Todos os Segredos da Rua Cornélia
4 Capítulo 4 - A Maldição da Família Padilha
"Parece que uma espécie de maldição recai sobre minha família, em especial, os homens. Todos carregamos os mesmos nomes e, em partes, os mesmos pecados, tal qual os Buendía em Cem Anos de Solidão, vivendo nossas vidas num eterno ciclo de mesmices, misérias e maldições. "Padilha", na rua Cornélia, sempre foi sinônimo de mistério e inquietação, ainda que sejamos cobertos de virtudes e que hajam inúmeros e incontáveis elogios por onde quer que passemos. Nossa antiguice nessa rua nos coloca numa posição privilegiada, como "líderes" imperfeitos de uma sociedade que não é maior que um vilarejo qualquer. Todos sempre procuram os Padilha quando existem conflitos, dúvidas, súplicas ou pedidos. Somos enxergados como juízes, reis, mães, pais, irmãos, amigos, benfeitores e cuidadores. E assim vivemos nossa excelência, prestando à rua Cornélia e seus habitantes todo o bem que podemos prestar. E, mesmo assim, a existência dos Padilha sempre foi marcada por uma dualidade incólume que consumia nossos neurônios e, muitas vezes, terminava com um de cada geração tragicamente morto ou estranhamente enlouquecido.
Enquanto bons e justos ao povo, havia aqueles que se corromperam com as casualidades do sádico destino, e tornaram-se peças num jogo de maldições e estranheza. Há quem diga que a estranheza é da Rua Cornélia — eu, Élio, prefiro acreditar que a estranheza é da família Padilha, que transmite a todos: habitantes, árvores, plantas, animais, vento, sonhos, fantasmas, demônios, pó e poeira, água e vento, como uma doença virulenta contagiosa, que se espalha feito pólen no ar da primavera e se poliniza por todos os cantos. A estranheza da primeira Cornélia deu nome à rua, e sua previsão fatídica decidiu que a rua viveria dias inimagináveis e fantásticos, onde resplandeceriam e se resguardariam doze segredos. Os doze segredos da rua Cornélia.
Todos os Élios, com o tempo, desenvolvem alguma dificuldade, enquanto alguma habilidade paranormal lhe surge como uma dádiva. Algo é dado, algo é tomado. Perdi o dom da fala aos quinze anos, quando, tomado por uma doença amarga, minhas cordas vocais se extraviaram, mas, com as palavras, consegui grandes feitos, inclusive curar minha amada da pior das doenças: a própria morte, mas isso é história para outro momento.
Eu, José Élio Padilha, talvez o centésimo a carregar esse nome e sustentar essa família, escrevo minhas memórias, humildemente, para que recaia sobre aqueles que venham depois, o mesmo milagre que recaiu sobre mim."
Dona Ana deixou o livro ao lado de Élio quando percebeu que eu estava entrando, após recordar das memórias de algum antepassado que tinha o mesmo nome do neto — de certa forma.
— Bom, isso meio que era um segredo dos Padilha, mas não há o que esconder — ela afirmou com um sorriso, abrindo o livro novamente — Foi o meu pai que escreveu. José Élio Padilha.
Abri um sorriso amigável. Carregava comigo uma listinha manuscrita.
— Eu terminei com os livros que você deixou lá pela manhã — afirmei. Dona Ana sorriu e agradeceu — Posso começar com o jardim agora, se quiserem.
— Excelente, meu rapaz! Mas descanse um pouco — ela me indicou o lugar no sofá ao lado de Élio, que corou instantaneamente assim que me sentei. — Já deve ter percebido nossa tendência em dar nomes, não é? — assenti — Os homens sempre carregam o "Élio" e, ainda que sempre seja um nome composto, alguns são sempre chamados de Élio.
— Nomes compostos? — me voltei para Élio, curioso — Me perguntou qual deve ser o seu — questionei. Ele deu um suspiro e assentiu.
— Élio Henrique — ele respondeu a contragosto e se fechou numa expressão irritada. Encarei Dona Ana.
— E essa história que a senhora disse — afirmei, tentando mudar de assunto e tirar a atenção à Élio — Que esse tal José Élio curou a mulher da morte com as palavras? É verdade?
Dona Ana riu.
— Não sei. Papai nunca foi conhecido pela sinceridade. Era sonhador demais — ela sorriu — o Élio sonhador, foi como ficou conhecido.
— Imagino que existam outros, com características que os destacam — afirmei. Dona Ana concordou. Encarei Élio com um sorriso irônico — Talvez você seja o Élio mal-humorado — afirmei. Élio dobrou as sobrancelhas, irritado, e abriu uma expressão chateada. Dona Ana deu uma risadinha e chacoalhou a cabeça.
— Não vou dizer que você não mereceu — ela disse, por fim. Então, encarou o relógio no pulso e ajeitou os óculos de meia-lua — Acho que vou tirar um cochilo. Hoje é quinta-feira.
E, antes que eu pudesse questionar o que isso significava, dona Ana deixou a sala num instante e desapareceu escadarias acima. Ergui uma sobrancelha, confuso, e encarei Élio novamente, sentado, em silêncio, com os cabelos farfalhando com a brisa invisível que só ele sentia.
— E o que tem nas quintas-feiras? — questionei. Élio suspirou profundamente, juntou alguns objetos que trazia consigo e saiu da sala sem me dirigir a palavra, pisando profundamente. Dei de ombros, tentando fingir não estar tocado com aquela indiferença matadora, e aproveitei o momento para conhecer o jardim da casa.
— Boas tardes, senhor — o tabelião Rodolfo disse, do outro lado da cerca que separava o casarão dos Padilha da rua. Usava o mesmo terno e as mesmas calças de ontem; profundas olheiras recaiam na penumbra de seu rosto e cabelos rebeldes se enfileiram sob o chapéu panamá azul. Ainda assim, resguardava grande requinte e boa educação. — Peço perdão pelo outro dia, estava com tanta pressa que mal me apresentei. Rodolfo Coelho Carneiro. Dois animais, sim, este é meu sobrenome. Sou tabelião de notas e lepidopterólogo amador.
— Ah, prazer — respondi, me aproximando da cerca e estendendo a mão ao estranho senhor, que apertou com gosto de tons de cavalheirismo — Gustavo. Sou o assistente da Dona Ana — afirmei — E o que diabos é um lepidop... Essa coisa que você disse? — Rodolfo deu uma risadinha tímida e abriu um botão do terno. Com o movimento da manga azul de cetim, uma pequena borboleta de asas azuis saiu voando lentamente pelos ares e rodopiou diante do rosto do tabelião.
— Um especialista em borboletas, é claro. Sou colecionador profissional. Tenho uma estufa cheia delas. Crio, inclusive, alguns bichos de seda. São absolutamente adoráveis! — Rodolfo ergueu o pulso do casaco e observou o relógio, pensativo — Lhe convido para conhecer qualquer dia, entre as treze e quinze horas, senhor Gustavo. Agora, peço sua licença. Tenho algumas obrigações a tratar — e dito isso, tomou seu rumo numa caminhada ligeira e me deixou só com os pensamentos, novamente.
Lady Sienna surgiu entre os ramos de vinha que cresciam na cerca ao norte do jardim. Estava se abanando com um leque cheio de rendas rosadas, como se um fantasma sentisse calor. Olhava e julgava tudo que podia observar, como fazia corriqueiramente. Mal havia a percebido quando Geni atravessou o caminho do sol e ficou diante de mim, com suas enormes pernas e impressionável altura, tapando a luz solar e gerando uma sombra humanamente impossível de se acontecer.
— Até que é agradável — a cantora de ópera disse. Geni concordou com um suspiro e foi observar um roseiral vermelho que crescia próximo de gerânios.
— Achei que vocês não gostassem de abandonar o conforto da minha casa — afirmei. Geni deu um risinho.
— Não que você tivesse muitas outras opções de lugares para se visitar. E você sabe que só podemos ir e aparecer onde você está ou passou — Lady Sienna disse, a contragosto.
— Na verdade não sabia, mas agradeço a explicação — respondi. — Sabe, esses dias, enquanto eu estava esperando o ônibus, eu meio que vi uma coisa estranha — Lady Sienna e Geni observaram, atentos — Era meio que um ônibus fantasma, sabe? Mas a energia dele era tão... esquisita. Meio perdida. Não era como vocês dois.
Geni e Sienna trocaram olhares preocupados e se voltaram a mim, pesarosos.
— Essa rua pode ter suas maravilhas, mas também atrai perigo — ela afirmou, convicta.
— Verdade. Deve que foi reflexo disso que você viu — Geni complementou.
— Na verdade não foi dentro da rua, foi assim que saí dela, o que ficou ainda mais estranho. Talvez não esteja na rua... O que quer que tenha atraído o ônibus fantasma — respondi. Antes que qualquer espírito pudesse fazer sua réplica, às minhas costas o som de passos humanos calou os seres espectrais e os fez desaparecer num estalo de brilho e luz instantaneamente.
— Com quem você tá falando? — Élio questionou, desconfiado. Carregava um embrulho em mãos.
Olhei para os lados, desconcertado. Não costumava contar das minhas conversas fantasmagóricas com ninguém e não começaria a fazer no meu trabalho, então forcei um sorriso — como se ele fosse perceber — e dei uma risadinha.
— Ah, o tabelião Rodolfo. Estava me contando das borboletas — respondi. Élio ergueu uma sobrancelha, desconfiado, mas não se estendeu no assunto. — Mas ele já foi embora;
— Ele e suas borboletas — e entregou o embrulho em minhas mãos, com certo tom de irritação — Aqui.
— O que é isso?
— Abre pra ver, uai — ele respondeu.
Engoli seco, meio desconfiado, mas aceitei o presente. Desembrulhei o pacote e me deparei com um caderninho de bolso, com a capa feita de couro azulado, onde ostentava o desenho em prateado de um gatinho com a cauda enrolada. Havia uma fitinha de seda azul como marca página e uma pequena caneta preta com uma pena acompanhando o pequeno diário. Olhei para Élio, meio desconfiado pelo presente inesperado.
— Foi minha avó que mandou te dar — ele disse, desinteressado, como se percebesse minha desconfiança — Ela achou que você fosse gostar. Não sei.
— É muito bonitinho. Obrigado — afirmei. Élio abriu um meio sorriso envergonhado, com as bochechas coradas e uma expressão mais dissuadida. Acocorou-se num dos pilares que sustentavam a varanda e abaixou a cabeça.
— Ela costuma fazer isso, às vezes — ergui o rosto e a sobrancelha, confuso. Élio não deixou que eu questionasse para continuar a explicar — Sabe, contratar pessoas, geralmente da minha idade, como desculpa.
— Desculpa para o que exatamente?
Ele suspirou.
— Para que eu não me sinta tão sozinho aqui — ele ergueu o rosto, entristecido — E eu não gosto dessa sensação. Sentir que ela está tentando contratar alguém para ser meu amigo.
Suspirei.
— Élio, posso te garantir que não existe dinheiro no mundo que compre minha amizade — afirmei convicto — Menos ainda trabalho. Se eu fosse me tornar seu amigo, seria, sem dúvidas, por fruto da minha mais sincera amizade. Nem todo mundo é preto e branco.
Élio engoliu seco, forçando uma expressão impassível. Guardei o caderninho no bolso e usei uma de minhas mãos para segurar seu ombro com convicção.
— E obrigado, novamente. Adorei o presente — respondi, sorridente — E, sendo sincero, estou aqui para trabalhar. Tenho que ajudar em casa. Sua amizade seria só consequência disso, não minha prioridade — afirmei. Élio dobrou as sobrancelhas numa expressão irritada. Ainda que estivesse sendo sincero e usando da maior das amabilidades, acabei não medindo o tom amargo e seco das minhas palavras, que soaram muito mais frígidas aos ouvidos dele do que eu esperava que soassem.
— Ah, que bom então. Vou continuar no meu canto para não atrapalhar a sua prioridade — ele afirmou, amargamente, com os cabelos farfalhando na brisa fantasma que só ele sentia. Percebi pequenos relâmpagos atravessando as pupilas escuras de seus olhos e o céu azul de verão se fechando numa tormenta de nuvens escuras sobre o casarão. Não tardou para que gotas rechonchudas de chuva começassem a cair sobre o jardim, mas pareciam especialmente interessadas em molhar a mim, ignorando tudo que havia ao meu redor, inclusive Élio, que permaneceu seco como se a chuva fizesse uma curva e desviasse de seu corpo. — Peço desculpas ainda por tentar resolver isso, acho que acabei tomando seu precioso tempo.
— Ei, não foi bem isso que eu disse — afirmei, com a chuva despencando sobre mim tão rápido que mal podia pensar. Corri para baixo da varanda, mas ela pareceu me perseguir — Eu só quis dizer que dinheiro não compra minha amizade. Ninguém me pagou para me aproximar de você, sequer sabia que você existia. Só precisava trabalhar. Tanto que fiquei surpreso quando te vi.
— Surpreso pelo que? — ele questionou, num tom cheio de ódio. A tormenta se acirrava e se amargava eternamente, crescendo copiosamente sobre minha cabeça como uma nuvem fátua e aterrorizante, mal podia falar ou pensar. Élio seguia intocado, belo e instigante.
— Por te ver! Eu achei que ia trabalhar ajudando uma senhora, só isso. Mas não. Encontrei muito mais que isso — respondi, quase me afogando na chuva sobre meu rosto — Conheci pessoas diferentes, interessantes. Todas foram adoráveis comigo. Aliás, nem todas. Você não. Você sempre foi arrogante, sendo que nunca te fiz nada.
A tempestade começou a abrandar e eu pude ver a expressão de Élio ficando mais mansa e pensativa, então continuei, tomado pela raiva que começou a surgir em mim enquanto desaparecia nele.
— Não é fácil pra mim, sabia? Eu tenho meus problemas também. Muitos problemas! — afirmei, irritado — E ainda tenho que lidar com um garoto mimado e amargo que só me trata como lixo, sendo que sempre fiz questão de ser gentil.
— Você NÃO É o único que tem problemas — ele exclamou, irritado. Ouvi o som de um trovão rugindo junto de sua voz estridente.
— É óbvio que não sou, mas os seus problemas não anulam os meus — respondi, irritado — Você perdeu seus pais? Que pena. Eu sinto muito, sinceramente. Sabe uma coisa? Eu também. Meu pai morreu eletrocutado na minha frente. Minha mãe ficou tão traumatizada e doente que foi definhando a cada dia com a lembrança do que ela viu. Sabe o que restou dela? Nada. Uma casca vazia, que não pensa, não come, não fala, não faz porra nenhuma sozinha. Minha irmã também não saiu normal disso. Ela tem só quinze anos e SEQUER pode dormir, sabe porque? — engoli seco por um instante. A chuva foi abrandando até desaparecer, Élio estava calado e atônito — Nem eu sei. Ninguém sabe — e eu ri, de nervosismo — E sabe a pior parte de tudo isso? Eu sei a dor do que você passa. E sim, eu poderia ser um bom amigo para você, mas você não, você quer ser a vítima sempre. Você fica por aí se colocando de coitado e usando da sua perda para atacar as pessoas gratuitamente. Mas você ainda tem um refúgio, você ainda tem pra onde correr. Sua avó, sua tia, essa rua... Você tem TUDO, Élio, e eu não tenho NADA. Nada além desse emprego. Eu não tenho colo de uma mãe para chorar, não tenho um plano B para correr caso o plano A dê errado. Eu só tenho o que eu tenho e eu não posso me dar a porra do luxo de errar, sabe por quê? Porque se eu erro, minha irmã fica desamparada, minha mãe fica sem os remédios dela, minha tia... A coitada da minha tia, Élio. Ela mal cuida dela mesma. Se eu perco o que eu tenho aqui, elas perdem o pouco que eu tenho para ajudar elas. Olha essa porra: eu tenho três pessoas para cuidar. E eu não devo ser um ano mais velho que você.
— Eu... — Élio tentou dizer algo, com a voz trêmula, mas nada saiu de sua boca curvada. Sua expressão era triste, arrependida, mas orgulhosa.
Voltei a rir do nervosismo, encharcado dos pés à cabeça.
— E você ainda conseguiu tocar na minha maior ferida — afirmei, irritado, aproximando meu rosto do dele. Nossos olhos se encontraram, mesmo sabendo que ele não percebia. Senti ele recuar um pouco, ao sentir o hálito quente da minha garganta diante de seu rosto, mas se manteve ereto e firme — Eu SEI que não sou bonito. Eu sei. Já me falaram isso tantas vezes na porra da minha vida que eu já cansei e já me acostumei. Eu faço terapia desde que eu tinha dez anos de idade. Você sabe o que é isso? É claro que não. Uma criança de dez anos que não consegue se olhar no espelho pois ouvia em todo canto que era feia. E até hoje, com dezoito anos, tenho que ouvir gente babaca falando isso como se fosse pouca coisa. Você sabe qual a maior dor que a gente pode sentir? Eu te respondo: é a dor de não poder sequer se amar, porque acha que ninguém do mundo vai te amar um dia — não havia mais chuva, mas meu rosto seguia molhado, agora por lágrimas tão espessas quanto as gotas da tormenta provocada por Élio. Meu coração palpitava de maneira tão estridente que parecia próximo a saltar do meu peito e se despedaçar no chão como uma taça de cristal. Não sabia dizer a partir de qual momento minha raiva se convergiu em um desabafo doloroso e há muito tempo silenciado, que foi criando raízes tão dolorosas e difíceis de se podar que fazia meu corpo inteiro doer e tremer a cada suspiro de alento.
Houve um enorme silêncio, em que a minha respiração profunda era a única coisa que fazia som em toda Rua Cornélia. Olhei ao redor e me senti intimamente observado por forças e pessoas que não estavam ali. Élio continuava em silêncio, com um olhar arrependido. Engoli seco, peguei o pequeno caderninho de couro, que estava seco e intocado pela chuva, suspirei profundamente e deixei o jardim a caminho da rua, sem maiores delongas.
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