Notas iniciais
É apenas uma de muitas histórias OneShots (um único capitulo) que farei. A próxima muito provavelmente será sobre ciumes. Os temas de cada One iram variar de acordo com os passos da pessoa que me inspirei para isso. Todas as histórias serão sobre essa pessoa.

O repuxar de lábios de instantes atrás já havia virado por fim um singelo sorriso enquanto olhava a mulher a sua frente. Clara não aparentava ter mais que 60 anos e na verdade já tinha 82. Apesar da idade avançada era uma senhora muito bonita, os cabelos extremamente brancos, os olhos esverdeados, as roupas elegantes. Hoje estava com a aparência ainda mais bonita, gostava de se arrumar aos Domingos, a fazia se sentir mais jovem.

- Você está ótima, mais bonita que da última vez que a vi. – O sorriso galanteador brotava em seus lábios, a gargalhada veio doce e sonora da garganta de Clara.

- E você não perde o charme não é? Os anos passam menos a sua cara de pau. – Sorriu divertida.

- É o que me resta, eu perdi tudo, é como estilo, ou você tem ou não tem, não é o que você sempre me dizia?

- Isso mesmo. – Assentiu silenciosa, alguns poucos segundos se passaram com Clara observando o homem a sua frente.

Peter também já era um homem de idade, beirava aos 90 e sua aparência condizia com isso. Conhecia Clara desde os 32 quando engataram em um relacionamento, era um homem com um charme irresistível, ela era uma solteirona pessimista foi como juntar a sede com a vontade de beber. Com o tempo o relacionamento encontrou alguns atritos, diferentemente de outras pessoas decidiram terminar e manter a amizade.

- Você deveria arrumar uma namorada sabia? Garanto que tem muitas senhoras por aqui que adorariam ter um velho galanteador como parceiro. Tudo bem que a torneirinha não deve funcionar, mas..... relacionamentos não dependem somente disso não é verdade? – Soltou risadinhas do cenho franzido de Peter.

- Francamente Clara, depois de tantos anos? E eu la tenho mais idade pra isso mulher?

- Esqueço que naquela época, o que você gostava era de iludir pobres jovenzinhas. – Disparou com ironia. – Queria um dia ter te visto aos pés de alguma mulher, se é que isso um dia aconteceu. – Sorriu observando o homem abrindo um bonito sorriso.

- Aconteceu, foi um ano antes de te conhecer, eu tinha 31, ela era mais nova dez anos.

- Porque não deu certo? – Pediu enquanto sorvia um pouco do chá de pêssego.

- Não era pra ser, ela sempre foi como um pássaro, não suportava ficar presa. Casamento era sinônimo de morte, mais não evitei me apaixonar, talvez nem tivesse como evitar, mais apesar de não ter dado certo, foi importante ao ponto de eu não conseguir esquecer, ou superar.

- Como ela era? Porque se apaixonou por ela?

- Porque alguém se apaixonaria por outra pessoa? – Clara não respondeu, talvez não precisasse. – O mundo é cheio de pessoas comuns, acho que me apaixonei por ela por ser uma pessoa comum mais com vontade de ser alguém diferente. Era diferente estar com ela, ela tinha uma alegria de viver inimaginável, foi alguém que só queria fazer a diferença. Se apaixonar tem haver com amar cada pedaço da outra pessoa, amar as qualidades, os defeitos. Eu me apaixonei pela primeira vez por ela quando a vi dançar num clube qualquer. Era algo surreal, não havia como não olhar, ela dançava sozinha e era assim que ela gostava, e ela tinha um problema com o cabelo que constantemente tinha que mexer nele, acabou se tornando um charme e ela aparentemente não percebia. E ela era linda, absurdamente linda, tinha rosto de boneca, tinha olhos azuis, com o tempo eu aprendi que a cor dos olhos dela mudava dependendo do humor que ela estava, o brilho e a intensidade mudavam. Não é atoa que ela podia conquistar qualquer homem que quisesse, os olhos traziam algo diferente, tinham a doçura de uma criança, a energia e a curiosidade de um rebelde, tinha o charme de uma mulher. Ela andava sempre no meio termo, meio anjo, meio demônio, meio amarga, meio doce, meio agridoce. Vê-la dançar hipnotizava. Ela não seguia regras, fazia as próprias, combinava sal com doce, azedo com amargo, era viciada em café, não gostava de chuva, não era aquela que sonhava com um conto de fadas, ela queria algo real, beijar debaixo de chuva não era seu sonho de consumo, ela queria tudo simples. É aquilo, pra acompanha-la, se andava sob suas regras. Ela era humana acima de tudo, tinha seus defeitos, sabia mentir, sabia se esconder, se fazia de forte, se preocupava mais com a sua própria felicidade do que a dos outros, brincava de ser ciumenta e apenas brincava, difícil era ver quando falava sério. Era instável, era insegura, frágil, dependente, porem tomava pulso quando pressionada. Ela era completamente aérea, parecia nunca estar preocupada com nada e no fundo sentia uma revolução dentro de si. Ela não fazia muito, tampouco tinha os melhores conselhos mais era a primeira a te dar um abraço ou a segurar a sua mão quando você precisava. Te divertia a todo e a qualquer custo, pra ela a vida era curta demais para ficar sofrendo, se for para chorar que faça por todas as coisas que te decepcionam, por um único dia, depois levante a cabeça como se nada tivesse se passado. Seja forte. Era alguém que amava a vida, que amava viver, que queria fazer a diferença. E ela fez, na minha vida ela fez toda a diferença do mundo.

- O que aconteceu? – Pediu com a voz embargada pelo choro.

- A deixei livre, ela nunca foi minha, nunca foi de ninguém, ela pertencia ao mundo. Não seria justo prendê-la, não seria justo tirar o que ela mais amava no mundo, a própria liberdade.

- Não se arrepende?

- Não, ela era mais do que eu poderia querer, fez de mim alguém melhor, aprendi coisas com ela que não aprenderia com mais ninguém, todos deveriam ter a sorte de conhecê-la, eu apenas tornei isso possível.

- Valeu a pena?

- Valeu a pena ter deixado de existir pra começar a viver. Isso valeu mais do que qualquer coisa na vida. – Sorriu doce.

Peter nunca se esqueceria dela. Ela também nunca se esqueceu dele.

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