Torre

3 Capítulo 2


Uma curiosidade sobre a Torre e que os magos apenas aceitam ensinar as crianças com menos de três anos, isso porque os magos preferem ensinar uma criança sem experiências do que ensinar uma que já venha tendo seus próprios conhecimentos. Além disso a Torre dos Magos leva a filosofia de que a família pode interferir nos estudos, por isso os magos aceitam apenas os órfãos ou as crianças cujos os pais aceitaram se separar do filho até um período indeterminado.

No outro dia Aron acordou cedo, como era casual. O garoto dormia em um pequeno quarto com um armário e um beliche de frente um para o outro, os dois móveis praticamente ocupavam o quarto inteiro. Aron dormia na parte de baixo do beliche, e na parte de cima dormia seu irmão. Aron se levantou e se trocou sem dizer uma palavra, uma vez que ele e Lopus não se falavam desde ontem.

Ao sair de seu quarto Aron atravessou um curto corredor e virou à esquerda, entrando numa pequena porta que dava acesso a sua sala de aula. A pequena sala era divindade em quatro fileiras com seis carteiras cada uma. Aron se sentou na quarta carteira da última fileira, ao lado da única janela da sala. O lugar preferido do garoto.

A primeira aula do dia era a de história com a professora Catarina. Catarina costumava usava um manto cinza e um chapéu pontudo. Ao entrar na sala a professora se sentou em sua carteira e começou sua aula. Não era necessário uma apresentação, chamada ou até mesmo um simples bom dia, na Torre dos Magos os professores entram na sala dando sua aula e saiam da sala terminando a aula.

—Hoje revisaremos um pouco da história de nossa querida Torre, —disse a professora revirando as páginas de seu enorme livro.

Todos os alunos rapidamente se viraram para frente e abriam seus livros em páginas aleatórias. Não importava se o aluno abrisse nas páginas em branco do livro, o importante era a professora perceber que o livro estava aberto e que os alunos estavam atentos a aula.

—Tudo começou com o fundador Heal, —ela continuou — o mago mais poderoso que esse mundo já conheceu. Heal assumiu o reinado da Torre e conseguiu governar com mão de ferro, mantendo a ordem não só em nossa escola, mas no mundo. Porem, Heal teve que partir, e o controle da Torre dos Magos teve de ser passado adiante, o que não satisfez muitas das famílias reais vizinhas. Durante essa época a Torre dos Magos se envolveu em inúmeros conflitos, mas graças ao conhecimento aqui obtido todos esses conflitos foram facilmente solucionados.

Aron achava engraçado o tratamento que as pessoas davam a Torre dos Magos. A escola não deixava de ser uma torre grande, mesmo assim todos a tratavam como se ela fosse um reino inteiro, com rei e tudo. Aron entendia que era uma forma de respeito, uma vez que a escola influenciava o mundo todo, mesmo assim era engraçado uma simples torre ter o mesmo tratamento de uma cidade com quilômetros de extensão.

—Mas infelizmente nem tudo foi perfeito, em uma ocasião os magos da Torre foram obrigados a sacar suas espadas, e isso ocorreu quando um ditador tirano se achou no direito de exigir o conhecimento que nosso Torre guardava. Foi uma luta cansativa, muitos magos lutaram, mas felizmente o confronto não durou mais do que três dias, porque no terceiro dia o ditador se rendeu em meio as espadas de nossos magos.

Foi quando um garoto sentado na primeira carteira da segunda fileira levantou a mão. A professora, sem mover a boca, deu a palavra a ele.

—Professora — disse ele em um tom baixo, talvez por timidez ou talvez por nervosismo — se os magos são tão poderosos por que eles precisam de armas?

A professora virou os olhos com uma afeição não muito agradável.

— Artean, — disse ela — se prestasse atenção nas aulas saberia que a nossa magia é limitada. Um estralar de dedos não pode resolver todos os nossos problemas. É por isso que usamos armas, a magia não é o suficiente em uma luta!

O menino abaixou a cabeça sem nada a dizer.

A professora então se virou para a sala e continuou da onde tinha parado.

—Depois de todos os confrontos, chegamos ao definitivo segundo reinado. E, é sobre esse período da história que estudaremos durante todo o semestre...

A aula prosseguiu com a professora falando sem interrupções. Enquanto isso Aron viaja para longe com as suas observações pela janela.

Assim o tempo passou e logo chegou o horário do almoço. Enquanto todos da sala saíram correndo para almoçar, Aron recolheu seus livros com cautela e com eles desceu pelas escadas até a biblioteca, onde ele se dirigiu a terceira carteira como de costume. Porém ao invés de se sentar Aron jogou seus livros na mesa e caminhou até as estantes, o garoto havia decidiu que já era hora de procurar por algo novo para ler.

Aron passou de estante em estante procurando algo que o chamasse atenção, mas nenhum livro parecia o agradá-lo. Porém o menino era persistente, ele não iria aceitar que em uma biblioteca com mais de mil livros não teria um pelo qual ele se interessaria. Então Aron caminhou entre as estantes, passou entre vários livros, e depois de um bom tempo ele encontrou um que o chamara atenção. Ele puxou o livro de capa preta, o abriu, e viu escrito em sua primeira folha: "2ª Rei real? " Talvez fosse o título, ou talvez fosse o livro que estava em péssimo estado, mas Aron logo perdeu o interesse. Ele fechou o livro e o devolveu para a estante. O garoto continuou à procura. Ele passava pelas estantes puxando os outros livros que o chamavam atenção, mas a maioria dos livros não o agradava.

Depois de muito tempo ele finalmente se deu por vencido, e seguiu caminho de volta para a sua mesa, mas no caminho Aron tropeçou em um livro que estava jogado no chão. O livro era grande, grosso e pesado, mais parecia uma pedra. Aron pegou o livro com muito esforço e, ao abri-lo, ele pode ver escrito em sua primeira página: "O Livro Branco" ele logo se desinteressou pela obra. Aron então levantou o grande livro e o encaixou em um espaço vazio da prateleira, mas antes que ele pudesse largá-lo uma estranha voz surgiu por trás.

—Garoto, você achou meu livro?

O menino virou seu rosto assustado. Ao lado dele estava um velho baixinho e corcunda, o velho vestia apenas uma grande túnica azul que se arrastava no chão. A única parte que a túnica não tampava era o rosto do velho, que não tinha nem cabelo, nem sobrancelha, nem barba. O velho era totalmente careca. Mas o que mais chamou a atenção de Aron foram os olhos do ancião, os olhos dele não tinham íris e nem pupilas, tudo o que se via era o branco da esclera.

—Garoto? — Disse ele — você está bem?

Aron ficou perplexo, ele já estava a um bom tempo caminhando entre as estantes e não viu um sinal de vida além da dele.

—Garoto?! — Repetiu o velho dessa vez chacoalhando ele.

—A... Sim! Desculpe, esse é o seu livro? — Respondeu ele aproximando o Livro Branco do velho misterioso.

O homem fez um gesto com a cabeça, como se estivesse negando o livro.

—Garoto, você sabe do que esse livro se trata?

Aron não respondeu apenas fez uma cara de confuso.

—Você já ouviu falar das magias proibidas?

Aron moveu sua cabeça dizendo que não.

O velho deu um sorriso, como se ele soubesse de algo que interessaria a Aron.

—Se você me permitir, garoto, eu poderia te contar um segredo sobre esse livro.

Aron não entendeu aonde o velho queria chegar, na verdade toda aquela situação era estranha pala ele, mas mesmo duvidando das intenções dele, o menino continuou a ouvi-lo, além do mais, ele não tinha nada a perder.

—Você estaria interessado? — Perguntou o velho.

O garoto moveu a cabeça respondendo que sim.

O homem sorriu e se preparou para contar uma história.

—Há muito tempo atrás, —começou ele — um grupo de magos estudiosos se reunia fora da Torre dos Magos, esses magos observavam e estudavam a magia á anos. Naquela época era incomum encontrar algum mago que dominasse outro elemento além dos 4 primordiais — Água, Terra, Fogo e Ar —, entretanto esses magos se depararam com uma estranha mulher que dominava uma magia tão sinistra e misteriosa que deixara os magos fascinados. Essa mulher podia envolver veneno, fumaça, e outros elementos em suas magias. Os sábios ficaram tão fascinados quanto assustados. E como consequência eles fizeram de tudo para controlar essa nova magia. Mas eles logo descobriram que os novos elementos não podiam ser dominados por simples pessoas, era necessário sofrer uma transformação. E prevendo o perigo que essa mutação seria os estudiosos se viram sem opção. Eles apagaram suas descobertas e concordaram em esquecê-la.

—Mas por quê?! — Perguntou Aron espantado.

—A magia é como a filosofia, até aquela época a filosofia era vista como algo único, mas as novas magias demostravam que alguém poderia criar uma filosofia mastigada para você, e os magos temeram o pior. Eles sabiam que essa nova magia seria perigosa e preferiram esconde-la. E assim fizeram, durantes anos a nova magia e todas as pesquisas se mantiveram no limbo, mas infelizmente havia um delator entre os sábios. O general de uma cidade próxima ficou sabendo dos novos feitiços, e em pouco tempo o general descobriu como fazer seus cavaleiros aprenderem a dominar os novos elementos. E como previsto o equilíbrio se desfez. O general, com o seu exército quase que invencível, deixou o poder subir à cabeça. Dia após dia ele atacava os impérios vizinhos, o caso ficou tão fora do controle que o general traiu o próprio rei e escravizou as pessoas que um dia ele chamou de família. Foi quando da necessidade de um contra-ataque uma nova magia nasceu.

—Nova magia? — Disse Aron zombando da história do velho.

—Com o passar do tempo ficou claro que os magos comuns não dariam conta desses novos "magos invencíveis". E foi da necessidade que um novo exército de magos surgiu, esses magos passavam pelos piores treinamentos e torturas. A intenção era criar magos obedientes que servisse apenas ao povo, magos sem sentimentos e vontade própria, colocando como ideal a vida do outro e esquecendo a sua própria. E misturando a mutação com o treinamento ardo uma nova magia nasceu, envolvendo os elementos do gelo, cristais e outros.

—Existiam dois tipos de magias? — Perguntou Aron confuso com toda a informação.

—Sim. — Respondeu o velho com um sorriso ainda maior no rosto —Elas foram nomeadas de magia negra e magia branca.

—E o que aconteceu depois?

—O exército de magos brancos entrou em guerra com o exército de magos negros em um dia que ficou conhecido como a guerra do preto e do branco.

—E no final quem ganhou? — Perguntou Aron pulando para o resultado da história.

—Ninguém — disse o velho agora parando de sorrir — lembre-se disso garoto, a guerra leva a morte. Os dois lados lutaram tanto e no final nenhum deles tinha mais homens para lutar. A perda foi tão grande que quando a Torre dos Magos interviu eles mal precisaram lutar.

—Ahm...— Suspirou o garoto abaixando a cabeça. Talvez ele estivesse esperando por um final feliz.

—No fim, — continuou o ancião — Os magos da Torre não podiam deixar que mais magos negros e brancos surgisse. Então com medo os magos proibiram as duas magias e queimaram todas as pesquisas e resíduos dessa história.

Aron olhou para baixo espantado.

—E o que é esse livro? —Perguntou ele erguendo o pesado livro.

—O Livro Branco, — disse o velho sorrindo outra vez — Durante a guerra muitos magos negros escaparam. Eles fugiram levando com eles muitos de seus livros de magia negra. Mas somente um mago branco conseguiu fugir. E ele levou um único diário, um diário que mais tarde se tornou esse livro.

Aron olhou para o livro e sorriu. O mesmo livro que ele achara tão desinteressante há alguns minutos agora parecia ser o melhor livro do mundo.

—É por isso que eu estou te dando esse livro. — Disse o velho com um sorriso suspeito.

—Co-como? — Disse o garoto não acreditando em seus ouvidos.

—Há muito tempo que quero passar o que sei há essa nova geração, garoto. Por isso deixei esse livro aqui, esperando alguém encontrá-lo.

Aron olhou espantado.

—Mas esse livro não é proibido pela Torre? — Perguntou ele.

—Não se engane, — disse o velho abaixando a cabeça — o que tem nesse livro é um relato de um mago branco e suas experiências. Conhecimento que nenhum mago da Torre pode passar. Se você tem intenções impuras, será necessário muito mais do que os ensinamentos que esse livro pode dar.

Aron arregalou os olhos, o livro que ele carregava na mão o trazia uma curiosidade imensa junto de um calafrio na espinha.

—Agora, garoto, antes de entregar esse livro para você me prometa que jamais contara para ninguém! Pode me prometer isso?

Aron engoliu um seco antes de responder, toda essa situação parecia suspeita para ele, mesmo assim ele não recusou o livro.

—Si-sim eu prometo!

De repente o som da corneta toca mais uma vez, era o fim do almoço.

O velho ouviu o som e se virou para partir.

—Vá garoto. Já deu o seu tempo. — Disse ele de costas.

—Certo... Obrigado! — E Aron abraçou o pesado livro e saiu correndo para sua mesa.

O garoto arrumou suas coisas com pressa. As regras da Torre eram bem rigorosas e não permitiam que ninguém se atrasasse para entrar na sala. Enquanto Aron arrumava sua mesa ele lembrara de que em nenhum momento da conversa ele havia se apresentado ou perguntado o nome do velho ancião. Se sentindo o garoto mais rude da Torre, Aron correu a procura do velho para se desculpar e se apresentar apropriadamente, mas, para o desagrado do garoto, ele não o encontrou. O velho já não estava mais na biblioteca.

Foi quando Aron num ato de pressa decidiu fazer algo que nunca havia feito em todos os anos vivendo naquela escola. Ele decide perguntar para a Sr.ª Nora.

—Sr.ª Nora, — disse ele com pressa — a senhora conhece o homem careca que passou por aqui?

— Homem careca? — Respondeu Nora fazendo uma careta.

—Sim, ele estava de túnica azul. Seus olhos eram brancos. A senhora o viu? — Perguntou Aron com mais pressa ainda.

—Menino, se um homem careca de olhos brancos entrasse aqui eu teria o notado.

—Mas ele estava aqui agora pouco. Eu estava conversando com ele.

—Você deve ter se confundido!

Aron já estava estressado, ele sabia que se um furacão entrasse na sala a Sr.ª Nora não o perceberia. Foi perda de tempo conversar com ela.

—Certo. Obrigado! — Disse ele correndo para a sala de aula.

Aron correu as escadas rezando para que desse tempo, mas ao chegar à sala ele deu de cara com a porta fechada. Aron ficou arrasado. A penalidade para quem se atrasasse a entrar na sala era terrível. Sendo assim o garoto baixou sua cabeça, juntou o pouco de dignidade que sobrara e, com um imenso remorso, ele bateu na porta três vezes, e ao bater à terceira vez a porta se abriu, com Adamastor atrás dela. Aron gelou, os castigos de Adamastor eram os piores de toda a Torre, não era à toa que ele era o professor mais severo.

—Você se atrasando? — Estranhou Adamastor.

—Me desculpe senhor, eu estava procurando por um amigo quando a corneta tocara. — Respondeu o garoto de cabeça baixa esperando pelo pior dos castigos.

—Amigo?! — Disse o professor surpreso. — E você o encontrou?

—Não. — Disse Aron agora fechando os olhos, pronto para receber sua penalidade.

—É uma pena! E está esperando o quê?

Aron ergueu sua cabeça de maneira tímida, estranhando a cena.

—Ma-mas senhor, a minha penalidade? —Disse ele engasgando.

Adamastor se aproximou do ouvido de Aron e cochichou.

—Vamos fingir que eu o puni.

O menino arregalou seus olhos, o dia não poderia ficar melhor para ele.

Sendo assim ele abaixou sua cabeça, disfarçou seu sorriso, e, silenciosamente correu para dentro da sala de aula. Disfarçando para que nenhum dos alunos percebesse que ele não havia sido punido. Entretanto nenhuma de suas medidas havia dado certo, pois, ao sentar-se, Aron pode ouvir os vários cochichos que vinham de seus colegas.

—Ele não vai apanhar?

—Adamastor não vai puni-lo?

—Como escapou?

Ele riu, disfarçando para que ninguém notasse. Ganhar um livro e ainda escapar de uma punição de um dos piores professores da Torre fez o dia de Aron se tornar em um dos melhores dias de sua vida.

Sendo assim o garoto virou-se para frente e aproveitou a aula prestando atenção nas explicações de seu mais novo professor preferido.