Totentanz

11 Capítulo Dez


"Finalmente, a moleca caiu."

Sin não sabia quem era. Não sabia onde estava.

Não conseguia acordar.

Aquilo era um sonho? Sem peixes? Sem morte? Não podia ser. Ela não tinha sonhos diariamente e quando tinha não eram normais.

Sin não via nada além do escuro e apenas as vozes para lhe fazer companhia.

"O quê você fez com ela?"

Era a voz de um homem. Era familiar, próxima.

"Eu?", a pessoa riu. Era uma mulher. "Você a envenenou, Feu ."

Morfeu.

Morfeu estava aqui, ele estava com Sin! Ela queria lhe perguntar sobre Sam. Queria saber onde estava e o quê estava acontecendo, mas não conseguia falar. Precisava saber se Sam estava bem.

"Eu não… eu não fiz isso. Não com ela."

Espera…

Morfeu a havia dado de beber antes de Sin começar a alucinar e sentir que estava morrendo. Sem ar ou pulsação. Estaria ela morta? Morfeu realmente a tinha envenenado? O seu Morfeu?

Ela não acreditaria.

A mulher riu.

"Sim Morfeu. Você a envenenou no baile. Por ser um ilusionista, eu esperava que soubesse que alucinógenos em excesso são fatais. Nenhuma mente aguenta."

"Você sabotou minhas bebidas?" Morfeu parecia prestes a explodir.

"Eu aumentei sua dose."

Algo se quebrou. Ela riu. Ele respirou fundo.

"Então foi você o tempo todo? O tormento de Sin, quero dizer."

"Eu e você, querido. Não me dê todo o crédito."

"Eu não fiz nada" ele rebateu.

"Oras, como não?", sua fala estava sendo carregada pela malícia. "Você a ligou na noite do parque. Você incendiou aquela espelunca."

Morfeu havia ateado fogo no bunker?

A noite do parque era a noite em que Estopim…

"Para ajudá-la!" ele gritou.

Morfeu era a voz?

Sin estava arrebatada pela confusão e tristeza. Sentia-se traída.

"Não grite, por favor. Estamos em um hospital."

Em um hospital.

"E por quê ela?" Morfeu estava tomado pela raiva. "Por quê Sin?"

"Sin era a pessoa perfeita. Ela queria coisas, eu queria coisas."

"Você a mandou descobrir um traidor sendo que este era você!"

"Sin tinha tudo para levar a culpa no final. Tinha o passado criminoso. Fazia parte do Cartel. Tinha parentes presos. Tudo o quê eu precisava fazer era mandá-la para a Cidade Alta."

"Essa aventura toda foi uma maldita trilha de corpos! Você me inoja."

"Efeito dominó, querido. Você cutuca o primeiro e pode ter certeza que o último vai cair. Boom, Totentanz! É como uma dança, Morfeu, é como a sua dança da morte. Alguém sempre mancha o tapete do salão de baile, e queria eu que fosse com vinho."

Morfeu parecia fungar.

"Você a teve aqui, por quê não a entregou antes? Por quê esperou?"

A mulher riu.

"Eu gosto de brincar com minha comida."

Permaneceram em silêncio por um bom tempo, até que Morfeu disse:

"Vá embora."

A mulher não respondeu.

"Vá embora!", ele gritou.

Vários minutos se passaram até que Sin voltou a ouvir vozes. Sua cabeça estava preenchida com o vazio e ela tentou ouvir o mais cuidadosamente possível.

"Acorde-a."

Era Morfeu de novo.

"Senhor… se acordá-la ela não vai durar muito. Está sob o cuidado das máquinas."

"E ela vai durar muito se continuar assim?"

Sin achava que M estava falando com um médico.

"Não sabemos. Mas se o único modo de acordá-la é desligando as máquinas, e ela não duraria muito tempo por conta própria."

M suspirou. Sin entendia seu dilema. Apesar de estar ali, frente a frente com a morte, ela ainda tinha coisas para resolver. E Morfeu sabia disso. Morfeu, consumido pela culpa, devastado por ter lhe sentenciado à morte. Ela não o culpava. Ele havia sido mais um pião de Piper. Todos haviam.

"Acorde-a" ele mandou. Sua voz não soava doce e sublime como antes, ela se arranhava em cada tom e pesava no ar, como correntes se arrastando no chão.

Sin não sabe o quê aconteceu em seguida, mas, lentamente, percebeu que não estava escuro por que seus olhos estavam fechados. Estava escuro por que ela estava no fundo do mar. Os peixes e piranhas de Totentanz beliscavam sua pele e a levavam à loucura. A escuridão a rodeava e enquanto ela ouvia sons de máquinas, seu corpo era arrastado pela pressão para cima, cada vez mais rápido e sem o consenso de sua mente. Ela estava voltando. Voltando à vida.

Quando irrompeu na superfície, seus olhos abriram e encontraram os de Morfeu. Estavam, realmente, em uma sala de hospital, e a enferma era ela. Presa à fios e agulhas, Sin se sentiu em uma cadeira de tortura. M a olhava. Parecia paterno ali. O cansaço era aparente em seu rosto, olheiras fundas e ossos marcados sob a pele; Sin podia ver que seus olhos estavam inchados e vermelhos, não refletiam luz, estavam foscos e sem vida.

"Morfeu."

Ele sorriu, triste.

"Não espero que me perdoe, Sinne."

Morfeu não era a voz. Não o tempo todo. Ele falou com ela da última vez, com Estopim, e deu dicas do quê fazer. Apenas M a chamava de Sinne.Somos amigos antigos , a voz dissera. Ele estava dando dicas com a metáfora dos peixes. Ele a havia ajudado a escapar no bunker quando ateou fogo. Morfeu a ajudou desde o começo.

Morfeu era um fantoche.

Um fantoche de Piper.

"Onde está Sam?" ela perguntou. A luta contra Piper, contra seu passado, a busca pelo traidor, as ameaças de Carmine, nada mais importava. Nada jamais pesara mais que a dor de dizer o nome dela.

Seu corpo inteiro doía como se ela houvesse sido espancada por dentro. Sentia que ia morrer, era óbvio para ela. Sin nunca temeu o fim, desde que tivesse salvo tudo o quê havia queimado. A morte era simples, era sublime. Mas antes…

M não a olhava nos olhos.

"Quando partiu ontem, Sam entrou em pânico, achando que você a havia deixado", ele suspirou. "Ela comentou sobre uma garota ter falado com você e você sair correndo. Acha que não a quer mais."

Oh.

Sin sabia que Morfeu não conseguiria ouvir, mas o som de seu coração se partindo foi o barulho mais alto que já ouviu em toda sua vida. Ele retumbou em seu peito e a fez afundar em dor. Sua visão caiu, pesada, e o tempo congelou. Sin entrou em transe. Sam achava que ela não a amava. Sam achava que ela a havia deixado.

Sin engoliu em seco.

"Ela sabe que estou aqui?"

"Um garoto chegou, não muito tempo depois, e ficou com ela."

Jockey. Ela lhe devia tanto por isso.

M dava respostas curtas, engolindo em seco. Sin percebeu o quê ele estava fazendo.

M estava tentando não chorar.

"Sin eu a segui", Morfeu continuou, subindo seus olhos para os dela. Não havia vida ali. "Eu vi o corpo. Chamei a polícia imediatamente e a trouxe para cá. A Sam…"

Ele nem precisou terminar. Sin sabia.

Sam encarou a morte do irmão sozinha, tendo em mente que ela a havia deixado por outra. Sam encontrou Josh, como Sin prometera, e após cumprir seu acordo, Sin fora embora.

Sin a usou.

Sin a deixou.

Sin nunca a amou.

Sin desatou a chorar. Morfeu segurou sua mão.

Suas mãos eram ossudas e sem jeito, mas a seguraram enquanto a menina tremia. Ela se sentia mais fraca do que nunca. Vulnerável até.

"O funeral do garoto será amanhã."

"Ela sabe sobre mim, M?", Sin perguntou. Sentia-se absurdamente pequena e frágil ali.

Morfeu parecia arrasado.

"Não."

"Ela acha que a deixei por outra?"

Morfeu assentiu.

Sin engoliu em seco e sentiu uma pontada no coração.

Não por Sam, ela desconfiava que essa pontada era sinal de que seu tempo estava acabando.

Por sua experiência no departamento de mortes, luto e dor, Sin sabia que Sam não aguentaria. Não duas mortes (três, se contasse Estopim). Sin havia perdido tudo e todos com o passar dos anos e sabia o dano que isso causava em uma pessoa. O amor é uma sentença e a perda é a primeira lufada de ar em liberdade, a mais longa e dolorida. Ela… Ela não poderia fazer isso com Sam. O risco dela fazer alguma besteira era grande demais para Sin correr, então ela fez o quê considerou menos doloroso.

O quê achou que daria certo.

Seu coração nunca doeu tanto.

"Rápido, pegue papel e caneta", ela se encolheu em dor. "Anote o quê eu disser."



"Sin, não faça isso" Morfeu pediu.

Sin estava chorando.

"Eu não tenho escolha!"

Sin odiava funerais. E com a morte de Josh, Sam não aguentaria dois. Sin não a queria chorando sobre sua cova, isso ela não aceitaria. Não queria paralisar sua vida com o vazio de mais uma perda — ela sabia bem como isso deixava marcas.

"A garota te ama Sin."

Deitada na cama de hospital, com o texto nas mãos de Morfeu, com sua caligrafia jogada, Sin chorava. Seu peito doía e ela sentia seu coração dar pontadas graças ao veneno imobilizando seus membros.

Nunca pensou que morreria assim. Não por veneno se alastrando por suas veias e tomando conta de seu corpo.

Mas Sam era o pior. A dor física era óbvia e piorava cada vez mais, mas seus pensamentos a estavam quebrando. Estava doendo. De todas as surras e brigas que Sin já se meteu em sua vida, Sam levava o troféu de pior. Conseguiu derrubá-la até.

Então, sem despedida ou palavra de conforto qualquer dirigida à Morfeu, Sin se levantou-se e caminhou rente à janela. Só então percebeu que ainda estava de noite. Deveria ser madrugada, ou algo do tipo, pois a atmosfera clara começava a querer se esgueirar por entre a escuridão. Ela percebeu a garganta fechando e os olhos ardendo, as lágrimas se acumulavam e ela sentia que iria desmontar e voar pra longe, como areia ao vento.

Morfeu a estava olhando.

"Sin, por favor, volte para a cama."

Sin esticou seu braço sem forças e colocou sua mão no vidro da janela. As lágrimas não paravam de brotar e ela tremia inteiramente. Sentia que seus pulmões explodiriam. Ela chorava compulsivamente e soluçava alto. Não conseguia pensar em qualquer coisa além dela. Sua cabeça gritava e Sin estava recolhendo os cacos de si mesma, tentando enxergar adiante do quase arrebol.

Ela olhou para o céu, para as estrelas que se apagavam e a lua que ainda iluminava a noite antes de lentamente cair de joelhos. E ali ela gritou. Gritou e chorou até sentir seus pulmões doerem. Ela chamou pelo nome dela, pediu perdão, implorou pelo perdão e deixou que Morfeu a observasse. Estava sem ar e sem vontade de respirar. Ela se ergueu, sentada sobre as duas pernas, e olhou para as estrelas pelo vidro. E ali, por entre as lágrimas e os espasmos, com dor maior do que conseguia suportar e a morte lhe tomando o corpo, ela sorriu.

"Isto é uma promessa que não pretendo que escute. Essas, Sam, são as lágrimas do amor que você tanto aguardava. Eu vou te encontrar em outra vida. Talvez a gente se esbarre no mercado ou talvez sejamos estrelas do mesmo céu, em uma uma noite quente de verão, em fevereiro, quando você e eu éramos pra sempre; mas eu juro, eu vou te encontrar."

Sin limpou as lágrimas do rosto e engoliu um soluço.

"E eu te amo Samantha. Eu te amo para sempre."

E em um último suspiro, Sin encostou sua testa no vidro e deixou seu corpo pesar. Ela sabia que iria quebrar o coração dela, mas também sabia que Sam superaria. Por quê antes um coração quebrado do que dois sem bater.

Quando seus olhos finalmente se fecharam, ela viu Sam quase caindo do telhado no prédio, quando a tomou nos braços e a olhou nos olhos pela primeira vez. Ela não poderia desejar um começo melhor.