É óbvio que não planejei nada disso.

Se eu tivesse pensado, teria escolhido algum nome aleatório de algum garoto que mora perto do Chalé das Conchas e não um garoto de verdade que eu conhecia mais do que bem.

Resolvo passar o restante do dia me escondendo, algo que eu tinha ficado boa em fazer. James sempre se atrasa para todas as aulas então foi fácil sentar no meio de várias pessoas para evitar contato.

O que eu tinha na cabeça em beijar ele no meio do corredor?

Todos na escola sabiam que James Sirius Potter tinha uma dona. Não digo mais namorada pois ele e Alyssa terminaram há quase um ano atrás, mas ela ainda considerava que ele era sua propriedade.

Alyssa Cohen era, apenas, a garota mais popular do sétimo ano. Sim, mais velha do que James e todos os meus colegas de classe. Além disso, Alyssa é filha de uma das garotas que quase namorou Harry Potter, Cho Chang.

Tia Ginny não gostou nadinha de ter que conviver com Alyssa. O que foi um fator importante para os dois não estarem mais namorando, mas eu aposto que não foi o único.

Minha última aula do dia é Transfiguração, com a Diretora McGonagall. Respiro aliviada, depois de ter almoçado no Salão Comunal e passado o dia correndo entre as aulas o mais rápido possível, pensando que finalmente estou livre.

Pena que não estou.

Quando saio da sala, segurando os pesados livros que nos obrigam a carregar, dou de cara com James Sirius.

Ele tinha um sorriso estranho no rosto e apoiava o pé de forma descolada na parede, como se fosse algo normal.

- Oi.

- Sobre hoje de manhã, James... — novamente não penso antes de falar. O que eu ia dizer agora? "Hm, eu meio que contei para o seu melhor amigo que nós estamos juntos para ele não achar que eu ainda gosto dele, mesmo gostando"?

- É. O que foi aquilo? Quer dizer, eu sei que foi um beijo. Mas porquê você fez aquilo? Você e Teddy conversaram sobre a carta?

Ele obviamente já sabia a resposta. James gostava de deixar as pessoas pensarem que ele era só mais um atleta idiota, mas eu sabia muito bem o quão esperto ele conseguia ser quando queria.

- Foi uma brincadeira estúpida. — me arrependo assim que falo, vendo sua expressão. — Quer dizer, foi o único jeito de me livrar das perguntas de Ted. Me desculpe.

Abaixo a cabeça, não esperando uma resposta, seguindo em frente pelo corredor já vazio. James estica o braço, me impedindo de passar e ficando estranhamente próximo a mim.

- Então você gosta de mim ou só me usou para manter a dignidade?

- Eu não gosto de você. Não assim. — falo rápido demais, ao qual ele ri.

- Eu tinha esquecido que você era engraçada quando está desesperada.

Reviro os olhos, empurrando o braço que me impedia de passar. Queria responder alguma coisa, mas ainda me senti culpada pelo jeito que ele ficou ontem quando soube da carta de Teddy.

Não entendi muito bem qual o problema entre os dois, mas James Sirius sempre gostou de ser único. E odiava quando era comparado com Teddy. Os dois eram melhores amigos, mas viviam competindo sobre quem é melhor em tudo.

- Espera... Então o Teddy agora acha que sou seu namorado, não é? O que você vai dizer para ele? O que eu vou dizer pra ele?

- Ainda não pensei nessa parte. Mas vou dar um jeito.

Finalmente saio dali, ainda sem acreditar em tudo que tinha acontecido no dia de hoje.

- Você sabe que ele é meu colega de quarto, não é? Dominique?

Continuo andando, ignorando o grito e ouvindo ele rir no final.

-

- É verdade?

Sinto meu coração sair pela boca. Estou sentada na minha cama, penteando meus cabelos. São quatro horas da tarde do primeiro sábado que passarei em Hogwarts este ano.

Rose Weasley está parada na soleira da porta, sorrindo, com seus cachos ruivos perfeitamente definidos e um livro nas mãos.

Pelo tom de voz dela, sei que não está falando sobre a carta que escrevi para seu namorado.

Consegui evitar Scorpius o resto da semana. James sorria para mim de vez em quando, parecendo estar feliz em como deixamos as coisas e Teddy não me procurou mais.

- O quê?

Ela abriu ainda mais o sorriso.

- Que você e James finalmente se beijaram! — a voz dela ficou aguda, enquanto ela dava pequenos pulinhos entrando no quarto.

Seria normal ter minha prima ali, feliz por mim, mas eu não era mais amiga de Rose.

Não depois que ela e Scorpius começaram a namorar.

Não me leve a mal, eu amo muito minha prima e não fiquei brava com ela por namorar um garoto que claramente gosta dela. Mas eu não tinha um coração de pedra, não conseguia ficar vendo a felicidade dos dois.

Sei que me afastar deles foi um erro. Assim como me afastar de James quando comecei a gostar de Teddy e me afastar de Teddy quando ele começou a namorar minha irmã foram coisas erradas. Mas eu não conseguia conviver com aquelas coisas e achava mais fácil ficar sozinha.

- Hm... É. — digo envergonhada.

- Caramba!

- Como assim "finalmente"?

Ela se senta ao meu lado, pegando minha mão. Por um instante eu volto a ter treze anos e vejo ali a Rose infantil, com 12 anos, que adorava ler histórias em quadrinhos e falar sobre qualquer coisa durante horas.

Eu sentia falta de Rose.

- Todo mundo sabia que isso ia acontecer um dia! Lily e eu até fizemos uma aposta há dois anos atrás. Vocês estão namorando?

- Namorando? O quê? Não! — respondo rápido demais. — Foi só...

- Tudo bem, Nick! Não precisa se apressar. Merlin sabe da fama do James, nada melhor do que fazer as coisas devagar.

Ela continua sorrindo, revezando o olhar entre eu e Lucy, que estava na outra cama.

- Você sabe que Alyssa vai ir atrás de você, não sabe? — diz Lucy.

Sim. Eu sabia. E estava morrendo de medo por isso. Quer dizer, meu plano para sobreviver aos sete anos em Hogwarts era me tornar invisível. Fiquei amiga de poucas pessoas, a maioria de outros anos, e só andava com meus primos. Não queria ser o centro das atenções.

- Não se preocupe, Nick. Nós vamos te proteger! — Rose falou, como se fosse óbvio, olhando feio para Lucy. — Alyssa não manda em quem James pode ou não namorar.

Não desminto a palavra namoro. Sinto como se magicamente eu tivesse entrado no clube das primas que namoram. E isso era bom. Esse era o tipo de atenção que elas davam para Vic até o ano passado.

Se Victoire estivesse aqui, provavelmente diria que escrever aquelas cartas foi sem sentido desde o começo e me daria uma bronca por ter contado uma mentira tão grande. Já teria me obrigado a contar a verdade para Rose e para Teddy.

Mas, pensando bem, se Vic estivesse aqui ela provavelmente iria me odiar também por conta de Ted.

- Vamos todos para Hogsmead semana que vem, tomar café da tarde na Dedos de Mel. Eu e Scorpius, Lucy e Louis, Lily e Hugo. Você e James deveriam vir com a gente. — Rose diz casualmente, se levantando da cama. — Vai ser a primeira vez que Vic e Teddy não vão. Acho legal vocês irem.

Ela sorri, mandando beijinhos na porta antes de ir embora. Quando foi que Rose virou tão simpática?

Passo o resto da tarde pensando no que elas disseram. Não consigo deixar de ter o sentimento de que elas se aproximaram apenas por não ter mais Vic, como se eu fosse a melhor segunda opção, mas tento tirar isso da minha mente.

Rox apareceu no quarto e me contou sobre suas férias por alguns minutos e depois eu falei sobre o meio do ano na França. Mas sempre voltava a pensar no convite que Rose me fez.

Eu queria tanto ir.

Queria tanto ser parte da família de novo.

Mas era impossível, e aqui está o por quê:

1- Eu e James não estamos namorando;

2- Ir significava ficar ao lado de Scorpius por horas, nas quais ele falaria da carta;

3- Se eu ficar muito tempo sozinha com Louis, vou esgana-lo;

4- É um encontro de casais e eu não faço parte de um casal.

- Quem é Dean? — ouço a voz de Rox mais uma vez, depois de algumas horas lendo O milagre, o mais novo exemplar de Nicholas Sparks que encontrei na sessão trouxa da biblioteca.

Olho para o envelope em suas mãos.

É a minha letra!

Eu me levanto e pego das mãos dela. É minha carta para Dean, do acampamento. Ela voltou para mim!



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.