Torre
6 Capítulo 5
No dia seguinte o rei exigiu a presença de Aron. E Aron como um bom general que era correu para atender o seu rei.
Ao chegar à sala do trono o mago branco se pôs de joelhos.
—Levante-se! —Disse a majestade.
Aron se levantou, e ao se pôr de pé ele visualizou parado ao lado do rei um mago que a princípio ele desconhecia.
—Aron, quero que conheça Nicholas. Ele lhe acompanhara em sua excursão pela Torre.
O mago deu um passo à frente. Nicholas de 17 anos usava um chapéu de ponta que tampava todo o seu cabelo, com exceção de um pequeno tufo ruivo que escapava do chapéu. Nicholas tinha olhos escuros e usava um grande manto azul, igual a todos os outros magos da Torre.
—Excursão? —Estranhou Aron.
—Sim, a lugares na Torre que você precisa ver com seus próprios olhos.
—Majestade, creio que isso seja desnecessário! Eu conheço essa Torre como a palma de minha mão.
—Eu tenho certeza que não! —Respondeu o rei — Por favor, Nicholas, acompanhe Aron.
O jovem mago seguiu caminho paras as escadas da Torre e Aron, reclamando todo o caminho, seguiu os passos de Nicholas.
As escadas caracol cortava a Torre no meio, dando acesso a todos os andares. O melhor meio de conhecer a Torre dos Magos era atravessando essas escadas.
—O que você vai me mostrar exatamente? — Perguntou Aron caminhando entre o curto corredor e o começo das escadas.
—Isso é surpresa!
Os dois magos seguiram descendo as escadas até chegarem em frente a um corredor com três portas.
—Por onde? —Perguntou Aron.
—A do meio! —Respondeu Nicholas —As outras duas portas são os quartos dos dois arquimagos da Torre. Ninguém na Torre pode entrar em seus quartos.
—Arquimagos? —Perguntou Aron sem entender o porquê ele não poderia entrar.
—Sim. Arquimagos são a classe mais alta que um mago pode atingir. Quando você passa décadas estudando e dominando a magia você passa a ser conhecido como um arquimago. O que significa que você passara o resto de sua vida preso em seu quarto fazendo inúmeras pesquisas para a Torre. Uma vida simplesmente perfeita.
Aron notou um olhar irônico no rosto de Nicholas.
—O que aconteceria se eu entrasse? — Perguntou o mago branco curioso.
—Eu não sei... — Respondeu ele caminhando em direção a porta do meio —Ninguém nunca teve essa audácia...
Nicholas abriu a porta lentamente, para que ninguém do outro lado ficasse surpreso com a presença dele.
—Esta vazia! — Disse ele terminando de abrir a porta.
Aron entrou na sala e começou a olhar ao redor. O lugar era cheio de mapas, pinturas e pergaminhos. Mas a atenção se voltou ao centro onde estava uma grande mesa de madeira. A mesa era pintada como se fosse um tabuleiro de xadrez.
—Aqui é a sala de jogos? —Brincou ele.
—Não, seu tolo! —Respondeu Nicholas, levando a brincadeira como uma ofensa — Essa é a sala dos generais. É aqui que os planos de combate e as estratégias são formados.
—Generais?! Pensei que apenas eu e Polo carregássemos esse título.
—Não. Vinte homens diferentes carregam esse título. A diferença é que Polo carrega o título de general e de braço direito do rei! E você carrega o título de general branco...
—E onde exatamente estão esses outros dezenoves generais?
Nicholas caminhou em direção a porta.
—Vamos continuar! — Disse ele.
Os dois desceram as escadas em silencio.
—Aron! — Disse Nicholas sem mudar o passo – Posso lhe fazer uma pergunta?
—Diga! — Respondeu o mago um pouco curioso.
—Você fugiu da Torre a treze anos não foi?
—Sim... — Respondeu ele sem entender onde essa conversa ia dar.
—E você nunca pensou em voltar?
—Não...
—E o que você fez todos esses anos? Quero dizer, você viveu 13 anos sozinho numa floresta, o que você fez todo esse tempo?
Aron apressou o passo ultrapassando Nicholas.
—Eu estudei! — Disse ele com um sorriso no rosto.
Aron desceu as escadas até dar de encontro com outras duas portas.
—O que tem atrás dessas? — Ele perguntou
—A da direita é a sala do diretor, e a da esquerda e a sala de pesquisas.
—Nós vamos entrar na sala do diretor! —Disse o general branco entusiasmo — Eu tenho que admitir, como um ex-aluno da Torre dos Magos eu sempre tive uma vontade secreta de conhecer o diretor.
—Nós não vamos entrar na sala do diretor. —Disse Nicholas abrindo a porta da esquerda.
—Mas, por quê? Ele também não pode ser incomodado?
—Não. Apenas não há nada de interessante lá dentro! Agora, podemos prosseguir?
Aron bufava enquanto entrava na sala.
Ao entrar o mago branco fui surpreendido pelo tamanho do lugar, a sala de pesquisas era imensa, tão grande que podia ser dividida em três partes. A primeira sendo a biblioteca, nela existia um grande balcão com vários livros encima dele, e do lado do balcão havia várias estantes lotadas de livros. A quantidade de estantes era tanta que se formava um labirinto com elas. Mais à frente, na segunda divisão da sala, havia poções e corpos, aquela era a área de pesquisa biológica. O lugar era lotado de agulhas, livros, corpos e sangue, mas por mais estranho que seja essa área não exalava nenhum fedor. E por fim a última área no fundo da imensa sala era formado por sacos de areia gigantes e grandes caldeirões. Aquela era a área mágica. O lugar também tinha vários livros jogados no chão. Essa área parecia ser a menos organizada entre as três, e também a mais movimentada, pois cerca de dez magos corriam de um lado para o outro dentro dessa única área.
—Se sinta honrado por entrar nessa sala, — Disse Nicholas dando as costas para Aron — foi aqui que as maiores descobertas surgiram. Devemos muito aos pesquisadores daqui! Se não fossem eles não teríamos saído do lugar, estaríamos ainda acreditando que o Sol gira entorno da Terra. Com certeza essa é a parte que mais deve ser respeitada na Torre dos Magos.
Quando Nicholas se virou ele percebeu que Aron não estava atrás dele, ao invés disso, ele estava na biblioteca bisbilhotando.
—Ele me deixou aqui conversando sozinho! —Retrucou ele furioso.
Nicholas agarrou o mago branco pela camiseta e o arrastou para fora da sala.
—Espere, eu não terminei ainda! —Gritava ele enquanto era arrastado.
Os dois continuaram descendo as escadas, porém dessa vez o caminho tinha sido mais longo do que o de costume.
—Para qual andar estamos indo? —Perguntou Aron estranhando o tempo que levava para chegar.
—Embaixo da sala de pesquisa está o refeitório, embaixo deles esta as salas de aula, e embaixo os dormitórios. Como um ex-aluno da Torre você já conheceu todas essas áreas. Então eu vou apenas lhe levar para mais embaixo.
—Mais embaixo? Nós vamos para a arena atrás da Torre?
—Não.
—Então para onde estamos indo? O primeiro andar? O andar da biblioteca? Pode ter certeza, eu conheço aquele andar melhor que ninguém!
—Nós não estamos indo para o primeiro andar, seu tolo!
—Então para onde estamos indo?
—A lugares na Torre que você precisa ver com seus próprios olhos!
—Não me venha com uma de filósofo! —Disse Aron virando seus olhos para cima.
—Apenas me siga! —Respondeu o mago estressado.
Os dois continuaram desceram até finalmente chegarem ao final da escada.
—Primeiro andar, qual a novidade?
Até aquele ponto Aron já estava cansado de tanto andar, suas pernas doíam de tanto descer as escadas. No momento a única coisa que ele pensara era sobre a soneca que ele tiraria depois que essa besteira de excursão acabasse.
Nicholas andou sem dar atenção para Aron.
—Vai me ignorar agora?
—Fique quieto! —Gritou ele.
Os dois caminharam até a biblioteca da Torre. E ao chegarem Aron sentiu um enorme sentimento de nostalgia, um sentimento tão grande que o fez esquecer de sua dor nas pernas. E sua nostalgia duplicou quando ele passou ao lado da Sr.ª Nora. Aron podia não gostar muito dela, mas vê-la lhe trazia boas recordações.
A Sr.ª Nora estava acordada, o que era raridade, ela até olhou para o mago branco, mas não o reconheceu. Sendo assim Nicholas e Aron continuaram caminhando pela biblioteca. Aron sempre olhando para os lados admirando tudo. Treze anos haviam se passado e nada havia mudado. Por fim o general branco não resistiu e acabou sentando na terceira mesa, como ele sempre fazia quando estudante. Talvez ele tivera se sentado pela nostalgia, ou talvez, as suas pernas doíam tanto que o forçaram a se sentar.
—O que você está fazendo? Nós não temos tempo para descansar! —Gritou Nicholas.
—Eu conheço esse lugar como a palma de minha mão! Você não precisa me mostrar nada aqui!
—Eu não vou lhe mostrar a biblioteca! —Disse ele batendo sua mão em seu rosto —Será que você pode me seguir?
Aron virou os olhos.
—Certo! — Disse ele se levantando sem vontade.
O mago branco seguiu Nicholas até o fundo da biblioteca. O fundo era o único lugar que Aron não conhecia na biblioteca, e não era para menos já que aquele lugar parecia estar abandonado por pelo menos vinte anos, o fundo da biblioteca era todo empoeirado, não havia livros só estantes cheias de poeira e um tapete imundo socado no chão.
Nicholas pegou o tapete e o jogou para o lado, isso fez com que toda a poeira que estava no tapete subisse, tampando a visão de Aron.
—Por que fez isso? —Disse Aron tossindo em meio à poeira.
Quando a poeira baixou o general branco pode ver apenas um alçapão aberto, Aron olhou ao seu redor, mas não havia sinal de Nicholas.
—Aqui embaixo!
Aron olhou pelo alçapão e a única coisa visível era a escada, o resto estava numa enorme escuridão. O general branco então desceu pela escada e lá embaixo ele encontrou o mago em uma imensa escuridão.
—Era aqui que eu queria te levar! —Disse ele enquanto estalava os dedos e acendia magicamente todas as tochas da sala.
Quando as luzes se acenderam Aron pode ver que a poucos metros de sua frente estava um monstro com os pés, mãos, tronco, e pescoço algemados, o monstro parecia estar dormindo de joelhos.
O monstro, mesmo ajoelhado, chegava a medir cerca de dois metros de altura, a pele da criatura era azul clara, clara como o azul de uma água cristalina. A cabeça dele era dura e tinha um focinho largo com narinas espremidas, sua mandíbula era grande e cheia de dentes afiados. Os braços algemados da criatura eram longos e grossos, a perna do monstro era curta e grossa. E sua calda o oposto, longa e grossa. Aron ao ver a criatura em sua frente ficou sem reação.
—Aron, quero que você conheça o Trovão Azul. O "mascote" da Torre. — disse Nicholas se aproximando do monstro.
Nicholas ficou muito perto, mas não havia problema já que o monstro estava desmaiado.
—O que é isso? —Perguntou Aron mais surpreso.
—Nós não sabemos exatamente o que ele é! Esse monstro atacou a Torre anos atrás. Os antigos magos conseguiram capturá-lo, mas nós nunca tivemos uma utilidade para ele. Não até agora! O rei pensa que Trovão Azul poderia ser útil contra os magos negros, e o rei achou que a sua magia branca poderia ajudar a controlar essa criatura.
—Eu! Treinar essa coisa? — Disse Aron espantado e assustado.
—"Essa coisa" poderia vir a ser a nossa melhor chance contra os magos negros!
—Do que você está falando? Os magos brancos são o suficiente para derrotar os magos negros.
—O rei quem deveria falar isso para você. —Reclamou Nicholas — As coisas estão diferentes na Torre do que você costumava se lembrar! No passado a Torre dos Magos costumava ser aliada de todos os reinos vizinhos, se precisássemos de algo, inúmeras famílias reais vinham correndo oferecer o que tinham. Mas isso mudou, os magos negros estão implantando medo, nenhum reino tem a coragem de nos ajudar, e os que tentam os magos negros invadem e os colonizam. A previsão é que daqui alguns anos nós seremos atacados pelos mesmos reinos que um dia juraram serem nossos amigos. Então Aron seus magos podem até dar contas dos magos negros, mas quem cuidara do resto?
—Mas como eu vou fazer para treinar isso?! —Gritou ele apontando para o Trovão Azul.
O Trovão Azul reagiu ao grito movendo sua grande cabeça. Infelizmente nenhum dos dois notou a ação.
—Você vai ter que dar um jeito! —Respondeu Nicholas se colocando na frente do general branco.
—Eu não vou fazer isso, esse monstro me devorara vivo! — Retrucou Aron empurrando Nicholas para fora de seu caminho — Agora se me dá licença eu tenho mais o que fazer!
—Fale isso para o rei! É ele que está contando com você! — Gritou ele de costa para o Trovão Azul.
Aron virou-se para trás por um segundo para dar uma última olhada no mostro desmaiado, mas o que ele viu foi diferente, o monstro estava se mexendo, e erguendo seus grandes braços bem atrás de Nicholas.
—Nicholas cuidado! —Gritou Aron numa tentativa de alertar o mago.
Mas o aviso foi em vão, a criatura agarrou Nicholas pela cintura e num ato de raiva a criatura rugiu tão alto que fez com que toda a caverna tremesse.
A criatura começou a se debater, ele tentava arrancar as correntes de seu corpo, mas seu esforço era em vão, desesperado o Trovão Azul começou a bater Nicholas contra a corrente.
—PARE! —Gritou Aron numa tentativa de controlar o monstro.
A criatura focou seu olhar no mago branco. Por alguns segundos Aron pode ver os olhos azuis do monstro. O general ficou admirado pela sua beleza, os olhos do Trovão Azul conseguiam ser mais claros e brilhantes que a sua pele.
E enquanto Aron admirava os olhos azuis, a criatura lançou outro rugido, só que dessa vez o rugido foi tão forte que jogou o general no chão.
—Se acalme! —Gritou ele tampando seus ouvidos.
E de repente o monstro parou de rugir.
—Você parou? — Estranhou Aron enquanto se levantava. Era quase como se o monstro tivesse entendido o que Aron disse.
—Mande ele me soltar! — Gritou Nicholas entendendo a razão do espanto do mago branco.
Aron nem precisou pedir, após Nicholas ter gritado a criatura o jogou em direção a Aron.
O general branco foi ágil e conseguiu pegar Nicholas antes dele atingir o chão.
—Obrigado! —Disse ele sem jeito.
O Trovão Azul continuou se debatendo na tentativa de tirar as algemas que o prendiam.
—Há quanto tempo ele não recebe uma visita? —Perguntou Aron para Nicholas.
—Pelo que eu sei o monstro nunca recebeu uma visita. Ele não precisa comer e nós nunca precisamos dele, então nunca ouve um motivo para entrar aqui.
Aron respirou fundo e caminho até o Trovão Azul. Num gesto de paz Aron ergueu sua mão para perto dele. Por mais estranho que fosse a criatura parecia entender e respeitar Aron, e o general branco notando isso decidiu criar um vínculo com o Trovão Azul.
—O que está fazendo? —Gritou Nicholas desesperado —Ele vai arrancar sua mão fora!
A criatura parou de se debater e aproximou sua cabeça para perto da mão de Aron, mas antes que houvesse algum contato físico o monstro ergueu novamente a cabeça e bufou, como se estivesse negando o pedido de amizade.
—O que foi isso? —perguntou Nicholas supresso de uma forma alegre.
—Talvez você tenha razão, esse monstro possa vir a ser útil...
—Isso significa que irá treiná-lo?
—Não é como se eu tivesse outra escolha... —respondeu ele seguindo para fora da caverna.
E os dois subiram outra vez até a sala do trono para se encontraram novamente com o rei. Quando eles chegaram o rei os recebeu com um enorme sorriso.
—E então Aron, o que achou do nosso mascote? —perguntou ele.
Toda aquela excursão não passava de uma desculpa para mostrar a Aron um dos segredos da Torre dos Magos.
—Eu acho que nós dois ainda vamos nós conhecer melhor!
—HAHAHAHA! esse é o espírito! —disse o rei batendo nas costas do mago branco —Agora me diga Nicholas, por que suas roupas estão rasgadas?
Nicholas olhou para seu mando e percebeu um grande rasgo em suas costas, um rasgo feito pelo Trovão Azul.
—É uma longa história! —disse Aron rindo.
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