Todos os Nossos Tempos
5 2019
Notas iniciais
O despertador toca e Heike sente um novo peso, como se a gravidade estivesse mais densa. Seria resultado da noite mal dormida ou de uma pesquisa sobre o tempo que a fizera virar a noite? Ela olha em seu relógio: o ponteiro girou ao contrário? Não. Ela balança a cabeça e levanta. Quando chega à cozinha, encontra Ana terminando seu café.
— Bom dia! – Ana diz.
— Bom!... Quando chegarmos à faculdade, chame o Max. Você sempre sabe onde ele está – e essas foram as únicas palavras que dissera à mesa.
No caminho para a faculdade, Heike manteve o olhar na pasta em seu colo. Ali estava a pesquisa da noite. Será que estava bom? Seria uma boa apresentação? Esperava que sim.
O carro parou em um sinal vermelho e ela desviou o olhar para a rua.
— O seu relógio... – Ana chamou sua atenção. – Ele também deu algumas voltas no sentido anti-horário ou eu estou ficando louca?
— Eu vi apenas uma.
O sinal abre e as duas ficam em silêncio. Pelo menos não foi a única que vira; talvez fosse um sinal de que não estava ficando louca. Ou seria um sinal de que estava ficando louca junto com a melhor amiga?
Ao chegarem na faculdade, já não pensavam mais na pane do relógio. Ana foi procurar Max e Heike, direto para sua sala. No caminho, um anúncio da faculdade a relembrou do assunto: “Alunos e professores, pedimos que todos se baseiem por seus próprios relógios. Houve um pequeno problema com os relógios da faculdade, mas já está sendo resolvido”.
Não fora apenas com elas, então. O que era aquilo, afinal? Um surto coletivo ou algo real? Enfim, não importava; precisava arrumar a apresentação.
Meia hora já havia se passado quando sua amiga chegou com Max.
— Então, Heike... – ele começa.
— Leia isso. Você precisa saber sobre o que iremos falar, como iremos falar e na ordem certa. Não modifique muitas coisas, por favor. Isso demorou a madrugada inteira – Heike entregou alguns (muitos) papéis para Max.
— Então vamos fazer a máquina do tempo?! — a voz dele ficou um pouco esganiçada.
— Não. Nós vamos apresentar a ideia para os professores – ela entregou os outros papéis para Ana. – Se ele gostarem, nós faremos. Se não gostarem, nós repetimos e... eu me formarei apenas ano que vem – se deixou cair na cadeira.
— Eles vão gostar – Ana falou, tentando aliviar a amiga. – Quando apresentaremos?
— Daqui a duas horas.
Max levantou a cabeça assustado.
— Duas horas?! Nós temos que entender e gravar tudo isso em duas horas? Tem tipo umas 10 folhas aqui... Frente e verso, Heike!
— Sim, duas horas. E é por isso que temos que nos apressar. Só temos essa chance, então comecem a ler.
Foram suas horas de repetições de textos, explicações de cálculos, quase algumas desistências, andadas pela sala... Mas se sentiam preparados. Até que chegara o momento de irem ao encontro dos professores.
— Por favor, lembrem o que devemos fazer. O nosso grupo é o pior.
— Não fala isso! – Ana retrucou, segurando o braço da amiga, mas Heike dissera algo certo. Eram o grupo mais atrasado e desfalcado.
Todos os grupos eram formados por quatro alunos e mais um que formara-se ali há, no máximo, dois anos. As outras duas meninas do grupo deles haviam deixado a faculdade assim que o trabalho fora passado. Menos pessoas, menos cabeças pensando.
Heike respirou fundo e bateu na porta. Um dos professores mandou-os entrar. Haviam quatro, no total, para julgar as ideias, mas apenas um seria o instrutor do grupo.
— Bom dia – um deles disse.
— Bom dia – responderam em uníssono.
Ela colocou a pasta na mesa dos professores e voltou para seu lugar. Assim que leram o tema do trabalho, logo começaram a discutir baixo entre si, e a tensão chegou ao grupo mesmo sem ouvi-los – principalmente em Heike.
“Eles não vão aprovar e eu vou repetir de ano. Excelente ideia, Max!”, sua mente repetia essa frase a todo momento.
— Uma máquina do tempo? – disse a única professora que havia ali.
— Ãhn... sim. Bem... – Heike tentou começar a apresentação, mas a forma como a professora falara a deixara mais tensa.
— Vocês sabem que isso é vida real, não sabem?
— Sabemos – Ana tentou tomar a frente. – Mas nos pareceu uma ideia interessante...
— E impossível! Gente, isso não é um filme de ficção. Não é possível viajar no tempo! Não dessa forma.
— Mas os senhores não vão nem nos deixar apresentar melhor a ideia?
— Não é preciso, meninos. Não dá para existir uma máquina do tempo – disse a professora.
Heike ficou quieta, apenas pensando – e talvez escutando –, presa em seu próprio mundo. Max olhou para ela com as sobrancelhas franzidas.
— Heike?... – encostou em seu braço, fazendo-a voltar para a sala.
— Então essa ideia não está aprovada de jeito nenhum? – perguntou.
— Sentimos muito, mas não – a professora tentou responder de uma forma que os desapontasse menos.
— Tudo bem – Heike girou os calcanhares e saiu da sala antes dos outros.
“Estava muito fácil. Era óbvio que não aprovariam”, pensava, tentando não desabar no meio dos corredores. Precisava de ar, sentia-se sufocada ali dentro. Enquanto descia as escadas, esbarrou em um homem e, embora não tenha parado para sentir a dor ou olhá-lo, ele a notou – dava para ver pela visão periférica.
Heike continuou até chegar nos bancos que ficavam na área externa do campus. Quando chegou, deixou-se cair ali. Naquele momento, começou a pensar no trabalho, na madrugada que passou pesquisando tudo, no momento em que não conseguia falar... e na dor no ombro onde havia esbarrado com toda força naquela pessoa.
Foram tantas coisas juntas que não parara para sentir a dor, mas agora sentia. Ele parecia vestir qualquer coisa, menos algodão comum. Ficou massageando o ombro e olhando para o chão; a dor já estava passando. Seus pensamentos saíram um pouco do eixo quando uma sombra surgiu.
— O que foi, Max? – disse por dedução.
— Max? – uma voz grave respondeu. Definitivamente não era Max.
“Que voz é essa?”, se perguntou. A sombra andou e sentou ao lado dela.
— Meu nome é Aaron. Esbarrei em você nas escadas – disse com cuidado, como se estivesse preocupado com algo. – Preciso de ajuda.
Ela o encarou. Alguma coisa em seus trajes brancos e pesados quase espaciais lhe dizia que não seria uma ajuda pequena.
Fale com o autor