Totentanz
12 Epílogo
Motel, 11:54 AM
Mesmo embaixo de incontáveis camadas de cobertores, Sam ouviu as leves batidas na porta.
"Sammy?"
"Vai embora Jockey!"
Sua voz estava grossa e embriagada. Ela havia chorado a noite inteira e não tinha condições de conversar. Ou de fazer o quê tinha que fazer nesse dia.
Jockey entrou mesmo assim e colocou o quê quer que houvesse em suas mãos na mesa, ao lado da cama. Ele entrou embaixo da fortaleza dos edredons com ela e a olhou. Jockey também estava triste. A tristeza o havia consumido também.
"Oi", ele disse.
"Oi", ela respondeu.
Sem dizer nada, ele se aproximou dela e a beijou na têmpora. Não foi o tipo de beijo que Sin daria, de amor ou de agradecimento. E ela sabia que jamais sentiria aquele fogo novamente, quando alguém a beijasse ou tocasse em seu corpo. Ela era um fósforo molhado.
O beijo de Jockey foi um beijo de irmão.
O pensamento a machucou. Sam estava sensível nesse dia, como se seu corpo estivesse coberto por marcas roxas que doíam ao toque.
"Você precisa comer" ele disse.
Sam não respondeu.
"Posso te acompanhar hoje, se quiser."
Ela também não respondeu a isso.
"Eu vou sair, para você se vestir, tudo bem? Eu sei que você não quer ir, mas a vida nunca nos pergunta o quê queremos. As vezes temos que fazer assim mesmo."
Ela sabia que ele estava tentando o seu melhor. Jockey também havia perdido alguém, e era recente ainda. Ele só estava tentando ajudá-la. Sam assentiu.
Jockey sorriu e se levantou, puxando todas as cobertas com ele e revelando uma Sam descabelada, de pijamas e com o rosto inchado e vermelho.
Ele começou a se retirar quando Sam se levantou, tomada pelo desespero repentino.
"Jockey!"
Ele se virou para olhá-la.
Sam se levantou e foi até ele, abraçando-o. Jockey a tomou em seus braços e deixou que ela se acomodasse em seu torço. Sam sempre se perguntara o porquê dele ser tão sozinho, mas ela o entendia. Companhia tem preço, e ele nunca é baixo.
Ela se sentia como se estivesse se afogando de novo, ali, na camiseta de Jockey. Se afogando nos olhos de Sin, que nunca se decidiam entre o azul ou o verde. Se afogando no mar que rodeava o farol, na noite na colina. O mesmo mar que levou para longe o sangue de seu irmão nas docas. O mesmo mar que levara Sin embora.
Ela estava ficando sem oxigênio em pequenos pedaços de azul enquanto via sua vida ficar cinza.
Cemitério das Flores, 16:40 PM
Sam percebeu, durante o velório de Josh, que aquele era um lugar muito bonito. O nome se devia a enorme quantidade de flores que preenchiam a terra do cemitério, e era lindo. Era realmente o jardim da morte.
Porém, Sam reparou, entre todas as lápides e covas, uma se encontrava vazia. Apenas a terra fofa e uma lápide simples. Não haviam flores ali.
Sam não entendia o porquê da ausência, já que os próprios coveiros plantavam as flores. Talvez aquela família não se importasse. Talvez aquela pessoa não tivesse família. Talvez a terra fosse ruim e nenhuma planta crescesse ali. Eram pensamentos tristes e mórbidos, para um dia triste e mórbido.
Sam saiu de perto daquelas pessoas. Jockey a olhou, hesitante, mas deixou que fosse. Eram amigos de família, amigos antigos de Josh, da época de colégio e toda aquela comoção estava deixando-a enjoada. Ela sabia que eram lágrimas falsas e luto por educação, já que nenhuma daquelas pessoas se importou com Josh, quando estava desaparecido. Sua própria mãe, estava chorando, mas Sam não tinha certeza se as lágrimas eram de tristeza ou de cachaça.
Ela andou lentamente em direção à cova vazia. Cada passo por entre as flores era especial. Ela gostava da mistura de tons; não eram separadas por cor, mas sim todas juntas. Eram flores de todas as cores e tipos, emoldurando túmulos e a tristeza. Pensar em todas aquelas pessoas, que já foram há anos e mesmo assim, ainda estão presentes nas flores, deixava Sam mais aflita.
Era difícil andar na terra com sapatos altos, então ela simplesmente os tirou — não estava se importando muito com aparências. Ela só queria algo bonito para encher a cabeça vazia.
Dizem que quando você perde alguém, existem duas possíveis reações: ou você se desespera e desaba em lágrimas (o quê ela fez), ou você não diz nada e sente seu coração quebrar, pedaço por pedaço, despedaçando como estátuas ao longo dos anos. Sam não sabia em qual se encaixar, já que havia chorado tanto que não sentia água correr por seu corpo, e se sentia vazia como um receptáculo.
Em sua mente, uma valsa antiga tocava e ela se lembrava da noite em que dançou com Sin no baile. Lembra-se da garota levantando e oferecendo sua mão, gentilmente conduzindo-a pois Sam, envergonhada, avisara que não sabia dançar. Sin apenas sorrira e seus corpos, apesar do olhar de todos e do tumulto, se embalavam em sintonia, como se flutuassem, em uma sincronia que podia ser confundida com as ondas do mar, e se lembrou do jeito como ela parou e a olhou nos olhos. Lembrou-se de ter visto ternura em cada ponto daqueles olhos verdes azulados, e lembrou-se de como ela era bonita.
Lembrou-se da cor de seu vestido no baile, seu longo vestido, negro como seus cabelos, que lhe revelavam as costas. Lembrou-se da curva de seu pescoço, quando reparou pela primeira vez no carro, em como era delicada.
Lembrou-se do toque de sua pele, quando a tomou nos braços pela primeira vez, e quando o vento bateu nos cabelos de Sam no cemitério, ela lembrou-se da respiração de Sin.
Lembrou-se do gosto doce de seus lábios, e como ela era cuidadosa. Lembrou-se da noite em que ela lhe mostrou as estrelas e a beijou sob a luz da lua, e em como a sensação da grama sob o peso de seus corpos era confortável.
Pisando naquela terra agora, Sam se lembra de quando Sin apanhou, em como seu coração se partiu em milhares de partes pela primeira vez, quando estavam na Estação Gasolina.
Lembrou-se de quando resgatou Sin no parque, e em como a segurou em seus braços até ela dormir. As lembranças doíam, como uma mancha roxa no corpo, que você não sabe exatamente como surgiu, mas toda vez que toca nela, dói intensamente.
Lembrou-se das viagens de carro, dos diálogos apreensivos e, com o tempo, naturais. De como Sin ficava linda vestida em branco, com sua jaqueta de couro cobrindo-lhe os ombros. E como quando, no depósito, após salvá-la, e após Sam brigar com ela, Sin ainda se preocupou. E mais tarde, na casa de Morfeu, quando se beijaram pela primeira vez e Sam ficou magoada.
Lembrou-se do bolo e dos beijos no beco. Os roxos em seu pescoço já estavam sumindo.
E enfim, lembrou-se de quando ela a deixou. Sam não sabia o quê acontecera, se estava ficando louca ou algo do tipo. Mas lembra-se bem de Sin se levantando e indo embora. E, mais tarde, quando Jockey chegou e a levou para o motel, e juntos esperaram por Sin a noite inteira, até que a polícia lhe foi buscar para ver o corpo de Josh, para reconhecê-lo.
Seu peito estava dolorido de lembranças. Não se mantinham no cérebro, lá era apenas o depósito. As verdadeiras lembranças ficam vivas no coração, e por isso dói tanto.
Sin a havia deixado no momento em que mais precisava dela. Sam não queria pensar assim, mas era egoísmo.
Quando parou em frente ao túmulo sem flores, viu que a lápide não tinha nome. Era uma bela placa lisa, com o traço e o ano em que estavam, sem dizer o ano em que a pessoa nasceu. Embaixo, estava apenas escrito:
"Quando uma alma é incandescente, não existe dificuldade em encontrar o caminho para as estrelas."
Sam sorriu e permitiu que uma lágrima escapasse. Ela não fazia ideia de quem estava ali embaixo, mas quando deitou na terra, seu coração foi preenchido por dor e pelo cheiro de flores, e ali ela repousou.
Dias depois do funeral, Jockey entregou-lhe um envelope. Seu nome estava escrito e o remetente não fora citado. Sam sentou-se em sua cama, Jockey ao seu lado — ela pediu que ficasse — e a abriu.
Querida Sam,
Eu espero que, quando isso cair em suas mãos, você esteja bem. Sinto muito por Josh, de verdade. Eu estava errada sobre ele, no final das contas.
Eu não sei se existe alguma força superior nos observando e nos cuidando, ou sorte. Eu não sei se acredito no quê as pessoas falam ou prometem, em antigas canções sobre sorte e amor, sobre heróis e padres, por quê as pessoas mentem. As pessoas mentem por medo da verdade, Sam.
Por mais que seja pesada, eu não posso mentir para você.
Eu estava errada sobre você também, mas antes de lhe dizer o porquê, acredito que mereça ouvir a história completa, como uma das canções que antes citei.
Eu precisava de seu irmão, originalmente, para entregá-lo à torturadores, para extrair uma informação. Se eu fizesse isso, conseguiria os papeis que preciso para libertar meu pai. Eu estava caçando seu irmão, Sam. Como não o encontrei em sua casa, pensei que, por ser do mesmo sangue, poderiam usar você. Usariam você para fazer Josh se entregar.
Todo esse tempo, eu lhe usei.
Precisava que confiasse em mim, que me considerasse sua amiga até chegarmos ao meu destino. Passamos por Hailey, e ela só aumentou minhas suspeitas de seu irmão. Passamos por Estopim e Jockey, por Piper e por MJ.
Mas então algo aconteceu. Seu irmão estava morto e eu não precisaria mais dele — ou de você.
Você realmente pensou que eu a queria? Que eu lhe amasse? Nossos momentos foram forjados e plantados por um propósito maior, e você foi apenas meu peão. Você não é mais que uma mísera criança, praticamente um fardo para mim, e eu não a amo. Nunca amei. Por favor, não se ofenda.
Portanto, peço que me esqueça. Fique com Jockey, ele é uma boa pessoa e fará bem a você. Eu não voltarei e não pensarei em você, pois não me importa.
Espero que você veja o quê aconteceu como uma experiência e fique fora de problemas. Não faça nada imprudente, por favor. Sua mãe ainda precisa de você.
Como disse antes, eu não sei se Deus ou sorte existem, mas em uma coisa eu confio plenamente:
Estrelas.
Algumas coisas estão destinadas a acontecer, e talvez o seu futuro (como todos os outros em questão) esteja escrito em pontinhos no céu, ou talvez em braille, mas eu, sinceramente, confio que o seu será incrível.
Fique de olho nas estrelas, Sam.
Sin
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