Torre

9 Capítulo 8


O dia começa cedo na Torre dos Magos. Antes do nascer do sol os professores já estavam acordados em suas salas de aula, e os supervisores passam de quarto em quarto acordando os estudantes. Uma vez que os alunos e os mestres estivessem dentro da sala, os magos despertavam. E quando todos os membros da Torre assumiam suas posições o rei era acordado, simbolizando o começo do dia da Torre dos Magos.

Nicholas e Aron estavam mais uma vez na caverna treinando o Trovão Azul. Nicholas estava sentado em banco comendo as toranjas que ele trouxe enquanto Aron empurrava o Trovão Azul, que estava deitado com as mãos por cima de sua cabeça.

—Vamos Azul! — implorava Aron —Eu sei que você não está dormindo de verdade!

A criatura apenas rosnou.

—Você nem sabe fingir! Ande logo nós precisamos treinar!

—Desista, ele não está com paciência para treinar hoje, apenas descanse um pouco. —disse Nicholas cedendo um espaço de seu banco de madeira.

Aron concordou e se sentou no espaço cedido pelo amigo. Ele agarrou um pedaço da toranja e a mordeu no mesmo tempo, mas ao sentir o gosto estragado cuspiu ela para fora.

—Cuidado! —advertiu Nicholas —Algumas toranjas estão estragas, você deve checar antes de engoli-las.

—Obrigado por me avisar! —responde ele jogando a toranja no chão.

Aron fixou seu olhar no Trovão Azul e se imaginou no lugar dele levando aquela vida injusta. Ele se imaginou sendo uma das criaturas mais poderosas presa em uma caverna sem enxergar um raio de luz se quer. Por alguns segundos Aron teve dó do Trovão Azul, mas ignorou o dó e se preencheu de uma dúvida momentânea.

—Nicholas! —disse ele ainda fixado no Trovão Azul —Porque o Trovão Azul se chama trovão azul?

—Do que você está falando? —perguntou ele confuso.

—Você me entendeu, o Trovão Azul, porque ele tem esse nome?

—Bem...Eu não tenho certeza, mas pelo que me contaram o Trovão Azul recebeu esse nome porque na noite em que ele atacou ele fez uso de raios e trovões. A única coisa que os magos relataram da luta foi um enorme trovão seguido de um brilho azul, e acho que o nome pegou! Trovão Azul seria a sequência de trovão e raio, o que é estranho já que na chuva o raio é que vem primeiro!

—Raios Azuis? —disse Aron surpreso —Isso quer dizer que o Azul poderia nos atacar a qualquer momento?

—Claro que não! —respondeu Nicholas —Se não nós já estaríamos fritos, quando os magos prenderam o Trovão aqui ele deve ter perdido os seus raios, do contrário ele teria me fritado no momento em que ele me agarrou.

—Faz sentido! —disse Aron ainda pensativo —Mas já parou para pensar se ele ainda tivesse seus raios?

—Se ele tivesse seus raios eu tenho certeza que ele fritaria essas correntes e escaparia na primeira noite.

—Ou talvez ele tenha os seus raios, —disse Aron fazendo suspense — mas ele não os use...

—E por que ele faria isso?

—Bem...talvez, ele não use os raios porque ele sabe que a caverna se despejara encima dele se ele os usasse.

—Faz sentido, mas eu duvido muito, o Trovão Azul e só um monstro! Ele não pensa ele age! —disse Nicholas enquanto dava mais uma mordida em sua toranja.

E quando o mago se virou para cuspir a semente a cabeça dura do Trovão Azul estava o encarando. O Trovão Azul apenas bufou como se ele estivesse estressado com Nicholas, logo após isso ele deitou sua cabeça e voltou a dormir.

—Azul! —gritou Aron se levantando — Você não estava dormindo esse tempo todo! Ande logo levante-se vamos treinar!

No dia seguinte Aron acordou cedo, como de costume. Ele estava para sair da Torre quando Polo surgiu bloqueando o seu caminho.

—Aonde pensas que vai? —perguntou ele.

—Vou continuar o treinamento com os três garotos. — respondeu Aron.

—Agora eu precisão de você na sala dos generais.

—Para quê?

—Venha é urgente.

Sem escolha Aron seguiu Polo para sua sala.

Polo seguiu para a grande mesa de madeira que mais parecia um tabuleiro de xadrez.

—Eu quero que você veja isso, Aron. — disse ele olhando fixamente para a mesa.

Aron se aproximou da mesa e pode ver várias peças de xadrez. E entre essas peças duas grandes torres se destacavam, uma torre preta e outra azul.

—O que é isso? —perguntou Aron.

—Essa mesa representa nosso campo de batalha e cada peça representa um membro.

—Então essa torre é a nossa Torre? —perguntou Aron apontando para a torre azul do tabuleiro.

—Sim —respondeu Polo com os braços cruzados para traz.

—E essa torre preta e a Torre dos magos negros?

—Sim, como pode ver o lado do tabuleiro dos magos negros está incompleto, isso porque nós além de não sabermos a localização da Torre Negra também não temos nenhuma informação sobre os membros da Torre, e isso nós coloca em desvantagem.

Aron se, pois, em silêncio, ele sabia a localização da Torre Negra e, mais do que isso, ele conhecia alguns dos membros mais perigosos da Torre, mas era melhor para ele se omitir, já que ele pretendia atacar a Torre Negra com o seu próprio exército de magos brancos.

—Conte-me, — retomou o general —o que você sabe sobre a Torre Negra?

—Eu apenas a vi a quilômetros de distância.

—Então você sabe sua localização?

—Não —mentiu ele — Eu me perdi quando fugi dos magos. Tudo que me lembro é que ela fica ao sul, mas porque a preocupação repentina?

—A Torre Negra, — dizia Polo pausadamente — eles nós pressionam cada vez mais, a cada dia os magos negros tomam conta de outro reino aliado, eles impõem suas leis e matam quem se opõem a eles.

—Isso vai acabar, eu prometo! — disse Aron confiante.

Polo se aproximou mais uma vez da mesa.

—Está vendo aqueles dois bispos? —perguntou ele apontando para as peças. —Eles representam nós dois no tabuleiro.

—Quer dizer que nós somos duas peças para o rei?

—Sim, — disse ele zombando da metáfora — o lado direito e o esquerdo do rei.

—Você me parece ser um homem que luta pela justiça, — observou o mago branco mudando o rumo da conversa — então por que se esconde atrás do rei?

—Tudo que o rei faz é para o bem da Torre e dos magos que aqui vivem, o mais justo a fazer e seguir suas ordens!

—Mas e se o rei cometer um erro, trouxer as trevas para Torre. Você estaria pronto para traí-lo?

—Se o rei estiver no caminho de vidas inocentes eu não terei outra opção a não ser confrontá-lo. E não me importo em ser visto ou sacrificado como um traidor. Uma vida lutando pela justiça é uma vida satisfatória.

Aron nada disse apenas observou novamente o tabuleiro.

Foi quando a porta da sala se abriu e de trás dela surgiu Bako.

—Mestre Aron, — disse ele tocando em seu peito — perdão, mas estamos esperando pelo senhor.

Aron moveu seu olhar para Polo, o general continuou focado no tabuleiro, evitando contato visual.

—Vamos! Não posso atrasar mais o seu treinamento.

Aron se virou e partiu deixando Polo sozinho.