Totentanz

7 Capítulo Seis


Carro de Sin, 20:00 PM

O carro estava silenciosamente desconfortável. Estava quente e era fevereiro, e o ambiente fora do carro estava úmido — provavelmente choveria. Sin gostava muito do verão.

Ela ainda estava constrangida após o incidente no banheiro. Sentia-se exposta, nua. Não queria admitir, mas não teria conseguido dar os pontos sozinha, e Sam a ajudou. Sam a perdoou e ela tentava se convencer de que tudo estava bem entre elas agora, que o pior havia passado e agora seriam mais cuidadosas. Tentava.

Os vidros do carro estavam abertos e o vento percorria todo o interior do veículo, soltando mechas do cabelo ruivo e rebelde de Sam, e ela estava corada e encarando o vazio. Sin não gostou de vê-la assim.

Ela esticou o braço e ligou o rádio. O movimento a vez estremecer, uma vez que puxou os pontos nas costas. Seria difícil ir atrás dos últimos dois nomes ferida de tal modo, mas a ideia de que faltavam apenas dois era reconfortante, apesar dela não ter ideia de quem era o último. Resolveria mais tarde.

No rádio, uma música começou a tocar. Sin não sabia o gênero ou o nome, mas achou que era apropriada. Não era nenhum clássico ou algo que ela conhecesse, mas após o segundo refrão ela começou a cantarolar.

Logo estava imitando o cantor e entoando as palavras erradas, aumentando o tom conforme a melodia e fazendo palhaçadas como jogar a cabeça para o lado, performando a canção.

Sam riu. Riu e ficou encarando-a.

Sin olhou-a de relance e variava entre os olhos da garota e a estrada vazia a frente.

"Qual é, cante comigo!"

Sam riu desfeita, e virou a cabeça para a janela ao seu lado, vendo as árvores altas passarem, de um verde tão intenso que nem parecia real. Não o tipo de verde berrante de plantas de plástico, e sim o verde das plantas que crescem ao redor de lagos, sempre úmidas e frescas.

Sin continuou cantando e aumentando o tom, dirigia pela estrada com cuidado mas sem economizar na velocidade — era acostumada a correr. Gostava da sensação do vento da janela bagunçando-lhe os cabelos curtos e vê-lo esvoaçar o cabelo de Sam, só para ela ficar aborrecida e colocá-los atrás da orelha era divertido. Sam estava linda nessa noite.

Provavelmente cansada das palhaçadas da garota, Sam rendeu-se e juntou-se a cantoria mais desafinada e desajeitada do mundo. Sin sentia-se imortal nesse momento. Sentia-se completa.

Na verdade, faltava uma coisa para que se tornasse cem porcento completa.

"Ei, você está com fome?", perguntou. Sam estava sorrindo e colocando madeixas ruivas atrás da orelha. Seu cabelo comprido e ondulado era desobediente.

"Eu poderia comer um boi inteiro."

Sin riu. Uma das vantagens da vida na estrada era a má alimentação: hambúrgueres e cerveja sem limites! Gordura e carboidratos sem mães para dizer que não era saudável.



Elas encostaram o carro no acostamento da estrada. O rádio ainda estava ligado e nenhuma das duas se importou em desligar. Toda a tensão e apreensão entre elas havia se dissipado como vapor e formado nuvens altas no céu. Mais tarde choveria mas agora estava quente. Elas haviam comprado mais comida do que comeriam e não se preocuparam com o valor — Sin tinha cartões de crédito sobrando, cortesia de Estopim.

Estavam no meio do nada, a estrada ao lado de uma planície gramada. Árvores altas se espalhavam por todo o ambiente mas haviam espaços amplos, e em uma colina, um pouco mais alta, elas se sentaram e dali viram o cais da Cidade. A grama estava úmida com o orvalho e elas podiam ouvir as cigarras e os grilos cuidando da ambientação.

Elas comeram. Abriram cervejas e riram. Beberam o bastante para ficarem alegres e com o gosto de ternura entre os lábios. E quando não aguentavam mais comer, deitaram-se lado a lado na grama, olhando pro céu e olhando para as estrelas que não estavam tampadas pelas nuvens.

Sin entendia muito de astronomia. Seu pai adorava. Conversavam sobre isso quando ela era mais nova e ela jamais esqueceu-se de uma estrela.

"Meu pai acreditava que haviam mais ou menos dez mil estrelas visíveis a olho nu. Mais mil que não conseguimos ver."

Sin estava deitada com os braços atrás da cabeça como um apoio. Ambas olhando para cima. Sam havia posto uma perna sobre a outra e apoiava-se nos cotovelos.

"É verdade?" ela olhou para Sin.

Sin sorriu.

"Só se você acreditar que é. As estrelas são diferentes umas das outras e cada uma delas viu o bastante para uma vida toda. Elas guardam histórias."

"Como assim?"

Sin sentou-se ao lado de Sam, as pernas cruzadas, em uma mão uma cerveja e a outra pousada na grama. Ela se aproximou de Sam e apontou para o céu com a mão que segurava a bebida.

"Em algum lugar por ai, há um historiador sentado em uma estrela. E ele está nos olhando agora e anotado cada gesto e ação que eu e você fazemos."

"A ciência concorda com isso?" Sam sorriu.

"Ciência é uma desculpa que as pessoas sem imaginação usam para justificar-se."

"Então isso não é um fato?"

"Não, mas é uma verdade. Pra mim é verdade, talvez pra você não seja."

Sam cerrou os olhos e sorriu. Havia desafio e deboche em seu sorriso, e talvez fosse culpa da cerveja e tudo aquilo era um papo de bêbado, mas nenhuma dessas coisas importava.

Ela colocou sua mão sobre a de Sin que estava pousada na grama. Seus dedos se encontraram e se uniram. Foi um gesto natural e Sin virou a cabeça para encará-la.

"Ele anotou isso?" Sam perguntou.

"Anotou."

Sam se aproximou o bastante para que o cheiro de álcool no hálito das duas se misturasse e deitou sobre a garota. Uma sobre a outra, num emaranhado de cabelo e pernas, onde mãos estavam unidas e a cerveja fora derramada, elas riam sem saber o motivo, cobertas por um céu que cada vez mais se fechava. Rolaram juntas e pararam perto de uma árvore, respirando juntas e trocando o calor do corpo e o cheiro da cerveja.

"Ele anotou isso?", Sam perguntou novamente.

Sin estava por baixo, deitada na grama, com as mãos erguidas acima da cabeça e seguradas por Sam. Seus lábios estavam úmidos com a bebida e saliva e seu cabelo tinha pequenos pedaços de grama. Ela estava ofegante e corada. Em seu peito, sentia que explodiria.

Ela sorriu e empurrou Sam para cima, a menina sentada em seu colo agora, o par de mãos dadas se abaixou até que pousaram na grama e Sam estava sorrindo. Seu cabelo vermelho caia-lhe pelos ombros em cascatas e as pontas cobriam-lhe os seios vestidos em uma blusa azul. Ela ficava ridiculamente bela em azul.

"Vamos certificar!", Sin disse e se levantou. Puxou Sam junto consigo e as meninas se ajoelharam em frente à grande árvore.

Do bolso da jaqueta, Sin puxou seu canivete pessoal, aquele que ficava sempre ali. Ela respirava rápido, a adrenalina tomando-lhe a cabeça e seu cérebro estava bêbado de amor, mas aquilo era tudo culpa da cerveja. Ela sorriu para Sam e em seus olhos viu a ternura e satisfação. Seu coração deu um salto.

Na árvore, ela gravou S & S e Sam sorriu. Sam sorriu por que ela sabia que aquele era um dos poucos momentos da vida em que você lembra antes de morrer. E ela estava morrendo. Ela morria cada vez que Sin a olhava nos olhos e sorria.

Sin estava perdida nas linhas do pescoço e maxilar de Sam. Estava velejando nas ondas de seus cabelos ruivos. Estava pensando no corpo de Sam sobre o seu, no calor. Olhando a ruiva em cada detalhe de seu rosto, os olhos vidrados de carinho.

Sam sorriu e baixou seus olhos para Sin, e juntas, se levantaram.

À distância, elas viam o oceano. Viam o porto da Cidade Alta. Viam o farol. As docas que Sin tanto temia. O mar que Sam tanto amava. E assim elas voltaram para o carro, com o coração cheio e a certeza de que o destino estava próximo. E, é claro, a esperada chuva batendo na janela do carro.

Carro de Sin, 00:00 AM

Elas encostaram o carro em uma rua escura da Cidade. Sin havia dito que era melhor não serem vistas e andarem no escuro. As poucas horas de sono que tiveram no carro antes de começar a dirigir foram essenciais e Sam se sentia mais centrada.

Ela entendera o motivo do nome “Cidade Alta”: para se entrar na cidade, era preciso passar por uma ponte e logo abaixo estava o oceano. A ponte era alta o bastante para que os navios transportadores passassem por baixo — como explicou Sin — e abastecerem as docas. É claro, haviam enfeites e luzes por toda a ponte e uma represa que aparentava ser uma cidade amistosa, mas Sin disse que ela não devia se deixar enganar com essa aparência — a cidade mexia com as pessoas.

"O que quer dizer?" Sam perguntara.

"Você vai ver por si mesma", fora a resposta.

Ela não objetaria. Sin fora criada nessa cidade, M a dissera, e se ela diz que a cidade é o verdadeiro inferno em si, talvez Sam não quisesse tanto conhecê-la assim.

Dentro do carro, numa rua escura iluminada apenas por lamparinas sujas, as garotas se preparam.

A garota de cabelos curtos está nervosa e há preocupação em seu olhar. Sam está ansiosa.

"Sin, fale comigo."

Sin está roendo a unha do dedão.

"Não podemos ser vistas. As ruas parecem vazias por que está muito tarde. Ou muito cedo. Depende do ponto de vista. Mas há câmeras em cada prédio e em cada ponto de luz, o governo daqui é bem… eficaz."

Sam assentiu para si mesma.

"Como você fazia quando vinha aqui com os incendiários?"

Sin virou-se para encará-la.

"Quem te disse isso?"

Sam engoliu em seco. Uau Samantha, muito bem! Você acabou de estragar os momentos bons da noite com uma única frase!

Ela amaciou a voz.

"Morfeu?"

Sin arqueou as sobrancelhas e arregalou os olhos como se não acreditasse em cada palavra. Depois suspirou.

"É claro. Não diga o nome dele. É M, para todos os momentos. E quando eu vinha aqui com os incendiários", ela olhou pelo retrovisor e voltou a olhar Sam, "nós queimávamos tudo."

Ela sorriu, se remexeu no banco e se esticou para trás. Voltou com uma jaqueta de cor marrom nos braços. Entregou-a a Sam.

"Sabe o que dizem, fumaça não é bom para se enxergar claramente através de lentes. Vista. E deixe o cabelo solto, deixe que molhe na chuva", Sam a pegou. Vestiu. "Mantenha a cabeça baixa e não olhe para nada que fizer barulho, ou eles idenficarão seu rosto. Iremos até o motel sem que nos vejam."

Sam achou engraçado que Sin não precisava de uma jaqueta para si pois já estava vestida com uma. Ela sempre estava. Couro o tempo todo — mesmo no verão.

A garota se perguntou se ela nunca ficava com calor.

"Certo" Sin certificou-se. "Quer uma arma?"

"Quero."

A garota a encarou.

"Quer mesmo?" ela parecia impressionada.

Sam não entendeu.

"O que há de cômico nisso?"

Sin começou a rir e abriu a porta do carro. Gotas de chuva respingaram no banco de couro, convidando Sam a sair.

"Vamos França, temos uma pessoa a ver."

Sam bufou e saiu do carro, essa garota era inacreditável. A água a encharcou de uma vez só. Não era uma daquelas chuvas frias de inverno, com ventos e uivos de galhos, era o tipo de chuva que cai reta como um tiro, que serve para molhar o asfalto e deixa o ambiente quente. Era, de certo modo, reconfortante. Os trovões e raios tropicais iluminavam o céu perto da ponte e do cais, e quando deu a volta no carro, ela pegou na mão de Sin.

Ergueu a cabeça para olhar a garota, seu rosto estava molhado e seu cabelo pingava, seus olhos estavam ligeiramente borrados de maquiagem preta, como se ela tivesse esfregado após passar lápis. Estava com a face machucada, e a chuva molhava os tons de vermelho embaixo do olho direito e ao lado do esquerdo, onde a pele estava ralada de quando caíra no chão na estação. Ela estava com o Sorriso Sin no rosto.

"França? Qual é…", Sam caçoou.

Sin riu, seus dentes eram brancos e os lábios estavam mais vermelhos por conta da água que escorria. Ela entendeu o recado e atravessaram a rua correndo, Sin na frente, guiando a direção e Sam acompanhando seu passo, adentro de uma cidade vazia.



Elas estavam andando pelas ruas, o passo apertado, por pelo menos quinze minutos quando Sam as ouviu.

"Sin…"

"Eu ouvi. Não pare."

As garotas não estavam mais de mãos dadas mas mantinham-se próximas. As botas de Sin e os tênis de Sam faziam a água acumulada em poças no chão espirrar enquanto andavam, a ruiva podia ver seu reflexo se desfazendo toda vez que dava um passo.

Seu cabelo vermelho estava molhado e embaraçado e caia aos cachos pelo peito da garota. Sua camiseta azul estava encharcada e grudada na pele, porém Sam não estava com frio. Ela podia sentir o cheiro mentolado de Sin na jaqueta. Esperava que o cheiro grudasse em sua pele para sempre.

Ela se sentia tomada pela adrenalina e com o coração disparado. O som se aproximava. Cada vez mais alto. A respiração de Sam estava pesada por baixo do casaco e cada instinto seu a mandava correr.

"Sin."

"Shh."

Sin continuava andando cabisbaixa. Iam rápido o bastante para não parecer suspeito, como alguém que pegou uma chuva inesperada e está fugindo dela. Mas nada justificava o fato de estarem ali àquela hora.

O barulho virou a esquina. Estava atormentando Sam e provocando-lhe dor de cabeça. Ela queria sair dali logo. Queria erguer sua cabeça para olhar. Os cabelos molhados caiam ao redor do rosto, tampando sua visão da rua.

Estava cada vez mais alto e perturbador.

"SIN!"

"Corra!", Sin gritou e virou para olhá-la ates do barulho tornar-se insuportável.

Uma voz gritou em meio ao caos e os olhos de Sin eram puro terror:

"Polícia! Ei, parados!"

A primeira coisa que Sam pensou naquele momento foi que não poderia salvar Josh se estivesse presa. Correndo atrás de Sin pelas ruas com a polícia ao seu encalço, ela imaginou a si mesma em um uniforme laranja, comendo uma pasta nojenta na prisão.

Seus passos espirravam água para todo o lado e era difícil enxergar Sin com a chuva batendo forte contra suas cabeças. Ela estava focada apenas em não perdê-la de vista. Quando, bruscamente, esticou seu braço para trás e agarrou o pulso de Sam. A garota tomou um susto mas logo deixou que a menina a puxasse.

Adentraram em uma ruela à esquerda e deram de cara com uma porção de caminhos diferentes. Estavam entre prédios e casas e Sam viu escadas que subiam, escadas para descer, varais cheios de roupas molhadas, atalhos e buracos. Elas pararam e giraram em torno de si mesmas por um minuto antes de voltar a correr, Sam segurando sua mão e deixando que a água escorresse por seus braços e pingassem das mãos unidas. O cabelo de Sin caia sobre a testa da garota e seus jeans estavam colados à pele, aumentando seu quadril e coxas. Ela virava sua cabeça para um lado e para o outro constantemente, guiando as duas pelo caminho entre casas.

Era um beco escuro, as lampadas acima de suas cabeças estavam falhando e as luzes amarelas piscavam, a chuva causando curto circuito na fiação. Elas cruzaram com um gato, que miou e assustou Sam, antes de sair correndo em disparada. As sirenes da polícia ficaram para trás mas ela tinha certeza que eles as seguiam a pé dentro do complexo. Ela estava perdida. Não sabia se Sin tinha ideia de onde estava as levando, mas, se fosse preciso, Sam não saberia como sair dali.

Ela gritou por baixo do barulho da chuva:

"Onde estamos indo?"

Sin não se virou para olhá-la, continuou correndo e soltou sua mão.

"O motel fica a poucas ruas daqui. Não pare."

"Acho que não estão mais atrás da gente" ela gritou.

Havia água em sua boca e seu cabelo estava pesado.

Sin não respondeu. Continuaram correndo até que a garota baixa parou e se encostou em uma parede. Sua sombra era um esboço mais escuro contra as sombras do corredor escuro. Logo à frente era o fim da ruela e as luzes da avenida deixavam o rosto de Sin com uma luz vermelha e azul. Sam não parou a tempo e deslizou na rua, mas antes que pudesse cair Sin a segurou pelo braço e puxou-a para si.

"Você está bem?"

Sam sorriu nervosamente. Estavam com os torsos encostados e a respiração delas era irregular. Tudo era um emaranhado de cabelo ruivo e chuva.

"Melhor agora" ela respondeu. Havia travessura em sua voz e Sam mal a sentiu escapar-lhe os lábios.

Sin era ligeiramente mais baixa que ela, mas a sola de sua bota as deixava no mesmo nível. Sam gostava da ideia de ser mais alta — e mesmo assim, Sin era a brigona. Chegava a ser bonitinho.

A garota alterava o olhar entre os olhos de Sam e sua boca. Havia água pingando dela e seus lábios deveriam estar inchados.

"O que vai acontecer agora?", Sam perguntou.

Sua respiração se prendeu quando ela se aproximou e Sin sorriu para ela de modo tranquilizador.

Sam riu nervosamente, uma vez que elas estavam próximas de novo, e ela podia sentir o calor subindo por seu pescoço. Ela não podia ver a reação de Sin, porque ela estava atualmente roçando a parte superior de sua garganta com a boca, e Sam sentiu as borboletas batendo suas asas contra as paredes de seu estômago e ficou tonta com a ideia daquilo acontecendo. Com uma garota. Com Sin. Sin continuou seu caminho para cima, pressionando os lábios contra o canto da boca. Ela deve ter feito uma cara engraçada porque Sin estava rindo contra sua bochecha, e acompanhou-a para trás até as costas de Sam estarem pressionadas contra a parede do beco. Ela engasgou e Sin colocou as mãos em sua cintura, esfregando círculos com seus polegares através de sua camiseta; os dedos de Sam puxando sua jaqueta, apertando os olhos fechados.

"Relaxe", respondeu, uma onda de respiração em sua pele, e Sam estremeceu; seus dedos apertados na jaqueta de Sin, o couro macio e flexível sob seus dedos, obviamente, bem desgastado. "Siga o fluxo", continuou Sin, as palavras que terminaram em uma risada.

Sam tentou fazer o que lhe foi dito. Ele afrouxou seu abraço e se derreteu contra a parede, e como ela aclimatou seu sorriso à tona, Sin prosseguiu pressionando mais perto, o calor rolando fora de seu corpo irradiando ao mormaço de fevereiro.

Ela deu um aceno curto, e, em seguida, os lábios de Sin estavam sobre os seus. Suas línguas estavam emaranhadas e Sam deixou suas mãos descansando na parte de trás do pescoço da garota, segurando-a perto. Sin empurrava as mãos mais para cima na blusa de Sam, fantasmas sobre a pele de seu estômago, os dedos batendo sobre suas costelas, puxando um tremor fora dela. Sam gemeu quando Sin retirou uma das mãos apenas para puxar seu cabelo, dobrando o queixo para que seus lábios se encaixassem mais plenamente.

A sirene da policia ecoava ao fundo do cenário, provavelmente virando a esquina, e o coração de Sam apertou-se dentro do peito.

Seus ombros estavam mordendo o tijolo, as unhas raspando os cabelos curtos e repicados de Sin. Algo foi aceso dentro de seu peito, ela podia sentir isso — era súbito, e a estava devorando; a necessidade de estar mais perto. Ela ofegava contra a boca de Sin, mas Sin só permitiu a ela um segundo antes que ficasse totalmente sem ar, suas respirações passando para a outra, suas mãos segurando uma a outra contra a parede, acima da cabeça de Sam. Ela continuou e continuou, até que finalmente Sam percebeu que tinha parado e ela estava olhando para Sin e Sin estava sorrindo, obviamente satisfeita.

Na rua a frente do beco, as luzes e o som da sirene policial voltaram a brilhar e ecoar pelo ar mais claramente. O barulho da chuva abafava o som da respiração pesada das garotas e Sam sentia seus lábios formigando.

"Vão nos pegar", Sam declarou.

Sin aproximou-se para um último toque nos lábios dela. Sua boca era macia e tinha gosto de água de chuva e cigarro. Sam nunca a tinha visto fumar, e também nunca havia provado um cigarro, mas deduziu que aquele seria o gosto que fazia as pessoas viciadas.

"Terá valido à pena."

Sam sorriu, suas costas contra a parede molhada do beco. Ela podia sentir o calor irradiando do corpo próximo de Sin e voltou a observar um detalhe que havia esquecido na menina.

Por cima da camiseta molhada de Sin, elas estavam tinindo e refletindo a luz. Eram oito agora.

"Sin, posso lhe perguntar uma coisa?"

Sin sorriu.

"Qualquer coisa."

Sam mordeu o lábio.

A chuva havia diminuído bastante e na rua, elas podiam ver o grande letreiro verde e vermelho que piscava, iluminando a entrada do motel. Sin lhe dissera que estavam indo para um motel. E a beijara no beco.

Oh.

Ela suspeitava que fosse um assunto privado, mas não conseguia se conter. M a avisara sobre a dificuldade de Sin de falar sobre o passado e coisas íntimas, mas, após aquele momento no beco, ela diria que já tinham intimidade o bastante.

Talvez ela fosse simplesmente responder e ficariam numa boa. Talvez até melhorasse o relacionamento das duas; uma confissão após um beijo e antes de uma parada no tal motel. Ela estava apreensiva.

Mas, de fato, a curiosidade matou o gato.

"O que são essas oito balas?"