e solitária, dominando o imenso castelo onde se encontrava.

Não se lembrava de já ter estado naquele lugar, mas ele lhe parecia tão familiar como sua própria casa. No entanto, não era uma familiaridade segura e confortável, mas sim um sentimento de prisão e medo.

Sabia que podia ir embora se quisesse, mas nunca ia. E nunca havia mais ninguém.

Era apenas ela, ela e um peso no peito que nunca diminuía, uma amargura permanente que a sufocava e lhe tirava qualquer sensação boa. Não havia alegria.

Às vezes ela se via completamente sozinha. Às vezes haviam corpos ao seu redor. Viviane, Ramona, sua tia Nena. As três desacordadas a seus pés, congeladas de pavor. Rezava para que alguém a resgatasse, mas a ajuda nunca chegava. O tempo passava, como se fossem anos e anos de solidão e desespero.

Até que ela ouvia uma voz familiar, uma velha conhecida que a salvaria daquele palácio de gelo.

Era nessa hora que acordava ofegante e assustada.

Fazia tempo que ela não tinha aquele sonho, foi a primeira coisa que pensara ao levantar. A última vez fora no verão passado, na última noite que passou no Limoeiro antes de voltar para o apartamento onde morava com Mônica. A primeira vez que se lembrava de ter sonhado com aquilo foi em Sococó da Ema, naquela viagem que acabara se tornando um pesadelo horripilante. Depois disso aquelas imagens voltaram a atormentá-la várias vezes, sempre do mesmo jeito.

Tentando não pensar muito nisso, ela pegou o celular na mesa de cabeceira. Deu uma olhada nas mensagens, em busca de alguém com quem pudesse conversar. Queria desabafar com o namorado, mas ele estava off-line há algumas horas.

Mais cedo ela lhe perguntara quando ele chegaria. Ele ainda estava ocupado com as entrevistas, coletivas de imprensa, festas e eventos do clube e não sabia dizer ao certo quando poderia viajar. Prometeu que viria ao casamento e passaria uns dias no bairro de infância com ela e os amigos, mas não podia garantir uma data.

A menina suspirou pesadamente, triste. Ela sempre se sentia estranha ao acordar daquele sonho. Era tão real que a fazia acreditar que em algum momento de sua vida ela realmente estivera ali.

Deitou-se novamente, sentido se muito idiota. Era apenas um pesadelo bobo!

Então por que ela nunca conseguia tirar aquele castelo da cabeça?

Notas finais
TO CHEGANDO COM O SOFRIMENTO, RAPAZIADA! Uau, consegui escrever o capítulo antes do previsto! o/ Bom, tinha que ter algumas bads na fic, né gente? Não posso deixar esse povo sendo felizinho pra sempre! Hahaha Como vocês puderam notar, nesse capítulo pudemos ter um gostinho dos conflitos que vem pela frente. Quando comecei a escrever Dois Verões eu ainda estava na edição 79 da TMJ, porém depois de ler as continuações, várias ideias foram surgindo na minha cabeça. Algumas coisas serão explicadas somente mais pra frente, mas vamo que vamo! Hahaha Curtam o carnaval responsavelmente, hein galera? Kisses!