Tokumei Sen
1 Capítulo 1
Você acredita em anjos? E em demônios? Sabe, se eu não acreditasse seria idiotice, pois sou metade anjo e metade demônio. Imagina que sua mãe seja um anjo e seu pai um demônio, ou vice-versa, então você nasce com sérios problemas de personalidade, uma asa preta e outra branca, transformações corporais e o pior: durante a sua vida inteira, repito inteira você passará por testes para ver se vai para o céu ou para o inferno. Isso acontecerá quando fizermos 18 anos, o que irá demorar muito.
Tá, mas esse ainda não é o ponto. Esses testes constituem em caçar demônios, o que te torna um herege, porém um bom anjo. Além de ter poderes e imortalidade e o que mais? Ah, nós temos o envelhecimento meio retardado, ou seja, envelhecemos de uma maneira bem mais lenta do que as pessoas normais.
Certamente você está se perguntando quem sou eu, não é mesmo? Sou o Matt, Matheus para ser mais exato e meus melhores amigos me chamam de Du (o porquê desse apelido é uma longa história). Sou um nefilim e tenho dezesseis anos, a mesma idade há 143 anos, assim como os meus amigos. Fizemos um pacto... um pacto há muito anos, para que tivéssemos ligações, não apenas mentais, mas também conectamos nossas almas e agora não nos separamos nunca, somos como irmãos, mesmo quando estamos longe, conseguimos conversar normalmente.
Nós nos criamos juntos, até porque nossos pais nunca se importaram conosco. Simplesmente crescemos juntos cuidando uns dos outros. Vivemos na terra com uma pequena ajuda da Maya, um anjo, a nossa única ligação com o céu, pois Deus não gosta muito de se comunicar com as pessoas e o Diabo nos odeia bastante, afinal, nós matamos todos os demônios que encontramos. O que mais gostamos de fazer é matar esses filhos da mãe que não servem para nada além de matar seres humanos e dar uns pegas neles. Alguns são até que bem sedutores, mas em minha opinião os anjos são mais bonitos, odeio vermelho, se bem que também odeio azul prefiro roxo, mas como ninguém é roxo então não importa.
Nós somos cinco: Vinicius, Gabriela, Juliana, Giovanna e eu. O Vinicius (ou Vini, como o chamamos na maioria das vezes) é meio bobão e extrovertido, mas gostamos dele mesmo assim. Ele é um garoto muito especial e feliz, tão feliz que chega a ser chato. Quero dizer, quem fica feliz de manhã? É, o Vi fica muito feliz de manhã. Mas ele é bom e legal com todos, o tipo de pessoa que você pode contar a qualquer momento. Muitos, quando o veem acham que ele é de uma família feliz, mas nem tanto já que na verdade a vida dele é uma bagunça. Igual a mim, ele foi largado na porta de uma família adotiva. Não me leve a mal, todos nós fomos criados por ótimas famílias que realmente nos amaram, mas saber que nossos pais de verdade nos abandonaram não é muito legal. E aí veio o incêndio, o Diabo mandou matarem nossas famílias para que nada nos impedisse de ficarmos do lado dele. Nós tínhamos dez anos. O Vi, depois de ter sofrido tanto pela perda dos pais, se tornou um garoto fechado que não queria nem conversar, porém com o tempo a gente começou a ter mais liberdade e conhecer quem ele realmente é.
A Gi é uma garota que se pode contar a qualquer momento, sincera até demais. Sério, ela vai te falar na hora tudo o que você fez de errado. Ela também é um pouco sombria, mas você se acostuma. A família adotiva dela parecia coelho, pois fez mais filhos do que a minha avó, mas todos morreram no incêndio. Por muito tempo foi difícil conversar com ela, até hoje a gente não sabe muitas coisas a seu respeito e nem como ela se sente sobre tudo, muitas vezes ela fica invisível e some por horas e ninguém sabe onde ela está.
A Gabi é uma garota muito cabeça dura, mas verdadeira acima de tudo, uma pessoa que você pode confiar até o inferno, sem brincadeira. Ela é uma fofa com os amigos mais próximos e sua família de coração, mas ela é fatal, acho que na contagem de demônios ela é a que mais dilacera eles. O melhor é nas batalhas, os melhores golpes e as melhores mortes são sempre dela. Uma dica: nunca minta ou esconda algo dela, pois ela sempre vai descobrir o que está acontecendo. Ela lê as nossas mentes se estiver desconfiada, então a gente tenta não mentir para ela... É, a gente tenta. Mal se sabe que por trás de seu sorriso se guarda um passado triste que poucos como nós aguentariam, ela perdeu os pais e a irmãzinha no incêndio. Mesmo assim é uma garota forte e guerreira que sempre luta pela verdade.
Sabe aquele sorriso fofo de uma garota que sempre sente muita vergonha? É o sorriso da Ju, na maioria das vezes. Eu nunca entendi por que ela sente tanta vergonha, já que ela é tão fofa e tão linda. Bom, posso até adivinhar o motivo. Nossos traumas foram muito fortes, então mesmo depois de tantos anos ainda não superamos. Ela sempre protege todo mundo, até mesmo quando não tem força, tenta nos proteger ao máximo.
O inferno está no plano terrestre. Praticamente todos os dias caçamos esses bastardos que só sabem estragar as coisas. A Maya todas as vezes que vem verificar como nós estamos e se não colocamos fogo em nada, passa algumas “missões” para acabarmos com alguns demônios, e isso é gratificante. A Maya, como expliquei anteriormente, é um anjo que nos ajudou muito depois que nossos pais adotivos foram mortos. Ela cuidou da gente e nos explicou quem realmente somos. Ela e o Walter nos ensinaram a controlar os nossos poderes. O Walter é um demônio que tem um ódio tremendo pelo Capetão (apelido carinhoso que nós demos ao Diabo), mas nunca conta para ninguém o porquê desse ódio. O que nós sabemos é que o Capetão o amaldiçoou e agora ele está preso em um corpo de pato. Esse ódio tremendo é o motivo do Walter cuidar e treinar a gente. Ele e a Maya vivem brigando, mas trabalham bem quando estão juntos e nos divertem com isso, ha! E, inexplicavelmente, o Walter gosta de tomar chá.
A pior parte de não ser humano é fingir ser humano. Fazemos isso há mais de cem anos e é difícil ter dezesseis anos a tanto tempo. A puberdade parou e nunca mais saiu. Podemos ver isso com o Vi, pois não sabemos se ele ainda é criança ou é bobo mesmo. Mas a pior parte em ser imortal é quando arranjamos amigos ou arriscamos um amor. Nunca ficamos muito tempo em um lugar, então a amizade não progride, sem falar que ficar do nosso lado seria bem perigoso. Quando acabamos com todos os demônios daquela cidade temos que ir embora. Como não envelhecemos, se ficássemos muito tempo no mesmo local, as pessoas iriam perceber que somos diferentes.
No momento estamos em Curitiba, em um beco no centro da cidade, prestes a enfrentar um demônio. Ele é bem exótico, parece um cachorro gigante, marrom e com chifres, não consegue para de rosnar e babar.
Wohoo! Eu vou primeiro. – Falou o Vini com a sua típica animação. Em todas as brigas, ele sempre insiste em atacar primeiro.
Vai na fé! Já estou gravando. – Peguei meu celular e apontei para ele.
Enquanto eu filmava e as meninas pensavam mentalmente em um plano para derrotar o demônio, ele saiu correndo e começou a lançar chamas no cachorrão.
Cara, você quer ajuda? – Perguntei sabendo que ele não ia conseguir.
Não! Eu consigo!
Depois de ficar quase três minutos batendo no bicho, acho que ele acabou cansando.
Não está dando certo. – Em um momento inesperado o demônio, sem muito esforço, levantou a pata e jogou o Vini longe.
Aaaaah!
E aí, qual de vocês é a próxima? Deixa que eu vou lá buscar ele. – Sai correndo para onde o Vi tinha caído.
Ai eu mereço. – Escutei a Gabi dizendo enquanto ia em direção ao monstro.
Achei o Vi com a cara no chão bem no meio da rua.
Você está bem? – Perguntei sem consegui para de rir.
Sim, não. Meu braço está doendo.
A Ju cura você depois.
Quando voltamos para dentro do beco as meninas já tinham destruído o demônio e estavam terminando de exorcizá-lo.
Podemos ir para casa agora? – Perguntou a Gi com cara de tédio.
Claro, amanhã temos que acordar cedo e eu estou louca para chegar e dormir. – Falou a Ju já voando.
No outro dia de manhã comemos o café bem rápido e fomos para a escola. Quando chegamos nos dirigimos para a sala sem falar com ninguém. Nunca criamos muitos amigos então não vale a pena tentar. Os últimos amigos que fizemos foram em Fortaleza, em 1992.
Odeio esse colégio. – Falou a Gi com cara de tédio.
Nós estamos aqui não faz nem cinco minutos, como você sabe que é ruim? – Disse a Ju.
Toda escola é ruim, sem exceção. Não entendo porque temos que fazer isso.
A Maya quer que tenhamos algumas experiências de vida normais. – Falou a Gabi se ajeitando na cadeira.
Continuamos conversando e os alunos continuaram chegando, até que três garotas se aproximaram e uma delas falou.
Oi! – Nenhum de nós respondeu. – Então, eu sou a Amanda.
Ela estendeu a mão para mim e por um momento eu não sabia o que fazer. Eu lentamente estendi a mão para ela, enquanto meus amigos gritavam na minha cabeça:
“Não, não faz isso! Elas vão achar que queremos ser amigos delas.” Eu podia sentir o ódio na voz da Gi.
“Du, seu tonto, eu vou te socar.” Dessa vez foi a Gabi quem gritou.
“Matheus, me lembre de queimar você depois.”
“Gente, ele não pode simplesmente ignorar a menina!”
“A Ju tem razão, seus tontos.”
Prazer, meu nome é Matheus! E esses são meus amigos Gabi, Ju, Gi e Vini.
Prazer, essas são a Mari e a Flavia. Podemos nos sentar do lado de vocês?
Claro que podem, não é gente? Perguntou a Ju animada, mas ninguém respondeu.
As primeiras aulas foram um saco. Eu nem sei o que os professores falaram porque passei a maior parte do tempo desenhando no meu caderno, já escutamos a mesma coisa tantas vezes que vir para a escola já se tornou até banal. No intervalo, todos estávamos sentados em um banco no refeitório quando escutamos uma gritaria. Por um tempo a gente nem ligou, por que humanos são sempre barraqueiros, mas começou a ficar mais alto então resolvemos ir dar uma olhada. Quando nos aproximamos da muvuca vimos um garoto loiro da nossa sala, cujo nome, se não me engano, era Lance. Ele estava segurando um garoto, alguns anos mais novo, do que nós pela gola da camisa e gritando.
Qual é o seu problema moleque? Não me viu passando? – Ele gritava.
Desculpa! – Falou o garoto quase chorando. – Eu não tinha te visto!
Você é cego? Eu vou fazer você aprender a olhar por onde anda!
Antes que o Lance batesse no garoto o Vini entrou na frente e segurou o seu braço.
Ai, lá vem problema. – Falou a Gabi.
Ele já pediu desculpas, mexe com alguém do seu tamanho, seu idiota! – Disse o Vi olhando para Lance.
Não estou nem ligando para isso, ele estava no meu caminho.
Ei, esquece isso cara! – Eu falei tirando o garoto das mãos de Lance.
E porque nós esqueceríamos isso? Ele quase bateu no nosso amigo. – Falou uma menina bem gorda, o nome dela era Tania.
Quase bateu, mas não foi de propósito. – Falou a Gi que já estava do nosso lado junto com as meninas.
E porque vocês estão se intrometendo? – Disse Anna vindo com o resto do grupinho deles.
Estamos defendendo alguém inocente. – Disse o Vini jogando o braço do Lance para baixo. – Se vocês tivessem um pingo de noção deixariam o garoto em paz!
Então o Lace fechou a mão com tanta força que estralou todos os dedos e virou um soco no rosto do Vi. Estranhamente, ele quase caiu e nenhum humano teria força para derrubar nefilins. Eles estavam em vantagem, eram sete e nós, cinco. O Vinicius se ajeitou e se preparou para dar um soco no Lance, a Ju tentou o segurar, mas não deu certo. O soco foi tão forte que fez Lance cair com muita força no chão.
Então eu senti uma mão batendo na minha cara, eu caí com muita força e logo percebi que era um dos amigos de Lance. Aparentemente, eles queriam começar uma briga. Antes que ele me batesse outra vez, eu me levante e desviei. Como ele pode ter tanta força?
Quando olhei para o lado vi todo mundo se batendo. Gabi estava apanhando da Anna e da Tania, então corri e dei um soco na cara da Tania e nesse momento, a diretora apareceu.
PAREM COM ESSA PALAHAÇADA! NA MINHA SALA TODOS VOCÊS, AGORA!
“Merda, estamos ferrados.” Eu pensei.
Nós fizemos uma linha lado a lado em frente a diretora Flora, ela não parava de falar, mas a gente ficou conversando mentalmente.
Estamos entendidos?
Entendido diretora Flora. – Falamos ao mesmo tempo.
Fomos liberados e fomos para a nossa sala. Estávamos tão irritados que não conseguimos prestar atenção na aula. Ficamos em silêncio tentando entender de onde vinha tanta força daqueles caras. Humano nenhum teria tanta força quando eles.
Eu não acredito que levamos advertência logo no primeiro dia de aula. – Falou a Ju abismada encarando o envelope com um adesivo do brasão todo detalhado da escola.
Já era hora do almoço e fomos para uma lanchonete comer.
HAHAHAHA! Deve ser um recorde, aposto que ninguém levou uma advertência tão rápido quanto nós. – Falou o Vini.
Cala a boca seu tonto, como você consegue estar feliz com isso?
Eu estou feliz sim Gabi, eles levaram suspensão e nós só uma advertência.
Às vezes a sua alegria me deprime. – Falou a Gi que estava debruçada na mesa.
Então todos olharam para trás de mim e a mulher que estava em pé, segurando uma bandeja perguntou:
Posso anotar o pedido de vocês?
Eu olhei para eles e todos estavam perplexos. E então a Ju falou:
Não é possível...
Eu olhei para trás e foi como se todas as chamas daquele maldito dia estivessem me consumindo, e todas as dores que eu já senti estivessem de volta. Minha cabeça girou e meu coração quase saiu pela boca. Como ela podia estar aqui? E a única coisa que saiu da minha boca foi:
Mãe?
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