Todos vão saber
2 Um mal-entendido
Notas iniciais
Hyuuga percebeu no olhar de todos na quadra que estavam procurando pela mesma pessoa. Todos tentaram disfarçar sua preocupação, mas estava óbvio demais. Era a primeira vez que Kiyoshi se atrasava para um treino. E o pior: cada treino entre as partidas da Winter Cup eram decisivos, e o fundador do time da Seirin sabia disso. Ele não se daria ao luxo de se atrasar ou faltar um treino como aquele.
O capitão soltou um longo suspiro e olhou para Riko. Ela percebeu seu olhar e balançou a cabeça mordendo o lábio.
Tsc, o que aquele idiota está fazendo?
Enquanto se alongavam, os jogadores vez ou outra vigiavam a porta com um olhar vago ou tenso.
—Comecem o aquecimento! — berrou o veterano de óculos dando um susto nos companheiros de time.
Até Riko pareceu despertar de um transe de preocupação. Ela agradeceu mentalmente por Hyuuga saber usar sua rigidez e energia nos momentos certos.
Os estudantes iniciaram a corrida em torno da quadra, e estavam anormalmente quietos.
Depois de alguns minutos de aquecimento, um vulto surgiu na entrada do ginásio recortando-se contra a luz do sol vespertino. Todos pararam de correr involuntariamente quando Kiyoshi adentrou a quadra. Ele andou até a metade do recinto cabisbaixo e quieto, mas quando percebeu que tudo estava silencioso demais, ergueu o rosto e fitou os companheiros de time.
—Yo! — ele abriu um sorriso tardio. Preservava sua costumeira gentileza, mas o veterano estava notavelmente abatido.
—Boa tarde, Kiyoshi! — Koganei tratou de quebrar o silêncio desconfortável.
Os outros despertaram de seu torpor e cumprimentaram o recém-chegado.
Koganei se aproximou sorrateiramente de Teppei e sussurrou:
—É melhor se trocar rápido antes que a treinadora ou o Hyuuga decidam matar você.
Ele soltou uma risada audível, que num dia normal seria bem característica do pivô, mas daquela vez soou claramente forçada. Todos perceberam, mas ninguém disse nada.
Teppei virou-se para Riko, que conversava aos sussurros com Hyuuga. Os dois se calaram com a aproximação do jogador e o encararam.
—Desculpe o atraso. — Teppei tentava soar jovial.
—Aho! — ralhou Hyuuga — Troque de roupa rápido e vá se alongar. E por causa do atraso, vai dar cinco voltas a mais!
Abrindo uma versão fosca de seu sorriso bobo e apaziguador, Teppei riu amarelo coçando o topo da cabeça e se dirigiu para o vestiário.
Riko permaneceu em silêncio o tempo todo. Enquanto o gigante de cabelos castanhos andava de ombros caídos, ela se aproximou novamente de Hyuuga e sussurrou:
—Pode deixar que eu converso com ele. Eu já imagino qual seja o problema.
O capitão assentiu com uma expressão séria e disse:
—Acho melhor deixar esses assuntos com garotas mesmo...
A expressão do garoto somada qo conteúdo da fala conseguiu arrancar uma risada da treinadora. Hyuuga corou.
—Não é pra rir!
—Desculpe... — ela deu mais risadinhas — Vai correr agora capitão... Antes que eu arrume outro motivo pra rir de você.
O menino abriu a boca para falar mas tornou a fecha-la e balançou a cabeça ainda corado. Sem mais palavras, juntou-se aos outros no aquecimento.
Riko ficou observando tudo quieta e pensativa. Logo Teppei se juntou aos colegas na corrida, mas manteve um ritmo mais lento para não se misturar ao grupo. A treinadora franziu a testa e olhou para arquibancada vazia.
Era a primeira vez que [Nome] não estava lá.
*
Após o fim do treino, Riko planejara chamar Teppei para conversar, mas o gigante de olhos gentis foi até ela sem que precisasse de convite. Fingiu fazer alguns exercícios de alongamento específicos para o joelho lesionado até que todos saíssem do ginásio. Hyuuga foi o último a sair. Antes de sumir pela abertura que denunciava a tarde clara daquela sexta-feira, ele olhou sugestivamente para Riko e depois para o amigo.Em seguida, se retirou.
Teppei parou de se alongar e deixou-se desabar pesadamente no banco dos reservas. A colegial sentou-se ao seu lado e abriu a boca para falar, mas ele foi mais rápido:
—Riko... Eu... – entretanto, logo seu ânimo em tomar a dianteira da conversa se dissolveu. Quando o adolescente tentou colocar em palavras o que havia acontecido naquela manhã, novamente um nó se formou em sua garganta. Teppei temia que, juntamente com as palavras, pudessem sair lágrimas de frustração e decepção consigo mesmo.
—É a [Nome]-chan, não é? – a garota olhou para o camisa sete com um olhar triste e compreensivo.
O garoto por sua vez ergueu as sobrancelhas em espanto. Antes que ele fizesse a pergunta óbvia, a treinadora se adiantou:
—Tá mais do que óbvio, Teppei. É quase impossível te ver abatido desse jeito, além de que ela não apareceu no treino hoje. – e para enfatizar sua fala ela dirigiu seu olhar para as arquibancadas vazias.
Os olhos castanhos de Kiyoshi tornaram a fitar seus tênis de basquete surrados, imersos numa melancolia rara. Ele ainda não conseguia falar.
—O que aconteceu? – Riko cruzou os braços e mordeu os lábios nervosamente. Ver Teppei daquela forma não lhe agradava nenhum pouco, já que ele era um dos seus melhores amigos.
O garoto respirou fundo. Era agora ou nunca. Precisava dividir isso com alguém. Ele não iria conseguir daquela sozinho. Estava perdido, não sabia que atitude tomar diante do que [Nome] dissera, e a decepção consigo mesmo o golpeara de tal forma que ele não confiava mais em si mesmo para resolver aquilo. Ele machucara [Nome] silenciosamente, o que tornava tudo ainda pior.
—A [Nome]-chan... Ela terminou comigo.
A colegial arregalou os olhos.
—Mas por quê?
Essa era a parte mais difícil da pergunta. Respirando fundo mais três vezes, o gigante de cabelos castanhos obrigou-se a contar tudo para a amiga. Por alguma razão, sentia que estava contando para a pessoa certa.
—A [Nome]-chan... Ela se chateou comigo porque disse que... eu não a trato como minha namorada. Ela se sente mais como uma colega minha, uma amiga qualquer. Eu nunca tinha parado pra pensar nisso, mas quando ela jogou isso para mim, me senti horrível, o pior namorado possível. – ele passou as mãos no rosto e suspirou pesadamente.
A garota percebeu que Teppei encontrava sérias dificuldades em expressar a tempestade interna que estava açoitando seu coração. Ela se virou de leve no banco para poder encará-lo de frente e pousou as mãos sobre o colo.
—O que mais? Coloque tudo pra fora. – estimulou ela.
Ele encarou a amiga com os olhos pesados de tristeza e tornou a volta-los para o chão.
— Ela descobriu que nós já namoramos. E de acordo com o que ela disse, ela ouviu algumas garotas comentando sobre nós na biblioteca, perguntando se ainda estávamos juntos.
Riko se remexeu desconfortável no banco enquanto seu rosto esquentava. É verdade que ela já acreditara que amava Kiyoshi Teppei, mas atualmente a ideia lhe soava ridícula e deslocada. Teppei era bonito, gentil e engraçado, mas não era a pessoa certa para ela. O laço que se formara entre eles por causa do time de basquete evoluiu muito rápido, o que fez com que ambos confundissem o sentimento por causa de sua intensidade. Demorou algum tempo para que caíssem em si e percebessem o erro. O amor que surgira do laço dos dois era, na verdade, algo puramente fraterno, como dois irmãos separados na maternidade.
Além disso, havia ainda aquela pessoa...
—Achei que tínhamos deixado bem claro pra todo mundo que tínhamos terminado... – ela deixou o comentário escapar com o rosto corado.
O pivô da Seirin deixou escapar uma risada tristonha.
—Pois é... Eu não me preocupei muito na época. Tínhamos nos resolvido e, para mim, era o que importava. Não imaginei que as consequências iriam se estender tanto...
Um desconforto fez o estômago de Riko se embrulhar. Sentia-se horrível por [Nome] ainda achar que era namorada de Teppei, já que as duas tinham se tornado boas amigas.
Perdida em sua própria consciência pesada, a garota não percebeu a pausa longa feito pelo amigo, que fitava suas mãos enormes com uma melancolia que parecia só se aprofundar.
—Você tinha que ter visto o rosto dela... – ele disse num sussurro fitando as mãos como se pudesse ver o rosto de [Nome] desenhado nelas – Eu nunca me senti tão... sujo... Fazê-la chorar naquela forma...
Ele cerrou os punhos e olhou para frente franzindo a testa.
—Ela gritou comigo, perguntando se eu tinha noção do quanto ela se sentiu humilhada. Mas a pior parte veio depois... – sua testa se vincou ainda mais e ele apertou os lábios – Ela disse que quando descobriu sobre nós dois, percebeu que ainda existe um laço muito forte entre nós... E pra ela, nós ainda nos amamos.
Riko engasgou com a facilidade com que todas aquelas palavras embaraçosas saiam da boca de Teppei sem que ele sequer coçasse o queixo meio constrangido. Entretanto, outro sentimento substituiu quase instantaneamente o acanhamento: choque.
—E o que você respondeu pra ela quando disse isso? – ela quis saber perguntando rápido demais. Não era possível que Kiyoshi não tivesse feito nada.
—Eu não consegui dizer nada. – ele respondeu depois de uma longa pausa, enterrando o rosto nas mãos.
—Como assim? – Riko estava embasbacada com inércia de Kiyoshi naquela situação tão crítica.
—Ela ouviu quando eu pedi para que você ficasse mais um pouco comigo no vestiário... Naquele dia do jogo contra a Yosen. Estava tão exausto que nem me lembrei que [Nome] iria vir atrás de mim... Mesmo que o jogo ainda estivesse em andamento. Ela... – ele respirou fundo, engolindo os soluços que teimavam em vir – Ela sempre foi assim. Atenciosa demais, sempre do meu lado em todas as situações possíveis.
Mesmo que não tivesse feito absolutamente nada de errado, Riko sentiu novamente a culpa preenchendo seu peito como se fosse chumbo líquido. Ela levou uma mão à testa e ficou em silêncio. Não imaginara em momento algum que esses boatos se arrastariam por tempo suficiente para gerar um mal-entendido daquelas proporções e arruinar uma relação que estava se desenvolvendo de uma forma tão linda.
"Francamente", pensou a treinadora. "O Teppei já tinha esse potencial de gerar confusões por ser tão lerdo, mas ainda tem que aparecer mais gente pra piorar tudo. Eu preciso ajudar de alguma forma."
O camisa sete parara de falar e estava apenas fitando o chão ainda de forma tristonha. Deixando a raiva e a incredulidade pela falta de atitude de Kiyoshi tomarem conta de si, Riko colocou-se de pé subitamente e sem aviso, virou-se para acertar um belo cascudo no meio da cabeça do pivô.
—Itê! – exclamou ele esfregando o cabelo na região que ela acertou.
Riko elevou o punho cerrado e colocou a mão na cintura.
—Isso é pra você largar de ser lerdo! Você não quer se resolver com a [Nome]? Então trate de levantar essa cabeça, Kiyoshi Coração de Ferro!
O garoto torceu o nariz diante da menção de seu título como Rei Sem Coroa.
—Riko... Você sabe que eu odeio esse nome...
—Tsc, para de choramingar e presta atenção. Vamos corrigir algumas atitudes suas, ok?
Teppei piscou com um perdido para a treinadora. Ela suspirou e prosseguiu:
—Teppei, eu sei que você gosta de ser gentil com todo mundo, mas você precisa aprender a separar as coisas. Uma namorada não pode ser simplesmente tratada como qualquer outra pessoa. Se você não demonstrar o quão especial ela é pra você, você nunca vai conseguir manter um relacionamento.
O camisa sete ergueu a cabeça e franziu a testa ao se concentrar no discurso de Riko. Ela fez um gesto amplo com o braço direito e quase enfiou o dedo indicador no nariz do jogador. Apontando-o acusadoramente para ele, ela continuou:
—Está na hora de você largar de ser tão lerdo e agir de uma vez por todas! Faça com que todo mundo saiba sobre vocês dois! Uma garota ama quando é assumida em público, seja com um beijo ou uma simples palavra carinhosa que só um namorado diria. Se você não fizer isso, vai parecer que tem vergonha dela...
—Mas eu nunca tive vergonha da [Nome]-chan!
—Então mostre isso a ela! – ralhou a garota.
A expressão de Teppei se intensificou, a concentração tomando conta de todas as linhas de seu rosto. Um leve sorriso se esboçou no rosto da colegial.
—Lembra-se de quando você insistiu para que eu fosse a treinadora do time de basquete?
Kiyoshi a olhou e sorriu com a lembrança.
—Sim.
—É dessa teimosia que você precisa pra reconquistar a [Nome]. É isso ou perdê-la de vez.
O pivô se levantou e olhou para a porta do ginásio com a determinação estampada em seu olhar. Depois baixou os olhos para Riko.
—Obrigado, Riko. – e dizendo isso, abraçou a amiga com força.
—O-o que você tá fazendo, Teppei!? – o rosto da garota corou levemente nas bochechas. Ela nunca iria se acostumar com aqueles gestos espontâneos e embaraçosos do amigo.
Ele riu, a típica energia positiva voltando ao seu rosto.
—Agradecendo, ué! – ele passou a mão pelos cabelos castanhos e riu com uma expressão lerda – Porque se eu conseguir reconquistar a [Nome]-chan, vai ser graças à você!
O rubor se prolongou nas bochechas da garota e ela sorriu. O gigante de cabelos castanhos colocou a mão na cabeça da menina e bagunçou seus cabelos caramelados, e depois correu energeticamente em direção à saída do ginásio.
Riko seguiu-o com o olhar abraçando a si mesma. Sua testa de vincou de preocupação.
"Ele tem que conseguir... Isso tudo foi muito injusto com a [Nome]...", ela baixou o rosto e se lembrou da amiga, sempre tão alegre, otimista e dedicada... Teppei era realmente um lerdo por ter demorado tanto para reagir.
Ela voltou a sentar no banco dos reservas e apoiou os cotovelos nos joelhos para poder firmar seu rosto nas palmas da mão. Seu olhar castanho se perdeu na madeira envernizada enquanto se lembrava das palavras do amigo:
"Ela disse que quando descobriu sobre nós dois, percebeu que ainda existe um laço muito forte entre nós... E pra ela, nós ainda nos amamos."
Ela riu triste. Aquilo era passado. Tanto que pensar que já namorara o camisa sete do time da Seirin sempre lhe fazia torcer o nariz. Era a mesma coisa de se imaginar namorando um irmão. Eles haviam se precipitado demais diante do forte laço que se formara tão cedo...
Os olhos da colegial correram pela quadra e pararam sobre a linha de três pontos. Suas pálpebras baixaram de forma melancólica.
Ela não tivera coragem de contar a [Nome] porque aquele sentimento a deixava muito confusa, e tinha medo de confessá-lo a alguém. Mas agora ela via que se tivesse dito mais cedo, teria evitado esse mal-entendido horrível e talvez... quem sabe...
Ela fechou os olhos com força para espantar as esperanças. Mas, de nada adiantou, já que a imagem que preencheu a escuridão foi o rosto risonho do garoto de óculos que fazia seu estômago revirar de nervosismo. Com toda aquela confusão, o sentimento despertara dentro do peito de Riko com uma força completamente diferente.
Não havia como ela amar Kiyoshi Teppei. Ela se enganara desde o começo. A pessoa que ela sempre amara... sempre... era Hyuuga Junpei.
Lá fora, Teppei corria sorridente pela escola. Queria encontrar [Nome] o mais rápido possível para concertar tudo. Riko tinha razão. Ele precisava mesmo mudar. Ela era especial para ele, e mudara sua vida da melhor maneira possível. Como ele fora capaz de fazê-la sofrer daquela maneira? Como ele podia tê-la tratado como uma outra pessoa qualquer?
Reunindo o entusiasmo em suas pernas, ele acelerou a corrida e saltou para os prédios da escola, ansioso para encontrar a garota. Dessa vez, quando a encontrasse, todos iriam saber quem era ela. Ele não terai receio de conversar com ela em público com o assunto. Queria que as pessoas ouvissem e soubessem.
[Nome] era sua namorada.
[Nome] era a garota que ele amava.
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