Todo o mundo

1 A outra e a única.


Bia atravessou minha sala tão rápido que nem tive tempo de pensar. Antes que pudesse impedir ela agarrou Lívia pelos cabelos arrancando-a de cima de mim. Pisquei e estavam as duas rolando no chão.

— Quem é essa vagabunda? — gritou irada. Os olhos cheios de fúria, indo de mim para Livia sob ela.

— Solta!—pedi em desespero, puxando-a de cima de Lívia que estava no chão debatendo-se tentando se defender dos ataques de Bia.

Quis dizer que era um engano, que não era o que ela estava pensando.

Mas não poderia, era exatamente o que ela estava imaginando. Imaginando não, vendo.

Senti-me imensamente culpada. Lívia não tinha nada a ver com aquilo.

Com muito esforço consegui separar as duas, pedi que Lívia esperasse na sala e agarrei Bia pelo braço arrastando-a até meu quarto, mesmo ela gritando e me batendo.

— fica aqui, e não se meche! — disse eu, irritada olhando sua face vermelha antes de fechar a porta.

Ao chegar na sala, Lívia analisava se tinha arranhões no pescoço. Haviam vários. Bia havia perdido completamente a razão. O que era completamente normal para ela.

— Quem é essa maluca?— disse lívia sem ar, desorientada, enquanto eu pegava o resto das suas roupas do chão— pensei que não tivesse namorada.

Olhei-a e confirmei.

— Não tenho.— disse eu, me esticando para pegar seu sutiã encima do sofá.

— Mas e porque…

— longa história.— cortei eu.

Lívia esperou. Mas eu não daria detalhes.

— Olha, eu não quis meter você nisso. Me desculpe.— Dei-lhe as costas, indo em direção a cozinha, quando voltei, Lívia calçava as sandálias. Estendi-lhe o copo com água mas em vez de beber, virou a água na minha cabeça, deu um pulo e foi-se embora. Mas nem fui atrás nem me preocupei. Bateu a porta com força, praguejando e me xingando.

Coisas normais que me aconteciam quando Bia estava por perto.

Olhei a bagunça que estava ao meu redor, e senti-me tonta. Embora não tivesse bebido tanto.

Fui na geladeira e tomei, na garrafa mesmo, uma dose generosa de uísque. Precisava resolver de vez as coisas com Bia. De novo.

Adentrei no meu quarto. A luz fraca a protegia dos meus olhos, mas eu podia ouvir muito bem os chiados vindo da minha cama.

Acendi as luzes, e pude ver com mais clareza Bia chorando em posição fetal encima da cama.

Já vi aquela cena se repetindo umas dezenas de vezes. Mas ela nunca aprendia.

— você podia pelo menos vestir uma roupa — disse ela, parecendo a garotinha que realmente era.

Fitei-me de soslaio no espelho do guarda-roupa, tocando minha barriga pelada.

— Você invadiu a minha casa. Não faz exigências.

Disse eu, postando-me ao seu lado.

Estendi-me sobre o colchão e respirei fundo. Estava tremendo:

— você sabe que isso nunca aconteceria se você…

Minha voz vacilou. Eu quase havia decorado o discurso mas nunca conseguia aceitar minhas próprias palavras. Senti minha garganta queimar e desejei nunca ter acendido as luzes.

***

— você é uma puta vagabunda de uma covarde, Bia.—disse eu, ela apenas manteve-se em silêncio.— o que foi agora? Vocês brigaram, não foi? Até quando, Bia? Até quando vai ser assim?— eu gritava exasperada.

— Ele me pediu em casamento. — disse ela, sussurrando quase querendo que eu não ouvisse.

—Ele.. pediu… – minha voz acabou-se. Esqueci de como se respirava ou como falava. A ira subia-me a cabeça com rapidez. Sentei sobre a barriga dela.

—O que você veio fazer aqui? Me fala! —gritei, sacudindo Bia pelos ombros, ela chorou mais forte.

— Eu amo você, entende… por favor…

— Ama o caralho! Covarde! —senti-me fraca, o peito ardendo sem ar, deixei meu corpo cair sobre o de Bia, afogando-me em lágrimas, solucei: —covarde…

—Me desculpa, por favor…—choramingou entre meus cabelos —eu não consigo… por favor…

deixei-me ali, sobre seu corpo, até minha respiração voltar ao normal.

Não queria, mas já sabendo a resposta, perguntei:

— você aceitou? — me surpreendi quando minha voz saiu mais fraca e calma do que o imaginado. Ergui meu corpo fitando Bia por cima. Seus olhos estavam inchados e vermelhos, mais que antes.

Assentiu positivamente. Respirei fundo para não perder a cabeça de novo. Nunca entenderia como ela podia ser tão imbecil. Sempre que brigava com o namorado vinha té mim. E as vezes se achava minha dona. Mas nunca me assumia. Não poderia. Bia era covarde consigo mesmo, e nunca aprenderia a amar ninguém. Mas sempre seria minha.

Isso era uma certeza.

— Eu sei porque veio aqui.