Total Eclipse of the Heart
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Once upon a time I was falling in love.
But now I'm only falling apart.
There's nothing I can do.
A total eclipse of the heart.
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Oliver reconheceu seu carro logo que se aproximou de sua casa, no condomínio que morava. Pelo menos sabia que ainda tinha uma casa. As chaves em seus bolsos combinaram perfeitamente com a fechadura, mas logo que ele entrou, percebeu que o lugar não parecia mais o mesmo. Quando ele ficou tão desleixado com seus bens? E sem trocar de carro por cinco anos? Ele sempre foi muito zeloso com tudo que comprava, um pouco obsessivo até.
― Olá? ― ele perguntou pro nada, quando colocou apenas a cabeça para dentro da sala. Menos mal, ele pensou, sem esposas surpresa.
Oliver estalou o pescoço e tirou a jaqueta, jogando no sofá. Era sua casa, no fim das contas. E diante desse dia, ele só precisava de um banho quente e uma boa noite de sono, então acordaria de volta no mundo onde ele era o rei da cirurgia ortopédica e tinha o mundo aos seus pés.
Seu queixo caiu aberto ao entrar em seu quarto e dar de cara com uma Laurel Lance de lingerie quase chegando nos finalmentes com um total estranho na sua cama.
Na. Sua. Cama.
― Ei! Mas que porra é essa? ― Seu grito chamou a atenção do casal, que se separou no susto.
― Ollie! ― A loira catou uma camiseta no chão, vestindo às pressas, enquanto empurrava o cara para fora. ― Eu posso explicar. ― O fato da frase ter saído igual a de Felicity para seu "marido" acendeu uma luz vermelha na cabeça dele.
Não, não, não! Ele não tinha feito isso!
― Eu não quero suas explicações, Laurel, eu só quero acordar desse pesadelo! ― Ele começou a dar batidas espalmadas na própria testa.
― Meu amor... ― Ela se aproximou dele, tentando segurar suas mãos.
― Ah, não. ― Oliver começou a andar de costas, apontando um dedo para Laurel. ― Não me chama assim.
― Foi a última vez, eu juro! Eu sei que prometi que não aconteceria mais, mas não pude evitar, você não me dá atenção! Esse cara foi só um cara, não significou nada, eu amo você! ― Oliver conhecia lágrimas falsas e ali, ele via uma torrente delas.
― Ok, vamos esclarecer as coisas aqui ― começou em tom mais calmo. ― Eu não poderia me importar menos para quem você abre as pernas, Laurel, apenas não faça isso no meu quarto e na minha cama caríssima.
― Nosso quarto, nossa cama, que não é mais caríssima há anos! ― o corrigiu.
― Só não me diz que somos casados. ― Aquela frase teve o poder de despertar em Laurel uma irritação genuína, e fazê-la sair do modo defesa para modo ataque.
― Casados não, mas... ― Oliver não chegou nem a soltar seu suspiro de alívio, quando ela já completou a frase com os lábios franzidos de chateação. ― Temos uma família.
― Não, não temos. Agora dá o fora daqui. ― Oliver começou a praticamente arrastar Laurel para fora de seu quarto.
― Não, amor, não faz isso ― Laurel voltou a suplicar, se debatendo nos braços dele. ― E nossa filha?
Oliver paralisou onde estava. Filha?
― Como assim "nossa filha"? Eu não tenho uma filha!
― Por favor, Ollie... ― Ela tirou a mão dele de seus braço, voltando pisando firme para o quarto. ― Já passamos dessa fase, o exame de DNA provou, e ainda tem o fato de que a pestinha é sua cópia.
Não era possível. Laurel tinha um plano de engravidar dele antes do eclipse, mas ele não teria sido tolo ao ponto de cair nessa. Resposta óbvia: seria.
― Onde ela está, essa tal filha? ― perguntou na esperança de ainda ser um golpe. Depois dos chifres que ele parecia levar constantemente da não-esposa, não seria surpresa.
― No parquinho com a babá. Ei, espera! ― Laurel gritou para ele, que já corria para fora da casa. ― Não vamos conversar mais sobre... Esquece, otário! Será que Adrian ainda está por perto?
O parque do condomínio nunca foi um dos motivos pelos quais Oliver Queen comprara aquela casa. O local era um santuário para crianças e bichinhos de estimação, mas ele nunca pretendeu ter nenhum dos dois. Na verdade, se ele veio um ou duas vezes ali, foi muito, apenas para flertar com algumas babás, mães solteiras e irmãs mais velhas, mas agora tudo era diferente.
Na verdade, tudo ainda estava igual, ele estava diferente. E Oliver soube disso no momento que pôs os olhos na garotinha de longos e lisos cabelos loiro escuro, grandes olhos azuis, que se parecia muito com Thea nessa idade. E o modo como seu coração acelerou, não deixava dúvidas.
― Papi! ― ela gritou assim que o viu, e correu ao seu encontro com os braços abertos, e sua reação não foi nada além de se ajoelhar, aceitar o abraço e apertá-la junto ao peito. ― Pensei que estava viajando.
― Não, eu... Eu não... ― ele perdeu as palavras. ― Meu Deus, você é tão linda! ― falou impressionado, acariciando o rosto da menininha com um nó na garganta, e ela lhe sorriu em resposta, distribuindo beijinhos por todo seu rosto.
― Você também é lindo, o menino mais lindo do mundo todo! ― Gesticulou abrindo os bracinhos o máximo que pôde. ― Vamos brincar, papi? A tia Eve não me deixa subir no brinquedo alto. ― A pequena arrastou o pai para junto da babá, uma garota que ainda parecia estar no ensino médio. ― Titia, papi chegou, ele vai brincar comigo. ― A pequena soltou a ordem para os dois. Parece que impertinência podia mesmo ser genético.
― Senhor Queen, não esperava que voltasse tão cedo ― observou, arrumando a tiara com um lacinho que insistia em cair dos cabelos da menina. Senhor, não doutor.
Bizarro.
― Evelyn, certo? ― A garota estranhou a pergunta, pois já trabalhava meio período como babá de Marie Queen há quase um ano, mas assentiu. ― Está liberada por hoje, deixa que eu fico com ela.
Era estranho, muito estranho o que ele estava sentindo. Em um segundo estava rindo de Diggle e sua família perfeita, e no seguinte não conseguia parar de olhar para a criaturinha saltitante que ele sequer sabia o nome.
― Tem certeza? ― questionou confusa. ― O senhor disse que viajaria hoje e só voltaria daqui a dois dias.
― Tenho sim, mudanças de planos. Obrigada.
― Ok, então. Mar, se comporte e não dê mais cabelos brancos ao seu pai. Amanhã nos vemos. Até mais, senhor Queen. ― Evelyn deu um beijo estalado na testa da menina, arrumou a tiara mais uma vez, e saiu, ainda estranhando ao extremo o comportamento do patrão.
Evelyn sempre achou Oliver Queen o melhor pai do mundo, todo mundo ali no condomínio sabia. Viajava muito trabalhando como representante farmacêutico, mas sempre que estava em casa, ficava com Marie, sua pequena cópia.
Ela nunca vira alguém tão dedicado e amoroso, o total oposto da sua patroa, já que Laurel gastava todo seu tempo livre dos plantões em compras e dias de spa, e claro, trair o marido. Cada dia era um desafio novo tentar esconder as infidelidades dos olhos inocentes de Mar. Era o jardineiro, o carteiro, o entregador do mercado, o vizinho bonitão, os colegas do hospital. Qual o problema daquela criatura, era o que todas as mulheres do condomínio se perguntavam, ao mesmo tempo que suspiravam apenas com um “bom dia” ou “boa noite” de Oliver.
― Qual o brinquedo que você quer ir, pequena? ― Ele se agachou ao lado dela segurando sua mão.
― Aquele! ― Marie apontou para o escorregador mais alto, e Oliver sentiu seu coração apertar. Era perigoso, e ele sentia que devia proteger seu bebê com tudo que pudesse, e não deixar ela ir em instrumentos de morte certa devia ser requisito disso. Como as pessoas colocavam aquilo em um parque para crianças?
― Não, você pode se machucar, vamos brincar aqui no chão mesmo.
― Papi ― Marie começou, segurando os dois lados do rosto do pai, suas feições sérias como se fosse uma advogada prestes a fazer a abertura de seu caso em um tribunal. ― Já conversamos, eu não tenho mais três aninhos, posso ir nesse. ― Oliver teve de rir. A lábia também era dele, definitivamente. ― E você está aqui e me segura, eu sei que não vou arrumar dodóis. E se arrumar, o senhor conserta.
Era uma sensação totalmente nova. Uma coisa eram seus pacientes confiarem nele numa sala de cirurgia. Outra bem diferente (e bem melhor) era aquela coisinha que enfrentaria qualquer coisa se ele estivesse ao seu lado. Ser pai era isso?
Os dois brincaram por um tempo que ele não soube calcular. Através da filha, Oliver descobriu praticamente toda a sua vida, já que sua filha era bastante falante. Ele descobriu que agora trabalhava como representante farmacêutico, ou vendedor de remedinhos. Sua relação com Thea era quase inexistente, apesar da menina amar as oportunidades de ver a tia. Laurel trabalhava em outro hospital e eles moravam ali desde o nascimento de Marie, mas não era uma mãe tão presente, ou sequer se esforçava para ser. Esse último detalhe lhe deu raiva. Como não tentar ser a melhor pessoa do mundo para essa garotinha?
O telefone de Oliver começou a tocar com insistência nas mãos de Mar (apelido que o próprio Oliver havia lhe dado por causa dos olhos azuis), enquanto ele estava comprando pipoca doce para os dois e ela brincava de um joguinho eletrônico.
― Alô? Você é bonita ― a pequena atendeu e logo soltou a observação perspicaz quando viu a foto que brilhava na tela.
― Quem tá falando? ― Felicity perguntou do outro lado da linha. ― Posso falar com Oliver?
― Papi tá ocupado brincando comigo. E comprando pipoca doce.
― Quem?
― Ele chegou. Tchau. ― E desligou.
― Com quem você estava falando, meu bem? ― Oliver entregou o pacote à filha, que sorriu em resposta.
― Uma moça ligou poro seu telefone.
― Que moça?
― Não sei, uma moça da foto bonita. ― Deu de ombros. ― Daí você me disse para não falar com estranhos, então desliguei.
― Muito esperta, mas me deixa ver quem ligou pro papai, Mar. ― Antes que ele sequer olhasse as chamadas recentes, a foto de Felicity começou a piscar de novo, indicando mais uma ligação. ― Oi, Felicity.
― Quem era no telefone, Oliver?
― Se eu te contar, você não vai acreditar. Mas saiba que estou começando a achar essa realidade bem menos horrorosa.
― Podemos falar disso depois, você precisa vir pro hospital agora!
― Eu descobri outros prazeres além de consertar ossos, doutora Smoak. Acho que podemos deixar para resolver a nossa confusa situação amanhã, hoje à noite tenho compromisso com uma certa mocinha. ― Ele olhou de relance para Mar, que comia sua pipoca como se não houvesse amanhã.
― O que quer que seja, vai ter que esperar, Queen ― Felicity retrucou, sua voz muito preocupada. ― Você tem que vir pra cá agora, sem discussões. É a Thea.
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― Felicity, você não vai acreditar em quem eu acabei de conhecer ― Oliver falou animado quando a Smoak veio encontrá-lo no corredor do hospital. ― É maravilhoso, acabei de conhecer minha filha! ― Ela ficou surpresa, mas isso durou apenas alguns segundos, pois logo a preocupação voltou para seu rosto.
― Ollie...
― Ela é linda, tem quatro anos, e é a criança mais inteligente que eu já vi ― Ele não a deixou falar, continuando sua história. ― É sério, acho que alguém precisa estudar o cérebro daquela criatura, é fantástico!
― Oliver, me escuta...
― O nome dela é Marie, mas a gente chama ela de Mar, eu coloquei o apelido, o que faz todo sentido, pelo nome e os olhos dela. Passamos o resto da tarde brincando, e...
― Thea teve uma overdose e está em coma! ― Felicity disparou, e ele parou instantaneamente de falar, sua boca ainda ficando aberta em choque.
― O quê? ― A voz do médico saiu grave e demonstrava uma contenção que estava quase se perdendo.
― Foi uma overdose de medicamentos ― explicou. ― Ela vinha roubando anestésicos do centro cirúrgico há alguns meses. Essa tarde a encontraram desmaiada em uma das salas de repouso, acharam que era cansaço, mas...
― Onde ela está? ― Ele seguiu pelo correr sem um rumo exato.
― Na UTI, mas você não pode...
― Qual UTI? ― A médica apenas olhava com lágrimas nos olhos o desespero dele, que andava de um lado a outro, sem saber onde ir. ― Qual UTI, Felicity?! ― gritou.
― Eu vou com você lá. ― Os dois seguiram às pressas para o quarto de Thea.
― Como isso foi acontecer? O problema dela com drogas acabou na adolescência! E você... Quer dizer, a outra você, a você de agora. Como não sabia disso? ― Felicity abaixou a cabeça envergonhada.
― Me disseram que eu sabia, e não me importava.
― Mas ela é minha irmã, sua amiga!
― Eu sei, me perdoa. ― Felicity finalmente deixou que as lágrimas rolassem.
― Ei, ei! ― Ele segurou o rosto dela entre as mãos. ― A culpa não é sua, me desculpa, eu só estou nervoso. Se tem alguém culpado, esse sou eu. Eu sempre fui a única pessoa que ela tinha, e, pelo jeito, a abandonei à própria sorte.
― Eu também podia ter evitado, Ollie, eu sei que podia.
Os dois chegaram à UTI ao mesmo tempo que começaram a soar o que pareceu ser milhares de sirenes e luzes vermelhas.
Código Azul. Código Azul.
Oliver e Felicity assistiram impotentes quando a equipe médica trabalhou por um bom tempo tentando, sem sucesso, reanimá-la. A linha constante e o barulho fino e irritante levaram Thea Queen, ao mesmo tempo que Oliver disparou desalentado para longe dali, com Felicity logo atrás.
― Ollie...
― É minha culpa, tudo minha culpa! Eu sou tão egoísta! ― O médico tinha as duas mãos na cabeça. ― Ela morreu por minha causa!
― Não foi...
― Eu só preciso ficar sozinho, por favor, Felicity.
― Eu não vou te deixar assim no meio do corredor, Oliver Queen! ― retrucou convicta, engolindo o choro e respirando fundo. ― Vem, vamos sair daqui.
Logo ambos chegaram ao telhado, Oliver sentou no chão, abraçando os joelhos e chorando como uma criança. Aquela cena partiu o coração de Felicity, que nunca o tinha visto assim, então caminhou em sua direção envolvendo os braços em torno dele, os dois ficando daquele jeito por longos minutos.
― Essa realidade alternativa é uma droga ― ela comentou, mas não obteve resposta alguma.
Um brilho estranho a cegou por um instante, e quando a loira procurou a origem, viu, ao longe, seu colar jogado no telhado. Instintivamente ela levou a mão ao pescoço, encontrando o lugar vazio. Felicity soltou Oliver, e levantou para pegar a joia entre os dedos.
― E pensar que tudo começou com isso e aqui. ― Ela deu um riso sem humor.
― Perdemos Sara, Tommy e agora Thea. Tudo porque não conseguimos trabalhar como uma maldita equipe ― Oliver apontou.
― E eu ainda sou uma vadia adúltera, péssima chefe com um marido gay.
― Eu tenho mais chifres que seu marido, Felicity, e sou um médico completamente fracassado.
― Você... ― O que ela iria dizer? Com o tempo que teve para pesquisar, descobriu que ele havia se tornado um fracasso da medicina. Então ela lembrou. ― Você conseguiu uma coisa boa: sua filha.
― Eu perdi minha irmã! ― Por mais que ele amasse a recém-descoberta filha, a dor era forte demais no momento para ser positivo sobre qualquer coisa.
― Oliver...
Ela não sabia mais o que fazer para consolá-lo. E ver o sempre altivo e determinado Oliver Queen tão quebrado, rasgou seu coração. Suas pequenas mãos envolveram o rosto dele, que aceitou o carinho, relaxando um pouco a cabeça na sua palma e cobrindo a mão dela que tinha o colar enrolado com a sua. Seus rostos se aproximaram, e foi ela que tomou a iniciativa de beijá-lo. Um beijo cálido, carinhoso, singelo até.
Logo o mesmo vento estranho soprou no telhado e a mesma sensação diferente envolveu os dois. Eles mal perceberam quando isso aconteceu novamente, e se afastaram apenas alguns centímetros olhando fundo nos olhos um do outro. Foi naquele olhar que souberam que precisavam um do outro, sempre precisaram.
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