Torre

2 Ato I:Um livro diferente Capítulo 1


Era dia de tempestade. O vento batia forte empurrando as gotas d' água para dentro de uma pequena fresta na janela, mas ninguém do outro lado parecia se importar, com exceção de Aron que sentara no canto superior direito da sala de aula, ao lado da janela. E por algum motivo o cair das águas era mais interessante para ele do que a aula em si.

—Aron! — Gritou o professor — Poderia virar-se para frente?

O menino envergonhado virou seu rosto, mesmo assim ele continuou a não dar atenção à aula, ao invés disso, o garoto preferiu observar ao redor de sua sala de aula.

Sua sala era um pequeno cubo fechado com vinte alunos e um professor, todos presos em um local com pouca iluminação e ventilação. Aron odiava aquele lugar, ele se sentia um prisioneiro do saber, obrigado a aprender coisas que ele não queria aprender com pessoas que ele não queria conhecer. Mas dentro da Torre dos Magos o que você pensa ou sente não importa.

Com o canto de seu olho Aron pode ver os vários alunos cochichando e apontando para ele, o garoto apenas fingiu que não viu e voltou a sua atenção para frente, onde Adamastor, o professor, falar dos riscos da magia.

Adamastor era alto, magro, de cabelos escuros e compridos, chegando a tocar em seus ombros. O professor sempre dava aula com o mesmo manto preto, com apenas uma fita dourada que dava uma volta em seu pescoço. Aron se perguntava se ele tinha preguiça de mudar de roupa ou se ele apenas tinha esse modelo em seu armário. Adamastor era conhecido na Torre dos Magos como um dos professores mais entediantes e severos, não era à toa que Aron não gostava dele, além do mais, um professor que não permite que um de seus alunos observasse o cair das águas não era digno de ter a compaixão do garoto.

Poucas horas se passaram e ao acabar a aula todos os alunos saíram correndo para almoçar, todos menos Aron que recolheu seus livros e pergaminhos com cautela, e quando o garoto estava para sair da sala o seu professor chamou.

—Aron, venha a cá! — Disse ele.

O garoto, com toda a falta de vontade, deu meia-volta e andou até o professor, esperando a bronca que já era prevista.

—Aron, — disse o professor sentado em sua mesa repleta de folhas e livros — o que o atormenta?

O garoto não respondeu, apenas manteve sua cabeça.

—Suas notas estão caindo, — explicou ele — seus amigos estão se afastando, e a cada dia você me parece menos focado. Me diga Aron o que passa pela sua mente que está o deixando tão distante?

O menino continuou sem responder.

—Eu entendo o momento difícil, mas ao menos converse com o seu irmão. Tenho certeza que ele pode lhe ajudar em qual for o seu problema.

Aron desviou seu olhar.

O professor podia tentar, mas nada do que ele dissesse iria mudar a cabeça do garoto. E num ato de cansaço Adamastor o libertou.

—Já pode ir. — Disse ele — Apenas me prometa que vai melhorar as suas notas.

Aron fez que sim com a sua cabeça e saio logo em seguida.

Ao sair pela porta o garoto ignorou quase que simultaneamente a advertência de seu professor. Sendo assim ele desceu pelas escadas circulares da Torre até o andar mais fundo, chegando à biblioteca.

O interior da biblioteca era enorme, cheio de estantes vazias, livros no chão, e poeira para todo lado. O local inteiro fedia a mofo, mas apesar de tudo Aron gostava de passar seu tempo lá.

Ao entrar o garoto caminhou até a terceira mesa, — não muito perto da entrada e não muito longe da saída — ele puxou uma carteira, sentou-se e abriu seus livros. Como ele sempre vinha a fazer.

Sempre que possível Aron vinha à biblioteca, ele poderia dizer que ele ia lá para ler, quando na verdade ele apenas ia para se esconder. A verdade é que Aron nunca foi diferente dos outros garotos de doze anos. Aron era pequeno — um pouco menor que o tamanho ideal para sua idade—, com um corpo avantajado, olhos castanhos, cabelo loiro, curto e espetado. Ele adorava brincar, rir e se divertir, quase igual a todos os garotos de sua idade, mas Aron sempre foi muito tímido, ficar entre pessoas o assustava, e se ele tivesse a oportunidade de se exilar, ele se exilaria. E não havia um lugar melhor para isso do que a biblioteca da Torre dos Magos. Ninguém além dele entrava na sala de leitura, e isso facilitava a sua vida, afinal, era muito mais fácil para ele fugir dos seus problemas do que os enfrentar.

O tempo passou e Aron continuou a ler os livros que havia trazido da sala de aula. O silêncio tomava conta da biblioteca, não se ouvia nada, nada além de passos que pareciam ficar maiores com o tempo. Aron logo estranhou o som. Não havia ninguém na biblioteca além dele e de Nora, a velha responsável pela sala de leitura que ficara o dia inteiro cochilando em sua mesa.

E enquanto Aron, sem tirar os olhos dos livros, se perguntava sobre quem poderia estar na biblioteca os passos foram ficando cada vez mais altos até, de repente, cessarem. E foi quando o menino se deu conta de que a sua frente estava parado Lopus, seu irmão mais velho.

—O que faz aqui? —Perguntou o garoto com uma expressão de raiva.

Lopus era um garoto moreno de olhos escuros, tamanho ideal para a sua idade, magro porem um pouco robusto. O garoto vestia o uniforme da Torre, um sapato de pano, uma camisa e uma calça azul. Suas roupas eram iguais a que Aron e qualquer outro estudante da mesma idade usavam. Lopus era conhecido na Torre dos Magos por ser um dos meninos mais populares e um dos alunos menos esforçados, exatamente o contrário do que era o irmão.

—Estou estudando. — respondeu o garoto mantendo seus olhos fixos nos livros, ignorando a presença do irmão.

—Porque não sobe e almoça como um estudante normal da Torre dos Magos? — Perguntou Lopus brigando pela atenção do irmão mais novo.

Aron logo entendeu a repentina aparição de seu irmão. Adamastor, provavelmente, havia tido uma conversa com Lopus, os dois deveriam ter falado sobre o quão eles estavam preocupados com o comportamento de Aron.

—Eu prefiro estudar agora e almoçar mais tarde. — Respondeu ele ainda sem olhar para seu irmão.

—E porque não almoça agora? — Perguntou Lopus agora batendo forte na mesa fazendo com que seu irmão olhasse em seus olhos.

—Agora? — Argumentou Aron olhando assustado. — Aquele lugar deve estar lotado...

—E qual é o problema de um pouco de gente?

—Nenhum — respondeu ele baixando sua voz.

—Então porque não sobe?

— Eu prefiro ficar aqui...

Lopus cerrou seus punhos e respirou fundo. Ver seu irmão se excluindo do mundo de algum modo irritava ele.

—É por isso que você não tem amigos! Se você saísse um pouco desse lugar empoeirado e conversasse com alguém...

Aron ficou parado ouvido os sermões do irmão. Aron e Lopus viviam brigando por motivos bobos, as discutições já eram rotina na vida do dois. Mas por algum motivo Aron estava mais estressado naquele dia do que o comum. Foi então que num ato de raiva o menino se levantou e gritou com seu irmão como nunca havia gritado antes.

—Pelo menos eu não sou um atrasado! — Ele disse.

E por alguns segundos o silencio voltou a tomar conta da biblioteca.

Chamar alguém de atrasado na Torre dos Magos era mais do que uma simples ofensa. Todas as crianças da Torre dos Magos esperam pelo dia em que eles iram ascender, ou seja, atingir a idade ideal e liberar a magia de seus elementos. Assim depois do dia de ascender os magos da Torre decidiriam de acordo com a magia que a criança domina que tipo de mago elas se tornariam. Mas quando a criança atingi a idade para liberar a magia, mas por algum motivo não conseguiam libertá-la — como era o caso de Lopus, que já havia atingido a idade de treze anos a um ano — eles ficavam conhecidos com os "atrasados". Apelido que não passa de uma forma carinhosa de chamar a pobre criança de incompetente. Os atrasados além de serem uma vergonha para Torre dos Magos sofrem constantes ameaças de expulsão.

Aron sabia que seu irmão não gostava de ser lembrado de seu fracasso, mas mesmo assim o garoto continuava a reprisar o fato.

—Você tem agido estranho... — disse Lopus ofendido.

Aron não respondeu, ele se sentou e voltou seu foco para os livros.

—Desde de "aquele dia" você tem fugido de mim.

—Isso não tem nada a ver! — Respondeu Aron querendo encerrar o assunto o mais rápido possível.

—Eu também fiquei chateado, mas nem por isso eu parei de comer, estudar ou me escondi nessa biblioteca.

Aron encarou o irmão com um olhar agressivo, aquilo foi o bastante para Lopus notar o quão desconfortável era aquela conversa.

—Você pode tentar fugir dos seus problemas, — disse ele se virando para ir embora — mas uma hora você terá que enfrenta-los.

Assim Lopus partiu, deixando seu irmão sozinho mais uma vez na biblioteca.

O tempo passou devagar. Aron não conseguia mais focar em seus livros, o peso em sua consciência não o permitia. Ao invés disso o garoto encarava o vazio e relembrava dos tempos em que ele e seu irmão sonhavam em sair da Torre dos Magos. Infelizmente esse sonho morreu para Aron na última semana, quando os magos da Torre revelaram, no aniversário do garoto, que ele e seu irmão tinham sido encontrados na rua, abandonados, e sem ninguém para cuidar deles. Aron, ingênuo, sempre pensou que seus pais o deixaram na Torre por falta de opção e que um dia eles voltariam para leva-lo.

Não era à toa que o garoto estava arrasado, todos os sonhos de um dia deixar de ser um órfão e fugir da detestável Torre dos Magos haviam acabado. E agora a única dúvida que pairava na cabeça do menino era se realmente seus pais estavam mortos, ou se eles não o queriam como filho.

Foi quando, de repente, o som de uma corneta tocara tão alto que fizera a Sr.ª Nora acordar em espanto. A corneta simbolizava o fim do almoço e a retomada às aulas. Aron então recolheu suas coisas e subiu as escadas para continuar o resto de seu dia na Torre dos Magos.