Totentanz
1 Prólogo
Bunker Beta, 23:45 PM
Sin viu tudo acontecendo. Ela sabia que esse dia chegaria, mas não esperava que seria tão cedo ou tão de repente.
Sentada na estrutura de iluminação, salpicada pelas faíscas e goles de gasolina no fogo, ela viu toda a cena de cima: os policiais invadindo e quebrando as portas. Equipes com mais de cinquenta homens uniformizados entrando de uma vez, portando armas e gritando ordens. Carmine apavorado. Piper mais ainda.
O cheiro de papel queimado preenchia o ambiente.
Ainda naquela tarde ela o havia acalmado e dito que tudo daria certo, que achariam a fonte do Vírus J e recuperariam o dinheiro. É claro que, um homem como tal, sabia que nada ficaria bem. Ele estava desconfiado demais para pensar direito, os danos tomando forma e corroendo sua sanidade. Carmine podia ouvir as sirenes o levando para o corredor verde da prisão. Com aquelas informações vazadas na internet era impossível continuar o projeto. E Piper sabia disso, mas ela mentia. Mentia para manter seu emprego. Mentia para manter-se viva.
Sin não gostava de Piper, nem um pouco.
Pensando bem, em tais circunstâncias, é compreensível a fuga de Josh, horas mais cedo, quando pegou a mochila às pressas e correu porta a fora. Hailey o acompanhou. Os dois fugiram na moto dela. Carmine acha que foram eles quem implantaram o Vírus J, e Sin poderia acreditar nisso. Josh era o nerd da turma, ele poderia facilmente derrubar todo o sistema se quisesse. E, ela não tinha certeza, mas tinha a impressão de ter ouvido Josh comentar, certa vez, sobre um irmão que precisava de dinheiro para a faculdade.
Hailey iria com ele, obviamente. A namoradinha gostosa que dirigia uma moto era sempre bem-vinda. O golpe Bonnie e Clyde seria visto como um fetiche de matar o tempo para ela, e ele não pensaria duas vezes antes de fugir com a garota e uma bolsa cheia de dinheiro. Sin sabia do dinheiro de Hailey: era marcado. Josh não iria muito longe com aquelas notas.
Escondida nas sombras atrás de pilares e movendo-se na escuridão do Bunker, Sin está analisando a área. Há policiais em toda a parte. Carmine foi preso. Piper com ele. Ela não viu Jockey ou Estopim em lugar nenhum, mas não acha que tenham sido pegos. Jockey é esperto e silencioso demais para ser apanhado por militares, e Estopim é ardiloso e zombeteiro. Opostos, mas funcionam juntos.
Ela quer sair pelo duto da ala oeste; não fica muito longe. Foi bem treinada para andar em silêncio e usar o ambiente como aliado. Ela derruba uma estátua no hall enquanto caminha rapidamente. Parte da equipe de busca se dirige à ala principal atrás do barulho. Sin usa isso como chance de escapar. Sobe por cima da mobília e entra nos tubos de ventilação.
Ela está protegida. Conhece a saída por ali. Aquele duto leva a parte lateral do bunker, por cima da terra, e ela não precisará subir escadas. Não será vista.
Enquanto engatinha para fora, ela pensa em Mary Jane. Ela também partira antes do Vírus J ser lançado, sem dar nenhuma explicação. Não fora tão cedo quanto Josh e Hailey, mas mesmo assim, antes do caos. Sin se pergunta se há algum motivo. Ela parecia bastante preocupada.
Mas por outro lado, quando MJ partiu, deixou Estopim para trás; o que era incomum, já que viviam juntos — não por consentimento dela, claro. Estopim, por outro lado, parecia nervoso. Parecia angustiado, como se estivesse prestes a desarmar uma bomba. Ele não sossegou desde que ela foi embora.
Na verdade, todos pareciam estranhos nesse dia.
Todos menos Jockey. Jockey estava calmo. Como sempre, ele não conversava muito. Passou o dia trabalhando e depois foi jogar pôquer. Se movendo em silêncio pelas salas e fazendo sua parte. Bebendo café e analisando cada um dos membros ali com seus olhos ardilosos por cima da porcelana.
Jockey era calculista. Ele estava calmo hoje.
Calmo demais.
A garota sai do Bunker e corre para a floresta. Ela entra na Toca do Coelho e espera até que a situação esfrie. Seu coração está acelerado mas ela tem a situação sob controle. Na Toca, ela pega seus pertences. Gasolina. Pólvora. Fósforos. Facas.
Um belíssimo bastão de baseball.
E então ela espera. Ela espera para ver se Estopim ou Jockey aparecerão. Ela espera os policiais irem embora. Ela espera o Bunker ficar totalmente vazio.
Com Carmine preso, ela finalmente está livre pra continuar sua missão. Pega o caderno do pai e folheia as páginas velhas, passa os dedos sobre cada um dos nomes e sente o metal frio das balas em seu colar no pescoço. Faz uma reza silenciosa ao pai e promete tudo sairá como combinado. O combinado deles, a promessa de vida.
Sin sabe o que deve fazer.
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