Torta de limão
6 Epílogo: Onde a Acidez se Torna Doçura
Notas iniciais
Um ano depois, a cafeteria em Santa Teresa já não era a mesma. Sob nova direção — o grupo de autores que um dia Fernando quase destruiu com suas palavras —, o espaço floresceu. Tornou-se o coração pulsante da cena literária carioca, um refúgio onde o aroma de café recém-passado se fundia ao cheiro nostálgico de papel antigo. Escritores de todos os cantos, de iniciantes locais a nomes internacionais, agora incluíam aquele endereço em seus roteiros, como se buscassem ali a mesma centelha que mudara a vida de Fernando.
Embora o ambiente estivesse repleto de itens decorativos, era uma fotografia na parede principal que detinha o fôlego de quem entrava. Não era uma obra de arte cara, mas um registro capturado pela lente de um leitor atento na noite daquela virada em Copacabana.
A imagem transbordava vida. Nela, a luz âmbar do apartamento criava uma aura de cumplicidade que o tempo não ousaria apagar. No centro, Sofia com sua taça exibia um sorriso sutil e sereno, observando a conversa entre Fernando e Lucas. O antigo crítico fora capturado de perfil, com os olhos fixos no rapaz à sua frente em um interesse tão genuíno que sua antiga armadura parecia nunca ter existido. Ao lado de Sofia, Lucas gesticulava com entusiasmo, decifrando os trechos de "O Peso do Silêncio" como quem lê uma alma. De costas, a jovem Carol Braga, com sua tiara lilás, simbolizava a nova geração que finalmente encontrara acolhimento ali.
Na base da moldura, o título "Torta de Limão" vinha acompanhado da frase que agora era o mantra de Fernando: "Não é sobre doces ou frutas que estamos falando..."
Fernando olhou para a foto uma última vez antes de percorrer o olhar pelo salão. Ali, a vida imitava a arte. Viu Vini Ribeiro em seu jeitinho discreto; Tia Anette Atlas, que deslizava o dedo pelas páginas de um livro enquanto murmurava comentários sábios; Petra Peeters, cuja gargalhada sem reservas preenchia o ambiente; e o Phoenix Dr. Rudolf, com as mãos nos bolsos da calça jeans, mergulhado em um diálogo vívido com Pandora "Tomodachi" e sua esposa, Kelly.
O homem que um dia fora o temido "Venenosis" sorriu. Sentiu um orgulho profundo por pertencer àquela diversidade. O toque suave de Sofia em seu ombro e o beijo estalado em sua bochecha foram o sinal de que era hora de começar.
Ele sentou-se à mesa de autógrafos, onde um autor iniciante o aguardava com as mãos trêmulas e um livro novo. Fernando pegou a caneta. Por um segundo, a antiga voz ácida tentou sussurrar em seu ouvido, mas ele a silenciou com um sorriso. No lugar do golpe crítico, ele escreveu com caligrafia firme:
"Escreva com a alma. O mundo já tem críticos demais, mas ainda precisa de muitas histórias como a sua."
O Natal de 2025 havia passado, mas o espírito daquela ceia no Joá e da virada em Copacabana agora era eterno. Estava vivo em cada xícara servida, em cada abraço compartilhado e, principalmente, em cada página que eles, juntos, ainda iriam escrever.
— Oi, Pessoal! Atrasado, mas em tempo. — Exclamou Marcelo Santana, o padrinho de Sofia, ao passar pela porta principal, ofegante.
— Tinha que ser o Marcelo — disse Pandora, rindo. — Sempre foi o último a conhecer as histórias, a comentar... e continua o rei dos atrasos!
O grupo sorriu animado diante do amigo. Afinal, a vida continuava, com seus incidentes e atrasos, mostrando que, no fim das contas:
Não dá para fugirmos dos incidentes da vida, mas, se a vida oferecer limões, faça uma caipirinha, uma limonada ou uma torta de limão.
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