Todos os Segredos da Rua Cornélia
2 Capítulo 2 - Os Doze Segredos da Rua Cornélia
Além dos jacarandás rosa, dos ipês amarelos e das quaresmeiras, havia uma singular dupla de salgueiros no percurso da rua Cornélia, que se mostravam como um casal de árvores idosas que observava e cuidava de toda extensão daquele cantinho do mundo. Ainda que as demais árvores atraíssem minha atenção com suas flores exuberantes e seus perfumes viciantes, num turbilhão de pétalas e cores apaixonantes, observar os salgueiros em sua magnificência verdejante com as folhas e ramos tocando o chão, me agradava e acalmava. Havia algo neles que me acolhia e fazia parecer que todas as respostas para as dúvidas do mundo eu encontraria ali, caso falasse a língua das plantas, é claro.
Mesmo com toda sua pompa irreverente e com uma expressão de sapiência platônica, os salgueiros tinham uma curta expectativa de vida, algo em torno de, no máximo, trinta anos, até que definhassem sobre os próprios ramos e se tornassem relva morta que alimentaria a fauna e flora da rua Cornélia. A dupla de salgueiros que coroava elegantemente a rua Cornélia já parecia bem velhinha, mas ainda dançava com o vento com toda elegância que qualquer uma das outras árvores ali dispostas — e isso, estranhamente, me deixava feliz.
Na semana seguinte à minha ida a Rua Cornélia pela primeira vez, experimentei um caminhar mais lento, observando cada detalhezinho daquele corredor de casebres velhos e árvores floridas, onde moravam seres desconhecidos e idosos desconfiados, além de um jovem com um olhar encantador, meio irônico e melancólico. Parei diante dos salgueiros e fiz questão de tocar o tronco de um deles, observando pequenas formiguinhas que andavam em procissão por toda extensão da casca. Haviam três banquinhos de madeira sob a sombra dos salgueiros, em círculo, como uma rodinha de conversa. Em um dos banquinhos haviam desenhos esculpidos à canivete e nomes de desconhecidos. Me perguntava quantos deles estavam vivos e quantos eram só fantasmas e lembranças.
"Todos somos epifanias na rua Cornélia", era o que estava escrito em um dos banquinhos, assinado por uma tal de N. Suspirei e apertei a mochila nos meus ombros. Me sentei naquele banquinho por uns instantes, pensativo, enquanto observava a dança das folhas do salgueiro com o vento tênue que atravessava a rua Cornélia. Em algum instante, os passarinhos se calaram e, no distante horizonte, onde a mata se erguia selvagem e intocada, pude ver, novamente, a luz que andava com os homens como se homem fosse, dessa vez mais absorta, num instante de tempo que mal podia se chamar de segundo, mas demorado o suficiente para para que me fizesse engolir seco, um pouco assustado.
Um instante depois, os passarinhos voltaram a cantar e pude ouvir um assobio humano, vindo de uma das casas.
Um senhorzinho meio encarquilhado, baixinho e bigodudo, carregando um cesto enorme, talvez do próprio tamanho, passava animadamente pela rua Cornélia, com seus sapatinhos sociais e a camisa listrada em preto e vermelho, os cabelinhos bem penteados e prensados com creme e o bigode lustroso como um cristal. Quando me viu, espantou-se, de surpresa, e deu um sobressalto, mas logo se conteve, pigarreou e sorriu.
— Bons dias — ele disse, com um sotaque mineiro carregado, ainda que sua prosódia fosse forçosamente elegante, como se um caipira tentasse imitar alguém da realeza — Não tinha te visto aí, rapazinho.
— Foi mal, senhor — respondi, me erguendo e estendendo a mão. Eu tinha, talvez, quase o dobro do tamanho do senhorzinho — Acabei me distraindo do caminho. Não tem árvores bonitas assim do outro lado da cidade. Meu nome é Gustavo.
O senhorzinho apertou minha mão meio desconfiado, com uma sobrancelha erguida.
— Ah, eu ouvi mesmo. Deve ser você quem vai trabalhar com a dona Ana, não é? — questionou. Assenti. Ele abriu um sorriso, com um brilho nos olhos — Que bom! Que bom! Aqueles lá costumam ficar muito longe do mundo real, enfurnados naquele casarão — ele suspirou — Quase nunca vejo eles indo pra cidade. A vida deles é a rua Cornélia e nada além dela. Ah, a propósito, meu nome é Ludovico — ele disse, apertando minha mão com amistosidade — Só que elas vão me conhecer como Ludo. Ludo das Quitandas.
Dobrei a sobrancelha, confuso. Seu Ludo ergueu o enorme cesto e me mostrou uma imensidão de rosquinhas, potes de doces e bolinhos. Eram quebra-quebras branquíssimos como a neve, rosquinhas de amendoim, vidros com compotas de morango e saquinhos cheios de doce de leite em quadradinhos. Apesar de nunca ter sido um grande fã de doces, me peguei com água na boca observando as maravilhas no cesto do senhor Ludo. Ele sorriu, um sorriso empertigado, meio escondido pelo pretume do seu bigode espesso.
— Nossa, parece tudo tão... delicioso!
Ele riu.
— E fui euzinho que fiz tudo! — afirmou, orgulhoso — Minha santa mãezinha, que deus a tenha em bons panos, costumava falar que qualquer doçura podia salvar o dia de alguém. Então me ensinou tudo, tudinho, tudão! Ambrosia, pé de moleque, bolo formigueiro, cocada... Mas o doce de leite, ah! Imbatível. A Dita mataria e morreria pela receita de doce de leite da minha mãe, mas ó, só eu tenho e só eu terei. Tá guardada na cuca!
Ele pegou um vidrinho tampado com um tecido xadrez e me entregou.
— Aqui, leva para comer com o pessoal do casarão. Diz pra dona Ana que... O Ludo mandou lembranças — e deu um sorrisinho. Antes que eu pudesse agradecer, seu Ludo atravessou a rua em passos largos e extremamente ágeis, parecia que num piscar de olhos ele já tinha desaparecido, com a velocidade de uma águia, ainda que carregasse um cesto com um peso considerável.
Guardei o pote de doce na mochila, dei uma última olhada no banco entre os salgueiros e fui para o casarão no fim da rua Cornélia.
Aproveitando o sol das nove da manhã, Élio ensaiava no jardim da casa. O som da flauta doce atravessava meus ouvidos tal qual uma corrente elétrica. A música era adorável, gentil e convidativa, diferentemente do artista, que expressava um certo rancor por baixo do olhar selvagem e dos cachos escuros.
— Você está atrasado — ele disse, quando eu ainda estava no portão. Dona Dita saiu à porta com o molho interminável de chaves, a observar atentamente o farfalhar das folhas e o cantar dos passarinhos.
— Hoje não chove — ela disse.
— Desculpa, encontrei um senhor no caminho e... — dona Dita observou curiosamente o vidro que eu tirava da mochila e deu um risinho.
— E o Ludovico não pode ver uma oportunidade de falar que ele fala... e fala... E fala mais que o homem da cobra — ela exclamou, me dando passagem por entre o portão — Aqui, essa chave fica com você. Não sou empregada da casa pra ficar destrancando o portão toda hora! — ela disse, entregando-me uma chave de aço dourado.
Élio seguiu em silêncio após meu comentário, focado no seu ensaio meticuloso e sem falhas. Parei próximo dele antes de entrar na casa, observando seu rosto luzindo com o resplendor dos raios de sol, dando-lhe um aspecto angelical formidável. Sorri pra ele, sabendo que ele não perceberia.
— Como você sabia que eu tinha chegado? — questionei. Élio deixou a flauta de lado e suspirou.
— Você é muito barulhento — respondeu, desgostoso, e voltou-se ao ensaio sem mais delongas.
Dona Ana me recebeu com uma pilha de papéis e uma mesa cheia de livros empoeirados. Os óculos de meia-lua haviam dado lugar para um par de óculos redondos que lhe davam um aspecto sábio e ortodoxo. Através do corredor e da sala de estar, passando por baixo das escadarias, havia uma sala espaçosa e opulenta, onde enormes estantes de carvalho compunham uma coleção interminável de livros e papéis na biblioteca da casa. Na mesa de centro, a matriarca da família lia atentamente algumas anotações num caderninho velho.
Meio tímido, entrei na biblioteca sem bater e joguei minha mochila num sofazinho acolchoado no canto.
— Bom dia Gustavo — ela disse, sem tirar os olhos dos papéis — Estou revendo minha coleção para saber quais livros estão aqui e quais estão emprestados ou fora do lugar — ela ergueu os olhos e sorriu — trabalho que, daqui pra frente, será seu — ela pediu que eu me aproximasse e me mostrou seu minucioso sistema de controle de empréstimos e sua formidável coleção de livros dos mais variados tipos — Os de culinária e de turdídeos são exceção, pois pertencem exclusivamente à Dita. Os demais são todos da minha coleção particular. Tenho livros clássicos, brasileiros e gringos, literatura moderna, enciclopédias, livros didáticos... e até bons livros de registros históricos da cidade e da região. Além, é claro, de alguns álbuns de fotografia. Estes, claro, nunca são emprestados. Quando meu pai morreu, a biblioteca passou para mim e a cozinha para a Dita. Sempre fui dos livros e ela das panelas — ela sorriu, amavelmente — Como a rua Cornélia é distante da cidade, muitas das pessoas daqui, principalmente crianças e jovens, não têm acesso fácil a livros e bibliotecas, então a minha coleção é tudo que eles têm à disposição.
— Bom, pelo menos hoje em dia, com a internet, se tem tudo mais facilmente — respondi. Dona Ana riu.
— Pois eu e todas as pessoas das redondezas preferimos o glamour dos livros, Gustavo. Não vai achar muitos adeptos da internet por aqui — respondeu — Em casa mesmo, o mais moderno que temos é um computador de mesa para enviar fax e usar a impressora.
— Fax? — questionei, atônito. Ela assentiu.
— Fora de moda?
— Um pouquinho — respondi. Dona Ana riu e me entregou o livro, com uma expressão meio desgostosa.
— Termine isso para mim, por favor. Meus olhos já não são os mesmos como no passado e, agora, leituras muito demoradas me dão dor de cabeça — respondeu, entristecida — Então vou guardar meus olhos para ler os clássicos e não saber que livro a filha de fulano tem lido.
— Moram quantas pessoas na rua Cornélia? — questionei. Dona Ana abriu uma expressão pensativa.
— Poucas — ela disse com certa tristeza — Em outros tempos essa rua vivia cheia de famílias e amigos, que foram pra cidade e esqueceram daqui — ela encarou o caderninho de empréstimos e riu — e alguns nem sequer devolveram os livros que pegaram emprestados. Essa é uma tarefa futura, inclusive. Me ajudar a localizar alguns livros.
— Mas, por enquanto eu só preciso cuidar dos registros dos livros que tem aqui?
— Uhum. E não é tarefa fácil — ela riu, a caminho da porta num caminhar lento e observador, encarando as prateleiras e estantes abarrotadas de livros e mais livros. — Mais tarde vem tomar café comigo, com a Dita e o Élio. Eles fizeram um bolo delicioso essa manhã. Acho que foi pra você.
— Pra mim?
Ela riu.
— É, acho que o Élio quer pedir desculpas, mas não sabe exatamente como. Ainda — do lado de fora da biblioteca, dona Ana acenou para mim e desapareceu pelo resto da casa, deixando-me sozinho com os livros, a poeira e as aranhazinhas que criavam teias na madeira.
Minha tia costumava dizer que a leitura é o caminho para qualquer civilidade. Ninguém se tornava alguém sem o hábito e a frequência da leitura, e que "até as aranhas e traças das bibliotecas eram mais inteligentes que as normais" e, observando como as aranhazinhas pretas de esbugalhados olhos dourados da coleção de Dona Ana desenhavam padrões extremamente artísticos com suas teias prateadas, sem nunca tecer em locais incômodos, mas sempre em espaços vazios, onde suas criações ornamentavam a biblioteca como obras de arte, estava convencido de que era verdade. Nunca tive problema com insetos — muito pelo contrário, sempre fui muito fã deles, especialmente as mariposas.
Algo interessante quanto as mariposas é que elas não comem, a maioria delas pelo menos. Elas se alimentam para sua vida inteira na fase que são lagartas, até que se tornam as criaturas com asas felpudas que soltam um pozinho esbranquiçado, que minha tia costumava dizer que deixava cego se encostasse no olhos, deixa louco se fosse comido e deixava mal amado caso caísse nos cabelos. A vida das mariposas, então, pode ser dividida numa época de "engorda", em que são criaturinhas viçosas e meio assustadoras, cujo padrão estético repugna, e a época em que se transformam, num passe de mágica, em seres alados, coloridos e maravilhosos, que aos olhos de todos é espetacular, belo e agradável. Parece até a minha vida.
Mas por que me peguei pensando tanto em mariposas, para começo de conversa? Não sabia. Comigo era sempre assim: um assunto aleatório levava a um pensamento aleatório, que estimulava uma conversação entre mim e meu subconsciente, tratando das mais variadas temáticas, uma menos apropriada que a outra. Minha vida na escola nunca foi fácil, como deve ser fácil de imaginar. Meus pensamentos eram feitos de insights, ou, no bom português, epifanias.
E estava eu, divagando novamente, com o caderno de registros em mãos. Já havia passado quase duas horas enfurnado naquela biblioteca quando percebi que tinha registrado mais livros que um bibliotecário experiente. Estalei as costas e espreguicei. Saí no corredor e senti um aroma inconfundível de café fresco, que me atraiu pelos corredores, onde observei uma centena de fotografias de familiares e imagens sacras pelas paredes.
O corredor, na verdade, parecia um túnel do tempo de um museu: no começo, fotos recentes, de câmeras modernas, e, caminhando adiante, fotos em rolo de filmes, polaroides, em escala de sépia, de cinza, em preto e branco e, por fim, pinturas, tão realistas quanto fotos. Todos os quadros e fotografias estavam assinalados com o nome de quem estava retratado e, curiosamente, me peguei observando umas cinco Cornélias, umas duas Beneditas e pelo menos sete Élios.
As moças eram seres incríveis e arrebatadores, donas de distintíssimas belezas e paupérrimos semblantes de bondade, coragem e gentileza. Eram tão parecidas quanto diamantes pareciam rubis — era como se elas não descendessem de uma mesma linhagem. Não fosse o fato de carregarem o mesmo sobrenome no peito e a mesma distinta magia na aura, poderiam, inclusive, negar sua legitimidade.
O que faltava em semelhança entre as Cornélias e Beneditas, sobrava em excesso nos Élios. Os rapazes eram frutos da carne mais legítima da família Padilha que se podia existir. Convalescia eterna e irresistivelmente sob o olhar selvagem e eclesiástico que os distinguia dos demais homens, com os cabelos cacheados tão escuros quanto o espaço além do conhecido, com um brilho estelar nos olhos, tão explosivo e destrutivo quanto uma supernova em expansão. Os sorrisos tão brilhantes quantos sóis, com uma palpável magia astrológica na aura, que brilhava em mil cores e mil astros de pura prata lunar. Ninguém podia negar-lhes o nome, a ascendência ou a legitimidade. Havia neles a indiscutível marca dos Élios que os predesceciam, tal qual a marca de Caim que recaía sobre os homens, como li num livro um dia desses. E o Élio, o atual Élio, não era diferente. Era carne da carne, tão Élio quanto qualquer homem de sua família e, carregar o nome, não era nada além do começo do próprio fardo, algo que descobriria no futuro.
Dona Dita serviu café e bolo na mesinha branca de aço trançado que havia na varanda do casarão, rodeada de vasos suspensos de onde caiam enormes folhas de samambaias e videiras com flores lilases. Dona Ana sentava-se à mesa com um livro em mãos, com sua expressão séria e sábia reluzindo sob a fraca luz do sol. Élio se sentou ao seu lado, com os olhos fixados num ponto atrás da tia, que terminava de pôr a mesa quando cheguei. O som dos meus passos o fez torcer a sobrancelhas, meio assustado, como se tivesse se esquecido que havia um novo alguém no casarão da rua Cornélia, mas logo se recompôs e voltou a franzir a expressão num olhar rígido e irritado.
— Vem, vem, menino. Café fresquinho e bolo de cenoura com chocolate — dona Dita anunciou, amistosa, puxando a cadeira que havia entre ela e Élio. Me sentei meio tímido e deixei que a senhora me servisse um pedaço de bolo e um copo de café.
Dona Ana abriu um sorriso magnânimo, com olhos fixos no livro, e recitou, com uma dicção infalível e encantada:
— "Busca-me; nas pessoas que conheci; ou amei; e se não podes me deixar partir; ao menos deixa-me viver em teus olhos; e não em tua mente" — ela fechou o livro, encontrando em mim um olhar admirado. Pude me ver refletido nos olhos dela, meus cabelos curtos e escuros, minha pele parda manchada e meus olhos escuros e convexos, que, em outros tempos, minha tia Monalisa disse que eram "olhos de migrante: sofredores, meio apagados, onde o brilho só resplandece na esperança de uma promessa por vir". Ela sorriu — Merrit Malloy. Epitáfio.
— É lindo — respondi, sorridente. Élio encontrou a mão da avó sob a mesa e apertou.
— A senhora ama esse poema, não é? — ele questionou — Tenho certeza que não é a primeira vez que ouço ele ser recitado.
— De fato. Tinha me esquecido dele, mas acabei me lembrando quando dei uma olhadinha no caderno de empréstimos — ela respondeu, guardando o livro sobre a mesa e se servindo de uma xícara de café — Sabe, tive uma amiga aqui na rua Cornélia que dedicou este poema para um amor em vida. A história dela é interessantíssima, aliás, mas parece até absurda de se ouvir. Se lembra dela, Dita? Acho que se chamava Helena.
Dita engoliu um gole de café e assentiu.
— Lembro — ela afirmou, pensativa — Ela vendia uns docinhos, umas balas de goma brigadeiro de festa. Seu Ludo matava e morria pelas receitas das balas.
— Helena — dona Ana divagou em pensamentos e lembranças, com um olhar distante — Que moça gentil. Lembro que ela era tão doce quanto as próprias balas. Pena que... — e então ela se conteve antes de continuar.
— O que houve, vó? — Élio questionou, mais curioso que eu. Ergui os olhos e encarei dona Ana com um olhar surpreendido. Ela respirou fundo, procurando palavras.
— Tão doce que foi se meter logo com homem comprometido... e a mulher dele tava até grávida, o que não impediu ele de ir comer umas balinhas na casa da Helena — dona Dita interveio, sem rodeios ou receios. Dona Ana ficou vermelha de vergonha — Quando a esposa descobriu a traição, veio aqui na rua e amaldiçoou a moça na frente da própria casa. E o povo diz que palavras que a gente grita na frente das nossas casas trazem uns maus agouros, tantos que é até difícil de imaginar. Promessas e maldições. Ainda mais de grávida! Tem força em dobro para pegar e destruir uma vida.
Houve um silêncio momentâneo na mesa, como se todos quisessem saber o resto da história, mas ninguém se atrevia a perguntar ou contar. Engoli um pedaço de bolo e me voltei a dona Dita.
— E o que aconteceu, dona Dita?
— O que eu sei é que a mulher traída pediu pra deus, pro diabo, pra quem quer que ouvisse sua súplica, que tudo que a Helena tocasse ficasse amargo, com gosto de fel. E pra uma mulher que vendia doce, isso era o fim da picada. Diz o povo que essa maldição foi tão brava, que até as pessoas que Helena tocava amargavam, ficavam ruins, azedas, tristes. Dizem que o homem lá foi enlouquecendo aos pouquinhos por conta do toque dela — dona Dita parou um instante, pensativa.
— Um dia ela veio aqui e pediu um livro emprestado. Ela disse que precisava pedir perdão, acho que pra moça traída, além de ter de se despedir do homem que ela amava — dona Ana fez uma mesura e observou o livro sobre a mesa com certo pesar — Acho mesmo que a consciência dela estava pesada demais para se aguentar, e ela só queria se despedir. O que eu sei é que ela pegou o livro e desapareceu. Não sei se morreu ou se só foi embora, só sei que o marido voltou pra esposa e ficou tão dócil quanto um cachorrinho, mas eles acabaram indo embora daqui também, assim como e la.
Élio deu um risinho irônico, que me fez sorrir involuntariamente.
— Coitada — ele disse — Não que ela fosse santa, claro, mas nossa. Todo o peso do erro deles caiu sobre ela.
Dona Dita deu de ombros.
— É assim que as coisas funcionam. A balança sempre pesa mais para um lado, geralmente o mais fraco. Ela era só uma menina, e muito gentil, que cometeu alguns erros — dona Ana afirmou, convicta. Pude ver a bondade pura refletida no olhar da senhora, que em momento algum pensou em julgar Helena e suas escolhas, o que me fez sorrir, compadecido.
— Esse é um deles, vó? — Élio questionou, inesperadamente, sem entrar em pormenores do que seriam os tais "eles". Dona Ana coçou o queixo, pensativa, como se compreendesse piamente o que o neto se referia. Olhei dele para ela, confuso.
— Eu diria que sim, mas não tenho certeza. De fato se encaixa como um, dada a situação absurda e mágica da coisa — ela respondeu, pensativa. Élio bebericou um pouco do café. Dona Ana percebeu minha curiosidade e confusão, dando um sorrisinho irônico para mim — Muito tempo atrás havia uma moça chamada Cornélia, que vivia por esses lados junta da família e da cabritinha de estimação...
... Diziam que ela era uma moça com uma aura angelical, mágica, espiritual. Ela era chamada pelo povo de "a santa que andava com os homens". Cornélia tinha um dom curioso: ela podia ler o futuro, era uma clarividente nata. Ela lia nas cartas, na bola de cristal, nas linhas das mãos, e, principalmente, nas lágrimas, o futuro que estava por vir — dona Ana fez uma pausa dramática e observou a rua se estendendo além da cerca no jardim — A previsão mais importante dela aconteceu quando ela tinha vinte anos, lendo as próprias lágrimas logo depois da morte da sua cabritinha. Nas lágrimas ela encontrou um futuro em que havia uma rua com seu nome, que seria rodeada de segredos e mistérios maravilhosos. Uma centena de fantásticos acontecimentos que seriam marcados pelo absurdo, pelo mágico e pelo belo. Desses, uma dúzia iriam se sobrepor sobre os demais.
— São os doze segredos da rua Cornélia — Élio complementou com um sorriso.
— E onde fica o segredo nisso? — questionei. Dona Ana olhou para Élio.
— O segredo é que ninguém sabe as histórias por completo, só o que ouvimos falar. E muitas delas nunca saberemos, pois se perderam por aí, no tempo — respondeu, convicta — A Cornélia foi nossa antepassada mais antiga. Da morte dela até hoje muita coisa aconteceu e as principais testemunhas já nem estão nesse mundo para confirmar os segredos — respondeu.
Dona Dita suspirou, observando atentamente o cantar dos passarinhos ao redor da casa.
— Vai chover — ela disse, mesmo com o céu tão azul quanto uma safira. No mesmo instante, Élio e Dona Ana começaram a juntar as coisas da mesa e a se prepararem para entrar. Fiquei encarando a cena por alguns segundos, sem entender, mas foi só me recordar da última previsão de chuva de Dona Dita, tão certeira quanto as flechas de uma amazona, que me dei conta da seriedade da coisa e me juntei a eles na retirada da varanda.
E choveu.
Era por volta de dezenove horas quando deixei a casa dos Padilha e rumei através da rua Cornélia a caminho do ponto de ônibus, que ficava no extremo oposto do casarão amarelo. A chuva já havia parado havia muito tempo, mas toda conversa sobre segredos e milagres da rua Cornélia se perdeu assim que entramos, então Élio se trancou no quarto, como fazia a grande maioria do tempo, dona Ana e dona Dita foram a cozinha preparar o jantar e eu voltei a minha tarefa de catalogar livros na biblioteca empoeirada e cheia de aranhas inteligentes.
Já estava escuro, ainda que houvesse uns poucos feixes de luz alaranjada do crepúsculo no horizonte. O chão estava pegajoso de lama por conta da chuva e gotículas de água caiam dos jacarandás e dos ipês. A brisa se calou e o silêncio tomou conta da rua Cornélia. Um silêncio meio assustador, contíguo e cheio de promessas sussurradas. Era no silêncio que os fantasmas falavam mais alto que o véu que nos separava, mas com palavras tão misteriosas quanto cânticos na língua angelical. Eu gostava de ouvir fantasmas, mas odiava o silêncio. Então sempre que me via sozinho, no silêncio, colocava os fones de ouvido e ouvia alguma música.
— Ei, você — uma moça chamou. Ela estava sentada sobre a mureta laranja de uma casinha de tijolos coloridos, observando a rua. Era a pessoa mais pálida que já havia visto na vida e, por um instante, pensei que fosse um fantasma. Ela tinha enormes cabelos vermelhos-alaranjados, como cenouras, que caiam sobre os ombros e se estendiam até próximo do busto, e sardas coloridas pelo rosto. Era alta, esguia e meio desengonçada. usava uma roupa xadrez com alguns remendos e bebia uma garrafa de tubaína — Você mesmo, garoto.
Parei diante dela, meio surpreso. Ela sorriu e saltou da mureta, me estendendo a mão.
— Como se chama? — ela perguntou, enquanto apertava minha mão.
— Gustavo — respondi. Ela sorriu e deu uma golada na garrafa de tubaína, pensativa, e voltou a sentar-se na mureta.
— Gustavo... Bonito. É sueco — afirmou convicta — Significa "protegido por deus" — e fez uma pausa, pensativa — Se bem que também pode significar "convidado glorioso" — ela sorriu — Muito bonito.
Ergui as sobrancelhas, meio confuso, e dei um passo para trás. A moça deu um risinho e me ofereceu um pouco de tubaína.
— Meu nome é Leila. Significa "negra como a noite", o que é uma ironia, já que eu sou a pessoa mais branca do mundo — afirmou, ironicamente — E eu sou obcecada por etimologia dos nomes. Sou uma onomasta amadora. Meu tio costuma dizer que eu gosto de dar nome aos bois.
— Ah, prazer — respondi, meio desconfiado. Leila deu uma risadinha.
— Sou sobrinha do Ludo das Quitandas, ele disse que já conheceu você — ela afirmou, me deixando um pouco mais aliviado de toda aquela situação estranha e aleatória — Está trabalhando com as madames do casarão, não é?
— Meio que sim, comecei lá hoje.
— E como é o trabalho? Divertido?
— Um pouco, mas é trabalho, o que importa — respondi. Leila riu, observando o céu noturno.
— E como anda a cidade? Faz tempo que não dou as caras por lá.
— Sinceramente não mudou muita coisa. Entra ano e sai ano, mas o tempo parece não passar.
Leila deu uma risadinha.
— E o cantor do momento? Quem é?
— Acho que a Olivia Rodrigo — respondi a contragosto — Mas eu acho as músicas dela um porre. Coisa pra adolescente viciado em tiktok.
Leila ficou me encarando incrédula, como se estivesse falando em grego.
— Não entendi absolutamente nada do que você disse — ela afirmou, risonha — A última cantora do momento que eu me lembro foi aquela moça que se vestiu de carne pra ir em um evento.
Ergui as sobrancelhas, surpreso.
— A Lady Gaga?
— A própria! Como ela anda?
— Bom, lançando umas músicas... mas isso do vestido de carne dela já faz um bom tempo.
Leila deu de ombros e continuou bebendo sua tubaína, despretensiosamente, observando os primeiros astros que surgiam no céu noturno.
— Eu queria trabalhar lá com a dona Ana, mas não podia, sabe? — ela afirmou, meio melancólica, mas com um tom de aceitação.
— Por que? — questionei, curioso. Ela suspirou profundamente e ergueu um pouco a manga da camiseta listrada que estava usando, me mostrando algumas profundas marcas de queimadura nos braços, negras como carvão.
— O sol me machuca — ela respondeu, tapando as queimaduras novamente e, com um sorriso irônico, ela disse: — Sou quase uma vampira, mas em vez de beber sangue eu bebo refrigerante de abacaxi... E em vez de super força e super resistência, eu tenho uma super tendência à doenças e machucados de sol — afirmou, estendendo a tubaína para o alto e brindando com ninguém além de si mesma. — Então só saio de casa à noitinha.
Aquela característica incomum me surpreendeu. As queimaduras que se estendiam no braço de Leila eram grotescas demais, como se ela tivesse sido assada viva. Saber que vinham pelo simples contato com a luz do sol foi um tanto quanto... estranho. Compadecido, mas meio sem saber o que dizer, fiquei em silêncio, observando a rua Cornélia. Leila deu uma risadinha.
— Que lugarzinho para ter gente incomum, não é? Por isso que gosto tanto daqui — ela disse, sorridente.
— São os doze segredos — respondi. Leila parou um instante e me encarou, curiosa.
— Então você já sabe dos doze segredos? — ela questionou. Assenti. — Rua Cornélia e seus mistérios da meia-noite.
Um instante depois, um moço de meia idade, com um bigode arqueado, usando um terno azul e calças compridas atravessou nosso caminho. Era do tamanho de um armário, com uma musculatura admirável, mas uma pose e um caminhar de gentleman. Diante de mim e de Leila, tirou o seu chapéu panamá e fez uma rápida e educada mesura.
— Senhorita Leila, senhor... — ele cumprimentou, sem saber meu nome.
— Gustavo. É o moço que trabalha para dona Ana — Leila respondeu. Sua voz se embebeu de um tom açucarado, exageradamente enamorado, com olhos brilhantes e encantados que recaiam sobre o homem galante diante de nós — Gustavo, esse é o tabelião Rodolfo. Ele trabalha no cartório da cidade.
— Senhor Gustavo, é um imensurável prazer — ele estendeu a mão com elegância. — Boas vindas à Rua Cornélia. Caso precise de algo, sou seu empregado — disse, com magnânima educação e, seguidamente, despediu-se sem mais delongas, e saiu caminhando em direção ao horizonte, onde a lua se estendia branca e iluminada. Leila suspirou profundamente, sem tirar os olhões verdes da inabalável presença do tabelião.
— Tabelião Rodolfo... — ela suspirou, encantada — Que homem mais... — pude perceber o sangue correndo sob sua pele alva, como se seu rosto fosse uma pintura, e se alocando entre as bochechas, deixando-a vermelha como um tomate. Aquilo me fez rir.
— É mesmo um moço bem bonito — respondi — e educado. E um pouquinho incomum.
Leila riu.
— Rodolfo. Significa lobo famoso — ela afirmou convicta — Será que ele é meio lobo por baixo de toda aquela roupa? Seria algo extremamente agradável.
Arqueei as sobrancelhas, meio desconfortável, e forcei um sorriso. Leila seguia no seu vendaval de pensamentos indecentes, então percebi que era o momento para me retirar. Me despedi rapidamente, sem dar espaço para maiores conversações, e corri para o ponto, onde, sob a luz amarelada de um poste, aguardei a chegada do ônibus que me levaria de volta à monótona vida na cidade, distante de toda magia e estranheza da rua Cornélia.
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