Notas iniciais
Sabe aquela coisa do "nada está tão ruim que não possa piorar"? Pois... Boa leitura

A música da orquestra e o burburinho do salão eram apenas um ruído distante, muito mais fácil de ignorar agora que Nanami estava ao ar livre, sozinho com seus pensamentos. Ele apoiou as costas na mureta de pedra e sacudiu levemente o líquido âmbar em seu copo, sussurrando para si mesmo como ele se sentia patético pela forma como agiu diante de Shoko:

— É impressionante como estar perto dela te deixa completamente burro, Kento Nanami! — ele fechou os olhos, apertando a ponte do nariz, as narinas dilatando quando ele puxou fundo o ar — Céus, homem! Você tem vinte e sete anos, sempre odiou quem tenta ser o que não é, odeia o mercado financeiro, odeia essa necessidade fútil de validação… e, ainda assim… aqui está você, criando uma narrativa completamente fantasiosa para uma mulher que nunca te olhou de outra forma, esperando que ela te dê um biscoito e diga “bom garoto”.

Ele deu um gole, depois outro. Bem maior, da segunda vez.

A ironia era o que mais lhe doía.

Nanami sempre se orgulhou de ser um homem pragmático, aquele que enxerga o mundo como ele é e não tem medo disso, mas bastou um sorriso lindo de canto de Shoko Ieiri para que todos os seus princípios fossem jogados pela janela.

— Ela provavelmente teria me respeitado mais se eu tivesse dito que sou um CLT e odeio cada segundo disso. — suspirou, cansado — Contudo, apenas amanhã eu posso voltar a ser apenas um analista explorado, pois hoje… hoje eu ainda tenho que ser alguém que nem juntando todo dinheiro que ganha vai chegar perto de um valor com sete dígitos no fim da vida.

Encerrou seu monólogo de autodepreciação quando viu a silhueta de Suguru atrás da porta de vidro. Conversar com ele sempre foi fácil, então não se abalou quando o moreno parou diante de si:

— Olha, você não precisava ter feito aquilo, Kento. — Geto foi direto, sem tom de julgamento — A Shoko gosta de você como você é. Do Nanami que reclamava que o preço da cantina não levava em conta que nós, bolsistas, também precisávamos comer. Que estudava até às duas da manhã porque permanecer aqui nessa escola dependia de notas praticamente perfeitas.

— Eu sei que foi irracional. — ele bebeu mais, desviando o olhar — Contudo, encarar todos aqueles rostos lá dentro... pessoas que nunca precisaram se preocupar com o preço do aluguel ou com a estabilidade de um emprego, ver ela seguindo a tradição da família… me fez sentir como se eu tivesse que provar que eu venci o sistema deles.

— Eu entendo. Às vezes, mesmo quando chegamos perto de lá, ainda sentimos que precisamos carregar um letreiro luminoso para que ninguém nos olhe por cima do ombro. — Suguru soltou o ar, apoiando-se na mureta ao lado de Nanami — Eu vivo com o Satoru e estou prestes a entrar oficialmente para a família Gojo, então eu sei o que é estar cercado por um luxo que eu nunca sonhei e, por mais que eu ame meu noivo, por mais que minha vida hoje seja confortável… eu ainda me sinto mais em casa quando o Sato diz que meus onigiris são o manjar dos deuses.

— Você parece estar lidando com isso bem. — Nanami disse, feliz pelo amigo.

— É um exercício diário. — admitiu Suguru, rindo meio desconcertado — Mas a real é que o sucesso de verdade não é o cargo que você floreou. É poder sair dessa festa, tirar esse paletó e saber que você não deve nada a nenhuma dessas pessoas. — ele colocou uma mão encorajadora no ombro de Nanami — Sobre a Shoko… compre um chá mais modesto para ela aqui em Tóquio mesmo e diga a ela a verdade, que você quis impressioná-la porque ela é importante e que você nunca a esqueceu.

— Você sempre foi sensato demais, Geto. E observador.

Suguru lançou-lhe um olhar cúmplice, movendo-se para voltar para o salão.

— Olha… — deteve-se um instante, pegando os copos vazios para levar com ele — ela me disse uma vez, quando ainda estudávamos juntos, que achava um charme seu estilo “emo culposo”, se isso ajuda. — disse, dando uma piscadinha e sumindo dentro do prédio.

O loiro gargalhou, sentindo-se renovado pelas palavras de Suguru. Sabia o que deveria fazer no minuto que voltasse para o meio das pessoas, quem ele deveria procurar primeiro.

Contudo, numa coincidência inesperada, Shoko quase esbarrou nele, andando apressada com a atenção voltada para seu celular:

— Ah, Nanami! Não tinha te visto, foi mal! Emergência no hospital…

— Que pena, mas… eu compreendo. Tenha um bom trabalho.

— Obrigada e, antes que alguém te peça emprestado… foi o Gojo quem contou para todo mundo que você tem um jatinho particular com tripulação disponível 24/7.

Eu não tenho um jatinho! — Nanami arregalou os olhos — Eu… eu… — hesitou, notando que o plano de honestidade teria que esperar um pouquinho mais para ser colocado em prática — Eu uso o charter da empresa. É muito mais eficiente para os voos transatlânticos de última hora.

— Parece ser tão exaustivo quanto meu trabalho. — Shoko comentou e, antes de ir em direção à saída, entregou um cartão a ele — Não deixa o chá ser a única desculpa pra me ligar. Eu vou te atender, se não estiver no centro cirúrgico.

— Na verdade, Ieiri-san... — ele fez uma pausa estratégica, sua consciência gritando para ele parar imediatamente de se enrolar ainda mais naquilo — Eu tenho um contato que pode conseguir um blend de uma plantação familiar em Shizuoka. É o tipo de produto que não chega ao mercado comum, sabe? Se eu falar com ele agora, acho que meu assistente pessoal conseguirá te entregar no hospital amanhã à tarde.

— Nossa, Kento! Você está mesmo esbanjando. — ela deu um sorrisinho — Bom, eu preciso mesmo ir. Fico no aguardo do chá, Senhor Diretor. E nada de “Ieiri-san”. Me chama de Shoko. — e saiu depressa depois de dar um tchauzinho.

E mal ele pisou novamente no salão, alguém chamou por seu nome:

Nanami! Cara, o Gojo acabou de me contar de uma ilha no Caribe que você comprou para fazer os retiros anuais de meditação da sua empresa! — o homem, que quando estudava com ele mal lhe dirigia a palavra, o olhava como se ele fosse um membro do country club — É esse tipo de pensamento que faz com que os associados vistam a camisa, sabe? Não podia esperar menos de alguém como você, que galgou seu caminho até o topo com mérito próprio!

Ele abriu a boca para negar, o estômago gelando e a respiração travando, mas antes que a primeira sílaba saísse, uma mulher surgiu do nada, segurando-o no braço:

— Kento, querido! Você sempre foi tão discreto, né? E agora tá um pedaço de mal caminho… — ela comentou, entusiasmada, umedecendo os lábios — O Gojo disse agora há pouco que você até contratou um personal trainer especializado em nutrição, que só acompanha atletas olímpicos, para não descuidar do físico nas viagens que bagunçam sua rotina.

— Eu... não... — Nanami tentou recuar, mas ele estava sendo cercado por mais cinco pessoas que diziam as coisas mais absurdas sobre sua suposta fortuna — O Satoru tem uma imaginação muito... fértil, pessoal.

— Ah, não seja modesto! — um terceiro se destacou no círculo, falando alto — O Gojo jurou que você recusou um convite para jantar com o Primeiro-Ministro porque tinha uma "conferência de emergência" na Itália; só uma desculpa para ir ver a final da Champions League a convite do presidente do Milan em pessoa. Eu faria o mesmo, honestamente! — e riu a valer, batendo em suas costas.

Olhando desesperadamente ao redor em busca de uma rota de fuga, Kento viu Satoru ao longe, encostado no bar. Com toda sua cara de pau, o herdeiro maluco de cabelos brancos levantou a taça em um brinde silencioso para ele. Ao seu lado, Suguru apenas balançava a cabeça, claramente desistindo de tentar controlar o noivo.

— Senhores, por favor. — Nanami tentou usar sua voz de autoridade — Há um equívoco monumental aqui. Eu nunca fui à Itália, nem possuo uma ilha. Eu malho numa academia de bairro às 5h da manhã de segunda a sexta e meu almoço geralmente consiste em um sanduíche de conveniência que eu como em cinco minutos para não perder tempo.

— Que piadista! — a mulher disse, descrente — Mesmo sendo podre de rico agora, quer parecer ser o mesmo garoto humilde de dez anos atrás. É mesmo um homem especial…

Ele tentou sorrir, mas o resultado foi mais perto de uma careta de dor de dente. Estava mesmo ferrado!

— Mas… me fala mais da sua ilha, Kento. — a mulher insistiu, quase derrubando seu dry martini no paletó dele, fazendo-o pensar por um minuto no quanto iria custar mandar lavar a roupa antes de devolver, se tivesse acontecido — O Satoru disse que você comprou em prol da preservação das tartarugas marinhas, construindo lá um spa de luxo sustentável.

— As tartarugas... sim. Um projeto de filantropia. — Nanami improvisou, o suor frio descendo pela nuca — Mas o… spa está sob embargo ambiental e prefiro não comentar detalhes, para não afetar o valor das ações da minha holding.

O grupo murmurou uma aprovação em uníssono, balançando as cabeças como se tivessem entendido tudo, quando o que ele fez foi só soltar os primeiros jargões que vieram à mente.

Ele precisava sair dali. Imediatamente!

Aproveitando-se do momento de transe coletivo, Nanami se esgueirou entre as mesas e entrou no banheiro, ouvindo no meio do caminho mais uma congratulação a respeito dos “iates” que ele “possuía”. Ele queria esganar Satoru, mas seria hipocrisia da parte dele só jogar tudo nas costas do outro: Kento estava se saindo um belo de um mitomaníaco. Talvez fosse bom investigar com um profissional esse possível transtorno…

— Ah, que bom que te achei! — Gojo disse, olhando o loiro pelo reflexo do espelho — Me conta... qual é mesmo o nome daquela sua vinícola na França que eu acabei de inventar pro Yaga-sensei?

Nanami não respondeu. Ele apenas fechou os olhos, cerrou os punhos, respirou fundo e rumou à saída de emergência.

— Mas Kento! Você já está indo? — a voz estridente daquela mulher o fez parar com a mão na maçaneta, ainda por cima atraiu a atenção de metade do salão — Pensei que podíamos conversar… melhor.

— O Nanamin é um homem ocupado, gatinha. — Satoru chegou, passando o braço por trás do ombro dele, finalmente dando uma desculpa que iria ajudá-lo.

— Exatamente. — ele assentiu — Inclusive, minha agenda até junho está completamente lotada. Então vou desaparecer por um bom tempo…

— E o casamento do Gojo e do Geto? — Utahime, que até então não tinha ido falar com Kento, apareceu por entre as pessoas, alternando o olhar entre Satoru e ele — Não me diga que você não foi convidado?

O sorriso de Satoru vacilou de pronto.

— Claro que foi! Ele é convidado de honra e vai comparecer. — respondeu, tentando voltar a soar divertido, mas seu tom de voz estava levemente desesperado.

— Eu adoraria, Satoru. Mas a recepção será no Green Valley, não é mesmo? Como todos aqui sabem, as regras de lá são bem... arcaicas. Eu não sou sócio, minha família não é da elite… eu só passaria vexame sendo barrado na guarita. — disse, um sorrisinho vitorioso quase escapando ao ver o pânico no rosto do amigo — Não pegaria bem para ninguém.

— Mas isso é um absurdo! — a mulher de antes exclamou, olhando para Satoru com indignação — Gojo, como você convida um homem do calibre do Nanami para um lugar onde ele não é bem-vindo?!

— É verdade. — Utahime interveio, balançando a cabeça — Se ele não for, vai parecer que vocês e o clube pouco se importam com os convidados. Inclusive, eu não tenho receio algum de representar o Nanami com um processo por danos morais contra o Green Valley e contra você, Satoru Gojo. Vamos tirar um bom dinheiro para os projetos de caridade que ele faz na África com isso.

— Fale com o conselho, Satoru! — sugeriu um outro ex-colega — Um homem com uma ilha no Caribe, amigo de gente importante da política e do futebol europeu, não deveria ter que pedir permissão para entrar em um clubinho de Tóquio.

Suguru, que assistia a tudo de longe, deu um gole lento em seu drink, mordendo a borda do copo com um sorriso travesso de "eu te avisei" para seu noivo. Nanami, por sua vez, sentiu uma satisfação quase transcendental em ver Satoru sofrer tanto quanto ele com o descontrole de sua criatividade:

— É uma pena, Gojo. — ele disse, com uma falsa melancolia — Se você não conseguir resolver isso com o conselho do clube até segunda-feira... eu terei que declinar o convite. Meu tempo é muito valioso. — e, sem olhar para trás, saiu pela porta.

Notas finais
Nanami: 😌 Satoru: 😨😥 Suguru: 🙂‍↔️