Tormenta De Máquinas

2 Capítulo 2 - Robô Solitário


Notas iniciais
Esta noveleta não aborda Tony Stark e suas desventuras diretamente. Estou primeiro preparando o cenário para mostrar os gládios em seguida.

“O aspecto mais triste da vida de hoje é que a ciência ganha em conhecimento mais rapidamente que a sociedade em sabedoria.” Isaac Asimov

Melissandra abriu seus olhos castanhos. Demorou um pouco para se acostumar com a escuridão ao redor e com uma fogueira a crepitar entre pedaços de algas secas. Tentou se erguer, mais seus músculos gritaram de dor e ela se permitiu deitar mais uma vez. Alguém colocou um pouco de água nos seus lábios ressecados, e intimamente ficou grata pela ajuda.

Viu na linha do horizonte o sol se erguer. Um círculo alaranjado despejando suas luzes e calor sobre aquele deserto calcário de montanhas pontiagudas.

Mais disposta, a garota se sentou encostada numa pedra. Respirou profundamente o ar frio da manhã.

— Acordou. – disse uma voz familiar.

Ela ergueu os olhos e viu Antônio. Ele estava com um hematoma esverdeado do lado esquerdo do rosto. Seus cabelos lisos e negros em desalinho e coberto de poeira cinza. Os braços arranhados e em seu macacão sujeira de terra e sangue.

Mancou até ela e lhe entregou um copo com água. Ela aceitou e molhou sua garganta seca. Melissandra fitou as cinzas do fogo extinto, como que hipnotizada. Proferiu em devaneio:

— O que aconteceu?

Antônio sentou ao lado dela.

— Fomos atacados. Não diretamente, mas alguma coisa causou o terremoto.

— Meu pai, meu irmão... ?

— Voltei lá nos dias em que você estava desacordada. Tudo soterrado. A montanha em que estávamos não existe mais. Uma grande cratera se formou e engoliu tudo. Não encontrei...

— Meu pai, meu irmão... ?

— Os mineradores morreram, seu pai e irmão...

— Eles...

— Tivemos muita sorte. Fomos os únicos sobreviventes.

— Me leve... Me leve até lá... – Melissandra se levantou fazendo caretas de dor.

— Não é uma boa idéia. – disse ele erguendo-se e amparando a frágil garota. – não há nada que possamos fazer.

— Eu quero!

E isso encerrava o assunto.

Em silêncio, eles percorreram duzentos metros andando lentamente. Melissandra e Antônio depararam com uma enorme cratera. Em baixo, uma terra negra se misturava com rochas e pedras calcárias partidas formando lâminas afiadas. Ao redor, o chão parecia incerto e cheio de fendas. Pedras caiam, provocando ecos longos.

As pernas de Melissandra perderam as forças, e ela se entregou ao pranto e ao choro. As lágrimas banharam seu rosto e de sua garganta saia um gemido angustiante. Antônio aparou a queda e a abraçou com carinho. Ficaram ajoelhados, diante da destruição do fosso que provocara a morte de sua família.

— O que será de mim agora? – murmurou ela com o rosto enterrado no ombro robusto de Antônio.

— Devemos ir até Atlantika e informar o acontecido. Grupos de busca e inteligência irão averiguar o que aconteceu. Esse terremoto não foi normal.

Melissandra fez que sim com a cabeça. Ergueu-se e encarou Antônio com o rosto vermelho e marcado por lágrimas.

— Devemos ser fortes agora.

— Tem razão. Era o que meu pai iria esperar de mim.

Eles começaram a jornada de volta para Atlantika.

Uma semana se passou. Comiam o que encontravam, dormiam como podiam e falavam o mínimo possível. Melissandra tornou-se amargurada e distante. Chorava todas as noites, até que o cansaço a consumia, e assim adormecia.

Num dia ensolarado, atravessavam um vale estreito de sedimentos marrons. Um paredão de arrecifes em forma de uma mão gigante se pronunciava a frente. Estavam perto de Atlantika.

Antônio levantou a vista e olhou para nordeste. Uma cadeia de montanhas se formava naquela direção, envolta em neblinas pálidas. Melissandra acompanhou seu olhar.

— É lá onde mora o Solitário da Montanha?

— Sim. – respondeu Antônio com olhos tristes. – é lá onde se isola.

— Por que ele decidiu isso? Não seria mais fácil conviver com as outras pessoas?

— Isso eu tenho me perguntado sempre.

— Estranho ele.

— Ele é muito misterioso. Guarda objetos estranhos. Faz viagens que duram meses e até mesmo anos. – riu e coçou a nuca. – ele é o mais próximo de um pai que tenho.

— Sinto muito por ter dito que ele é estranho.

— Não tem importância. Quem sabe um dia eu não te apresente a ele. Verá que não é como os outros dizem.

— Não?

— É pior. – riu Antônio e deu um tapinha travesso no ombro dela. – vamos seguir, logo vai escurecer e não quero me perder nessa escuridão.

— Está certo. Vamos...

Escutaram o som de algo rasgando o ar. Parecia um novo terremoto.

Antônio correu e a abraçou com seus braços fortes de minerador. O chão não tremia, mas o vento tornou-se mais quente e pesado. Cheiro de óleo queimado impregnou em suas narinas. Com as faces banhadas em terror, se esconderam atrás de uma rocha cinza.

Os zumbidos tornaram-se mais agudos e acentuados. Melissandra e Antônio espiaram sobre a rocha e ficaram paralisados de medo com o que viram.

Uma frota de dez vespas metálicas sobrevoava o deserto. Tinha a formação de um V, e voavam em alta velocidade, emitindo um jato de fogo da traseira. Eram semelhantes a vespas, metal revestindo a lataria e dois braços mecânicos saindo da ponta. Grandes, estrondavam em rugido quando atravessaram o deserto e passaram por cima deles.

Sombras se projetaram, e por um momento o sol foi encoberto por aqueles monstros metálicos.

Melissandra se apavorou e agarrou os braços de Antônio enfiando os dedos no macacão dele.

O som da presença das vespas metálicas foi perdendo a força, mas o impacto da visão das bestas aladas continuou estampado em suas mentes e corações.

— Para onde eles... ? – sussurrou Antônio, mas sua pergunta se perdeu no medo.

— Eles estão indo para Atlantika! – gritou Melissandra horrorizada.

Logo, a face de todas as pessoas que ela conhecia se estamparam na sua frente. As crianças, os velhos, seus amigos, os conselheiros.... Não era uma cidade de combate, era uma cidade sobrevivente.

— Temos de avisá-los. – suplicou Melissandra apontando para a cidade perdida a quilômetros à frente.

Antônio não respondeu. Apenas fitou o horizonte, esperando que as vespas mecânicas voltassem e lhe tirassem a vida. Desabou sentado no chão, pôs as duas mãos no rosto e chorou copiosamente.

Melissandra segurou-o nos ombros e o sacudiu.

— Não desista. Não temos certeza de que a cidade será destruída. Eles podem passar diretamente sobre ela. As vespas... As vespas...

E ela desistiu de ter esperanças.

Ao longe, escutaram sons de explosão e várias cúpulas de fogo e fumaça subiram ao céu. O prenuncio da morte.

Para Melissandra, parecia escutar os gritos do seu povo. Do povo de Atlantika, que era consumido pelas chamas e pelas explosões.

Uma nova bateria de explosões se seguiu, e o céu claro do dia ganhou uma tonalidade relampejante de amarelo e negro.

Impotentes, escutaram o som de guerra ao longe.

— Vamos. Precisamos seguir em frente. – disse Melissandra puxando o braço de Antônio.

Forçado, ele se levantou e olhou as fumaças subindo que permeavam no horizonte azul. Viu-se forçado a encarar a realidade.

— Temos que ter certeza que não há sobreviventes. Se encontrarmos alguém com vida poderá precisar de ajuda.

— Não se dêem esse trabalho. – falou uma voz forte e velha.

Um homem de capa cobrindo todo o corpo surgiu subindo uma elevação. Vinha da direção de Atlantika. Ou do que restou dela após o ataque. Ele era alto, quase dois metros de altura, ombros largos. Seu rosto e corpo envolvido por um capuz desbotado e preto, com alguns remendos. Andava envergado, arrastando os pés.

Ele levantou a cabeça e mostrou um dos seus olhos azuis entre o capuz que encobria grande parte do rosto. Ao ver Antônio, seus olhos brilharam de alivio.

— Pensei que estivesse morto rapaz.

— Não... Não morri... – Antônio limpou as lágrimas com as costas das mãos. – a cidade... Atlantika.

— Destruída. – resmungou o velho. – o fogo queima como o inferno. Ninguém sobreviveu. As vespas atacaram de surpresa. Muitos foram pegos ainda dormindo, nem reagiram.

— Como...

— Como eles descobriram? – riu o velho com escárnio. – eles já suspeitavam desse local há muito tempo. O oceano pacífico ainda é o lar dos rebeldes que mais ameaçam a tirania do Usurpador. Noite e dia mandava seus robôs de vigilância para esse lado, coletando informações. Este maldito globo que chamamos de terra não é seguro enquanto esse desgraçado estiver vivendo.

O Usurpador, como era conhecido o deus máquina. Aquele que quer dominar o mundo, aquele controlado pela máquina suprema cujo nome é Ômega.

A rebelião tentava destruir o poder do Usurpador e de Omega, mas nunca chegou perto disso. Esta guerra durava duas décadas, e o deus máquina avançava seu poder e domínio sobre o planeta a cada ano que passava, destruindo cidades refugio como Atlantika. Destruindo os rebeldes e suas esperanças. Todo ser humano era considerado ameaça e tornado alvo para os predadores mecânicos do Usurpador.

- E quem é está jovem com você Antônio? – perguntou o velho perscrutando a jovem de cabelos encaracolados e castanhos.

- É a filha de Mormont. Melissandra, este você conhece como Solitário da Montanha. Eu costume chamá-lo de Robô Solitário.

- Robô Solitário? – inquiriu Melissandra estendendo a mão.

- É uma velha brincadeira desse aprendiz atrevido. – bufou o Solitário da Montanha estendendo a mão.

Melissandra notou que a sua mão era robótica. Fios e traços metálicos movimentavam-se automaticamente, fazendo um barulho suave de metal contra metal. Assustada, ela o encarou. Este estava sério e, depois que apertou a mão dela, a escondeu de novo sobre a sua manta.

- Você é um robô? – perguntou ela abobalhada.

- Não completamente. Chame-me de Eddard e esqueça esse apelido idiota. Vamos embora daqui antes que as vespas mecânicas sintam nosso cheiro.

Deu as costas e não esperou respostas. Seguiu para as montanhas cobertas de neblinas a nordeste.

- Está tudo bem? – perguntou Antônio colocando a mão no ombro dela, para confortá-la.

- Sim... Só não esperava...

- Sim. – murmurou Antônio. – este lobo velho guarda muitos segredos.