Notas iniciais
Aos meus 400 leitores quase-fantasma: eu volteeeeei. Mais um capítulo desse romance clichê que eu tanto amo ler e escrever. Espero que gostem!

Victoire sempre disse que os dois últimos anos eram os mais importantes da escola. Os mais trabalhosos, onde eu deveria escolher o que queria fazer do meu futuro e viver tudo como se fosse a última vez que estava acontecendo. Portanto, que eu deveria aproveitar ao máximo tudo que acontecer.

Mas como eu vou aproveitar isso?

Entro correndo no salão comunal, rezando para todos os deuses possíveis para que Teddy (ou qualquer outro) não estivesse ali.

Subo as escadas mais rápido do que imaginava ser possível, pulando dentro do quarto e deixando a porta aberta, desesperada para achar minha caixinha azul. Porque eu fui inventar de esconder elas no malão?

Peguei a varinha, desfazendo o feitiço extensor que tinha na mala e vendo todos os meus pertences pularem para fora, bagunçando todo o chão.

Onde está?

Começo a chorar, sem saber muito bem o que fazer.

Nicky... — ouço uma voz masculina chamar, em um tom divertido enquanto me assustava.

— James, eu vou te matar! — digo com raiva, puxando ele para dentro do meu quarto e fechando a porta rapidamente.

Ele ri, surpreso com a minha reação. Sinto os olhos esverdeados cravados em minha direção e não faço as contas do porque ele está ali.

Viro de costas, fingindo estar pegando algo na cômoda para ter tempo de secar meus olhos.

— Me matar? Mas você disse que me ama!

Merda.

Não precisei nem virar para saber que James estava segurando a carta que eu escrevi para ele há dois anos atrás.

— E eu cito: "Não sei se foram seus olhos ridiculamente claros, quase angelicais, mas eu me senti especial."

— James, você viu a data na carta, por acaso? — eu disse, ainda com raiva e puxando o envelope de suas mãos. — Dois anos atrás, viu? E pra você saber, nem era para nenhum de vocês ter lido isso. Louis me paga!

— Calma, vocês? Quer dizer que você escreveu mais cartas de amor profundo para outras pessoas? — ele fingiu estar ofendido, colocando a mão no lado esquerdo do peito como se tivesse sido apunhalado e tentando puxar a carta de volta das minhas mãos.

— Viu? Sai daqui James Sirius!

— Foi isso que você quis dizer com "senso de humor nas horas erradas", né? — ele riu, sem se mexer enquanto eu tentava empurrá-lo para fora — Isso foi um gatilho para você voltar a me amar, Nicky?

Peguei minha varinha, apontando diretamente para o seu rosto e tentando manter a expressão mais ameaçadora possível. A diversão que ele estava tendo com tudo aquilo me fazia ficar ainda mais brava e, acima de tudo, envergonhada.

— Cai fora AGORA, James Sirius! Eu eu juro por Merlim que te estuporo e te coloco só de cueca dentro da sala da Minerva! — digo com a voz trêmula, tentando me controlar para não voltar a chorar na frente dele.

— Você não teria coragem.

— Estupefa...

— CALMA DOMINIQUE! — ele gritou, agora sério, colocando as duas mãos em frente ao próprio rosto, em uma tentativa falha de defesa. — Poxa Domi, eu tô só brincando!

Bufei, soltando a varinha e me segurando para não chorar.

Isso não é real. Estou sonhando. Estou no meu quarto e estou sonhando e James está no meu sonho, olhando pra mim sem entender nada. Eu fecho os olhos. Estou sonhando? Isso é real?

Corro para o banheiro, tentando fingir que James não estava mais no quarto. Ouvi um barulho de maçaneta e respirei aliviada, pensando que finalmente estava sozinha.

Me sento no chão, olhando para o papel timbrado que eu segurava, completamente amassado. Como eu tinha deixado James ler aquilo?

E então, como não há mais nada a fazer, eu tiro a carta do envelope e leio.

“Querido James S. Potter,

Antes de tudo, me recuso a chamar você de Sírius. Você deve ter achado o máximo quando as pessoas começaram a chamá-lo assim, não é? Quer saber? Sirius soa como o nome de um velho com a barba branca e comprida.

Quando se aproximou, sabia que eu ia me apaixonar por você? Às vezes acho que sim. Definitivamente sim. Sabe por quê? Porque você acha que TODO MUNDO ama você, James. É isso que odeio em você. Porque todo mundo ama mesmo você. Inclusive eu.

Eu amava. Não mais.

Aqui estão todos os seus piores defeitos:

— Você arrota e não pede desculpas. Apenas supõe que todo mundo vai achar fofo. E, se as pessoas não acharem, quem se importa, certo? Errado! Você se importa. Você se importa muito com a opinião alheia.

— Você sempre pega o último pedaço de bolo na casa da vovó Molly. Nunca pergunta se mais alguém quer. Isso é falta de educação.

— Você é tão bom em tudo. Bom demais. Você poderia dar a outros garotos a chance de serem bons, mas nunca dá.

— Você sempre tem o pior senso de humor nas horas erradas. Teddy gosta disso, mas eu não vejo graça. Não mais.

O pior de tudo é todas essas coisas chatas e sem sentido me fizeram começar a gostar de você como nunca gostei antes.

Eu nunca tinha pensado em você. Alice sempre disse que você é o garoto mais bonito do nosso ano, e eu concordava, porque claro que você é.

Mas eu não via nada de especial em você. Muitas pessoas são bonitas. Isso não as torna interessantes, intrigantes ou legais.

Mas você conseguiu ser intrigante e legal quando se aproximou de mim sem pedir nada em troca.

A partir daquele dia, eu passei a enxergar você.

Apesar de não merecer, tudo bem, vou falar sobre todas as coisas de que gosto (gostava) em você:

— Uma vez, na aula de Poções, ninguém queria fazer dupla com Agatha Thomas porque ela sempre estraga todas as poções, e você se ofereceu como se não fosse nada de mais. De repente, todo mundo passou a achar que Agatha não era tão ruim e era engraçada.

— Você foi o último garoto a ficar alto. E agora é o mais alto, mas é como se você merecesse. Além disso, quando você era baixinho, ninguém ligava de você ser baixo, as garotas ainda gostavam de você e os garotos ainda escolhiam você primeiro para o time de Quadribol.

— Você parece ser um bom namorado. Alyssa gosta de você. Você deve fazer com que ela se sinta especial. Porque esse é seu talento, certo? Você é bom em fazer as pessoas se sentirem especiais.

— Você fez com que eu me sentisse especial quando mais ninguém estava ali por mim.

Não sei se foram seus olhos ridiculamente claros, quase angelicais, mas eu me senti especial.

Mas, agora que o ano está quase acabando, sei com certeza que já deixei de gostar de você.

Estou imune, James.

Tenho orgulho de dizer que sou a única garota neste castelo que está imunizada contra os encantos de James Sirius Potter.

Tudo porque tive uma overdose de você no quarto ano e em boa parte do quinto.

Agora, nunca mais vou precisar me preocupar em ser contaminada de novo.

Que alívio! Aposto que, se um dia nos beijássemos, eu pegaria alguma coisa, e não seria amor. Provavelmente seria Herpes de alguma das suas ex-namoradas.

Com carinho (e não amor)

Dominique Delacour.”

Se eu pudesse me enterrar em um buraco e passar o resto dos meus dias ali, bem, é exatamente o que eu faria.

Porque eu inventei de falar sobre “me sentir especial” perto dele?

Coloco as mãos no rosto, envergonhada.

O que eu vou fazer se todas as cartas foram enviadas?

Por Merlin. Teddy.

Me levanto correndo, tenho que encontrar a caixa antes de me desesperar. Quem sabe Louis viu o nome de Teddy e desistiu de mandar?

— Eu tranquei a porta para você poder chorar em paz. — ouço a voz de James Sirius, meio sem jeito.

Porque ele ainda estava ali?

Ele estava sentado na beirada da cama de Lucy, com os cabelos bagunçados como sempre. Balançava a perna, hiperativo, enquanto tentava me deixar mais calma.

Esse era o James que eu gostava de ter por perto, o carinhoso e preocupado que só queria ver todo mundo bem. O James para quem aquela carta tinha sido escrita, mas que nunca deveria ler seu conteúdo.

Respirei fundo, olhando para as minhas mãos e vendo que estou tremendo.

Ignoro totalmente a presença do garoto ali. James não era minha prioridade agora. Passo os olhos pela bagunça no chão do quarto, finalmente achando a caixa, me dando conta de que a pior coisa que poderia acontecer na minha vida tinha acontecido:

Ela estava vazia.

Eu desabo no chão. Estou em um filme de terror. Minha vida virou um filme de terror.

Conforme encosto minhas costas na parede sinto o volume da carta que Victoire me mandou mais cedo no meu bolso. Não tenho coragem nem de olhar para a caligrafia perfeita dela depois de tudo isso.

Solto também a carta destinada ao garoto que estava em minha frente. Não quero ver aquele pedaço de papel nunca mais.

— Ok... Eu, Malfoy e quem mais? — ouvi novamente a voz grave do meu primo no quarto.

— O quê? — eu hesito — Quem disse que Scorpius recebeu uma carta?

— Fala sério, Dominique. As únicas pessoas que não sabiam que você era apaixonada por ele eram ele e Rose. — ele passou as mãos nervosamente pelo cabelo — Se é que ela não sabia...

— É claro que ela não sabia, James Sirius. — me arrependo assim que falo, já que estava confirmando que gostava do garoto.

Parei para pensar por um segundo.

Rose não faria isso comigo, faria?

Não tinha como ela saber que eu gostava dele...

— Então você tá me dizendo que ele não recebeu uma cartinha romântica dessas?

Continuei em silêncio, tentando resolver o que eu faria.

Será que se eu pedir com muito carinho, meu pai me deixa ir pra França também?

Mas lá ainda teria o problema de encontrar a Victoire…

Mas pelo menos era um problema, aqui são vários: Scorpius, James, Teddy, Henry, Rose. Meus primos que nunca mais vão me deixar em paz quando descobrirem o que aconteceu e...

— Eu, honestamente, achava que você era afim do Teddy e não de mim. — ele riu, se aproximando e pegando a carta que agora estava jogada no chão.

— Você tinha uma namorada por semana, James Sirius. — respondi, tentando evitar o assunto sobre o meu ex cunhado. — Você não veria alguém gostando de você nem se ela se declarasse.

— Justo. — ele ri, me dando razão e fugindo do assunto.

Finjo que não vi ele colocando a carta de volta no bolso. Não estou em condições de brigar com ele agora, mas vou pegar a carta de volta assim que possível.

— No quarto ano, Nicky? — ele começou a pensar, enquanto eu concordava com a cabeça, ainda sem graça com tudo aquilo. — Ok, o quarto ano foi a época em que Malfoy e Rose começaram a namorar e eu e Teddy ficamos seus amigos. Então, eu no quarto ano, Malfoy no terceiro… Quem mais?

Hesitei mais uma vez.

O que eu tinha a perder? Pelo menos com James eu ia poder desabafar sem ser muito julgada.

— Henry, na pré escola.

— Blackburn? — ele pareceu surpreso, ao lembrar do antigo colega de classe. — Apanhador da Lufa-Lufa, Henry Blackburn? — ele voltou a rir.

— James Sirius Potter, cala a boca! — peguei o travesseiro mais próximo e joguei no rosto dele, que rapidamente desviou, ainda rindo da minha cara.

— Dominique, ele é insuportável! Você já ouviu ele falando sobre a construção de Hogwarts??? Ele é pior que a tia Hermione!

— Tia Hermione é Ministra da Magia. — rebati.

— E mesmo assim é chata pra caralho.

Reviro os olhos, tentando não rir. Realmente, Henry é muito esperto mas também é muito chato com todo aquele papo de arquitetura e runas antigas…

— Henry que me contou sobre as cartas. Então eu e ele já estamos resolvidos. - mais ou menos — Um a menos.

— Quem mais?

— Um garoto do Acampamento Francês. Trouxa. Mas eu acho que ele nem recebeu a carta, porque sei que ele não mora mais na casa perto da vovó.

— Eu, o trouxa, o insuportável da Lufa-Lufa e o Malfoy. Que péssimo gosto, além de mim… — ele ainda estava se divertindo. — Se seu único problema é o Malfoy, vai ficar tudo bem. Ninguém gosta dele mesmo e se ele e Rose terminarem, tio Rony vai até fazer uma festa em sua homenagem.

— E o mundo é cor-de-rosa, James? — respondi, ficando irritada de novo. Odeio ficar irritada perto dos outros. — Rose vai me odiar! Scorpius vai me odiar, Teddy, Vic! Todo mundo vai me odiar! — gritei, sem saber o que fazer.

Vejo a expressão divertida de James escurecer. O sorriso, antes brincalhão no rosto sumiu como num passe de mágica.

— Então. — ele pigarreou, forçando a voz a sair — Você escreveu uma carta pro Teddy? Uau. — ele voltou a assumir a personalidade irônica que eu tanto odeio — Era meio óbvio também. O namorado da sua irmã, né?

Não sei o que responder.

Vejo o olhar de James, quase me obrigando a falar alguma coisa, mas não tem nada a ser dito. Eu concordo com seu olhar julgador.

Sou uma péssima pessoa.

Me apaixonei pelo namorado da minha irmã mais velha, mesmo ele não sendo seu namorado (nem na época e nem agora).

Me apaixonei por dois garotos quase ao mesmo tempo.

Escrevi uma carta para o namorado da minha prima, mesmo ele já sendo namorado dela.

Não sei quanto tempo fiquei encarando a caixa vazia. Ou meus pés. Ou a pintura avermelhada na parede. Mas, quando olhei para a porta, James não estava mais ali.

Decido não ir mais às aulas. Aproveito que os monitores já passaram por ali e que tenho até o horário do almoço para chorar em paz e volto a arrumar as coisas que tirei de dentro da mala antes que Lucy ou Rox voltem.

Vou focar em todas as pequenas coisas que posso fazer dentro do quarto.

Não posso pensar em Teddy lendo a carta.

Nem em Scorpius.

É terrível demais.