Notas iniciais
A História ainda esta em construção.
Críticas construtivas são bem-vindas :)

CAP. I — Encontrei

"E Deus criou as grandes baleias, e todo o réptil de alma vivente que as águas abundantemente produziram conforme as suas espécies; e toda a ave de asas conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom."

Gênesis 1:21

Após a Segunda Guerra do Sangue, a inundação de Azah havia coberto boa parte do território terrestre, fazendo do mar a principal fonte de comércio e transporte entre os Impérios restantes. Os povos, agora já resignados, buscavam estabilidade para continuarem com suas vidas. Ainda com medo da água e de suas criaturas, as cidades buscavam auxilio no Exército Imperial, pedindo proteção e amparo caso a Imperatriz ficasse louca novamente e resolvesse retomar seu terrível plano, ou sofressem ataques repentinos das criaturas marinhas que emergiam sobre novas águas. Dessa forma, o Império Central ganhava forças, riquezas e prestigio, sendo consultado sobre cada decisão, regindo assembléias cooperativas e se tornando o Império de Unificação entre os povos.

Com o passar do tempo, as navegações ganharam mais força, enormes e avançados navios exploradores corriam pelos mares em buscas de novas terras e novas criaturas, exibindo suas bandeiras da Ordem Imperial e vez ou outra, parados pela Marinha Imperial para serem vistoriados. Eram tempos difíceis para os piratas, com o cerco fechado, muito tinham seus navios apreendidos e pagavam severas penas, tendo risco de morte e açoitamentos. Aqueles que de alguma forma ganhavam a luta contra os temíveis navios brancos, tinham sua fama espalhada pelos mares e eram respeitados por todos piratas. Estes, fomentavam seu ódio em especial pelo Capitão John Mitchell do navio mais rápido da frota — o Sirena Del Mare, cuja boa aparência e o olhar gentil escondiam grande crueldade em nome da verdade e da honra. Histórias suas chegavam a todos os ouvidos, diziam que sua espada era implacável e mortal e que jamais algum homem escapou dela, gerando medo em cada pirata que ouvia seu nome. A vida deste homem sem coração, estava tomada pelo desejo de caçar piratas e infratores da lei, por ordem do Império Central e por gosto próprio, as prisões tinham vários enviados seus, assim como cemitérios e o estômago dos peixes. Há muito tempo, ele vinha buscando uma ilha não marcada nos mapas, chamada por alguns de Ilha Liberdade, ele desejava levar sua frota de mais de dez navios até lá e aniquilar qualquer coisa que se mexesse. Sem sorte e frustrado, ele perseguia qualquer informação que se aproximasse de tal paradeiro e oferecia boa recompensa a quem mostrasse o verdadeiro local.

—Já estou vendo a ponta da ilha Simon! — a voz feminina gritava de cima da gávea

—Excelente — Ao leme, ele desviava das grandes rochas tomadas pela nevoa

—Os homens já estão preparados senhor, quando for a hora, ninguém nos verá partir. — Outra mulher, ao lado dele, tomava posse do leme

—Pyra, se eu não voltar até a hora combinada...

—Eu sei o que fazer. Não se preocupe, vai dar tudo certo Simon.

A pequena ilha tropical era mal freqüentada, rodeada por rochas e nevoas traiçoeiras. Navios paravam aos montes em seu bagunçado ancoradouro, formavam pequenos grupos donde saiam os mais mirabolantes planos de invasões e pilhagens. Certos de que jamais seriam descobertos, homens montavam modestos comércios e um pequeno centro começava a ganhar forma. Ali velhos companheiros tomavam cerveja na taberna, riam e zombavam uns dos outros, brigavam e vez ou outra alguma morte pelos becos. Não haviam muitas regras, apenas aquelas que manteriam o mínimo de ordem possível.

Quando o Alma Negra atracou no ancoradouro já abarrotado, olhos curiosos caíram sobre sua pequena tripulação. O primeiro a tocar o chão, e também o maior deles, era Simon, que carregava consigo uma grande espada.

—Temos apenas algumas horas — disse ele, estejam todos aqui até anoitecer.

Seguido de perto por Victhor, os dois iam em direção ao centro, onde homens já cansados montavam um pequeno palanque.

—Este lugar esta bom Simon.

—Esta — Ele não importou-se com os olhares zangados que recebia de quem estava atrás de sua largas costas.

—O movimento esta bom essa noite. Há muitos homens aqui.

—Parece que sim. — Simon reparou nos seus andando entre os outros, trocaram cumprimentos e seguiram como se não o conhecessem, estavam deixando o navio — Como estamos de tripulação Victhor?

—Uma lástima. Ainda temos poucos homens de confiança no navio, muitos não querem a querem, você sabe.

—Temos que dar um jeito nisso.

Uma onda de agitação chamou a atenção dos dois. Era um homem pouco velho subindo ao palanque acenando com as duas mãos.

—Boa Noite senhores! — Ele fez uma reverência dramática — Espero que todos tenham feito uma boa viagem até a Ilha! Essa noite temos excelentes mercadorias, material de ótima qualidade. — Um sorriso largo e amarelo estampava sua cara. Simon detestava aquele homem. — Para quem não me conhece, o que julgo ser impossível, eu sou Benjair, e será um enorme prazer fazer negocio com vocês.

As "mercadorias" adentraram ao palanque, exibiam seus músculos e caras amarradas em expressões que deveriam tomar de medo o coração de quem os visse.

—Há mais do que da última vez.

—Sim, o número de homens que querem ser "Homens Livres" vem mesmo aumentando. Há grande burburinho pelas vilas dizendo que a recompensa é boa e isso os atrai. Para aqueles que voltam vivos dos trabalhos, deve mesmo valer a pena. O que acha Simon?

Simon afirmou com a cabeça. Não era sujeito de falar muito, Victhor pensava que ele queria esconder o sotaque forte e meio caipira.

Benjair exibia seus "Homens Livres", acentuando suas qualidades no roubo, na força, com armas, tudo o que poderia enriquecer ainda mais cada homem para ele lucrar em cima.

—Pagou um bom preço por este, senhor! — Ele contava as notas que recebia — Não vai se arrepender, já é a segunda vez que o alugo, ele cumpre bem o que mandam.

—Daqui quarenta e cinco dias estarei de volta. — Enquanto o comprador ia embora, a mercadoria virou-se para Benjair — Esteja com meu dinheiro.

O velho balançou as mãos mandando o outro ir embora, como fosse um animal qualquer, não lhe dava importância alguma. A nenhum deles.

—Benjair Bollevair! Velho Amigo! — A voz conhecida gritou de longe.

Os dois encontraram-se, abraçaram e foram conversar atrás do palanque.

—Ele esta aqui? — Benjair estava surpreso — Onde?

—Calma camarada! — Markus dava tapinhas nos ombros dele — Calma! Tudo a seu tempo! Vamos primeiro falar de negócios!

—Se este for mesmo o que diz ser, meu amigo, estaremos muito bem!

—É claro que é! Acha que eu o enganaria? — Com os braços abertos e sorriso largo, Markus encarava Benjair e esbanjava simpatia — Vamos! Termine logo com essa fuleragem ai e vamos que a mercadoria é boa!

—Certo, certo! Falta só as mulheres agora. Inclusive, vai a venda aquelas que você trouxe da Madame Falcão.

—Mulher ardilosa meu caro. Me tirou uma boa quantia dessa vez. Faça meu dinheiro render, faça render! — Mais risadas, mais abraços e mais simpatia. Markus era um ótimo ator.

Após o último homem ser empregado, as mulheres subiram ao palanque. Roupas provocantes, olhares sensuais, beleza não era o forte, mas cada uma podia gabar-se de suas habilidades com os homens.

—Experiência cavalheiros! — Benjair dizia de cima do palanque — Essa é a palavra que define essas mulheres de hoje. Do que adianta um belo rosto se ela não lhe serve bem heim? Essas aqui não! São um prato cheio!

Urros, assobios, gritos com insinuações eróticas de mais baixo calão, e todo tipo de coisa seguia junto a venda delas. As mulheres eram peças diferentes para Benjair, elas eram vendidas e não voltavam para buscar parte de seu pagamento. O que lhes acontecia depois que o dinheiro já estava em sua mão, não era mais problema seu. A maioria ali era prostituta que não dava mais lucro ao cabaré de onde vinha, a própria Madame Falcão mandou quatro das suas. Outras, eram parentes de algum endividado que para não ter o pescoço cortado, preferia entregar as mulheres da família. Elas eram vendidas rápido e as primeiras por preços bem mais altos. Aquelas que iam ficando para trás, as mais magras, mais feias ou mais velhas, eram vendidas por mixaria.

—Olha ali — Um homem ao lado de Simon cochichava com outro — Markus esta de novo fazendo acordos com Benjair.

—Eu não gosto desse homem, dizem que ele tortura os outros tanto quanto Capitão Mitchell .

—Sim! Já ouvi falar de suas fazendas de horror. Barbárie! Dizem que seu pai deixou terras e terras pra ele, e que o cultivo é todo feito por escravos que ele contrabandeia.

—Os que sobrevivem meu amigo, porque a maioria morre no caminho.

—Sobrou apenas uma Simon. — Havia uma única mulher no meio do palco. Roupas maltrapilhas, cabelos ensebados e bagunçados, roxos pelo corpo, pouca beleza aparente. — Parece que ninguém a quer. — Ela encarava Simon desde que subira ao palanque.

—Já esta na hora. — Simon não desviava e Victhor sabia o que fazer. Pagou um ótimo preço por ela.

A noite seguia animada, muita bebida e comida a vontade, sem pudor algum, eles aproveitavam, cada um a sua maneira. Alguns tramavam novas pilhagens, trocavam informações sobre as novas rotas marinhas e como escapar deles e do temível capitão do Sirena Del Mare.

A mulher juntou-se a Simon e Victhor e juntos aguardavam o fim da noite, havia a promessa de uma mercadoria nunca vista na ilha e eles ansiavam por ela.

—Me soltem seus bastardos filho da ... — Uma briga no meio dos homens. — Eu vou matá-lo!

—Ora vejam só. — Markus, ao lado de Benjair, erguia um copo de bebida em direção ao rapaz — Se não é o filhotinho escorraçado.

—Maldito! Maldito! Lute comigo se for homem!

—Oh, sinto muito! — Markus, com seu cinismo, debochava dele — Não posso agora — Passou o braço envolta do pescoço de Benjair e bebericou de seu copo meio vazio — Estou muito ocupado aqui. Sou um homem de negócios muito sério.

Os homens arrastaram o rapaz para longe, ele gritava e esperneava.

—Willian Johnson! Lembre desse nome! Eu vou matar você.

—Entre na fila rapaz. — Markus lançou um olhar ameaçador a ele mas logo assumiu seu sorriso largo e bebeu de seu copo.

Os três, que assistiram a tudo, entre olharam-se e foram atrás do rapaz deixado na floresta pelos capangas de Benjair. Encontraram-no com alguns cortes no rosto e vomitando sangue por ter lavados fortes socos no estomago.

—Willian Johnson. — A mulher parou ao seu lado — Você disse que esse é seu nome certo?

Ele a encarou sem entender.

—Vamos rapaz. — Victhor ajudou-o a levantar e colocou-o de pé.

—Obrigado.

—O que você tem contra Markus? — disse ela.

—Eu vou matá-lo. Senhora, eu juro por Deus que irei matá-lo.

—Você esta sozinho nisso? — o rosto dela era sério, porém pouco podia ser visto pela escuridão da noite

—Sim.

—Não é inteligente sair dizendo seus planos para todos como fez agora, Markus tem muitos amigos.

—Não tenho medo senhora. Não tenho mais nada a temer. Nada mais.

Victhor reparou no olhar do rapaz, olhos verde esmeralda, cheios de rancor.

—Se tivesse uma boa espada ele não escaparia.

—Espada?

—Sim — Ele virou-se para Victhor com fala entusiasmada — Uma boa espada, para atravessar o peito daquele miserável abutre e acabar com sua vida.

—Podemos providenciar uma. — Ela virando-se para Simon, teve a confirmação dele. — Façamos um acordo. Nós estamos recrutando tripulantes, e até no fim da nossa missão, ajudamos você a acabar com Markus. O que acha?

Willian pensou um pouco. Encarou aquele trio a sua frente. No que eles poderiam lhe ajudar? Pareciam ter ainda menos do que ele.

—Feito. — Sua mão estendida para Simon, foi apertada pela mulher.

—Feito. — Ela sorriu.

Ao voltarem para o centro, deram de cara com Markus que sério, conversava com Benjair que estava exaltado e gesticulando sem parar.

—Ai esta ela. — Surpreso, ele apontou a mulher que o olhava de cabeça erguida.

Markus acendeu um cigarro e pôs á boca enquanto caminhava em direção a eles.

—Esta perdendo seu tempo irmão. — Disse para Simon — Essa ai não vale nem uma moeda.

Foi preciso Victhor segurar os braços fortes de Willian.

—Calminha ai cãozinho, logo vai encontrar com sua irmãzinha de novo — sua risada fez o sangue dele ferver.

—O que quer? — Simon não tinha paciência para tipos como ele.

Markus deu um trago no cigarro e jogou a fumaça na direção da mulher.

—Ela me deu trabalho lá na cidade, teimosa, não faz o que a gente manda sem ter que levar uma boa surra antes. Perdi a cabeça na última vez e acabei trazendo ela pra cá — Ele gesticulava excessivamente, tinha trejeitos estranhos e seu rosto se mexia demais enquanto falava. — Daqui a pouco você vai começar a reclamar dela por ai. — Ele tirou um saquinho de dentro do paletó — Te devolvo o que pagou nela e você arruma uma mais boazinha.

Simon suspirou.

—Enfia seu dinheiro no rabo.

Markus encarava a mulher enquanto mais fumaça saia de sua boca. A expressão em seu rosto significava problemas, era comum que Markus mandasse matar um ou outro na ilha, já não era surpresa pra ninguém as confusões que ele arrumava.

—Acho que você não me entendeu bem — Ele apontava o cigarro em direção a Simon e em seguida tragava-o levantando as sombracelhas. — Eu a quero de volta.

O clima era tenso, os dois não iriam ceder. Talvez, por sorte, um grupo de bêbados caminhava naquela direção e trombando com Markus deixaram o caminho livre para o pequeno grupo sair sem maiores problemas. Victhor teve de fazer um esforço para que Simon o seguisse, os punhos dele estavam cerrados e pelo estado de suas veias, não seria pequeno o estrago.

Quando chegaram ao palanque, Benjair já estava ao centro, vangloriando-se da próxima mercadoria. Ele já esperava um rico pagamento, estava confiante.

—Tragam!

Trouxeram alguém encapuzado, se debatendo inutilmente, com os pulsos amarrados e o corpo semi nu. Teve inicio uma série de gritos, homens levantando sacos de dinheiro e outros com olhos arregalados.

—É ele? — A mulher perguntou a Simon que fitava algo em seu tornozelo.

Ele afirmou e os dois fixaram os olhos lá em cima. Ela sorria, finalmente o tinha encontrado.

Alguns socos no estomago e logo ele estava quieto, imóvel enquanto Benjair declamava o quão maravilhoso e caro era, e como todos ali deviam ser gratos a ele e a Markus por terem conseguido trazer em bom estado — vivo — algo como aquilo.

Benjair, que gostava de atenção, não se continha, ficou muito tempo falando de si mesmo, enchendo-se de qualidades que não tinha, deixando alguns de saco cheio e desconfiando da veracidade da mercadoria. Olhos furiosos começaram a incomodá-lo.

—Vamos começar os lances! — Ele fez sinal e o capuz foi arrancado. Houve um pequeno silêncio seguido de mais urros e gritos. Eles podiam ver os vários azuis mesclados nos olhos dele.

—Sim meus amigos, é um sereia legítimo, sangue puro! — Benjair agarrou-o pelo queixo e mexia seu rosto apertando-o — Vejam! — Os olhos dele variavam entre os azuis e o vermelho, ele estava irritado. — Eles estão raros hoje em dia, esses machos estão sumindo dos mares, mas por um bom preço, alguém de vocês pode levá-lo.

Benjair segurava-o e mostrava a parte interna de seus braços de onde todos uma fina camada de pele, ele pediu a um dos homens o balde cheio de água e jogou da cabeça aos pés. As barbatanas em seus braços rasgaram a pele e se abriram. Ele parecia sentir alguma dor. Mostrou também as da perna, que seguiam da parte detrás do joelho até os tornozelos.

Simon e a mulher reparavam bem.

—Ele deve ser bem rápido. — Ela ressaltou.

—Não acredito que tem uma sereia aqui! — Willian estava pasmo. — Logo aqui, neste lugar imundo!

—Ele deve ter sido roubado de alguém. — Victhor ajeitava a gola da camisa — Não teriam como, de fato, capturar um desses. A Marinha Imperial esta vistoriando tudo, nada esta passando despercebido.

—Ele esta muito magro.

—Bem senhora, — Willian sorriu — se comparado a você, ele esta muito bem. Com todo respeito, posso ver todos os ossos de seu corpo. Para alguém com um trabalho como o seu, não deveria ser mais... volumosa?

—Um trabalho como o meu?

—Sim, uma meretriz devia ter algo mais a oferecer do que apenas pele e osso.

—Mais água! — Benjair jogou outro balde nele e mostrou as aberturas em seu pescoço — Aqui está por onde eles respiram embaixo dá água, — pequenas guelras por baixo de uma fina pele — podem olhar bem depois que o comprarem, essa parte evita o ressecamento quando estão em terra não deve ser danificada. — Muitos homens antes tentaram enganar compradores, falsificavam as nadadeiras nos braços e pernas, então mostrar essas partes era de suma importância para garantir um alto valor na mercadoria. Por fim, ele exibia o corpo dele, sem cicatrizes, sem marcas.

O sereia tentava soltar-se mas a cada vez que tentava recebia um murro no estomago, nas costas ou um puxão em seus cabelos.

—Temos que ser rápidos. — Simon observava o rosto dela admirar a criatura no palanque. — Jane! Temos que ser rápidos.

_ O que? — Willian virou-se para ela.

Ela não disse nada. Não era hora para explicações.

Jane observava os homens aos redor do palanque, ela contou sete com pistolas nas mãos e mais três com espadas. Seus olhos procuravam uma brecha.

—Simon, leve Willian e Victhor com você, espalhem as pedras por ai. Depois vá e avise que logo chegaremos. Pyra deve deixar tudo pronto.

Eles saíram com Victhor puxando Willian que não queria ir sem explicações.

—Depois. — Victhor prometeu. — Na hora certa.

Ficando só, Jane caminhava devagar, passando pelos homens que gritavam. Ela observava o sereia no palanque, sendo exposto como uma coisa, sendo tocado em todos os lugares por Benjair. Sua forma impressionava, os detalhes em seu corpo, suas orelhas, o formato de seus olhos, suas guelras ainda buscando ar, respirando com dificuldade. Sem pertencer completamente ao mar ou a terra, uma criatura entre os dois mundos, mais uma vez, sendo subjugada por homens inescrupulosos e doentios. Seus lábios cerrados, demonstravam a dor nas pancadas que recebia.

Jane aproximava-se enquanto Benjair pedia mais e mais ouro por ele.

—Vejam esses músculos! — Mostrava os braços e tórax dele — Servira muito bem para qualquer um de vocês. Também podem vender mechas dos cabelos dele, foram cortados a pouco tempo, logo que crescer já pode ser cortado de novo. Há muitas bruxas que pagam um bom preço. — Os cabelos dele estavam pouco acima dos ombros, formando pequenos cachos.

Ela chegou bem próximo ao palanque, sem desviar a atenção do sereia, desceu seus olhos pelo corpo dele parando na altura dos tornozelos.

—Ai esta. Uma tornozeleira dourada e fina. Não consigo ver as argolas daqui. — Ela inclinou-se um pouco. — Ali estão. Uma, duas... — Ela parou. Algo a incomodava. Sentiu um arrepio percorrer a espinha, um aperto no peito. — O que...

O sereia olhava para ela, de uma forma intensa, os olhos dele penetrantes, deixaram Jane zonza. Ela cambaleou e um dos homens teve de segura-la.

—Cuidado ai moça! — O rapaz ao seu lado ajudou a manter o equilíbrio — Os machos são difíceis de lidar!

—O que? — Ela levou uma mão a cabeça que doía um pouco.

—É preciso domá-lo primeiro antes de encará-lo, como a senhorita fez. Principalmente sendo mulher, deve ter mais cuidado, precisa ter a mente forte ou ele entra e faz um estrago ai dentro.

—Nunca ouvi falar tal coisa.

—Não tá fácil descobrir informações verdadeiras sobre eles. Mas isso é verdade. As sereias, machos e fêmeas, precisam ser domadas, ou elas enfeitiçam. Muitos marujos foram levados ao fundo do mar por belas sereias. Se pensa em ter uma, aconselho que o leve as bruxas o mais rápido possível. Elas cobram caro, é verdade, mas depois de lá, dificilmente terá problemas com comportamento das sereias.

—Basta uma visita e ele já me obedece? — Jane percebeu que o sereia ainda a olhava, mas ela evitava encará-lo de volta. Ainda estava pouco zonza.

—Não senhorita! Mas você não sabe nada mesmo. Você deve visitá-las de vez enquanto. Veja aquele sereia ali, ele tem três argolas na tornozeleira, isso significa que ele já visitou as bruxas três vezes.

—Você sabe bastante sobre isso. — Ela sorriu simpática.

—Sou um mero curioso no assunto. Alias, sou Philip Kurtler. — Ele estendeu a mão

—Jane Sanches. — Ela assentiu ao cumprimento com um sorriso.

—Parece que ganhou um amigo senhorita Sanches. -Ele sorriu de volta e notou algo curioso de cima do palco. — Reparou senhorita? O sereia não parou de olhar pra você.

Jane passou o restante da noite ao lado de Philip, ouvindo mais sobre as sereias, procurando absorver o máximo de informações que podia. Benjair não estava satisfeito com os valores oferecidos por ele, e o manteve preso com correntes para que todos pudessem vê-lo no centro do palanque. Alguns pediam para chegar mais perto, pagavam uma quantia e eram permitidos alguns minutos próximo ao sereia.

—Gostaria de vê-lo de perto senhorita?

—Ah, eu não tenho nenhum dinheiro.

—Onde esta o grandalhão que a comprou? — Philip olhou para os lados, sem encontrá-lo — Estranho deixarem uma mulher sozinha por aqui.

—Ele voltará logo. Obrigada pela preocupação.

O jovem rapaz, ainda curioso, convenceu Jane a ir ver o sereia, ofereceu para pagar a pequena visita e de pronto, ela subiu ao palanque para vê-lo.

—Não tenha medo. Eu estarei aqui caso algo aconteça.

—Eu não tenho medo.

—Claro que não. — Philip indicou o caminho e ela foi devagar até o sereia.

Ele estava em pé, olhos baixos, ainda respirando com dificuldade. Dois capangas com

pistolas na cintura vigiavam. Quando viu Jane, o sereia mudou o semblante, parecia quase contente.

—Fascinante. — Philip observava atencioso a tudo.

Jane aproximou-se o máximo que os capangas permitiram.

—Você fala?

O sereia fez que sim.

—Mas falar aqui é perigoso — Muitos piratas a observavam com estranheza, ela devia ser cautelosa — você se torna mais raro e mais valioso.

Ele ergueu as mãos acorrentadas para ela, seus pulsos estavam feridos pela força que fazia para se livrar delas.

Ela tentou tocar mas ele não permitiu, sentiu seu corpo fraquejar, estava zonza e era difícil encarar o sereia a sua frente.

—Pare com isso. — Ela pediu, os olhos dele fixos nela.

—Acabou o tempo. — Outro dos capangas puxou o sereia de volta.

—Me tire daqui. — A voz dele era baixa. Jane sentiu seu coração disparar.

Jane desceu do palanque ainda meio zonza, porém, estava determinada. Ainda mais do que antes.

—Incrível! Incrível! — Phillip estava ansioso — Tenho certeza que o vi falando Jane!

Ela passou direto por ele, o que deixou surpreso.

—Onde esta indo? Jane!

Simon e os outros dois, andavam pelo centro da ilha com Willian fazendo perguntas sobre Jane e o navio o tempo todo. Mais de uma vez ele recebeu ameaças se não ficasse quieto, o que davam aos dois alguns poucos minutos de sossego e logo mais perguntas.

—Aqui esta bom. — Os dois tripulantes do Alma Negra escondiam pedras do tamanho de um punho por lugares próximos ao centro mais movimentado. Enquanto iam afastando-se, colocavam também na estalagem e no estábulo.

—Essas são Pedras Vermelhas? — Ele perguntou a Victhor, já que Simon olhava para ele quase rosnando.

—Sim Will.

—Vocês vão criar um grande estrago com tantas por ai. — Ele recebeu um sorriso de volta "É isso que queremos".

Willian ajudou a espalhar mais algumas por lá. Eles encobriam as pedras com trapos ou qualquer coisa que tivesse por perto. Logo chegaria a hora, o sol já dava lugar a lua e Pyra aguardava o sinal. Simon novamente viu alguns dos seu rondando por ali, Victhor os ignorou mas o outro sabia que não podia confiar neles.

—Vamos logo com isso.

Na pequena taberna, Benjair estava animado com as negociações sobre o sereia, suas palavras referiam-se mais sobre ele mesmo do que no preço em si mas não deixava de acrescentar números ao preço ofertado.

—Meu caro Sr. Robinson, — Benjair gostava de usar palavras difíceis quando falava com gente importante — acha mesmo que eu lhe venderia uma criatura magnífica dessas por apenas quinhentas mil moedas de ouro? Não espera que eu aceite realmente!

—É minha oferta final e eu havia lhe dito trezentas mil moedas! Não vai conseguir mais do que isso por aqui, eu lhe garanto.

O negociante recebia olhares de Markus, que pouco atrás vinha tomando conhecimento da conversa.

—Ele esta certo, ninguém tem mais a oferecer do que este ilustre senhor. — Seu sorriso largo era tão falso quanto os elogios que fez ao rico amigo.

—Sempre com esse cigarro fedido — Robinson abanava a fumaça da cara mas sorria mostrando os vários dentes de ouro

—Mas ainda é pouco! Você mesmo sabe — Benjair, enfático, referia a Markus, que continuava a soprar fumaça por cima da cabeça de Robinson — em pouco mais de dois anos você recupera o dinheiro. Não seja mesquinho!

A negociação discorria sobre o quanto o sereia era valioso e caro, o tempo passava e o velho não arregava no preço, e não chegando a um acordo, o sereia foi trancado dentro de um velho caixote próximo a estalagem.

Os homens, com pistolas e facas vigiavam despreocupados, fumando seus cigarros de palha. A fumaça subia enquanto falavam sobre as noites quentes em companhia das prostitutas de Madame Falcão. Vislumbravam o céu e esqueciam dos problemas com a Marinha Imperial, que há tempos causava a morte de muitos piratas conhecidos seus.

—Tem alguém ai? — um dos homens ouviu um barulho no meio do mato.

—Apareça! — O outro fez sinal e foram ver o que era.

De dentro do caixote, o sereia ouvia abafado os sons lá fora. Haviam começado uma luta, ele distinguia as rajadas de espada desferindo golpes violentos. Eram quatro homens que apesar de serem maiores em tamanho e número estavam em desvantagem, o oponente era certeiro em seus movimentos e não deixava passar nenhuma brecha, pés rápidos, olhos fugazes com movimentos leves e fortes.

—Quem é você? — Um deles no chão, sentia a bota apertar sua garganta enquanto o par de olhos castanhos o encaravam.

Não houve resposta.

Os corpos pesados, eram carregados sem dificuldade, não demorou muito, um a um, os homens de Benjair foram amontoados de canto. O sereia temia por ser o próximo a morrer. Temia, porém estava tentado a desejar que fosse assim. Bastava para ele de tudo aquilo.

Algo golpeou o caixote, ele sacudiu um pouco. Mais uma vez. Mais uma.

Um sibilar estranho veio de longe, parecia um apito. Quem quer que estivesse tentando abrir o caixote parou e afastou-se para logo voltar e golpeá-lo com mais força.

Dessa vez abriu um pequeno buraco na madeira. O sereia podia ver alguém erguer um machado acima da cabeça, o apito soou de novo e o machado veio com tanta força que por pouco não rachou o sereia junto com o caixote.

—Você consegue correr? -Ele encarou a figura a sua frente, reparou no rosto suado, na respiração ofegante e no sangue em seus braços. — Consegue ou não? Não temos tempo!

Ele fez que sim e os dois correram rápidos, com ele seguindo Jane floresta adentro.

—O que esta fazendo? — Will gritava quase eufórico — Esta maluco? Se continuar a soprar essa merda, aquelas pedras vão explodir com a gente aqui!

Sem dar ouvidos a ele, Victhor soprava um tipo de apito feito com bambu e lascas das pedras vermelhas. Simon havia saído na frente a pouco, deixando-o por conta do restante.

—Apresse-se e me siga. Não vai demorar muito pra essas pedras explodirem. Já devem estar quentes.

—Era o que eu estava dizendo! Vocês são loucos!

Will não gostou do sorriso que recebeu em troca.

—Não era um elogio!

—Siga em direção a praia, disfarce, não deixe que percebam o nervosismo na sua cara.

—Cala a boca! Eu sei muito bem. — Will tentava caminhar sem olhar para os lados, mas era quase impossível, já que todos pareciam os observar.

Victhor percebia o nervosismo do novato, tentou puxar algum assunto mas sem muito sucesso, ele também estava pouco nervoso, seus motivos eram diferentes, ele receava estar reparando em Will, mais do que deveria.

Benjair logo descobriu o desaparecimento do sereia. Jamais pensou ser roubado na ilha que considerava como casa. Sua fúria era louca, destruindo aos socos tudo que via pela frente, agarrava os homens pelas golas e jogava-os longe. Markus observava de longe, estava mais preocupado com o valor investido, levado por outro, do que pela sanidade mental do velho.

—Eu vou matar o desgraçado que me fez isso! Vou matar! — Os olhos dele arregalados, sua boca espumava e suas veias saltavam a blusa.

—Senhor! Um dos homens ainda esta vivo!

—Traga-o para mim! — Seu grito poderia ter sido ouvido de longe, se não fosse pelas explosões. — O que foi isso?

Várias explosões tiveram inicio próximo e longe deles. Fora da taberna havia uma grande confusão. Piratas corriam com baldes de água, tentando apagar o fogo e outros acalmavam os cavalos alvoroçados com o barulho.

—Filhos da puta!

Sem se alarmar com a confusão, Markus recebia informações do homem ainda vivo, sangrando pelo corte no abdômen, estava apoiado nos ombros de um outro. Markus até então, mantinha um sorriso cínico na boca, ouvindo com pouca atenção o que o homem dizia, pensando na cara que Benjair faria quando dissesse que agora estava endividado com ele. Sua expressão passou a ficar séria quando ouviu sobre uma mulher e Benjair notando algo grave, aproximou-se, preocupado com o roubo do sereia.

—Foi uma mulher senhor. Estava dizendo ao senhor Markus — a voz do moribundo era trêmula — foi aquela que... — Ele foi morto, enfim, com uma facada na barriga.

—Venham comigo e você Benjair chame mais dos seus. — Markus deixou de lado a faca suja de sangue — Vamos encontrar aquela vadia e recuperar o que é nosso de uma vez.

Jane e o sereia corriam desvairados pela floresta e apesar dos esforços, eles não eram rápidos o suficiente. Passavam pelas árvores, escorando em seus troncos, tropeçando nas raízes e duas vezes o sereia caiu.

—Estamos quase chegando, se esforce mais um pouco.

Ambos apoiavam as mãos nos joelhos, respirando com dificuldade Jane ansiava pela visão da praia. Para o desespero deles, latidos adentraram a floresta e vozes furiosas alcançavam seus passos. Em silêncio, Jane sinalizou para que continuassem correndo, ela deixou que ele fosse a frente depois de mostrar a trilha que levava a praia.

Do navio, Simon ouvia as explosões da vila. Will e Victhor junto dele, aguardavam no convés a chegada dos dois últimos, com tudo preparado, eles estavam prontos para partir.

—Senhor, os homens já estão a postos, se precisar estamos armados até os dentes.

Simon não a olhou de volta, Pyra sabia que ele estava preocupado.

—Vai dar tudo certo. Logo ela estará aqui.

Os olhos dele, fixos na trilha, buscavam a figura de Jane, e a cada hora que passava, a vontade de ir atrás dela aumentavam.

—Escutou isso?

—O que? — Victhor não ouvira nada mais que o movimentos das ondas.

—Escute!

—Do que esta falando...- Sua boca foi tampada pelas mãos de Will.

—Cachorros.

Finalmente Simon viu alguém se mexer dentro da trilha, uma figura corria em direção a eles e ao aproximar-se caiu na areia da praia.

—Onde ela esta? — Simon foi primeiro a alcançar o sereia. — Cadê a Jane?

Ele não conseguia responder, estava exausto demais, ergueu o braço e apontou trilha adentro.

—Cadê a Jane? — Pyra chegou depois, seguida de outros que ergueram o sereia e levaram ele para o navio.

—Eu sinto muito. — A única coisa que o sereia foi capaz de dizer soou como um gatilho aos ouvidos de Simon.

—Encontre-a Simon! — Pyra gritou ao ver o amigo correndo em direção a trilha e sabia que ele só voltaria quando estivesse junto de Jane.

A trilha estava escura demais. A luz da lua ofuscada pelas nuvens não ajudava a clarear o caminho e as árvores dificultavam sua visão. Ouvia os estalos do fogo ao longe e os sons dos cachorros aproximando. Sabia que logo haveria muitos homens ali e temia que ela tivesse sido pega.

—Jane! — Ele chamava sem resposta. — Jane! — Ele continuou buscando ouvir seu nome de volta dentro da escuridão. — Jane!

—Simon! — Sua voz era um sussurro fraco. — Simon!

Ele correu o mais que pôde em sua direção.

—Jane! — Encontrou-a com a roupa ensangüentada e um homem morto ao seu lado. — Segure firme. — Ele pegou-a no colo, passando os braços dela por seu pescoço. O sangue vinha de um tiro no lado esquerdo do abdômen que ela tentava estacar com uma das mãos.

Atrás deles os homens se aproximavam com cachorros farejando, chegando cada vez mais perto. Não havia tempo a perder, Simon jamais deixaria ser alcançado e em poucos minutos eles já estavam de volta á praia. Ao aproximar-se mais da areia, viu o grupo com espadas e pistolas formando por Pyra.

—Jane! — Ela não conteve as lágrimas.

—Vamos sair logo daqui. -Simon e os demais voltaram ao navio, que logo regressava ao mar.

Jane foi levada a cabine que estava impecável, Simon colocou-a na cama enquanto Pyra dava instruções e preparava as ferramentas para extrair a bala e cuidar do ferimento que sangrava.

—Simon... Ele esta bem?

—Esta.

—Bom. — Ela deu uma olhada em volta e fechou os olhos, para só reabri-los um bom tempo depois.

O sol estava quente naqueles dias, o verão impiedoso castigava os marujos que pingavam suor e esfregavam o convés do navio. Eles distraiam-se cantando sobre mulheres de seios fartos e corpo volumoso e sobre suas casas. A cantoria alegrava o ambiente e mesmo os carrancudos participavam. Entre uma música e outra, o que todos gostavam mesmo era de fazer fofoca. Nesse ínterim, a chegada do sereia deixava grande abertura para especulações e opiniões sem fundamento, eles diziam sobre a cor de seus olhos, descrevendo-o como "dois abismos que levam ao demônio" ou sobre o tamanho de suas genitais, desafiando um ou outro a ir dar uma olhada. O sereia era motivo de chacota entre eles que preferiam julgar o desconhecido e deleitar-se em suposições de baixo nível.

Victhor ensinava algumas coisas básicas á Will, que navegara poucas vezes num navio onde era preciso trabalhar. O primeiro se divertia com a confusão que o outro causava, embolando as cordas em suas próprias mãos. Desde o dia na Ilha, os dois passavam a maior parte do tempo juntos, já que Victhor havia sido encarregado de inserir Will na vida pirata e Simon não tinha paciência para tipos que perguntavam demais.

—Então você não tem família?

—É como eu te disse — Victhor fazia alguns nós e mostrava a ele — Minha mãe morreu cedo e meu pai não tinha muito tempo para desperdiçar com uma criança pequena.

—E você não teve irmãos? — As tentativas com os nós eram falhas, todas elas.

—Tive quatro. Três homens e uma irmã caçula. Mas eu sou o único vivo.

—Somos parecidos nessa parte.

Victhor soube, pelo tom, que aquele era um assunto delicado. Resolveu mudar de assunto e começou a tagarelar sobre nós e seus tipos.

—Você tem mãos muito finas para quem é pirata.

—Nem sempre eu fui um. Mas também não costumo fazer os serviços mais pesados.

—Deve ser ótimo com as mulheres. As minhas viviam reclamando dos meus calos.

Victhor se deteve um instante enquanto o outro continuava a falar de suas aventuras românticas e pedindo licença ao novo membro do Alma Negra, deixando Will pouco confuso com os nós em suas mãos e com seus pensamentos.

Jane estava mais corada. Uma alimentação adequada e os cuidados de Pyra fizeram toda diferença e logo ela já levantava da cama sem ajuda. Incomodada por ficar parada demais, lia alguns documentos trazidos por Simon, queria saber sobre os acontecimentos em sua ausência. Simon e Jane discutiam sobre a melhor rota a tomar, já que a Marinha Imperial estava tomando para si todas as mais utilizadas, deixando os piratas sem muitas escolhas para navegar.

De acordo com um dos documentos, havia um navio carregado de ouro em direção ao Império Central, ficaria bem na rota deles e ambos concordaram que seria uma boa idéia atacá-lo e pegar um pouco do ouro de quem já tem demais.

Com a rota ainda para ser definida, havia a possibilidade de irem pouco mais abaixo, no Império do Sul onde Jane passaram boa parte da vida. Era um lugar quente, cercado de lindas praias e palmeiras, com um povo alegre e receptivo onde o comércio era a fonte de quase toda a renda e haviam muitas fazendas.

—Vai visitar a Vila dessa vez?

—Não sei. Ainda não resolvi sobre isso. — Ela revirava uma pilha de papéis, separando o que já havia lido e o que ainda faltava

—Ela iria gostar de te ver Jane. Faz tempo que você não aparece.

—Eu sei Simon. — Ela parou por um instante — Finalmente temos um sereia no navio, estou mais perto de reunir todas as Pérolas. — Ela respirou fundo ao notar certa tristeza na expressão do amigo — Vou pensar com carinho.

E como Simon não dissera mais nada, ela concordou que era hora de voltar as leituras.

—O que é isso? — Ela segurava um envelope ainda fechado, assinado por P. Kurtler. — Onde conseguiu isso Simon?

—Peguei com um cara quando paramos no Império Leste ha um tempo. Parece que ele iria levar isso até a Imperatriz. Mas antes passou na taverna para tomar umas.

Jane abriu o envelope, havia poucas folhas dentro, ela as lia com voracidade, estavam dizendo sobre as sereias e outros seres marinhos recém descobertos.

—Então ele era um estudioso de fato, aquele Philip. Parece com uma carta, na verdade. — Ela passava os olhos pelas linhas, lendo as frases com cuidado — Veja Simon, é sobre o que eu lhe disse das tornozeleiras.

Jane leu um trecho para Simon:

"Cada individuo reage de uma forma á ida as bruxas, ainda estou estudando sobre isso mas parece que algumas sereias ficam tão atordoadas que perdem as noções básicas de sobrevivência. Houve relato de sereias que morreram de fome, e seus donos só perceberam quando já era tarde.

Outras não respondem a nenhum comando, os donos ficam irritados e na maioria das vezes são abandonadas lá mesmo. Não raros os casos de loucura, onde sereias entram em colapso, atacam seus donos e chegam a cometer suicídio.

Ao visitar a ilha é possível encontrar sereias que foram abandonados lá, machos e fêmeas vagando sem rumo. Encontrei um tanto bem hostil.

Nos casos de sucesso, uma boa quantia é paga ás bruxas e os senhores saem de lá com uma sereia obediente. A maioria sobrevivente são crianças antes dos sete anos, nascidas em casas ou as selvagens capturadas até os dez anos, depois disso fica mais complicado e não sei se há alguma que sobreviveu. Irei estudar mais sobre o assunto e logo volto a informá-la

Alias, soube que o Império Oeste e Norte também têm interesse nesses estudos. Tenhamos cuidado.

Cordialmente,

Philip Kurtler."

—Bando de monstros!

—Então, o que faremos Jane?

—O que quer dizer?

—Ele não vai aceitar Jane.

—Você não esta supondo que nós vamos levar ele neste lugar, né?

—Não vejo outra forma de conseguir.

—Eu não o levarei neste lugar Simon! É extremamente cruel anular a existência de alguém dessa forma. — Jane jamais alterava sua voz com ele mas era clara a sua irritação e Simon resolveu encerrar o assunto.

—Façamos como preferir — disse ele — mas no final, se ele não aceitar, levaremos a ilha.

O sereia estava em sua cela, via pela janela o movimentos das águas e os raios do sol. Ansiava pelo mar e deixar tudo o que vivera com os homens para trás, porém, mais uma vez preso, tinha certeza que este dia demoraria a chegar. Vez ou outra um bando ia até ele, caçoavam de seu corpo, jogavam coisas nele e o olhavam de modo estranho. Ele não sentia medo mas sim repulsa daqueles que o menosprezavam mas não viam a si mesmos.

—Eu vou sozinha.

—Mas senhora, é perigoso.

—Me dê as chaves e fique lá fora.

—Simon não vai gostar disso.

—Quem manda aqui sou eu.

—Sim senhora.

Jane desceu as escadas, o sereia ouvia seus passos.

—Oi. — Ela disse.

Ele nada respondeu

—Espero que esteja sendo bem tratado.

—Sou o convidado de honra. — Então, ele sabia ser sarcástico.

Jane estava com as chaves mas não sabia se deveria entrar ou deixá-lo sair. O modo como ele a olhava causava ansiedade e palpitação.

—O que quer? Por acaso veio se gabar por ter me vendido a eles? — o sereia estava irritado, a cor avermelhada nos olhos dele deixava isso bem claro. Ele esperava que ela fosse o salvar e não trocar as correntes dele por uma cela. Estava frustrado demais para ser gentil.

—_Do que esta falando?

—Acha que sou estúpido? Você teve o trabalho de me tirar daquela ilha e depois correu para este navio. Quanto ele pagou por mim? Gosto de saber o quanto ainda tenho de valor.

—Você esta enganado sereia, você não foi vendido. Na verdade...

—Ele deve ser um capitão muito pobre. — sua voz era carregada de amargura e ironia — Mas te usar para me roubar é novidade. Suponho que ele seja um covarde.

—Cale essa boca! Você não sabe o que esta dizendo. — Jane estava irritada

—E por que deveria? Devo aproveitar enquanto posso falar por mim mesmo.

Jane que ficou calada, sabia ao que ele se referia. O jeito dele a olhar lhe deixava zonza, a ferida ainda mal cicatrizada em seu abdômen doía e a idéia dele saber que seria, talvez, levado as bruxas lhe partia o coração.

—Eu lhe asseguro: você não será levado ás bruxas. — Ela tentou passar alguma confiança, mas quando Simon veio a sua mente, ela não pôde colocar tanta fé em suas palavras.

—É mesmo? — Ele aproximou-se da grade da cela, segurando as barras de ferro com força, ficando próximo ao corpo imóvel de Jane — Eu duvido que isso seja verdade, e é melhor dizer ao seu capitão, que se não me levar, eu não perderei a oportunidade de tentar sair daqui.

Eles se encararam, Jane queria que ele retirasse aquelas palavras, que ele a escutasse, ela sabia que podia convencê-lo.

—Jane! — era a voz de Victhor, havia urgência em seu chamado. — Jane!

O sereia afastou-se da grade e virou as costas para ela, voltando a olhar pela pequena janela, lá fora nuvens negras aproximavam-se.

—É melhor você ir logo.

Mas ela não o ouviu, já estava aos pés da escada, subindo em direção ao convés.

Uma mulher veio aflita ao seu encontro, apontando as nuvens negras que se aproximavam.

—Capitã, uma forte tempestade esta chegando. Não parece coisa boa!

—Fique calma, Theodora. — Jane estava tranqüila — Chame Pyra para assumir o leme, amarrem bem as cordas e fechem logo as velas. Vamos passar por ela. Mantenham-se em seus lugares.

—Sim senhora. — afirmou ela, saindo correndo pelo convés

Jane observava as nuvens, via os raios e os trovões e a tempestade refletia em seus olhos.

—É bom estar de volta.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.