Totentanz
9 Capítulo Oito
Quando abriu os olhos, Jockey a estava cutucando. Ela havia dormido? Seu corpo estava dolorido.
“O quê?”
Ele a segurou pelos ombros.
“Ei, ruivinha!”
Ela abriu os olhos, Sin costumava chamá-la assim.
“Sin e Estopim não chegaram até agora. Está começando a me preocupar.”
Ela se sentou. Estava dormindo no sofá da sala.
“Que horas são?”
“São quase oito.”
Ela havia dormido todo esse tempo? Uau. Realmente estava precisando por o sono em dia.
“E onde eles foram?”
Jockey ofereceu sua mão, Sam a pegou e pôs-se de pé. Caminhou até a pia e lavou o rosto. A ideia de Sin ter ficado todo esse tempo fora começou a preocupá-la, a garota parecia atrair perigo e Sam sabia disso.
“Estopim foi até o parque de diversões que abriu aqui perto. Ele havia combinado de encontrar MJ e Piper lá.”
Sam olhou por cima do ombro, Jockey estava parado ao lado do sofá, com um braço cruzado e o outro caído. Seu cabelo escuro estava desgrenhado como se não fosse lavado a dias e sua camiseta também parecia ter passado da validade. Ele tinha olheiras e um sorriso tímido, difícil de conseguir.
Ela achou que ele parecia extremamente jovem ali. Adolescente.
“Quem são essas?”
Jockey ergueu a mão e coçou a cabeça.
“Hum… assuntos delicados.”
Ela bufou.
“Certo. E quanto à Sin?”
“Uma coisa de cada vez. Estopim conhece Sin como o conhece o cacto sarnento. Vamos atrás dele primeiro.”
Quarto Escuro, 20:00 PM
“Sin, abra os olhos.”
Sin sorriu para seu pai, seus olhos pingavam ternura; estavam nas docas e ele a segurava pela mão enquanto caminhavam. Era fim de dia e o céu havia sido tomado pela cor alaranjada do arrebol, gaivotas piavam junto ao som das ondas se quebrando e carregavam gravetos para formar um ninho e proteger seus ovos. A vento salgado jogava as pontas do cabelo de Sin contra sua testa e ela sentia que, se abrisse a boca, poderia se engasgar com o sal.
Olhou para seu pai, ele estava sorrindo. Tinha uma barba comprida e branca, manchada pelo lodo e nela se enroscavam estrelas do mar e mariscos. Seus olhos estavam profundos e com uma camada leitosa por cima da pupila, ela se perguntou se ele havia chorado ou se estava cego. Seus cabelos compridos e também brancos se misturavam com algas ressecadas e quando ele abriu a boca, água salgada começou a escorrer, molhando suas roupas. O cheiro de morte a deixou tonta.
Sin soltou sua mão rapidamente. Sem aviso, escorregou em algo. A sola de suas botas estava lubrificada por banha de baleia e ela caiu sentada no chão, sua pele repleta de gosma e muco, pedaços de peixe e carne pútrida que se acumulava no fundo do mar. O espaço por baixo de suas unhas estava preenchido com carne escura e podre e enormes algas se enrolavam por suas pernas, prendendo-as e, conforme se esticavam, mudavam de cor. Entre todos aqueles corpos bestiais estourados no chão, ela percebeu um maior, salpicado e enxuto de vida pelo sal do mar, nu e com a pele cintilando, lembrando pele anfíbia, onde as algas se transformaram num loiro arruivado, quase vermelho, quase… quase como a...
Sin abriu os olhos. O escuro que a enlaçava a assustou e tudo o que ela conseguia ouvir era o som disparado de seu coração. Até que sua visão se estabilizasse ao breu, demorou um tempo.
Estava amarrada numa cadeira. Não conseguia mover os braços ou as pernas, e a sua frente estava uma mesa de madeira comprida, onde, no meio, postava-se um candelabro que sustentava uma única vela curta. Pela mesa, haviam formas espalhadas, indistintas.
Sin não conseguiu ver quem estava sentado na outra ponta da mesa.
“Mas o que…”
“Achei que não iria acordar, peixinha.”
Era a voz. A voz do carro. A voz da papelada de Jockey no bunker.
Ela se arrepiou e sentiu que ia vomitar. Era, definitivamente, uma pessoa na outra ponta. Ela via o contorno de seus ombros e a cabeça pendendo para trás, como se estivesse olhando para cima. O pior, de longe, era o cheiro que pesava na sala; não era possível sentir cheiros em sonhos, mas, ela jurava, aquele era o exato cheiro da sopa de peixes mortos.
Tentou manter a calma. Não era a primeira — nem a segunda — vez que acordara em tal situação.
“Onde estou?” perguntou.
“Você está no parque de diversões.”
“O que eu estou fazendo no…”
“Sente esse cheiro?”
Ela ergueu a cabeça. Não havia câmeras ou monitores na sala, a não ser por…
No canto, do outro lado da sala, uma luz vermelha mantinha-se acesa. Vez ou outra, piscava. Seu corpo passou para o estado de repulsa.
“Sinto.”
“ O quê você acha que é? ” Havia um tom de malícia e diversão que só os loucos e os bons psicopatas conseguem atingir. Ela forçou os olhos, tentando enxergar além da vela, além do escuro.
“Tem cheiro de carne.”
“Carne? Interessante! Que tipo de carne?”
“Carne recém cortada.”
“Hummm. E, por curiosidade, o quê você está sentindo? Fisicamente.”
“ Sinto que vou vomitar.”
“Segure-se. Por mim. Vamos Sin, colabore.”
“Quem é você?”
“Você sabe quem eu sou, oras. Somos amigos antigos!”
“Amigos?” Sua voz pingava asco. “Está mais para tolerância. Tolerância do tipo eu vou matar você quando te encontrar.”
“Ótimo, peço que me tolere mais um pouco então. Alguma sensação?”
Ela respirou fundo. O cheiro estava consumindo sua mente como um verme se afundando em seu cérebro e ela não conseguia pensar direito.
“A sala está quente.”
A voz riu baixo.
“Defina quente.”
“Não quente como se a temperatura estivesse alta. Quente como se houvesse algo…”
Algo com temperatura naturalmente quente na sala. Ela engasgou.
“Hummm… Entendo.”
Sin sentiu seus olhos queimarem, como se estivesse prestes a cair em lágrimas. A voz permaneceu em silêncio por um instante, dando espaço para fungadas e suspiros, e logo voltou a falar:
“ Sin preste atenção. Isso não é um teste ou uma falsa afirmação; no funeral, a chave dos peixes caíra em sua mão. O pássaro que a transporta não é importante desde que você não a perca.”
O coração de Sin apertou e ela lembrou do sonho.
“Para que serve?”
“Oras, bobinha! Para quê servem as chaves?”
As lágrimas e medo dentro de si haviam entrado em ebulição e a raiva que crescia em sua garganta se tornava cada vez mais maciça.
“Pare de brincar comigo.”
“ Ela abre uma caixa colorida. Você sabe a diferença entre um polvo e uma lula, Sinne?”
Por mais que fizesse força, não conseguia se soltar da cadeira. Não estava amarrada com cordas, mas sim com fita. Sin não entendia como a fita era mais resistente que a corda, mas aquilo só a frustrava mais.
“ Não entendo como isso é relevante.”
“Os polvos se arrastam no fundo do mar, remexendo nos destroços e escombros mais profundos e sombrios; sempre nas sombras, melancólicos, quase como fantasmas. Enquanto as lulas, veja bem, nadam bem perto da superfície, onde ficam os pequenos animais e vegetais que lhe servem de alimento. Perto do olho d’água, frescas e disponíveis para quem lhes quiser ver. Elas são fáceis de pescar e, geralmente, colaboram com a pesca. Me conte Sin, como anda a busca pelo traidor?”
“Eu estou trabalhando nisso.”
“Um banco foi roubado ontem no centro da Cidade usando o seu pequeno monstrinho. Foi um roubo enorme. Quase meio bilhão contado.”
Sin franziu a testa; o Vírus J era exclusivo, só os membros do Cartel sabiam como usá-lo e não foi dita nenhuma palavra sobre tal roubo — não foi dita nenhuma palavra em meses! Não era possível que…
“Como pode ser? Quem o usou?”
“Não sabemos.”
Sin se perguntou o motivo do plural.
“Como, num roubo tão grande, não temos nenhuma pista? Nenhum alarme tocou? Como isso é possível?”
“ Sin, você não conhece o próprio vírus? Ele cria várias contas fantasmas que retiram valores baixos. Menos de cem dólares. O banco soa um alarme quando é um saque grande em uma única retirada, mas com um hospedeiro vil, que se alimenta aos poucos, como poderiam suspeitar?”
“Mas se tanto dinheiro foi sacado em um só dia, mesmo que por contas diferentes, não teriam percebido?”
“Eis a questão: o dinheiro não foi sacado. Ele ainda está circulando por ai. A pessoa que fez isso soube mexer os pauzinhos.”
“E o quê isso tem a ver com a chave?”
“Você vai descobrir, querida.”
“E o funeral é de quem?”
A voz ecoou uma risada e, num baque que quase a deixou cega, as luzes se ascenderam e o horror nos olhos de Sin foi tão grande que suas pupilas dilataram imediatamente.
“Polvo ou lula, Sinne. Qual é você?”
Parque de Diversões, 21:30 PM
“Porquê Estopim viria aqui?” Sam perguntou.
Estava acompanhada de Jockey e ambos carregavam uma lanterna, mas a sombra que pairava no parque, atrás de cada brinquedo a arrepiava.
Jockey havia sido um cara realmente legal — tinha segurado sua mão enquanto ela pulava a catraca pra invadir o parque, e nem tinha rido muito enquanto ela caía brutalmente no chão, tentando invadir o parque!
Sam se perguntava o porquê dele ser um cara tão reservado.
“Esse não é, nem de longe, o lugar mais estranho em que eu já o fui buscar”, ele respondeu e olhou para Sam. Ela não diria que seus olhos brilhavam romanticamente, refletindo a luz sóbria das lanternas em meio ao breu, e que, enquanto ele a tomou em seus braços fortes ela pôde sentir seu coração.
Mas tinha uma luzinha pálida e sem graça nos olhos dele.
Sam bufou.
“Vocês são amigos há muito tempo?”
Ela estava preocupada com Sin. Lembrava-se da noite passada, quando se beijaram de verdade pela primeira vez — Sam não gostava de pensar no incidente do banheiro como um beijo com sentimentos, apenas como agradecimento.
Só queria encontrar Estopim logo para poder ir atrás dela.
Jockey iluminou um carrinho de algodão doce e desviou dele a tempo.
“Hum, amigos? Pode-se dizer que ele tropeçou em mim.”
Ela sorriu.
“Adoraria ouvir a história.
Sam jogou o ponto de luz numa tenda e checou rapidamente, vazia.
“Eu estava indo fazer uma troca de uma mercadoria específica — ele olhou para Sam e sibilou “drogas”, então sorriu e tornou a olhar para frente — no Golfo do México. Houve um tiroteio. Estopim estava fugindo do país e entrou no meu carro, apontando uma arma para minha cara. Cinco minutos depois, enfiou um pendrive no meu rádio e começou a cantar música latina.”
Sam riu.
Jockey deu de ombros.
“Dai por diante ele se convenceu de que tem uma dívida comigo. Não desgruda de mim e eu o suporto.”
“Ele não parece tão mal assim.”
“Não é. Você se acostuma com o tempo.”
Continuaram andando lado a lado por mais alguns minutos. Não perto o suficiente para deixá-lo — mais — desconfortável, mas Sam podia sentir seu cheiro de suor e perfume ruim. Cheiro de adolescente, ela pensou.
Por fim, ele disse:
“E você e Sin?”
Ela o olhou.
“O quê?”
“São amigas há muito tempo? Parecem próximas.”
Sam riu.
“Eu diria que somos… amigas bem íntimas.”
Ele a olhou com aquele mesmo brilho nos olhos de um garoto que põe suas mãos em uma Playboy pela primeira vez.
“Do tipo que tomam banho juntas e se pegam pra fazer ciume em outro caras?”
Ela sentiu o rubor subir-lhe ao rosto e a voz engrossar, mas antes de responder, sua lanterna iluminou uma sala de concreto. Devia ser usada para o controle dos brinquedos. A porta era de metal e logo Jockey a olhava também. Ela parou.
“Será que…”
“Pouco provável”, ele respondeu antes mesmo de Sam terminar. “Tem mais chance de estar dormindo dentro de algum brinquedo.”
“Não sei Jockey… Não é melhor checar?”
Ele deu de ombros e lhe entregou sua lanterna.
“Se você insiste.”
Quando estava perto o suficiente, Jockey ergueu sua perna e chutou a porta. A lata amassou, mas não teve sinal de abertura.
Mas algo dentro da sala gritou.
O coração de Sam subiu-lhe à garganta. Ela correu até a porta e empurrou Jockey para o lado.
“A porta está aberta, idiota!”
Jockey soltou um “hum” desinteressado.
“Não vou nem me ofender.”
Quando a abriu, Sam ficou embasbacada.
Havia uma mesa de jantar de madeira e, com a lanterna ela viu, por toda sua superfície encontravam-se pedaços de carne, muito sangue e no meio, enrolado à um candelabro, uma lula morta.
Em uma ponta da mesa, sob uma cadeira, estava Sin, chorando e engasgada de horror, com seus olhos arregalados pelo susto e seus braços amarrados.
E na outra ponta…
“Estopim!”
Jockey entrou num furacão dentro da sala e congelou perante o corpo desfigurado de Estopim, com suas entranhas e músculos derramados e a cabeça tombada para trás, com os cabelos pendendo. Seu peito estava aberto e dentro, onde deviam estar os órgãos vitais, haviam peixes. Jockey caiu de joelhos e debulhou-se em lágrimas e gritos.
Sam foi até Sin, atordoada pela cena e cambaleante.
Quando se ajoelhou ao lado da amiga e tomou-lhe o rosto nas mãos, sentiu suas lágrimas quentes caírem e a beijou na cabeça. Sin estava suada e tremendo, e quando Sam a desamarrou, ela caiu em seus braços e soluçou enquanto a ruiva a sustentava.
Foi Sam quem ligou para a polícia e, enquanto todas aquelas luzes se moviam rápido demais para ela acompanhar, sentou-se ao lado de Sin na beira da ambulância, abraçando-a e zelando, enquanto segurava sua cabeça em seu peito e a deixava chorar.
Dessa vez, dormiram na mesma cama.
Motel, 2:30 AM
Sin acordou gritando. Estava suando e em seus sonhos ela via Estopim rasgado ao meio, com peixes entre suas tripas e sangue por toda parte. O cheiro, ela sabia, a assombraria para sempre. Sam estava parada ao seu lado na cama, observando-a espantada. O olhar de Sin, pesado, caiu de volta para seu colo e ela deitou-se de novo, mais próxima de Sam. Seu peito arfava.
“Você quer falar sobre isso?”, a ruiva perguntou.
Sin engoliu em seco e desceu a dor pela garganta, lembrou-se da voz mandando-a ir para a Cidade em busca de Estopim, e de novo, fazendo metáforas com peixes, amarrando-a a poucos metros da carne arrancada de seu amigo. Ela sentiu a camiseta de Sam ficar úmida e percebeu que havia voltado a chorar.
A voz dela era menos que um sussurro rouco.
“Sin, eu sinto tanto…”
E Jockey. O coração de Sin se apertava só de lembrar dele. Desde que chegaram ao motel, Jockey estava sentado no chão, com o cacto entre as pernas cruzadas, e provavelmente estava lá ainda agora, encarando o vazio. Deixando lágrimas silenciosas caírem, velando. Naquela noite os dois estavam de coração partido.
Ela sabia que não conseguiria dormir. O funeral de Estopim seria logo no dia seguinte, já que e Sin e Jockey insistiram em não ter um velório e não havia corpo para preparar…
“Apenas um caixão vazio a zelar…” ela sussurrou.
Havia chorado tanto que mal conseguia reconhecer a própria voz.
Sam beijou-lhe o topo da cabeça e Sin percebeu como ela estava sendo boa naquele momento. Havia ido atrás dela, falado com todos os policiais e arrumado toda aquela encrenca, e ainda ficara com Sin para certificar-se de que ela estava bem. Não pensaria num lugar melhor além dos braços de Sam.
Jockey foi embora antes mesmo da ambulância chegar. A policia as deixaria no motel, então ele pegou seu carro e partiu. Tudo aquilo era demais para ele.
Sin fechou os olhos, lembrou-se da dor familiar de perder alguém. Lembrou dos peixes mortos sob a mesa e o cheiro de sangue fresco que enchia a sala. Defina quente.
Sam puxou-a mais para perto de si e abraçou seu corpo, e ali, mesmo sabendo o que preencheria seus sonhos, Sin adormeceu.
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