Touch-me only like you do.
28 Ficar
Capítulo 28
“Ficar”
Loren Hannigan
♥
Seis meses depois
Eu sinto que já estive nesse exato momento antes, como num bizarro déjà-vu. As pessoas se locomovendo ao meu lado, o barulho dos bagageiros compactos sendo abertos e fechados enquanto cada pessoa acha o que é seu. O zumbido de crianças animadas pela viagem de férias e o fato de não precisarem mais ficar presas na lata enorme e sufocante que é esse avião. A voz muito polida e muito alegre da aeromoça enquanto se despede de um por um. Ao fundo eu consigo ouvir os ruídos típicos de um grande aeroporto. Minha cabeça está girando, estou parada no momento, cinto de segurança ainda afivelado, tentando manter uma respiração constante e praticada. Medo gelado e ansiedade paralisante, como se alguma coisa terrível fosse acontecer a qualquer segundo. Minhas mãos apertam o braço da poltrona do avião, como se eu estivesse me preparando para a parte assustadora de um filme de terror, onde a música de suspense tocou por um tempo e agora veio o silêncio horripilante, aquele que te coloca na ponta da cadeira, mesmo que você saiba que num filme, nada daquilo é real. A tensão do meu corpo é tão grande, que quando sinto uma mão no meu braço, eu quase grito de terror. Quase. Um arquejo alto sai da minha boca, e eu tento focar na pessoa do meu lado.
— Loren, – Carter diz suavemente – você está prestes a ter um ataque de pânico. Respire. Nós estamos aqui, finalmente. Nós temos trabalhado pra isso. Vai dar certo.
Eu aceno em reconhecimento, mesmo que meu iminente ataque de pânico não tenha quase nada a ver com o que viemos fazer na Califórnia, mas sim com quem temos que falar. Nada é como da última vez que estive aqui, essa não foi uma decisão de última hora ou uma emergência, e ainda assim eu sinto o mesmo que da outra vez, a mesma incerteza. Você pensaria que cinco meses quase ininterruptos de terapia teriam colocado a minha cabeça num lugar melhor, mas não. Aprender a lidar com os sintomas de ansiedade e pânico não é uma cura, mas um paliativo. Pra ser justa com a Dra. Lyana, ela foi uma guerreira durante esse tempo, mas o constante estresse, o ambiente completamente tóxico e o fato de que eu não conseguia fazer de nenhum lugar um lar, desde que eu fui forçada a deixar a casa dos Heidy, não estavam exatamente ajudando na minha recuperação. Então, Dra. Lyana, de todas as pessoas, foi quem plantou a semente do “plano” de hoje na minha cabeça. Ela tinha uma teoria de que me faltava um senso de propósito em tudo isso, uma meta que não fosse comercial, algo que eu pudesse olhar para trás no futuro e contemplar o que eu conquistei. Um plano pra minha vida, sobre onde eu queria estar, com quem, fazendo o que. E acho que não era segredo pra ninguém as respostas para essas questões. Mas era mais que isso, largar tudo e voltar pra a concha onde eu me sentia segura não era exatamente um plano de vida, Dra. Lyana me disse. Eu tinha que me esforçar, eu tinha que fazer valer a pena cada conquista, pra saber onde eu cheguei. Para desfrutar de estar lá por meu esforço e porque eu mereci. Grande parte dos meus problemas psicológicos não vieram apenas de estar fisicamente afastada de Logan, das memórias do trauma onde nos conhecemos, mas de ter que enfrentar o que era a vida, suas injustiças. Era eu, podre de rica, dirigindo uma empresa multimilionária, no auge da juventude, o antes dos 30 que cada pessoa da minha geração sonhava. E eu não trabalhei um dia sequer da minha vida pra conquistar isso. Logan trabalhou quase cada minuto de cada dia desde o momento onde ele foi forçado a perder a inocência infantil de ver o mundo para criar seus irmãos, e ele estava tão longe de atingir esse sonho, que nem era engraçado. Logan tinha um diploma conquistado duramente, tinha conhecimento adquirido do dia a dia de sua profissão, tinha se esforçado; eu não tinha feito nada. Meu avô morreu e esse foi meu jackpot.
Eu não me suportava muito nos dias atuais, eu odiava que as vezes eu me pegava sentido pena de mim mesma quando nada realmente aconteceu comigo. Eu me culpava por coisas que não eram minha culpa, e eu estava sinceramente me afundando numa tristeza tão grande que isso afetou até mesmo o meu corpo. Definhando, como meu irmão me disse. Lentamente sumindo.
Isso foi quando a Dra. Lyana me forçou a achar um propósito pra minha vida. E abençoada seja ela, porque eu coloquei todas as minhas fichas no meu louco plano de futuro. Onde eu conseguiria estar com quem eu queria, cumprindo (mais ou menos) o desejo final do meu avô, beneficiando pessoas que eu amava mais que tudo, e umas que nem tanto, e ainda sendo feliz no final das contas. Ambiciosa pela primeira vez na minha vida? Sim. Mas eu cheguei num ponto onde a última coisa que eu tinha pra perder, era a mim mesma.
E quem diria, a caixa que meu avô deixou pra mim realmente ajudou. Eu me lembro vagamente de achar loucura no dia que Harris me entregou e eu abri pra achar um monte de bugiganga e papelada comercial. Eu ainda achava loucura hoje em dia. Um plano de expansão comercial da Hannigan’s e Marshall não era exatamente o que a empresa precisava, mas meio que era.
Ficou muito claro, muito cedo, entre os acionistas da empresa que eu não era nem mesmo a terceira pessoa mais qualificada para o trabalho, sem Carter ou Colin constantemente tendo que supervisionar o que eu fazia, tenho certeza que teria falido a empresa em um mês. Então, me posicionar na frente deles e apresentar um plano de expansão, com eles sabendo que eu não fazia ideia do que eu estava fazendo, meio que não foi a jogada de mestre que eu esperava. E meu maior papel, no fim das contas, não foi convencer de que a empresa precisava crescer, mas que eles precisavam se livrar de mim de alguma forma. E, sendo honesta, eu precisava me livrar deles também.
Hannigan’s e Marshall era uma empresa de renome em Chicago, antiga o suficiente pra ser conhecida pra mais que a nossa cidade sede. Havíamos feito grandes projetos em outras regiões do país, mas nada nunca muito grande. Apenas o suficiente pra saber que, se um dia a Hannigan’s e Marshall quisesse expandir, achar mercado em outras regiões não seria muito difícil. O plano de expansão do meu avô incluía a cidade de Nova Iorque para uma segunda sede, e projeto para uma terceira sede em Las Vegas, e, devo dizer, não deveria ser aplicado em alguns meses. Dizer que eu fiz alterações nesse plano seria dizer o mínimo. Reduzir o plano de seis anos para doze meses pode ter sido arriscado, mas eu estava disposta. Eu tinha fé de que, entre Carter, Colin e eu, descobriríamos alguma coisa. A segunda mudança que eu fiz foi trocar a 3ª filial da empresa. Uma filial em Las Vegas tinha seu apelo para o mercado, mas a Califórnia era um estado desenvolvedor quase tão bom quanto Nevada, e perto o suficiente pra que atendêssemos as demandas dos dois estados, pelo menos foi o que o meu irmão me garantiu, e eu confiava com todo o meu coração que ele estivesse certo.
Foram semanas de discussões entre os acionistas, pois praticamente limparíamos o fundo de investimento para essa manobra, mas a projeção de retorno a longo prazo também era enorme, triplicar a quantidade de demanda, também era triplicar a quantidade de lucro. Isso encheu os olhos deles bem rápido, mas eles não confiavam em mim, ou Colin, ou Carter porque estavam do meu lado, e os julgavam cegos. Eu tive que arriscar bastante com todos eles, então eu fiz o que tinha que fazer. Se a expansão do jeito que desenhamos não desse certo, eu cobriria o prejuízo com minhas próprias ações. Eu pude ver a esperança nos olhos de Yolanda quando assinamos esse termo de compromisso. Ela só precisava esperar um ano até que eu falhasse, e ela se livraria de mim de maneira legal ao testamento imposto pelo meu avô.
Mas eu não tinha intenção de falhar nisso.
Eu estava colocando o pé na porta e subvertendo, como pediu meu avô.
Eu não abri mão do meu cargo, mas eu instituí gerentes comerciais para cada filial, ao final da instalação da sede da Califórnia, Carter iria gerenciar o polo de Nova Iorque. Colin iria gerenciar a sede LA, e por fim, Yolanda seria a gerente comercial da sede de Chicago. Dizer que ela ficou surpresa com isso seria um eufemismo. Mas eu não precisava somente que meu plano desse certo, eu precisava que ela se envolvesse. Tinha que de alguma forma fazer com que ela também quisesse que isso desse certo, e eu fiz da única maneira que eu sabia que ela não podia dizer não: dando a ela poder, e fazendo ela competir com outras pessoas por resultado. Infelizmente, esse era o tipo de pessoa que ela era.
Não adiantaria fazer apenas e empresa prosperar, se eu ia cumprir o que meu avô me pediu, eu não ia fazer pela metade, e Yolanda foi grande parte desse pedido de redenção.
A outra parte da caixa misteriosa que meu avô deixou pra mim continha pequenas peças de quem foi Yolanda antes de ela se tornar o pedaço de gelo que ela é hoje. Eram cartas que eles trocaram quando se conheceram, eram cartões postais de viagens importantes, eram pequenos flashs do que meu avô gostaria que ela se lembrasse que podia ser. Antes de partir de Chicago novamente, eu fui até a casa dela e deixei com ela o restante do conteúdo da caixa. Eu não esperava que surtisse algum efeito, e não fez mesmo. Ela olhou para aquilo com amargura.
— Ele achava que poderia me apaziguar com velhas lembranças inúteis? – disse ela com desprezo ao olhar o conteúdo da caixa.
E eu pensei muito antes de responder, deixando um longo silêncio pairar entre nós.
— Ele te amou. Não pense que ele não foi grato pelo que você construiu ao lado dele — disse a ela.
Ela riu em escárnio — Ele certamente soube mostrar isso quando recompensou anos do meu trabalho duro, deixando tudo o que conquistamos pra você.
— Ele fez isso porque no final da vida percebeu que era miserável, e ele não queria isso pra você. Ter isso tudo, vó, não vai te fazer feliz. Porque ele não estará mais aqui, papai não está mais aqui, minha mãe não está mais aqui. Chase, Colin, eu… nós não estaremos ao redor por muito tempo, e você estará sozinha. Mesmo se atingir o seu plano de dominação mundial, não terá ninguém com que dividir sua vitória, e não há nada mais triste que isso. Ser rainha de um mundo vazio. Vovô queria que você tivesse tudo, que pudesse ser cercada novamente pelo que importa, e isso não é nada do que você deseja. Não é tarde para os que ainda estão vivos. Não é tarde para que ainda possamos nos conhecer como uma família — ela não disse nada, olhando para longe de mim. — Eu estou partindo em algumas semanas. Pretendo voltar à faculdade e realmente aprender o que preciso pra fazer isso dar certo. Eu gostaria de um dia poder contar com a senhora para mais que me julgar. Eu admiro de onde veio e aonde a senhora chegou, gostaria de poder me aconselhar, pois sei do seu sucesso.
Não esperei por uma resposta depois disso. Essa foi a última vez que eu falei com ela antes de voltar pra a Califórnia, mas a mão estava estendida. Se conseguiríamos transformar essa bagunça numa família, só o futuro diria.
Enquanto isso, eu estava de volta ao lugar que meu coração desejava. Seis meses após ter partido pela segunda vez, eu descia do avião, temendo estar cometendo um novo erro, mas ao mesmo tempo com esperança de que eu tivesse feito o suficiente para que eu finalmente pudesse ficar.
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