Tola

4 IV - O Sábio Anticristo


Mal percebi quando o empurrei, peguei a espada e apontei para sua cabeça. Não importava que fosse um rostinho bonito, nenhuma distração seria boa o suficiente para me fazer esquecer o que deveria fazer enquanto estivesse lá.
O homem estremeceu, apavorado com a minha impulsividade ou talvez por saber que, se eu quisesse, não iria hesitar em cortar sua cabeça fora.

— Levanta. – Mandei, aparentemente em vão, pois ele continuou me olhando como um idiota. – Levanta!

Na segunda vez, obedeceu, se levantando e colocando suas mãos em sua cabeça. Demorou para processar a informação, e mesmo naquela situação, sorriu para mim. Arqueei minha sobrancelha, não perderia tempo imaginando as razões para sua reação. O tempo era precioso, e eu não iria perder nem um pouco dele.

— Vamos. Ande. – E comecei a empurra-lo para dentro da pequena casa de madeira. Era empoeirada, claramente precisava de uma boa limpeza. Pisei em um bichinho de pelúcia, me assustando por isso e dando uns passos para trás. Será que ele morava com uma criança? Provavelmente. Não conseguia o imaginar como sendo dono daquilo, não por sua aparência. Riu de mim, de novo, e fiz um pequeno arranhão em seu rosto.

— O que é, Bobo da Corte? Pareço engraçada para você? – Tentei soar o mais ameaçadora que conseguia, eu tinha que ao menos tentar ser, já que, se tudo desse certo, a proteção do rei estaria em minhas mãos.

— Não é todo dia que se vê uma garota tão pequena fazendo um homem como refém. – Revirei os olhos com o comentário, é, definitivamente bobo.

— Não é todo dia que se acha um homem cego ao ponto de achar essa uma prática tão incomum. – Retrucou, ele não deveria duvidar da força que eu sabia que tinha, de minhas habilidades. Eu podia o surpreender se quisesse, e achava que já tinha surpreendido.

Assim que achei aonde ficaria seu quarto, fiz com que se sentasse na cama desarrumada em que deveria dormir, colocando um travesseiro em seu rosto e ordenando em um tom ríspido.

— Aperte contra sua face, se eu vir que não está fazendo conforme eu mandei eu vou arrancar sua cabeça fora. — Não tinha tempo á perder, fui vista e estava na casa da pessoa que estava tentando roubar, não podia perder mais um segundo do tempo que tinha.

Quando obedeceu, abri seu armário e tirei a camisola que ainda usava. Já estava rasgada e fedida. Mal parecia que estava em um estado decente quando a vesti. Coloquei uma de suas roupas, uma simples vestimenta branca com botões e calças largas em um tom amarronzado. Achei uma fita para amarrar na gola da e ajustei suas mangas, pegando mais algumas de suas roupas e saindo de fininho do quarto em seguida.

— Já posso tirar?! — O ouvi gritando de dentro da casa quando já reunia todas as coisas que tinha pegado para poder seguir viagem, e por mais bobo que fosse, me senti grata por ele não ter olhado.

~*~

Consegui um cavalo pouco tempo depois, furtando um estábulo onde, dessa vez, não me incomodei com pessoas que pudessem me atrapalhar.
A viagem foi longa, cerca de dois dias onde não aconteceu muito o que valesse á pena mencionar, e agora, dentro do reino e cavalgando com certa empolgação, eu mal conseguia acreditar em meus olhos.

Música. Era um lugar com cantoria e uma felicidade com a qual deixei de estar familiarizada. Crianças corriam, brincando de pega-pega enquanto seus distraídos pais colocavam o assunto em dia, o cheiro de pão fresco parecia invadir minhas narinas de um modo que a impressão era a de que estava por todos os lugares.

Mercadores anunciavam com uma voz alta e forte o que tinham á oferecer para venda, era uma animação assustadora, avassaladora. E eu não podia fingir que não gostava.

Parei em frente de um estabelecimento relativamente grande, teria de conseguir um lugar para ficar até que a competição pudesse se iniciar, havia treinado, o tempo todo, para que eu pudesse sustentar o meu disfarce. Conseguia engrossar minha voz com mais naturalidade sem me importar com minha garganta dolorida após o ato, aguentava a faixa que apertava os meus seios, já roxos por usá-la durante a maior parte de meu tempo.

As roupas vieram á calhar, como eram levemente largas, disfarçavam bem os resíduos de meu corpo feminino, qualquer um poderia me confundir com um garoto, um garoto magrelo e baixo, mas um garoto.

Ao menos, era o que eu achava, ainda não havia interagido com ninguém para ter certeza de que cairiam em meu "charme masculino". Ou, pelo menos, se confundissem com o que eu poderia possivelmente ser.

Parei em frente á uma casa relativamente grande que acreditava estar aceitando hóspedes, gastaria o pouco do meu dinheiro desonesto ali, me preparando para a competição que teria de enfrentar para que pudesse usufruir das regalias que estivessem em meu alcance caso ganhasse.

Entrando no estabelecimento, me deparei com uma senhora de cabelos grisalhos que parecia ser a atendente conversando com uma menina um pouco mais jovem do que eu. Ambas riam, entretidas com o que é que seja que estavam fofocando sobre.

Olharam para mim simultaneamente, a garota insatisfeita pela conversa ter sido interrompida e a senhora com certa indiferença.

— Olá, como posso ajudá-lo? — Não podia mentir que ouvir o pronome ter sido dito no masculino arrancou um sorriso aliviado de mim. Eu estava convincente, ao menos para a senhora.

— Gostaria de saber os preços de vocês, preciso de um lugar para uma estadia de uma semana. — Estava tão perto, e eu nem conseguia acreditar em quantas loucuras já tinha feito em um período de tempo tão curto. Dizer meus objetivos foi desnecessário, ela já supôs quais eram e arregalou seus olhos por causa disso.

—Você está aqui para a disputa real? Para assumir a guarda do príncipe? — Era como se não conseguisse imaginar, não a culpava, não era uma pessoa forte. Carregava uma espada grande de mais para mim e estava desarrumada e com um rosto cansado, consequências de minha jornada e de minhas poucas horas de sono. Meio sem graça, nem abri a boca para responder a pergunta, apenas assenti com um aceno de cabeça.

— Não lhe culpo por ter tomado essa decisão, é de fora e não conhece o sujeito, mas se fosse você daria meia volta e iria embora. Não acho que gostaria de aturar uma pessoa como ele nem por segundos. — Arqueei minhas sobrancelhas, como assim? O príncipe era odiado pelo seu próprio povo?

—O que ele fez? — E por um momento pensei que as duas fossem cair na gargalhada, como se essa fosse a coisa mais óbvia, como se eu já devesse saber disso. Apesar de tudo, não podia mentir, o príncipe era um mistério pra mim.

Jamais havia parado para pensar, pensar em como ele seria. Feio? Bonito até de mais? Talvez fosse gordo, era da nobreza e devia ter acesso á muita comida, e da melhor qualidade. Imaginei se seria rebelde, mimado, mal educado ou se era um covarde. As possibilidades eram infinitas.

— É mais fácil perguntar o que ele não fez. — A outra menina finalmente se pronunciou, cruzando os braços e assoprando uma mecha de cabelo rebelde que parecia insistir em cair em seu rosto.

— O príncipe questiona a religião, questiona as tradições e age como se fosse esperto. Já interviu em muitas decisões políticas que poderiam ter sido boas para o povo, discutiu com sábios de respeito e fez a maioria de suas pretendentes desistirem dele. Jamais nenhum príncipe mostrou tantos problemas para aceitar um casamento e muito menos foi tão imoral com todos. Vossa majestade jamais se coloca no lugar dos outros, pobre é o rei que atura aquele menino. — Pisquei, absorvendo cada palavra. Ele questionava a fé? Parecia uma loucura, não que eu achasse errado, mas a Igreja poderia acabar com ele em um piscar de olhos.

Sentia que o príncipe ainda conseguiria fazer com que pudesse ficar intrigada.

— Ainda tem tempo para deixar para lá, não se preocupe. — Quase ri quando me falaram isso. Deixar para lá? Nunca. Não havia chegado tão longe para simplesmente dar meia volta e "deixar para lá".

Não falei nada, apenas coloquei algumas moedas na mesa como resposta de minha decisão. Recebi um olhar de nojo em resposta e uma chave que foi praticamente jogada em mim, como se ela tivesse a cuspido.

Apenas sai dali em passos rápidos, procurando o quarto de número "3" como era dito na chave. E quando o encontrei, deixei minhas coisas no chão do lugar e me despi.

Queria me reconhecer, não teria muitas chances de fazer isso quando tudo começasse. Olhava meu corpo, meus seios judiados pelas minhas preparações rigorosas, minha cintura, minha barriga, a pele assustadoramente pálida que sempre tive... Tudo que eu teria que deixar pra trás, por muito e muito tempo.

Contudo, só conseguia pensar em vossa majestade, e se ele seria tão ousado quanto diziam ser.

Notas finais
O maior medo de uma pessoa é morrer, isso é, até ela conhecer algo que chamamos de "química". É um sufoco, é horrível, sinto muito por estar sendo tão irresponsável e por deixar vocês esperando por tanto tempo ;; Torçam para que a escola consiga dar mais algumas folgas para mim, porque, caramba viado, tá difícil.