Notas iniciais
Capítulo originalmente betado por Tsuki.

Meus olhos estavam fechados. Podia sentir os doces sonhos penetrando minha mente. Tudo estava ficando distante. Silencioso. O único som audível era aquela voz, que me acompanhara durante noites e noites mal dormidas. Ela vinha se aproximando cada vez mais, lentamente, permitindo-me sentir sua presença inigualável. Quando enfim estava próximo o suficiente para entender suas palavras, meus olhos abriram instantaneamente, após sentir uma dor aguda em meu braço esquerdo.


A aeromoça fizera o favor de esbarrar o carrinho de guloseimas em mim. Por isso odiava as poltronas do corredor. Seus olhos vieram em minha direção, como se implorassem o meu perdão. Por favor, eu não ia matá-la. Que olhar era aquele?


Tentei ser o mais educado possível. Controlando minha imensa vontade de mandá-la para o inferno por aquele olhar ridículo. Não suportava aeromoças, todas, por incrível que pareça, todas eram daquele modo, faces cheias de maquiagem, corpos perfeitos e o melhor, fracas. Qualquer coisa e já pensavam que o mundo iria desabar em suas costas. Como poderia confiar meu bem estar a um ser tão ignóbil?


Convivi por todos os meus longos dezessete anos em meio á pilotos, aviões, chekins, dinheiro, muito dinheiro. Meu pai era Super Intendente de Logística em uma famosa Companhia Aérea em São Paulo. O nome Alfred Search era muito respeitado por lá, graças ao seu sempre perfeito trabalho. Até que um belo dia cometeu um deslize, e seus memoráveis anos de serviço foram insignificantes na hora em que sua demissão lhe foi encaminhada.


Minha mãe, Anna Search entrou em crise. Não sei se porque se preocupava com meu pai, ou se com esse fatídico ocorrido não poderia mais gastar rios de dinheiro em coisas supérfluas. Concluindo, depois de um mês de angustias, meu pai conseguiu um emprego na Companhia Aeroporto Marechal Rondon em Várzea Grande, e a mais ou menos 45 minutos estou dentro desse avião deixando toda a minha amada vida para trás. Não queria ir para essa bosta de cidade! Lógico que esperneei pros meus pais, mas pela primeira vez na minha vida, não adiantou de nada. E o garoto mimado aqui, teve que deixar sua vida agitada de adolescente na metrópole que era São Paulo, para ir em direção a uma cidade que sequer sabia que existia.


Depois de uma hora de viagem e alguns roxos espalhados por meu braço, cheguei a Cuiabá, cidade vizinha á Várzea, onde meus pais estariam me esperando para mais uma viagem estressante de carro a minha casa nova.


Quando passei pelas portas do aeroporto eles já estavam lá. O casal perfeito. O marido ingênuo e a esposa gananciosa. Vestidos elegantemente: terno e um curto vestido. Os óculos estilosos que dei a meu pai repousavam em sua face enrugada. Os cabelos curtos morenos se misturavam com alguns brancos, indicando que sua juventude já passara há algum tempo. Olhos extremamente pretos, e uma pele branca, decorrente de anos dentro de lugares fechados, distante do sol. Minha mãe, ao contrario, tinha uma pele bronzeada, graças às tardes passadas no clube, que ambos, eu e ela, usufruirmos demasiado. Seus cabelos mel, caiam-lhe por sobre o ombro, levemente ondulados, contrastando com os olhos verdes, que também se estampavam em minha face. Irritante. Tamanha perfeição me irritava. Se alguém lhes conhecesse a fundo saberiam que nada tinham de perfeitos.


Minha mãe vinha caminhando em minha direção com os braços abertos. Momento família. Nossa, que coisa brega.


– Que saudades, Kim! Esses dois dias longe de você pareceram uma eternidade.


Aham.


– Como foi a viagem? ... Nossa, o que são esses roxos no seu braço?


Foi você quem escolheu o lugar, esqueceu, mamãe?


– Foi tudo bem... Aquelas aeromoças idiotas, que não prestam pra nada.


– Que horror filho, não fale assim!


Meus pais se conheceram no aeroporto. Ela era aeromoça.


Fomos em direção ao carro, uma Mercedes. Lógico! Durante a uma hora que fiquei dentro daquele carro, minha mãe não fechou a boca um minuto, fazendo planos e mais planos de como gastar o dinheiro que meu pai ganhava. O mesmo não dirigiu a palavra sequer uma vez a mim. Tivemos uma bela de uma discussão quando ainda estávamos em São Paulo. Acho que passei um pouco dos limites. Mas, que se foda também! Quem deixa toda uma vida social para trás sou eu, e não ele. Velho idiota.


Pelo que me disseram viveríamos em um condomínio residencial próximo ao aeroporto, e também próximo a UNIVAG, uma universidade que meu pai queria que eu cursasse. “Porque filho, você tem que se preocupar com seu futuro.” era o que ele dizia. Eu me preocupo com meu futuro, mas, como esta bem explicito na frase, é meu futuro, não dele, então me deixe escolher meu caminho.


Realmente, era O condomínio. Era gigantesco! Apenas com casas de ricos. Típico. Com certeza, minha mãe escolheu toda essa merda. Aposta quanto que apenas o sofá deve ter custado uns 10 mil.


Paramos em frente à casa. Ainda não sabia qual era a nossa, então dirigi meu olhar para a que achei mais, digamos, estonteante. E logo um sorriso se fez em minha face. Era maravilhosa. A porta de entrada era enorme, a pintura branca de tão limpa refletia a luz do sol, quase me cegando. O jardim era belíssimo, cheio de flores e verdes. As janelas eram circulares, o telhado pendia para a direita. Uma casa feita para mim. Foi então que meu sorriso se desfez, ao ver meus pais se dirigirem a casa ao lado. Era bonita também, mas não fazia em nada meu estilo. Parecia aquelas casas de seriados americanos. Faça-me o favor.


Peguei minhas malas e fui em direção à porta de entrada. Parei repentinamente. Tinha certeza que havia escutado. Mais nitidamente do que em meus sonhos. Sim, aquela voz. Olhei para a rua na direção de onde a escutara. E foi aí que o vi pela primeira vez.



Notas finais
Primeiro capítulo curtiiiiinho, né? Vou tentar aumentar um poco. Isso é meio difícil pra mim, mas td bem =P Se alguém ler isso *desata em lágrimas - se recupera*, por favor deixe um reviewzinho tah? Ficaria realmente muuuito feliz! Primeira fic e que está sendo feita com muito carinho *------------*
Bjaoo**