Toque de recolher
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O vírus foi devastador. A Terra foi dominada por... Eles. Estima-se que haja menos de 300 mil pessoas saudáveis no mundo. 150 estão escondidas na nossa colônia, um abrigo subterrâneo. Assim como diziam as lendas e livros, “eles” se alimentam de sangue humano, são vulneráveis a água benta, e principalmente, não andam de dia. Por isso, justamente enquanto o sol brilhava, aproveitávamos para pescar, colher frutos, caçar e tudo o que não poderíamos enquanto “eles” estivessem andando por aí. 7:00 da manhã o sino batia, e todos saiam da colônia para cumprir suas funções. Às 18:00 o sino badalava três vezes, era sinal para quem todos que estavam fora parassem o que estavam fazendo para voltar para a colônia. 19:00 horas, o sino soava apenas mais uma vez, era quando a passagem era fechada e escondida com grama. “Eles” nunca saberiam onde fica.
Eu era um cozinheiro, e queria continuar assim, mas sou caçador. Tive que me tornar um porque poucas pessoas se oferecem para tal cargo. Aquele era o meu primeiro dia. Eu estava frio, não sabia ao certo se era por medo ou ansiedade, talvez tanta ansiedade que eu não percebi o meu medo. “Deixa de bobagem, não há o que temer”. Eu ia apenas caçar animais, não ia enfrentar “eles”. O sino das sete já bateu há duas horas. Lá estou eu, entre as árvores com uma lança na mão procurando por qualquer coisa de quatro patas que eu possa mastigar (e não vice-versa). Um alce, parece distraído, essa é minha chance. Mando minha lança com toda a força, não atinge o animal na pele, mas passa perto. Ele percebeu que eu estava tentando mata-lo, e se enfureceu. A cena em que eu corria de um alce como se fosse um tigre foi lamentável.
Com o alce fora de vista, fui tentar caçar sem minha lança, torcendo para que uma faca de bolso seja o suficiente para caçar alguma coisa. Um javali bem gordo à minha frente. Me aproximo sorrateiramente, mas não tanto, já que ele me ouviu. Corri como se não houvesse amanhã, mas ele correu como se não houvesse hoje. Maldição, um animal a menos. Pensei em caçar algo menor. E eis que encontro um coelho, parecia bom, mas não me senti bem com a ideia de matar um coelho com minhas próprias mãos. Se aquele coelho fosse feio, ia facilitar as coisas pra mim. Deixei ele escapar.
Bate o primeiro sino. Droga, já são 18:00h... Demorei tempo demais para encontrar minhas presas e tentar caçá-las. É claro que eu poderia voltar com as mãos abanando e aguentar todas as piadas, seria mais fácil, mas eu tinha tempo. Uma hora era o suficiente para encontrar algo rápido e voltar, mesmo que fosse um coelho. E assim fui com a minha faca na mão procurar aquela criatura que eu não tinha vontade de matar. No caminho, pisei em falso, e caí em um buraco. Fiquei desacordado por algum tempo. Acordei com o soar do sino das 19:00. Foi assim que eu me senti o homem mais idiota do mundo. “O que está acontecendo aqui?” Olhei ao meu redor, eu estava em um grande buraco no chão. Claro, uma armadilha, alguém com tão pouca experiência, mas mais inteligência pensou em um modo bem mais simples de caçar. Queria ter pensado nisso.
O cheiro de alho me incomoda muito, tem muito por aqui. Espera, essa não é uma armadilha para animais, era para pegar um d’eles. Ouço uma risada feminina vindo da beira do buraco.
— Maldito, você é um d’eles, não é?! – dizia a jovem mulher — Um contaminado como você matou quase toda a minha família, e agora, você vai pagar por eles. Ela pegou uma estaca de madeira, percebia-se sua fúria e sangue nos olhos.
— Calma, eu não sou um deles. Sou humano, eu juro. – Eu dizia
— Então prove!
— Apenas olhe o lugar onde estou. Tem alho por todo lado, se eu fosse um contaminado, não teria sobrevivido.
— Sim, é verdade – ela dizia enquanto abaixava a estaca – Não acredito que foi tão idiota. Essa armadilha é para “eles”. Se virou com cara de desprezo e seguiu.
— Ei, espera, me tira daqui – Eu gritava desesperadamente – Por favor, me ajuda.
Coloquei as duas mãos sobre minha boca rapidamente. “O que estou fazendo”, pensei. Aquela garota me achava um idiota, eu deveria provar o contrário pra ela, e não confirmar o que ela achava. Gritar só atrairia “eles”.
Minutos depois fui recompensado por minha paciência. A garota voltou, trazendo uma corda. Depois que fui puxado daquele buraco imundo, resolvi agradecer. Pena que o abraço não agradou muita ela.
— Ei, me solta. Não fiz por você, fiz por mim. Se continuasse lá, um d’eles ia te achar em pouco tempo, e eu não vou deixar você alimentar aqueles monstros.
— Mesmo assim eu preciso te agradecer de alguma forma. Eu cozinho bem, quer que eu prepare alguma coisa?
— Quer mesmo me agradecer? Não vire alimento dos contaminados. Volte para a sua colônia e se proteja. Onde ela é?
— É uns 40 minutos daqui. Vou andando. Até mais.
— Espera, eu vou te acompanhar. Se ir sozinho, é provável que vire comida. Eu te protejo.
— Muito obrigada moça, qual é o seu nome?
— Aline, e o seu?
— Elvis – Respondi cheio de orgulho.
— Não me vem com piadinhas numa hora dessas.
— Mas é sério. Bom, era Luís antes da epidemia, mas você sabe, não há muitas regras hoje em dia. Na minha colônia, cada um pode escolher o nome que quiser. Prazer, Elvis Skywalker.
— Eu não vou apertar sua mão.
— Tá bem.
Passamos algumas árvores, um protegendo a retaguarda do outro. Meu medo era muito, mas não queria demostrar, não queria que além de burro ela me achasse medroso. Alguns susto aqui e outros ali, mas todos causados por animais. Até que vimos dois homens lutando. Era possível ouvir um grunhido monstruoso do meio deles. Aline me fez sinal de silêncio, e mandou eu prosseguir lentamente.
— Devemos ajudar – eu disse cochichando – Um deles é contaminado, e o outro é humano. Não sabemos quem é quem, mas devemos descobrir e ajudar.
— Ambos são contaminados.
— O que? – Dizia eu com um olhar de espanto – Isso não faz sentido. Por que iriam lutar entre si?
— Concorrência. Quanto mais d’eles, menos de nós. Humanos estão quase extintos. “Eles” são egoístas, e não querem dividir o alimento com outros monstros sanguinários.
— Isso é terrível, agora entendo por que desconfiou de mim. “Eles” estão muito parecidos fisicamente com humanos saudáveis, não dá pra diferenciar. Jackie tinha razão.
— Quem?
— Jackie Safadão, meu irmão mais velho. Ele tem muito mais experiência pesquisando sobre “Eles”.
— Ah, meu Deus!
— Nossa, você conhece meu pai?
— Não, foi só uma interjeição. Esquece, vamos antes que nos vejam.
Alguns metros depois, chegamos perto de uma caverna.
— Vamos pelo caminho do rio – Eu disse a ela – É mais seguro e mais perto.
— Você é novato, não é? – Ela disse com uma risada irônica – Todos sabem que pelo caminho do rio há ervas que expelem um aroma sonífero. Dormir só vai poupar trabalho para “eles”.
— Claro que eu sabia – respondi – meus parabéns, você passou no meu teste. Está apta para ser a guardiã oficial da colônia.
— Não quero ser guardiã da sua colônia. Aliás, não quero nada na sua colônia, só quero te levar seguro e voltar pra minha vila.
Ainda não consegui provar a ela que eu era inteligente. Estava tentando arranjar um modo de conseguir isso, e não ia desistir. Seguimos pela caverna. Estava bem escuro, mas não havia o que temer. O bravo e valente herói iria proteger a delicada donzela a todo custo. Eu era a donzela. Eu dei a ideia de passarmos de mãos dadas para ela não se perder de mim, mas minha ideia não foi bem aceita. E lá estávamos nós, fora da caverna. Senti um alívio imenso. A passagem secreta para a colônia estava lá, escondida em baixo de grama falsa, há dois passos de distância de mim. Era muita a alegria que eu sentia. Queria beijar o chão, me beijar, beijar Aline.
— Pronto. Agora que chegou, vê se não age como idiota e volta pra casa no horário – Ela disse extremamente séria.
Antes de ir, eu gritei seu nome.
— Aline, espere. Eu não sou tão idiota quanto pensa. Eu sei que não há ervas com cheiro sonífero perto do rio. Não precisa muita inteligência para isso. Muitos pescadores foram até lá e todos voltaram bem. Nunca ouvimos relatos de coisas assim.
Aline deu um meio sorriso de leve, mas não disse nada. Então continuei.
— Você quis pegar o caminho mais longo para se proteger. Sabia que pelo rio eu veria seu reflexo na água, ou nesse caso, a falta dele.
Ela se virou, e pela primeira vez não me olhou de cima pra baixo. Viu em mim um ser inteligente. Estava admirada.
— Você é um d’eles? – indaguei – Não, espera. Isso não pode ser uma pergunta. Você é um d’eles! Uma contaminada! Uma vampira! Não sei qual o termo vocês acham politicamente correto. Por isso usa estaca para caçar os contaminados, quando seria bem mais prático usar poucas porções de alho. Não dá pra ferir a si mesma acidentalmente com estaca, mas usar alho seria suicídio.
— Achei que nunca fosse perceber, Elvis.
— Eu já havia percebido. Só não queria acreditar. Agora você vai me matar para manter seu segredo, eu sei. Mas pelo menos vou morrer sendo visto como um homem racional.
— Continua tolo e ingênuo. Eu não vou te matar, garoto. Você é jovem, Vai procriar e proteger os saudáveis. Será mais útil vivo que morto. Sou a única que sei onde vocês se escondem. De tempos em tempos eu vou voltar para buscar alguém e sugar o sangue até a morte.
— Não se preocupe. Eu vou esperar você aqui pra te matar. Pode escolher o jeito. Estaca, alho, água benta, ou te deixar amarrada aqui fora em plena luz do dia.
— Vai ser divertido brincar com você. Cuida dos saudáveis por mim.
Em poucos segundos ela desapareceu. Ainda era grato por ela, mas sabia que naquele dia, uma eterna caçada ia começar. Bati na porta secreta do chão, mas não quiseram me atender. Não os culpo, as regras são claras quanto a abrir a passagem depois das 19:00 horas.
— Sou eu, Elvis – gritei.
Euvi uns cochichos pouco depois, e em segundos um guarda com lança saiu de lá e me entregou uma cabeça de alho.
— Coma, temos que ter certeza que você não está contaminado.
— Só o fato de eu tocar nesse alho já prova que sou um humano comum.
— Obedeça – ordenou o guarda.
Coloquei o alho em minha boca, arranquei um pedaço grande e comecei a mastigar com uma expressão não muito boa.
— Por que essa careta? – Perguntou o guarda – Não está gostando? Você é um d’eles, não é?!
— Claro que não, já experimentou essa coisa? Vai, morde um pedaço.
— Não precisa, se você ainda está vivo, só pode ser humano.
Ele ficou empolgado em saber que eu havia voltado me levou para a base subterrânea onde todos me olhavam espantados, alguns ainda achavam que eu era um dos mortos-vivos. Até que o guarda colocou a mão no meu ombro e disse:
— Não se preocupem, Elvis não morreu!
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