Totentanz
10 Capítulo Nove
Motel, 15:45 PM
Sam veste um casaco e arruma seus cabelos em frente ao espelho do quarto. Pelo reflexo, ela pode pode ver Sin sentada na cama, com as pernas afastada e as mãos na cama, cabisbaixa.
Ela ainda não havia entendido cem por cento o que acontecera. Sam imaginava que fosse difícil de digerir, mas que não passasse de uma questão de acreditar que a dor é real, e esse é o primeiro passo para superar. Sin chorou, teve pesadelos e até mesmo Sam teve alguns. Ela não conseguia imaginar o desespero da amiga quando as luzes se acenderam.
Na cadeira da penteadeira, estava a jaqueta de Sin. A preta, surrada e velha. Sam conseguia sentir o cheiro da garota no couro, aquele cheiro permanente de sangue seco e sabonete mentolado. Ela pegou a peça e sentou-se ao lado de Sin. Deu-lhe um beijo na bochecha lento e materno, e a menina a olhou. Seus olhos verdes estavam perolados e inchados.
Sam se esticou e, com cuidado, vestiu a jaqueta em Sin.
“Você vai ficar bem hoje.”
Sin abriu um traço de sorriso e virou seus grandes olhos para os de Sam.
“Fica comigo.”
Sam sorriu com toda a ternura que tinha no corpo. Sin parecia absolutamente pequena naquele dia, como se a dor a tivesse encolhido, e vestida em preto — Sin não estava de vestido. Vestia-se em jeans e couro no tom mais negro que Sam encontrou na loja, para variar. Mas qualquer um que se enganasse e cedesse à aparência frágil de Sin mudaria de ideia quando olhasse em seus olhos. Ela tinha o maxilar trincado na maior parte do tempo e seus olhos praticamente pegavam fogo.
Sam levantou-se em seu vestido simples e pegou a amiga pelas mãos, pondo-a de pé.
“Eu…”
Sam sorriu e a abraçou. Sentiu-a derreter em seus braços.
“Eu não vou deixar o seu lado por um estante sequer.”
Quando desceram, Jockey esperava no balcão. Não dentro do balcão, num banco ou algo do tipo, mas em cima, com as pernas pendendo no ar e o cacto ao seu lado.
Sam podia jurar que aquele cacto parecia murcho.
Seu coração se partiu quando olhou para Jockey. Ele não havia amarrado a gravata direito, seu cabelo escuro estava desarrumado como se passasse a mão por entre os fios constantemente e seus olhos eram fundos como garrafas.
Ela reparava agora, ele era realmente jovem. Quando Sin dissera, no carro, que ele apostava e trabalhava com sites barra pesada, Sam imaginou um homem mal caráter, um viciado em whisky e fichas de pôquer; mas Jockey era um garoto. Sua idade não devia ser muito diferente da própria Sam, e ela se sentiu como sua irmã naquele momento.
“Eu vou ligar o carro”, Sin avisou. “Preciso de uns minutos sozinha.”
Sam assentiu e tirou seu braço dos ombros da garota, seguindo-a com os olhos enquanto se retirava do salão. A ruiva suspirou e se aproximou do balcão.
Ela sorriu para a gravata de Jockey e perguntou se podia arrumá-la. Ele apenas acenou.
Enquanto desfazia o nó, ela perguntou:
“Quantos anos você tem, Jockey?”
Ele levantou os olhos como se a pergunta fosse novidade. Sam reparou o quão perolados, iguais aos de Sin, eles estavam. Ela entendeu o porquê dizem que lágrimas são como pérolas.
“Dezenove.”
Ela sorriu para ele e passou as mãos por seus ombros, tirando os pelos do paletó. Em seguida ele saltou do balcão para o chão e ela o abraçou. Jockey estranhou o contato de primeira, ele era mais alto que Sam e mais forte do que ela, mas, lentamente, cedeu-lhe o toque.
"Eu sinto tanto, Joy.”
Jockey fungou em seu ombro.
"Eu também Sammy.”
Carro da Sin, 18:20 PM
Sin respira fundo. Trava as portas do carro.
Ela não sabe ao certo a onde vai, e disse isso à Sam.
"Quer companhia?" a ruiva replicou.
Sin não queria ser indelicada ou fazer desfeita do afeto dela, mas precisava pensar em tudo que havia acontecido e entender o quê faria em seguida. Fora um dia difícil.
"Preciso de um tempo. Espero que você entenda."
Sam trocou o peso do corpo de um pé para o outro. Havia tirado o vestido preto e estava cada vez mais parecida com Sin — trocando o fato de que Sam tinha uma obsessão por Converse, que Sin se recusava a usar — e, nesse dia em particular, seu cabelo estava da cor de fios de cobre e caiam pelos ombros, emoldurando seu rosto.
"Só não volte muito tarde", ela pediu.
Sin beijou-lhe os lábios.
"Não se preocupe. Passe um tempo com Jockey" Sin sugeriu. "Assistam um filme juntos."
"Eu esperava fazer essas coisas com você."
Sin sentiu uma pontada no peito e pousou sua mão na bochecha de Sam. A garota plantou um beijo perto de seu polegar.
"Não faça isso, amor."
Sam tentou sorrir para disfarçar a tristeza.
"Tome cuidado."
Sin escorregou sua mão pelos ombros da garota até encontrar seus dedos. E então ela sorriu.
"Volto antes das dez."
Ali, no carro, Sin sente-se vazia, como se suas emoções e sentimentos tirassem o dia de folga. Talvez ela tenha chorado demais. Talvez precise de uma bebida, de um conselho para o quê fazer de sua vida, quem sabe.
Ela sorriu. Enquanto dirigia até a casa de M, nada tocou em seu rádio, mas isso não a incomodou pois sua cabeça fazia barulho suficiente. As pedrinhas de concreto na estrada emolduravam seus pensamentos enquanto ela se atormentava, repassando a situação.
Estopim estava morto . Seu funeral torturara Sin até o fim, e ela não via a hora de acabar. Ela riu, sarcástica: nem todos os membros do Cartel foram! Josh não fora. Sin esperava que talvez o visse ali, prestando respeito à morte do amigo. Hailey não a olhou nos olhos sequer uma vez e Carmine também não aparecera; mandou Piper em seu lugar. Esta veio falar com Sin, e deixou-a intrigada.
Após prestar suas condolências, Piper entregou a Sin uma chave.
As letras S I N estavam gravadas no metal e foi a coisa mais fria que Sin tocou durante todo o dia. No lado oposto da chave, atrás das letras, havia o desenho de um polvo.
"Eu a encontrei embaixo de minha porta" Piper dissera.
“Isso não é um teste ou uma falsa afirmação; no funeral, a chave dos peixes caíra em sua mão.”
A chave dos peixes.
Sin nunca gostara de Piper. Ela tinha esse jeito de olhar para Sin, como se sentisse pena, como se a garota fosse uma criança de rua que passa fome, e ela uma mulher da alta sociedade.
Mas nunca teve provas contra ela, nunca lhe causou nenhum problema, então Sin apenas aguardava e mantinha distância.
"Da sua porta?", Sin indagou, confusa.
Ela nem se lembrara do boato da chave, muito menos esperava que fosse real. Ou que fosse Piper o seu pássaro.
“O pássaro que a transporta não é importante desde que você não a perca.”
Ela nunca esqueceria tais palavras.
No silêncio do carro, Sin está murmurando o quê a voz lhe disse. Seus pensamentos são muito rápidos e escapam pela boca, gotejando e perdendo-se pelo vazio do veículo.
“Oras, bobinha! Para quê servem as chaves?”
“Ela abre uma caixa colorida. Você sabe a diferença entre um polvo e uma lula, Sintel?”
Uma caixa colorida, ela repete. A chave está em seu bolso, Sin pensa senti-la por cima dos jeans, fria contra sua pele. Lembrando-lhe.
A chave dos peixes.
No estacionamento de M, ela para. Retira as chaves da ignição e pousa sua cabeça no volante por um instante. Tudo aquilo não fazia sentido algum. Por que a voz iria querer Estopim morto? Ela desconfiava que ele havia ativado o vírus? Estopim, de todos os membros, não tinha motivo algum para destruir o bunker com uma infestação de policiais, muito menos de quebrar o esquema.
Sin sabe que Jockey poderia fazê-lo, mas então por que matar Estopim? Mesmo que fosse para prejudicar Jockey com a morte de seu amigo, se desconfiavam tanto dele, por que não pegá-lo? E ainda sim, não fazia sentido. Mandar Sin para a Cidade Alta atrás de um particular suspeito? Por que era o perfil de Jockey na mesa, em primeiro lugar?
E para piorar, ainda havia um nome no caderno para Sin eliminar, mas este ela não fazia ideia de quem era, ou onde encontrá-lo. Seu pai havia escrito apenas “PK” , e Sin não fazia ideia do significado.
Eram muitas perguntas e Sin estava ficando tonta. Estava cansada.
E agora tinha a chave que abria uma caixa colorida. Sin falaria disso para M; ele a ajudaria. M era bom com conselhos.
Ela ergueu a cabeça e se recompôs. Quando saiu do carro, M estava encostado na lataria do veículo, segurando uma xícara de chá na mão e olhando para seu jardim.
O susto que Sin levou foi tão grande que ela quase caiu no chão.
"Boa tarde, querida."
Ela o olhou, furiosa.
"Morfeu! Você tem noção do quão estranho é, parado aí, bebendo chá encostado no meu carro enquanto… enquanto eu…"
Ele retirou uma pequena colher do bolso e mexeu sua bebida.
"Enquanto você pensa. Não consigo ler mentes, Sin, mas consigo ver quando precisam de um chá. Agora, me acompanhe, Sim?"
"Uma chave, você disse?"
Sin sentou-se sobre sua perna na cadeira acolchoada. O jardim de Morfeu era deslumbrante e causava um contraste enorme com a ruína que era o lugar em si, mas Sin achava que tinha seu charme. Aquela paisagem havia sua beleza.
Ela bebericou seu chá. Não sabia quais ervas M usava, mas o cheiro a deixava calma e translúcida, como se estivesse entorpecida. Sonhando. Talvez fosse o cheiro das flores, ou da gasolina, mas Sin adorava.
"Sim."
"Não me venha com sim, Sin. Eu quero detalhes."
"A voz a chamou de a chave dos peixes e disse que abriria uma caixa colorida."
M se encostou em seu assento, murmurando.
"Peixes não tem sequer mãos, como usariam chaves?"
"O quê disse?"
Então, num pulo, ele se levantou. Estava descalço, e, apesar do final de tarde quente, M usava seu terno azul escuro com a gravata — Sin não tinha tanta certeza se era uma borboleta ou uma mariposa. Seu cabelo louro brilhava, sedoso, e quase tocava seus ombros.
"Eu quase me esqueci!", e do bolso ele retirou dois bilhetes. "Darei um baile para comemorar meu aniversário. Ficaria absolutamente honrado se você e sua dama comparecessem."
Sin sorriu e pegou os convites. Pareciam panfletos e era de cor marrom, quase como um papel pardo. “Totentanz” era o quê o papel informava e, onde deveria ser a letra “o”, havia uma piranha com sua boca aberta e os dentes afiados para quem quisesse ver.
"O quê significa?" Sin perguntou.
Morfeu sorriu.
"Dizem os ciganos que é “dança da morte”, em alemão."
Sin estremeceu. Não era motivo para se preocupar, M era um cara estranho, no final das contas.
"E quando é tal baile?"
"Amanhã. Diga-me que virá, Sinne ."
Sin sorriu, amistosa.
"Eu prometo."
Motel, 21:50 PM
"Sin, você pegou as entradas?" Sam gritou.
Sin colocou apenas a cabeça para fora do carro.
"Peguei!"
Sam passou as mãos por sua barriga e coxas por cima do longo vestido cor vermelho. Tão vermelho quanto vinho, quase roxo, quando foram comprar, esse fora o que Sin mais gostara.
"Combina com você", ela dissera. "Com sua pele…"
E depositara um beijo em seu ombro, espremidas dentro do mesmo provador.
"Com seus cabelos…", entrepassara seus dedos por suas madeixas compridas, cor de madeira molhada e ébano. Ela estava tão feliz que dividiram um provador.
Sam balançou a cabeça, se livrando do devaneio. Jockey estava na cozinha, fazendo café. Quando pediram que ele fosse junto, o garoto fez menos que negar com a cabeça.
"Tem certeza que não quer ir Jockey?" Sam perguntou novamente.
"Não se preocupe comigo, Sam. Divirta-se."
Ela sorriu, triste. Queria fazer mais por Jockey, mas o garoto parecia se fechar cada vez mais e já havia até posto o motel à venda. Ela passara a se importar com ele. Sin parecia ligeiramente melhor perto de Sam. Quando à morte de Estopim, é claro. Quando estavam afastadas, a garota ficava em silêncio e pensativa. Ela se perguntava se algo mais, além de Estopim, a perturbava.
Sam deixou-o no motel, de pijamas e com suas olheiras profundas, indo em direção ao carro de Sin. Quando a garota chegou ontem — antes das dez, como prometido -, e mostrou os convites durante o jantar — uma caixa de cereais coloridos enquanto assistiam desenhos animados na televisão do quarto -, perguntou se Sam gostaria de ir.
A primeira coisa que ela pensou foi que seria um encontro. Ela estava (finalmente) sendo levada a um baile! Um encontro!, e elas dançariam e Sam faria Sin esquecer-se dos problemas por algumas horas. Era tudo o que elas precisavam.
Sam pulou cedo da cama assim que o dia amanheceu e arrastou Sin para comprarem uma roupa para ir. Novamente, Jockey não quis ir.
Quando se aproximou do carro, Sin havia abotoado sua sandália e levantou-se para abrir a porta. Vestia-se em preto, o vestido longo o bastante para cobrir-lhe os pés e justo ao corpo, realçando seus ombros e busto. Ela abriu a porta e colocou sua mão na cintura de Sam.
Sin estava maravilhosa.
"Você está linda", ela elogiou.
Sam corou.
"Você é linda", respondeu.
A garota mais baixa sorriu e a ajudou a entrar no carro; deu a volta, e pôs-se em seu posto de motorista. Os convites estavam no console e Sam os recolheu, deixando sobre o colo, onde pôde analisar a enorme piranha que realçava o desenho.
No começo, ela não confiara nem um pouco em Morfeu; ele a assustava, na verdade. Tinha aquele jeito de quem paira sobre o ambiente inteiro e sabe de seus segredos, jeito de quem está pronto para zombar deles. Mas Sin lhe disse que ele apreciava dançar, que fora criado com ciganos, então ela estava, no mínimo, curiosa para ver como seriam as coisas.
A noite estava escura e quente, úmida. O vestido de Sam era aberto o bastante para que a mantivesse fresca e não sentisse tanto calor. Sin estava concentrada na estrada, como sempre ficava quando dirigia, mas uma ruga de sorriso se escondia em seu rosto.
"M geralmente dá esse tipo de festa?", Sam puxou assunto.
"M adora mostrar seu lugar para estranhos e adora julgá-los. Ele é como uma aranha."
Ele é como uma aranha.
"E seu lugar…?"
Sin a olhou e sorriu.
"A Casa de Fogo? Alguns a chamam de castelo…", Sam assentiu. Sin aumentou seu sorriso.
"Por quê tem esse nome?"
"Você vai ver."
A Casa de Fogo, estacionamento, 22:15 PM
Quando estacionaram, Sin desceu do carro e abriu a porta para Sam de novo. A ruiva pareceu agradecida e ligeiramente apaixonada, com aquele ar de doçura que só os amantes possuem. Sin estava preocupada.
Carregava a chave dos peixes num colar, junto com as balas no pescoço. Sam não a vira, e se o fizera, não perguntou. Após a briga no beco ela não perguntara mais nada em relação às balas e não ouve outra briga. Era melhor assim.
Ela estava absolutamente linda. A lua estava alta no céu e iluminava o jardim de Morfeu com uma luz pálida que realçava os cabelos ruivos de Sam. As flores estavam em seu auge e o cheiro de perfumes diferentes deixava qualquer racional louco. As árvores de copas altas estavam cheias de folhas e frutos, e as plantas e pequenos arbustos, devidamente podados. Caminhos de pedra circulavam por entre os amontoados de flores e, no meio do labirinto, a fonte quebrada e velha se erguia, com uma roseira despejando flores e espinhos até o poço.
"Você me daria a honra de um passeio?" Sin convidou.
Ela queria passar o máximo de tempo que podia com Sam, e queria fazer dele o melhor. Queria agradá-la e fazê-la se sentir amada.
Sin não admitiria, mas parte disso era culpa, já que toda vez que se lembrava que seu plano era oferecê-la a Carmine, seu peito se enchia de remorso. Agora ela sabe que não seria capaz. Ela não conseguiria deixar Sam, muito menos trocá-la.
A luz da lua iluminou parte do rosto da menina e Sin pensa tê-la visto corar. Seus olhos brilharam e ali Sin viu seu mundo inteiro. De repente ela se encheu de uma sensação de conforto, seu coração completo de ternura, onde ela percebeu que não importava. A chave não importava e o quê ela abria, muito menos. Carmine não importava. As balas em seu pescoço não importavam, desde quê Sam ficasse com ela. Sin queria tê-la para sempre. Queria chamá-la de sua e queria vê-la corar, queria ver seu corpo, sua pele embebida pela lua e seus cabelos que tinham ondas como verdadeiro e malicioso mar.
“Polvo ou lula, Sinne. Qual é você?”
Sin afastou aquele pensamento; ela não era nenhum. Ela era o quê Sam precisasse que fosse, sem forma ou compressões. Ela seria sua amante para a vida toda, desde que a quisesse por perto.
Ergueu seu braço e Sam o tomou, puxando-a para perto com leveza. Juntas, caminharam pelo caminho de pedras e deixaram que a luz criasse sombras de suas silhuetas e que caminhassem, arrastando-se pelo chão como um véu. Algumas das pessoas que estavam chegando as estavam vendo, e Sin sentia seus olhares lamberem suas costas nuas, descendo por seu longo vestido até chegar em sua sombra.
Mas isso não importava também.
"Isso é tão… esse lugar…", Sam apontou para um arbusto podado no formato de uma corça. "Olhe! Não é linda?"
Sin sorriu. A ternura e o carinho escorriam por seus olhos como se fossem lágrimas invisíveis e seu olhar descia por todo o pescoço e maxilar de Sam. Ele velejava em seus cabelos como um barquinho em auto mar, analisando a sombra de seu nariz e olhos quando banhados pela luz natural e seu corpo respirando junto ao seu, subindo e descendo no corpete.
"Sim", Sin respondeu, Sam a olhou, animada, e Sin olhou em seus olhos até se perder no infinito de ébano. "Ela é linda."
Sam não reagiu por um breve momento, mas logo abriu seu sorriso grande e terno. Sin sentia sua garganta queimando quando a olhava sorrir daquele jeito.
Sentaram juntas na fonte do infortúnio e Sam se inclinou sobre Sin, que a abraçou por cima do ombro.
Após um minuto de silêncio, Sam a olhou.
"Sin, o que somos?"
Sin não pensou para responder.
"Somos amantes."
"Amantes?"
Sin sorriu e olhou para o céu.
"Sim. Como o sol e a lua."
Sam subiu seu olhar para as estrelas também.
"Mas nós nem fizemos amor."
Sin a olhou, divertida.
"Amor? Sam, fazer amor nunca foi sobre eu e você em uma cama. Nós fazemos amor toda vez que trocamos olhares. A sensação é exatamente a mesma."
Sam parecia constrangida e comicamente pequena ali, como a primeira vez que andaram juntas de carro, numa noite quente de fevereiro, quando ela perguntou seu nome pela primeira vez.
Sin a puxou para um beijo. Estava tão entorpecida na felicidade que o amor parecia criar raízes em seu corpo. Era uma sensação tão estranha e nova para Sin, ela sentia que poderia sentar-se, sozinha, e rir por horas, apenas pela leveza de sua alma e felicidade de espírito.
Ela estava apaixonada.
Os lábios de Sam eram inexplorados e novos, como a borda de uma galáxia. Seus beijos eram da cor das constelações. Sin, mesmo de olhos fechados, só via estrelas.
Quando se afastaram para respirar, suas sombras se entrelaçaram nos ramos da roseira na fonte quebrada, Sin gosta de pensar que viveram ali, eternamente amantes. Ficaram em silêncio. O burburinho de pessoas e música se abafava dentro do salão de bailes, e Sin não estava com o mínimo de pressa de entrar ali. Ela poderia ter ficado na fonte com Sam para sempre.
Então Sam apontou para o céu.
"Aquela estrela é linda."
Sin concordou.
"Sirius."
Sam a olhou.
"Você sabe o nome das estrelas?"
Sin sorriu.
"Minha mãe adorava as estrelas, então meu pai aprendeu o nome de cada uma delas. Ganhou seu coração."
Sam sorriu, compadecida e apontou para outra.
"E aquela?"
Sin a olhou.
"Canopus."
Sam apontou para outra.
"E aquela ?"
Sin sorriu.
"Bem, aquela é… aquele é Júpiter."
Sam a olhou. Parecia indignada.
"Júpiter? Tipo, o planeta Júpiter?"
Sin assentiu.
"Mas parece uma estrela comum."
"E você parecia uma garota comum."
Sam sorriu.
"Então você é a garota das estrelas?"
Sin bufou, divertida.
"Não me provoque, França."
Sam desatou a rir. Não que fosse engraçado ou algo do tipo, Sin suspeitava que fosse a mesma risada travessa que os amantes tem dentro de si.
"Você gosta de quê, então?"
Sam parou de rir e suspirou devagar, os olhos perdidos no céu.
"Eu gosto de planos cancelados. E livrarias vazias. Eu gosto de dias chuvosos e trovoadas. E tranquilos cafés. Eu gosto camas bagunçadas e pijamas amassados.", ela a olhou e sorriu. "Acima de tudo, eu gosto de quando você ergue o canto da sua boca, como se fosse durona demais para o mundo te ver sorrir."
Sin não sabia como responder àquilo senão com um beijo.
A Casa de Fogo, Salão Principal, 23:00 PM
Morfeu as recebeu quando entraram no salão. Ele sorriu, satisfeito por vê-las, e beijou a mão de Sam. Ela sorriu, envergonhada e olhou para Sin. Foi o sorriso dela que a confortou.
A noite estava perfeita; todos haviam dançado, bebido e estavam se sentando para ouvir o discurso de aniversário de Morfeu. A pista de dança ocupava o salão inteiro e haviam tantas pessoas dançando que Sam achou que ficaria sufocada entre elas, entre todos aqueles corpos agitados, vestidos longos e rodopiantes pelo salão, mas Sin a conduziu levemente e a fez sentir como se pudesse dançar daquele jeito a noite inteira.
Nos cantos haviam domadores de fogo, cuspindo gasolina e fazendo malabarismo com as chamas. Sam perguntou a Sin se ela podia fazer aquilo também.
"Sim, mas eu prefiro não fazer. Meu fogo prefere não chamar atenção."
Ela definitivamente pediria a Sin para mostrá-la mais tarde e estava tão animada e feliz. Elas haviam valsado e trocado frases bobas e amorosas que enchem a pista de dança de promessas de amor. Mesas enormes com banquetes exagerados não faltavam. Carne, frutas, vinho e cidra enchiam as pessoas e as deixavam quentes por dentro, quentes o bastante para cogitar tirarem as roupas.
Os convidados sentaram-se para ouvi-lo falar. Morfeu estava com as mesmas roupas de sempre, e Sam estranharia se não estivesse. Seu terno azul escuro o servia perfeitamente, ajustado à cada detalhe de seu corpo. No colarinho, o quê Sam pensou ser uma gravata borboleta era na verdade uma mariposa, que ganhou vida e voou para longe quando ele passou suas mãos magras e jeitosas pelo terno, alisando-o. O animal voou ao seu redor, chamando todas as outras que estavam pousadas em sua cartola para rodeá-lo, como em uma orda. Sam chegou a se perguntar se ele era mágico.
Após duas ou três voltas, os animais voltaram a se posicionar em sua cartola e, a mariposa iniciante, a maior, voltou a seu posto de gravata. Morfeu mostrou aquele sorriso doentio e apaixonante e falou com as palavras mais doces, a voz caramelada e o sorriso permanente:
"Uma boa noite, senhoras e senhores. Agradeço a todos pela presença."
Quando Morfeu começou a falar, uma garota mais velha que Sam sentou-se a mesa, ao lado de Sin. Ela parecia desesperada e atraiu a atenção de Sam, que inflou quando a mulher pôs sua mão sobre o braço de Sin.
Ela tinha cabelos compridos e lisos e seus olhos eram tão escuros que pareciam quase completamente pretos.
Sam não a ouvia, já que estavam sussurrando no ouvido uma da outra.
"...nós somos a fagulha que bombeia o sangue. Somos os rejeitados da sociedade, sempre do lado de fora do parquinho."
As pessoas sentadas aplaudiram e riram, clamando Morfeu. A garota estava em pânico e Sin enfiou seus dedos no decote do próprio vestido, tirando dele o colar com as balas e mostrando-o para a garota.
No colar, agora, havia uma chave.
Sam estava desconfortável. Ela sentia gosto de álcool na garganta e o cheiro de gasolina a estava deixando tonta.
Uma vez que perdeu o controle de si mesma, Sam perdeu-se no ambiente. Morfeu estava ecoando uma risada e tirando uma caixa de fósforos do bolso. Foi como se tudo estivesse em câmera lenta, e o tempo congelado. Ele riscou o palito e jogou o fósforo no chão. O fogo percorreu o salão inteiro, numa fileira estreita que percorria as mesas e o salão central, onde as pessoas estavam antes dançando. Os convidados soltaram um “oh” de surpresa e satisfação.
A garota ao lado de Sin engasgou e sufocou. Caiu no colo de Sin e esta começou a gritar.
As pessoas que estavam sentadas arrancaram pedaços de carne do banquete em suas mesas e as jogaram para cima, para o meio do salão. Morfeu estava rindo. Homens em ternos rasgavam patos com suas próprias mãos e atiravam peixes e maçãs. Tudo parecia podre e doentio. Sam queria ir embora.
Sin estava segurando a garota no colo e em pânico, tentando falar com Sam. Sam sentiu seus ouvidos estourarem.
Morfeu pulou do palco onde estava falando antes, e, descalço, caminhou lentamente por entre o fogo e a carne. Seus longos cabelos louros estavam penteados para trás e a cartola de mariposas o cobria. Enquanto se aproximava, sorrindo, ele pegou uma taça de bebida da mão de um garçom que o esperava e se ajoelhou perante Sin.
Retirou sua cartola e a levou às costas, oferecendo à Sin a bebida.
Sam queria gritar para que não bebesse, mas Sin estava engasgando também e tomou a taça nas mãos. Sam sentia-se presa no tempo. O fogo traçava formas no salão e mais pessoas engasgavam. Sin bebeu e Sam só acordou do transe quando a amiga estava segurando os ombros.
"Fique aqui" ela disse.
Sin levantou-se e, andando, a garota deixou o salão.
De repente, tudo voltou ao normal.
"Sin, onde você vai?" Sam gritou.
Sin estava tropeçando em seus próprios passos e sua visão estava embaralhada. Sentia-se como se estivesse prestes a vomitar todas as suas entranhas. Ela estava envenenada e sabia disso.
A bebida de Morfeu.
"Sin! Não me deixe aqui! Sin!"
Quando Mary Jane puxou-a para conversar, desesperada, ela soube o que viria. A garota estava espantada por causa de Estopim e lhe perguntou sobre a chave de coral. De primeiro, Sin não soube do quê ela estava falando, mas quando lhe contou que Piper estava falando disso com outra pessoa, ela soube exatamente qual era.
Droga, Piper estava na festa! Provavelmente estava observando-a e rindo.
Sin entra dentro do carro e dirige rápida e violentamente. Sam está gritando do lado de fora, assustada. Ao fundo, Sin vê Morfeu se aproximando dela. Sin sente seu sangue ferver.
Sua cabeça está louca de pensamentos sem sentido.
A chave dos peixes a chave dos peixes a chave dos peixes.
Suas mãos estão tremendo e ela se sente enjoada. Suor escorre por sua testa e ela não consegue acreditar no quão idiota fora.
Ela pega o telefone e liga para o celular de Jockey. Ele o atende.
"Sin?"
"Vá buscar Sam na casa de Morfeu. Não a deixe sair do seu lado e não lhe diga que te liguei."
"O quê houve?"
"Agora Jockey!", ela grita e desliga.
Ela abre uma caixa colorida.
Sin estacionou no cais. Sem sequer estacionar direito, ela abriu a porta do carro e disparou. Havia se livrado de seus sapatos quando saíra do baile e a imagem da piranha de Totentanz assombrava sua mente.
"Piper Kyle comanda o Cartel. Ela manipula Carmine e manipula cada um de nós."
MJ estava descontrolada. Ela tremia e sua voz soava grossa.
"Piper Kyle controla cada um de nós. Ela me controla."
Mary Jane cuida da entrega e acordo nas docas.
Sua voz era um mero sussurro agora e de sua boca saía água salgada do mar.
Sin corria por entre os containers e sentia o vento salgado bater em seu rosto. Esbarrando em uma âncora encostada numa caixa, ela sentiu seu vestido se rasgar e com ele, sua perna. Ela arfou de dor mas não parou de correr.
"Piper Kyle me controla, Sin. Ela controla o mar."
A chave dos peixes.
Sin corre por entre os containers coloridos por onde jurou nunca mais passar. As memórias de seu pai sendo levado e apanhando tornara-se fresca e dolorida.
A chave abre uma caixa colorida.
É claro que seria nas docas. Onde mais? Era o lugar perfeito para atrair Sin, atraí-la de volta para o mar. O mar que lhe traiu anos atrás. O mar que lavou o sangue de sua mãe. O mar que se quebrava enquanto os ossos de seu pai também o faziam. O mar que estava lavando o sangue que escorria por sua perna agora, enquanto ela corria e gritava de dor. O mar que era controlado por Piper.
"Sin, espere!"
Piper controlava o mar. Piper controlava as docas.
Sin nunca gostara de Piper.
Piper Kyle.
PK.
O último nome no caderno.
E então, num clarão de luz do farol, Sin parou em frente à enorme caixa vermelha e observou a imagem do polvo que estava pintada, igual ao da chave que levava em seu pescoço.
Sin tinha a chave do container.
Parada ali, tudo lhe fez sentido.
Piper ativou o vírus. Ela chamou atenção para o Cartel enquanto usava esse caos para roubar um banco e movimentar dinheiro. Carmine fora preso, mas Piper não. Piper estava no funeral de Estopim, mas ele nunca gostou dela.
Piper armou para seu pai nas docas.
E queria que Sin visse, o que quer que houvesse dentro daquele container.
Sam parou ao seu lado, arfando e observando-a.
"Está ferida."
Mas Sin sabia que ela não era real. O veneno em seu corpo a estava alucinando.
Sin arrancou a chave de seu pescoço, arrebentando o colar e fazendo as balas caírem no chão molhado das docas. O tilintar dos cartuchos contra o solo encheram os ouvidos de Sin.
" A chave dos peixes."
Sin ergueu seu braço e abriu o cadeado com a chave. A tranca caiu no chão num estalo e Sin olhou para dentro. Estava escuro.
O barulho das ondas se quebrando contra a madeira do pier nunca incomodou tanto Sin quanto naquele momento. A brisa salgada jogava os frangalhos de seu vestido contra sua ferida. O veneno em suas veias era sólido e Sin podia senti-lo se mover, mas o sangue escoando de sua perna a deixava tonta.
Ela abriu lentamente a porta do container e ouviu o ranger de metal enferrujado. O cheiro de podridão que a invadiu foi tão grande que a arrebatou para a noite em que ficou na sala com o corpo pútrido de Estopim.
Quando o farol iluminou novamente, o clarão bateu no fundo do container e Sin o viu. Todo o ar do corpo de Sin pareceu se esvair e ela sentiu suas pernas fraquejarem. Sentiu seu peito vazio e não conseguia respirar. Seu coração doía como se uma lança o atravessasse e sua cabeça estava girando. Quando o corpo de Sin bateu no chão, a última coisa que viu antes de apagar foi o farol iluminando a noite, e o barulho do mar encheu sua cabeça.
No fundo do container estava o corpo em frangalhos de Josh. E agora, o corpo semimorto de Sin.
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