Tome Tenência, Rapaz

14 Assumindo as Responsabilidades


Caíque chegou bem humorado à pensão da tia Judite, e como de costume foi logo perguntando das novidades. A bagunça que haviam feito no dia anterior já começava a reverberar pela cidade, e tinha ouvido dizer que Quinzinho tivera que ser transferido a um hospital m outra cidade a fim de ser operado após a queda. Ju, Karol e Neuzinha não disseram muita coisa e a toda hora trocavam entre si olhares maliciosos, mas Caíque não ligou, pois elas estavam sempre fazendo assim. Com calma, digitou no celular a mensagem para Rosana, convidando a namorada a ir se encontrar com ele na sorveteria.

Estranhou a demora na resposta. Mandou nova mensagem, e ela respondeu lacônica, dando uma desculpa para não ir. Caíque achou aquilo esquisito, e agora os risinhos das três regateiras da pensão parecia ter ele como alvo. Ficou um tempo calado, sem querer conversa, e resolveu sair para dar uma volta.

Qual não foi sua surpresa ao encontrar Rosana na sorveteria, acompanhada de amigos. Ela também levou um susto ao vê-lo. Caíque não encontrou as palavras de imediato, mas ela começou a balbuciar qualquer coisa.

— Oi Caíque... sabe... não tava a fim... é, eu queria terminar...

Sério, Caíque perguntou o que acontecera para que ela se desagradasse dele, mas Rosana continuou reticente.

— Nada não, é que eu sou assim mesmo...

Caíque notou o olhar duro dos rapazes que a cercavam, quase todos haviam estado no dia anterior na fazenda onde acontecera o acidente de Quinzinho. Sentindo o clima hostil, afastou-se e caminhou confuso pelas ruas até retornar à pensão de tia Juliana. A prima Márcia estava lá e dirigiu-se a ele com ar de quem já sabia de tudo.

— Oi Caíque, olha, o pessoal anda dizendo umas coisas de você... falaram que você empurrou o Quinzinho e fez ele cair se machucar.

— Mas foi ele que fez merda! — Replicou Caíque, indignado — Eu falei para ele ficar longe, mas ele veio para cima de mim e esbarrou, aí os dois cavalos empinaram e ele caiu! Não tive culpa nenhuma!

— É, mas eles estão dizendo outra coisa... Estão falando das coisas que você fazia antes de vir para cá, e estão pensando mal de você... O pai da Rosana já não gostava de você por causa disso.

— E ela terminou comigo! Mesmo ela tendo visto tudo e sabendo que eu não fui culpado!

— É, mas o pai dela fez a cabeça dela, os amigos também... Olha, Caíque, é melhor você deixar a poeira baixar.

— Mas eu não tive culpa, tenho que falar isso, senão o pessoal vai ficar pensando outra coisa!

— Caíque, você está nervoso! A maioria está contra você, olha, não vai fazer besteira!

Caíque fingiu acolher as palavras da prima, e saiu para caminhar, a fim de acalmar-se. Mas quanto mais andava, mais furioso ficava. O pessoal ali era bem falso, e Rosana não era diferente. Muito riquinha e muito besta, devia ter notado isso antes. Após vagar pelas ruas ruminando palavras, passou de novo em frente à sorveteria e notou que Rosana não estava mais lá. Sem pensar bem o que fazia, entrou e pediu um sorvete, fazendo questão de ficar bem próximo da turma que não gostava dele. Sentiu os olhares enviesados a sua volta, e devolveu também um olhar duro. Fez-se silêncio, e o clima não demorou a ficar insuportável.

— Não quer saber como está o Quinzinho? — Provocou um rapaz alto com chapéu de vaqueiro, talvez primo de Rosana.

— Já sei, fez cirurgia — Respondeu Caíque, ríspido — Vamos ver se não faz mais besteira daqui para frente!

Ouviram-se murmúrios ao fundo. O rapaz alto voltou a provocar:

— E vê se você também não faz mais besteira! A gente não gosta de marginal aqui!

Caíque surpreendeu-se com a própria calma ao responder, como se estivesse dentro da tela de um filme:

— Se você está a fim de porrada, vamos lá fora, que aqui pode quebrar coisa!

Imediatamente a turma dos fundos começou a gritar incentivos, enquanto os demais clientes se afastavam.

— Isso, se querem brigar, vão lá fora! — Disse o dono do estabelecimento.

— Vai só um! Dois contra um é covardia!

— Pode deixar, só eu já basta! — Disse o rapaz alto, tirando o chapéu e o casaco.

Foram para a calçada e imediatamente começaram a se esmurrar, cercados pela turminha que queria ver o circo pegar fogo. Caíque não demorou a notar que seu contentor tinha mais língua do que músculos, e mandou ver, mal sentindo os golpes que recebia. Em determinado momento caiu junto a uma mesinha, o outro veio para cima dele, mas Caíque repeliu-o com um pontapé tão forte que ele foi parar além do meio fio. Levantou-se, mas sentiu-se agarrado por um adulto forte que chegara naquele momento, enquanto outros cercavam o rapaz.

— Acabou, seus moleques! Para agora ou vai todo o mundo para a delegacia!

A briga terminou em meio à balbúrdia, mas só de olhar Caíque podia perceber que tinha levado a melhor. Retirou-se pisando duro, satisfeito consigo mesmo. Mas no meio do caminho de volta à fazenda de tia Rita, já estava arrependido. Mais uma vez fizera jus à fama de arruaceiro. Mas ele tivera motivos, não tivera? Ia dizer isso bem claro para a tia, mesmo porque não poderia esconder os sinais da briga na roupa, e alguém ia contar para tia Rita de qualquer maneira.

Mas quando defrontou-se com a tia, sentiu uma súbita mudança de humor. Não era mais a mesma pessoa. Muito calmo, sem querer botar banca de que tinha razão, contou tudo a respeito da briga, sem esconder que fora até lá com este propósito. Tia Rita também mostrou-se estranhamente serena, e Caíque teve até a impressão de que ela estava satisfeita com ele quando começou a falar:

— Bom meu filho, você viu como NÃO SE DEVE resolver uma pendenga, não foi? Um dia você vai aprender como SE DEVE resolver uma pendenga, mas por enquanto você já aprendeu que quando a gente toma uma atitude errada, deve-se assumir a responsabilidade! Você já está um rapaz e eu tenho certeza de que você vai saber assumir a responsabilidade do que fez, porque você já mudou bastante desde que veio para cá e a sua mãe está satisfeita com você.

Caíque fez sim com a cabeça, sem mostrar medo ou revolta. A tia não precisou manda-lo, e ele se dirigiu ao quartinho onde guardavam arreios dos cavalos. Baixou a calça jeans suja da briga, e sentiu no traseiro o chicotinho de couro trançado com duas línguas na ponta, que os peões da fazenda chamavam taca, e a tia brandia pausadamente, uma, duas, três vezes, até Caíque perder a conta. Só escutava o deslocamento de ar seguido do impacto, mas fazia força para permanecer imóvel e calado, lembrando-se das palavras da tia: ele era um rapaz e tinha que assumir a responsabilidade do que fizera.

Mais tarde, na cama, passando um pano molhado no traseiro, Caíque rememorava os acontecimentos do dia, que passavam por sua cabeça como um filme. Estava desapontado por haver perdido a namorada e a calma, mas satisfeito por ter sabido arcar com as consequências. Experimentou uma sensação de orgulho ao constatar que ele tinha força moral tanto para enfrentar na briga alguém mais forte, quanto para aguentar sem manha o justo corretivo aplicado pela tia.