Tola
2 II - Adeus, Víboras Negras
O jantar foi o mesmo naquele dia, é claro, tirando que eu ainda carregava o anuncio comigo, e também as encaradas raivosas que recebia da adolescente raivosa e curiosa.
Ninguém falava nada, o cheiro de pão quente era o maior prazer que tínhamos naquela mesa, mesmo que eu não pudesse comer, afinal, os pães eram de Margot e de sua mãe. Elas precisavam mais.
— Como está papai? – Finalmente, o silêncio foi quebrado. Ele não conseguia mais se levantar da cama fazia um bom tempo, e nós duas havíamos perdido a coragem de entrar naquele quarto, pois, toda vez, aquilo sugava a nossa alegria e bem estar.
Sabíamos que ele estava no fim de sua vida e tínhamos medo que ele morresse enquanto estávamos lá dentro, por mais mesquinho e egoísta que isso possa soar.
Ao ouvir a menção feita ao marido, o rosto jovem e tão bonito que ela possuía se encheu de uma tristeza que machucava, uma tristeza mais intensa do que estávamos acostumadas. Ficamos sem uma resposta, era arrepiante a mudança de comportamento, começou á comer mais rápido e tentou fugir da mesa para, talvez, evitar o assunto. Isso não iria acontecer.
— Mãe, como está o papai? – O seu tom de voz se engrossou, ficando carregado com uma preocupação pesada, a resposta já estava clara, muito clara, mas não queríamos ouvir que estávamos certas. Senti a garganta secando, e antes que eu percebesse, Margot já havia se levantado e derrubado a cadeira no chão.
Como ela estaria lidando com a sensação de perder um pai? Doeria mais do que doeu quando eu perdi os meus dois?
Basta. Eu não queria voltar á me lamentar por eles, na minha cabeça, aquela voz havia voltado, a que me dizia as verdades que eu tinha tanto medo de aceitar e abraçar.
“Se você não fizer nada, você é a próxima. Se você continuar miserável, vai adoecer e vai morrer.”
Me levantei correndo, eu sabia o que tinha que fazer, e não podia adiar. Eu tinha que me salvar, porque ninguém jamais faria isso por mim. Eu me apressei em ir até o quarto que o recém falecido estava. O encarei por um tempo, que pareceu mais curto do que realmente foi, roubei a espada velha que ele possuía na gaveta e parti.
Corria pela vila, sem rumo, com uma camisola e a apertando com tanta força que sabia que ficaria com marcas em minha mão por causa da bainha.
Luzes, pessoas encarando a cena incomum de uma garota com uma arma, os pés descalços tropeçando um no outro e pisando no solo. Era incrível o modo que eles não compreendiam a cena, estranhamente prazeroso, aquelas pessoas tristes e vagando pela noite, cada uma com objetivos diferentes, nenhum igual ao meu.
O medo, a adrenalina, eu não andava. Eu corria, virando a noite que eu tanto temia, e era tão louco que mesmo com a dor da perda eu conseguia sorrir. Sorria porque eu tinha pavor de sair quando o império da noite reinava e estava viva e confiante, e caindo.
Eu estava caindo, não, rolando. Céus, tropecei.
Apenas mais uma coisa que acontece quando eu deixo a minha mente tomar conta do meu corpo, havia perdido a noção de quanto tempo corri. E agora, aqui estou eu, no meio do campo de maçãs que Margot sempre vem, dentro de um lago frio e completamente encharcada.
Mal consegui sair, senti o frio devastador. Me arrastei para a borda e comecei á me olhar junto com a lua, que refletia-se na água, imagino se a lua é vaidosa e se gosta de admirar sua própria beleza durante toda a noite.
Acariciei meus cabelos, negros como o carvão, já passavam de minha cintura. Estava acostumada com os elogios que recebia por causa deles, com as crianças que gostavam de fazer tranças e com as dificuldades que sempre enfrentava para mente-los limpos.
Aquele seria o meu “adeus” aos meus cabelos, que sempre foram os mesmos durante toda a minha vida. Talvez o “adeus” para mim mesma, por um tempo que não sei bem descrever a duração. E assim, cortei, as mechas se transformando em cobras á primeira vista, escuras, que assustariam as pessoas que as vissem de longe antes de perceberem que só era cabelo.
Um barulho quebrou aquele momento, e eu me apressei, tirando alguns fios de cabelo molhados que haviam se grudado em minhas roupas e me escondendo no primeiro arbusto que achei pela frente.
~*~
Em seguida, Margot chegou naquele lago. Merda, o que ela estava fazendo ali? Não havia momento pior para ela aparecer naquele lugar! Eu apenas torcia mentalmente para que ela cadáver do pai!
— JULIETT! – e o grito que ela deu me fez estremecer, ela já tinha notado que eu saí? Mordi meu lábio inferior e cessei a minha respiração, e fechei os olhos para que não tivesse que a ver chorando, mas eu ainda ouvia bem aqueles barulhos, fungos e soluços altos. – ..Juliett. Aonde você tá?
Agora havia entendido, céus, é claro. Margot ela sozinha, Margot sempre foi sozinha, e agora que o pai morreu ela precisava de apoio, e é claro que a mãe dura e cheia de problemas não teria a paciência de sequer ouvir o seu pranto e o que tinha á dizer. Ela me queria porque ela sabia que eu iria ouvir.
Perdão, Margot, não sei se posso mais te ouvir.
Ela se agachou no leito do lago, colocou a mão na água e a levantou em seguida. Meus cabelos molhados se prenderam em seus dedinhos e se levantaram da água, como se fossem uma criatura se levantando do sono, isso fez com que ela se assustasse e começasse á mexer a mão de uma maneira frenética, se livrando rapidamente daqueles rastros de minha velha identidade.
— Isso não é uma brincadeira! Juliett, por favor, aonde você está? Eu preciso de você agora! Não tenta brincar comigo logo agora! Não tenta fazer graça, eu perdi meu pai, porra! Meu pai morreu! – Eram berros, berros que me tiravam o ar como se ela sugasse o oxigênio do mundo para falar. Os meus olhos marejaram, engoli o choro e mordi meu lábio inferior, com uma força exagerada, tanto que senti meus dentes perfurando minha carne.
Desde quando éramos tão parecidas? Desde quando ela se tornou a menina chorona que pedia os pais de volta para Deus que eu fui um dia? Pensar que ela sentia a dor que eu havia sentido, como poderia ser tão cruel e dar as costas para ela?
Como consigo ser tão cruel e dar as costas para ela? Abaixada, eu me esgueirei e alcancei a espada, que não estava muito longe de mim, e comecei á tentar manter o silêncio o do lugar para poder escapar. Eu estava indo bem, até que a espada esbarrasse em uma arvore e acabasse presa ali. Caramba, como aquela porcaria conseguia cortar tão bem mesmo sendo tão velha assim?
— Juliett? – Ela sussurrou baixo, olhando para os lados, confusa, felizmente, ela não parecia ter certeza de onde o barulho havia vindo. Porém, a tensão do momento não diminuía de maneira alguma, e ainda pesava em minhas costas de um jeito insuportável. O que não faria pra que ela pudesse simplesmente desaparecer dali?
Eu tinha que parar de me questionar, de fazer perguntas para mim mesma e pensar de mais. Eu só precisava sair dali, dar um jeito de desaparecer, se ela me pegasse, tudo estaria perdido.
Foi aí que ouvi o som de passos ficando mais intenso, mais alto, mas Margot estava parada...
Mais alguém estava vindo.
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