Total Eclipse of the Heart
2 Capítulo 2
Notas iniciais
I really need you tonight.
Forever's gonna start tonight.
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― Me chamou? ― Felicity apenas acenou afirmativamente para Oliver, a testa franzida analisando os exames à sua frente. ― Quer dizer que estamos numa trégua?
― Quer dizer que preciso que veja isso. ― Apontou para os exames. ― Não poderemos fazer a cirurgia de Sara.
― Claro que iremos, me dá isso aqui.
― Nossa, que educado! ― a médica ironizou quando ele pegou os exames de suas mãos. ― Como senti falta disso.
― Isso está perfeitamente normal, Smoak, já reservei a sala para o início da noite ― falou erguendo as placas negras e olhando rapidamente contra a luz.
― O raio-X sim, mas olha isso. ― Felicity teria o mandado pastar, mas como aquilo era grave, começou a expor os exames de imagens nas telas e acendeu a luz, não dando importância à arrogância do colega. ― A ressonância mostrou isso e a angiografia confirmou.
― Oh, merda.
Oliver chegou apenas com duas passadas logo atrás dela, e a loirinha teve que prender a respiração. Se o cheiro dele tomava conta de onde ele chegava, de tão perto, o perfume amadeirado caro era só que o que ela sentia. Isso, e a respiração quente do cirurgião batendo contra sua nuca descoberta pelo rabo de cavalo.
― Er, eu sei... Uma merda. Não vai dá de operar tudo hoje.
― Mas isso vai atrasar a recuperação dela em meses! Eu acabei de vir do quarto da Sara, prometi a ela que até assistiria a luta dela daqui a dois meses e te levaria comigo.
― Não seria a primeira garota que você decepcionaria, Ollie, mas eu realmente queria que desse certo. ― Os dois estavam tão concentrados no problema que sequer notaram que o apelido havia saído dos lábios dela, depois de cinco anos resumidos a chamados como “Queen” ou “peste”.
― Peraí, qual exatamente o problema? ― Ele ficou à frente dela, chegando mais perto da tela.
Felicity começou a ficar impaciente nos minutos seguintes com o tempo que ele passou encarando a tela, os olhos fixos nos exames de imagem, a mandíbula se contraindo vez ou outra, o loiro mal piscando ou respirando.
― Já sei! ― O modo repentino que ele exclamou, deu um susto a médica, que já havia sentado e estava quase cochilando com o rosto apoiado na mão. ― Nossa, você precisa mesmo descansar, Fê.
― Eu estou bem, o que descobriu?
― Não importa, vou precisar de você 100% nessa, e com todo esse cansaço, não vai dar. Qual foi a última vez que comeu ou dormiu?
― Não finja que se preocupa comigo, Queen. ― A postura dela ficou séria, enquanto pegava o jaleco que estava no encosto de uma cadeira. ― Se achou um jeito de consertarmos a perna de Sara, ótimo. Se não, me deixe voltar aos meus pacientes.
― Espera. ― Oliver deu passos rápidos e grandes para chegar nela antes que saísse. ― Vou te explicar tudo, então vamos falar com Diggle. Hoje vamos descobrir se ele é tão louco quanto eu e você.
― Eu não disse que concordava com qualquer coisa que seja sua ideia.
― Mas você vai ― afirmou confiante com um sorriso. ― Te conheço, Felicity, sei que não foge à um desafio, ainda mais quando envolve ajudar uma pessoa.
Ela ia negar, mas ele estava certo. Completamente. E a ciência de quem Oliver ainda a conhecia bem e talvez se importasse lhe deu um frio na barriga e aquelas malditas borboletas que ela odiava e, se pudesse, mataria uma por uma, com tiros de canhão.
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― Não sei, Oliver, é muito perigoso.
― Eu consigo, Felicity também! Acredita na gente, John, você não nos colocou no caso à toa.
― Mas isso foge totalmente do procedimento padrão!
O diretor coçou a cabeça quase totalmente raspada, tomando uma respiração profunda. O caso de Sara Lance não deveria ser tão complicado, e poderia ser a oportunidade que ele pediu pra fazer Oliver e Felicity trabalharem juntos, o hospital já havia perdido mais de um paciente por causa da briguinha dos dois. Mas agora tudo estava mais difícil. Oliver era doido e Dig não sabia como o ortopedista havia convencido Felicity a entrar nessa.
― O caso dela foge do padrão. Olha isso. ― Oliver estendeu os dois exames de ressonância para Diggle. ― Esse primeiro foi feito quando ela chegou ontem à noite e o segundo, Felicity fez há quase uma hora atrás. Os ossos estão se movendo, logo irão comprometer músculos e articulações de modo irreversível. Temos que operar!
― Você não vai encostar em Sara Lance, Queen!
Um médico raivoso irrompeu na sala da diretoria, fazendo John apertar as pálpebras com força. Era só quem faltava, Thomas Merlyn.
― Dá um tempo, Merlyn, isso não é da sua conta ― Oliver respondeu emburrado.
― Claro que é, eu a atendi ontem! Sabe quanto tempo levou pra estabilizá-la? ― gritou. ― Daí você só chega com seu bisturi de ouro e já querer foder com tudo? Não vai rolar, não tem meu aval!
― Que bom que não precisamos dele.
― Eu ouvi o que quer fazer, vai matá-la ou aleijá-la!
― Ou salvar a carreira dela ― o loiro retrucou. ― Por que ele 'tá aqui mesmo, Dig? Até onde sei, o cara é da emergência.
― Você 'tá concordando com isso? Com ele? ― O tom levemente magoado agora era direcionado a Felicity, que estava inexplicavelmente quieta o tempo todo.
― Talvez se você explicasse sua ideia melhor, Oliver ― Diggle sugeriu. O Queen não queria explicar, mas se isso fizesse Tommy Merlyn calar a boca, ele o faria.
― Ok. Íamos fazer a cirurgia normal, eu consertaria os ossos, Fê seguiria com o procedimento arrumando os vasos sanguíneos. Só que a artéria femoral dela está a ponto de romper! Qualquer pequena tração que eu fizesse, a dilaceraria.
― É só inverter, gênio. Felicity entra primeiro.
― Você obviamente não conhece de cirurgias ortopédicas o suficiente pra saber que isso é impossível. Atrasaria em semanas a recuperação, e até aí tudo bem. Mas as coisas se complicaram. Não operar a tíbia, comprometeria tudo ao redor, nervos, músculos, articulações. Seria o fim da carreira da garota.
― Melhor o fim da carreira que da vida. Você quer fazer uma cirurgia vascular e ortopédica simultaneamente, e cortar a artéria femoral!
― Eu não, Felicity vai cortar. E só por alguns minutos enquanto eu conserto o osso.
― Se a perna ficar meia hora sem irrigação, vai necrosar e você vai ter que amputar! Aí sim seria fim de carreira.
― Eu consigo, termino minha parte em vinte minutos.
― Ninguém nunca fez esse procedimento tão rápido.
― Gosto de ser o primeiro em muitas coisas, Tommyzito. Então se já esclareci suas dúvidas... ― Oliver indicou a porta cinicamente.
― Felicity teria que fazer uma cirurgia em tempo recorde também. E ela não me parece não confiante como você, Queen.
― A doutora Smoak foi minha melhor residente, é um prodígio e uma espécie de gênio desse hospital. Claro que ela consegue ― Oliver afirmou convicto, e a loira se viu corando involuntariamente diante do elogio.
― É o seguinte... ― Diggle se manifestou. ― Levo em conta a opinião de todos. Oliver sabe que consegue, Thomas acha que não. E como grande parte responsável, eu tenho que perguntar... ― Pausa dramática. ― Felicity: faremos a operação? Se você negar, eu vou entender, é só seu segundo ano nessa área específica. Mas se você disser que pode...
Dois pares de olhos azuis a fitaram e ela olhava de um para outro, encolhida no sofá. Um era seu ex idiota, babaca e egocêntrico, mas um cirurgião extremamente competente. O outro era seu amigo, que sempre a acolheu com respeito e carinho, mas não entendia muito da área cirúrgica. O negócio de Tommy era a emergência.
― Vamos fazer, eu consigo.
― Isso! ― Oliver deu um soco no ar. ― Vou agendar a sala e a equipe. Valeu, Smoak.
― É muito arriscado, você não deveria concordar com isso! ― Tommy deu um tapa na mesa de John e saiu da sala.
― Eu falo com ele. ― Felicity teve que correr para alcançar o médico, que caminhava frustrado de volta ao seu amado pronto socorro.
― Tommy...
― Nem vem, Felicity! Você concordou com ele, com Oliver Queen!
― Você conheceu Sara. Claro que quero o melhor pra ela.
― Então não deveria arriscar um procedimento que pode fazer ela perder a perna, ou morrer na mesa de cirurgia!
― Você deveria ter em mim pelo menos metade da confiança que Ollie tem.
― Ah, certo ― O moreno soltou uma risada seca. ― Temos Ollie e Fê juntos de novo. Não foi preciso mais de algumas horas pra você já querer outro par de chifres?
― Você fala direito comigo, idiota!
― Desculpa ― pediu no momento que percebeu que havia ofendido a amiga. ― E desculpa por parecer que não te acho capaz, mas é que... Essa paciente... A Sara...
― É uma Lance, irmã do seu amor eterno. ― Felicity cortou a fala dele. ― Eu sei o que você sente pela Laurel e como Oliver dificultou isso dormindo com ela, mas confia em mim, eu posso fazer isso. E por mais filho da puta que o Queen seja, ele é muito bom no que faz.
― Me preocupo com você também. E se não der certo?
― Vai dar. E logo eu vou estar livre de Oliver e tudo volta ao seu eixo.
― Pior de tudo é que hoje ainda é dia d...
― Se disser eclipse... ― A loira ameaçou o outro com o indicador em riste.
― Dia da festa beneficente do hospital. Vai estar tudo uma loucura.
― Ainda tem isso. Estão me forçando a ir.
― Você vai receber um prêmio, garota! Muitos não reclamariam. ― A risada de Tommy ecoou pelo corredor quase vazio da sala da diretoria, o clima ficando bem mais leve.
― Pois eu prefiro meu edredom e minha TV.
― E aquele empresário que você estava saindo?
― Não deu certo. ― Ela deu de ombros. ― Mas não conta pra Thea, ela 'tá enchendo meu saco com a história do eclipse solar e esse calvário com Oliver. ― Tommy franziu o cenho, então apenas negou a cabeça, parecendo deixar aquilo para lá.
― Se precisar de qualquer coisa, me avisa! E se aquele idiota encher muito seu saco, pode me chamar para socá-lo. Irei feliz da vida cumprir as funções de seu amigo.
― Obrigada, Tommy, você é dez! Por que a gente não deixa esses complicados pra lá e não namora, hein?!
― Isso foi um pedido, porque que aceito! ― O sorriso charmoso a teria conquistado, se ela ainda não estivesse apaixonada. ― Você é boa demais pra mim e nunca me deu bola ― continuou lhe dando um beijo na testa, mas seu olhar se fixou em um ponto distante. ― Até mais, minha linda.
Quando Felicity achou que ele iria embora, Tommy a agarrou pela cintura e abraçando forte, beijando seu rosto por mais tempo que o necessário, e sorriso se ampliando quando viu sua expressão confusa.
― Por que isso?
― Apenas cumprindo a regra número um do meu manual.
― Que seria?
― Nunca perca uma oportunidade sequer de irritar Oliver Queen. ― O moreno beijou a mão da médica, e deu um aceno rápido de despedida.
Ao girar os calcanhares para pegar suas coisas que havia deixado na sala de Diggle, Felicity deu de cara com Oliver, que a observava. Ele estava irritado, e agora ela entendia a provocação de Tommy. O que ela não entendia era o motivo daquela criatura ter ficado daquele jeito.
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Já era o terceiro chamado da patologia que Felicity ignorava. Até onde lembrava, ela não havia solicitado nenhum exame de lá, e seus pacientes eram mais importantes, mesmo que fosse a senhora Smith, que lhe contava pela terceira vez a história de como sua filha quebrou o braço quando tinha sete anos.
― Eu tenho realmente que ir agora, Clarissa, antes que venham me arrastar pelo braço para a sala da patologia. Mais tarde volto pra te ver.
― Quando voltar, pode trazer aquele médico bonitão que está te encarando da janela? Queria ser tratada por ele! ― Felicity olhou rapidamente para trás, para dar de cara com Oliver, que sorriu e acenou para as duas. ― Parabéns, doutora, sabe escolher um namorado!
― Ele não é meu namorado.
― Pois devia. Um homem desse, que te olha desse jeito, que deve saber fazer aquelas coisas, daquele jeito...
― A senhora está muito engraçadinha ― a loira retrucou corando de leve. Ela infelizmente lembrava bem o que Oliver sabia fazer. ― Volto pra te ver à noite. Tenho uma cirurgia daqui a pouco, pode demorar.
― Uma cirurgia com ele? ― Apontou de um modo nada discreto pra janela. ― Aproveita, garota!
― Descanse ― aconselhou lhe afagando a mão e saindo do quarto. ― O que é?
― Às vezes, doçura, você parece uma versão loira de "o médico e o monstro"! Em um minuto está toda gentil e meiga, e no seguinte, já parece que vai me empalar com um suporte de soro. ― Ele testou um sorriso, que foi respondido com uma cara de poucos amigos.
― Queen, eu não tenho nem tempo nem saco pros seus papinhos, então se me der licença... ― Ela tentou sair, mas Oliver se colocou à frente dela.
― Vou te levar num lugar.
― Eu não sei o que passa nessa sua cabeça pra achar que eu vou a algum lugar que não seja a sala de cirurgia com você!
― Custa baixar a guarda, garota?! ‘Tô tentando fazer algo legal aqui.
A paciência de Oliver se esvaiu, e ela também não estava em seu melhor momento. Felicity odiava quando ele se referia a ela como "garota". Uma coisa era ser chamada assim por uma paciente carinhosa, outra bem diferente era o tom de diminuição que ela ouvia do seu ex namorado.
Mas dessa vez, só dessa vez, ele não parecia o idiota de sempre, e isso foi estranho.
― Estou indo pra patologia, então de todo jeito, não posso ir com você a lugar nenhum.
― É essa sua desculpa? ― ele questionou de braços cruzados.
― É essa minha justificativa.
― Ótimo, porque era eu que estava te chamando de lá.
― O que você quer, Ollie? ― Felicity cruzou os braços com impaciência. Se alguém olhasse de longe, ambos fazendo birra, veria que os dois eram mais parecidos do que jamais admitiriam.
― Precisamos que essa cirurgia seja um sucesso. Pra isso, preciso você no seu melhor.
― Eu vou dar o meu melhor, relaxe.
― E se não puder? Olha, Fê, você está cansada, sem dormir ou comer há horas!
― Cuidado, doutor Queen, está começando a parecer preocupado com alguém além de si mesmo. ― Ela deu um risinho da própria provocação e ele acabou rindo de volta por ela ter cedido um pouco.
― Apenas me siga. ― Indicou com a mão na direção que queria que ela fosse. ― Você tem que almoçar de todo modo, comprei comida pra gente.
― Você não manda mais em mim.
― Não é uma ordem, está mais para um pedido. Um desafio. ― Ele sabia que Felicity Smoak não fugia de nada na vida quando era desafiada.
― Tudo bem, mas não temos muito tempo.
Os dois seguiram em silêncio para os andares inferiores, mais precisamente para a área do necrotério. Podia parecer estranho, até um pouco macabro, mas eles nunca se sentiram mal ali, ao contrário disso, haviam muitas lembranças.
Fora ali que Oliver a encontrou chorando no primeiro dia da residência quando a supervisora sádica, Isobel Rochev, a havia humilhado. Fora ali que eles passaram todas as horas livres conversando nos primeiros meses. Fora ali que Oliver roubou o primeiro beijo, e levou o primeiro tapa na cara. Também fora ali o segundo beijo, dessa vez dado por Felicity, alguns meses depois, quando ela viu que não conseguia mais ficar longe do seu atual chefe.
O convite para aquele local havia sido quase inconsciente por parte dele. Felicity evitava ao máximo voltar lá, enquanto Oliver ia todos os dias, quando precisava pensar, relaxar antes de uma cirurgia, ficar sozinho ou pensar na única garota marrenta que um dia chegou perto de roubar seu coração.
― O que quer comer? ― Felicity questionou logo que ele parou de caminhar. O local estava vazio e ela só percebeu que estavam na frente da sala onde eles davam suas escapadas anos atrás quando Oliver ergueu uma sobrancelha sugestiva e abriu um sorriso safado. ― Comida. Almoço. Não pessoas, muito menos eu. ― O sorriso dele se ampliou e vergonha dela também. ― Pare de rir, isso aqui é sério. Se você continuar com insinuações, eu vou te denunciar pro Diggle!
― Você sabe que eu não falei absolutamente nada de mais, tudo veio da sua mente suja, não sabe, doçura? ― Ele tocou a testa dela com o indicador.
― Não toca em mim e pode ir parando com esse apelidinho ridículo também! ― Felicity tirou a mão dele de perto dela com um tapa. ― Onde está a maldita comida?
― Quando vai me perdoar, Fê? Já faz quase cinco anos!
― Eu não lembro nesses cinco você ter se desculpado uma só vez, bonitão.
― ‘Tá bom, me desculpa. ― Oliver abriu seu sorriso de meio milhão de dólares, com as mãos em prece e uma piscadela. Ela sorriu antes de falar.
― Não.
― Não era o que você queria?
― Você tem que falar como se realmente importasse. ― A loira gesticulou, tentando se fazer entender. ― Dispenso desculpas falsas.
― Você é uma mulher especialmente difícil, doutora Smoak.
― Eu sou difícil? ― ela grunhiu. ― Você dorme com todo o corpo feminino do hospital e eu sou difícil?
― Eu não dormi com...
― Shiu!
― Eu não vou calar a boca só porque você...
― Shiu! ― Felicity repetiu com mais ênfase. ― Tem mais alguém aqui.
― Novidade, doçura: nós não éramos os únicos que usávamos esse lugar pra sexo.
― São duas mulheres, idiota! ― falou, rolando olhos.
― Aí as coisas ficam mais interessantes! ― Oliver tomou a frente na direção das vozes que ele começou a ouvir em uma das salas mais à frente. Felicity o acompanhou, murmurando um “pervertido”.
― ...não estamos mais no século XIX, amiga. E nem sei como planeja fazer isso.
― Camisinha furada, eu digo que tomo remédio, qualquer coisa. ― Eram vozes estranhamente familiares, mas não estavam perto o bastante.
― Esse golpe é velho e ele não vai casar com você por causa disso.
― Pode não casar, mas teremos um laço eterno. E com o tempo e horas me acompanhando nas consultas e cuidando do nosso futuro bebê, ele vai ceder.
― Você é totalmente maluca, Laurel. ― O que Felicity chamava de “alerta vadia” apitou. Ela odiava Laurel e como ela manipulava seu amigo Tommy.
― Você só fala isso porque nunca transou com ele. O cara é gostoso num nível que você não calcula, Dinah. Preciso daquilo pra mim.
Oliver e Felicity se entreolharam diante daquela história. Mais do que nunca, a loira lamentava pelas péssimas escolhas e o dedo podre do amigo. Tommy era legal, merecia algo melhor do que uma obstetra que, ironicamente, pretendia dar um golpe da barriga. Mas, peraí... E se o golpe fosse nele? Ele tinha que ser avisado.
― Você sabe que ele nunca vai gostar de você. Desde que entrei o pessoal comenta pelos corredores que ele tem um caso com aquela outra cirurgiã, como é mesmo o nome da loirinha?
― Felicity Smoak? Me poupe! A garota mal parece ter saído do jardim de infância. ― Felicity abriu a boca com raiva e só não revelou sua presença porque foi detida por Oliver, que estava bem mais interessado em ouvir o final da história. ― Ela não dá conta de um homem como ele. E não é como se fosse difícil levar Oliver Queen pra cama! Um decote e o homem já é meu de novo.
A revelação do nome do “futuro pai” causou reações diferentes em todos que estavam ali. Laurel e Dinah gargalharam com o plano. Oliver piscou repetidas vezes entrando numa espécie de estado de choque, e Felicity ficou extremamente irritada.
― Parabéns, papai! ― A Smoak virou as costas para o médico e seguiu de volta pelo mesmo caminho que tinha vindo.
― Nunca vai rolar, Laurel, procure outro idiota. ― Oliver voltou apenas alguns passos para a porta do quarto onde as outras duas conversavam surpreendendo as duas, antes de correr na direção da cirurgiã vascular. ― Ei, Felicity, espera!
― Me deixa, Oliver!
― Por que ‘tá brava comigo?
― Esse é seu problema, Queen! ― Felicity acusou apertando repetidamente o botão do elevador, vendo esse como sendo o meio de fuga mais rápido dali.
― Qual o meu problema? ― Ele a seguiu para dentro, ignorando completamente o fato dela tentar empurrá-lo para fora da caixa metálica.
― O seu problema, é que sempre vai ter um problema! Ou é uma garota querendo engravidar de você, ou essas cirurgias malucas que você inventa, ou os meus amigos que te odeiam. Os problemas ficam rondando em volta igual satélites, mas eu não. Eu não tenho mais paciência pra isso!
― Mas a culpa não é minha, garota! Se essas malucas inventam esses planos ou se seu amigo babaca tem inveja de mim. E tenho menos culpa ainda se o meu talento e habilidade é inegável.
― Prepotente!
― E mais uma coisa: esse estresse todo é porque ainda sente algo por mim e não assume. Ficou com raivinha porque a Laurel quer um filho meu? Pois saiba que ela não é a única!
― Você é tão... Tão... Tão... ― Felicity gaguejou na tentativa de arrumar alguma palavra que expressasse o ódio que Oliver lhe causava.
― Você também é tão tão, doçura ― ele ironizou os tropeços da fala dela.
O elevador se abriu direto no telhado, e ninguém ali lembrava exatamente quem apertou o botão para irem para lá. Felicity apertou os olhos atrás dos óculos em direção ao céu apenas por alguns segundos. Já devia estar tão escuro?
― Mas podemos providenciar um pequeno rebanho de Smoak-Queens para breve, se quiser. ― A frase de Oliver trouxe a atenção dela de volta a ele. ― Gostou da ideia?
― Eu. Odeio. Você. ― Ela estapeou o peito dele, finalmente extravasando sua raiva.
― Oh, sério? ― O sorriso dele aumentou quando percebeu o pingente que acabou saltando para fora do uniforme hospitalar diante de toda aquela agitação. ― Eu meio que senti saudades dele. ― Felicity percebeu a que ele se referia. O maldito colar.
O próprio Oliver havia dado de presente a ela depois da primeira cirurgia de sucesso de sua aluna preferida. Na época, eles estavam apenas no nível “apenas amigos e colegas de trabalho”, apesar do interesse dele ir bem além da amizade. Mas o fato é que ela estava quase tento uma crise de ansiedade antes da cirurgia, e ele a acalmou, a guiou e acompanhou durante todo o procedimento. Até aí, apenas cumpriu sua função de orientador, mas ele sabia que a relação deles era muito mais, por isso o presente.
Era um colar com uma rara pedra de Turmalina Paraíba, uma antiguidade garimpada e lapidada na Nigéria, e que, segundo o vendedor, carregava em si a história de seu povo. Oliver a comprou porque o tom azul-esverdeado lembrava a cor dos olhos de Felicity. E ela guardou porque era uma boa lembrança de sua primeira cirurgia. E uma boa lembrança do tempo que as coisas com seu Ollie não eram tão complicadas.
― Pois pega pra você! ― Oliver arrancou o colar do próprio pescoço. Já estava mesmo na hora de se livrar daquele último item, por mais que doesse.
― É seu, não quero. Além de que, é mais uma prova que você não me esqueceu.
― Eu não te... Não te esqueci?
― E não tem problema, porque você também não sai da minha cabeça.
Oliver não disse mais nada, sequer esperou que ela reagisse à sua última frase, ele apenas envolveu um de suas mãos na que ela segurava o colar, e com a outra, segurou o rosto da médica, para angulá-lo e lhe roubar um beijo.
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