Notas iniciais
Olá! Acho que não demorou tanto desde o último capítulo, mas eis-me aqui novamente. Demorei mais porque estou doente e sem nenhuma disposição pra digitar. Então, me perdoem caso haja erros ou algo do tipo... Estou meio sem pensar direito.
De qualquer forma, espero que gostem.
PS.: Roubei, como sempre, o nome "Ângelo" do MdM da Sion. Gosto desse nome nele.

Tinta À Óleo

Capitulo quarto

— Niisan? – Shun chamou sua atenção, sentando-se ao lado do irmão, que estava com um olhar vago. De uma das cadeiras da mesa, Hyoga olhava os dois, levemente apreensivo. Ele fazia faculdade de Engenharia Química e estava ajudando o namorado com os assuntos de bio-química naquele dia.

- Oi, Shunny. – Ikki lhe deu um sorrisinho de canto, fraco.

- O que houve? – O mais novo insistiu, fazendo o moreno suspirar.

- Sabe aquele dia que fui à casa do Shaka pegar a Estrela? – Shun apenas anuiu. – Eu e o loiro tivemos uma briga. Eu o xinguei e insinuei... Coisas sobre ele e a Estrela.

- Ela me contou. – O outro falou, simples. – E o que faz com que você fique assim? Já brigou com outros amigos antes... Com o Aiolia só faltou destruir a casa dele, e nem quero lembrar quando Máscara apostou três bebidas que você não pegaria a Pandora... E também quando você chamou o Misty de veado, porque...

- Eu entendi, Shun. Sou uma pessoa briguenta. – Ikki levantou a mão, pedindo que o irmão parasse com um meio sorriso. – Mas é diferente. O Shaka não teve culpa e... Eu mandei uma mensagem pedindo desculpas e ele não respondeu... Já vai fazer uma semana que ele não fala comigo...

- Você não faz questão que eu te ligue quando passo uma semana na casa do Hyoga... – Shun pareceu estar com ciúmes, fazendo o mais velho rir.

- Mas você nunca vai deixar de ser meu irmão, é diferente...

Depois disso, seguiu-se um silêncio em que parecia que o mais novo queria falar algo, mas tinha vergonha.

- Por que... Brigou por conta dela? – O rapaz de cabelos castanhos perguntou, inseguro. – Teve medo que aquilo acontecesse de novo?

- Tive. – Ikki admitiu, suspirando. – Mas não quero falar sobre isso, sim?

- Um dia vai ter que superar isso, Ikki. – Shun suspirou, levantando-se. – Já faz sete anos...

O leonino apertou os dentes uns contra os outros, olhando para qualquer lugar que não fosse o rosto do irmão. Sabia que o mais novo estava certo, mas seu coração parecia desregular-se quando se lembrava do que acontecera há sete anos. Depois daquele dia, jurou que protegeria Estrela em qualquer circunstância, e fazia o máximo para cumprir o juramento. Mas será que tinha ido longe demais dessa vez?

Decidiu que não pensaria sobre isso, nem sobre a briga com Shaka. Preferiu manter aquilo guardado, como se não tivesse acontecido. Seria melhor para si mesmo e para sua amizade com o loiro. Sentiu uma vibração no bolso, indicando uma mensagem.

Festa hoje. Vai ou vamos?

Mask.”

O moreno sorriu. Uma festa realmente tiraria seus problemas de sua cabeça.

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Shaka estava misturando algumas tintas numa solução de terebintina quando a campainha tocou. Deixou os pincéis de lado, lavando as mãos rapidamente no banheiro e desceu as escadas, ao mesmo tempo em que tirava do rosto a máscara que amenizava o cheiro do produto químico.

Olhou pelo olho mágico, estranhando, mas abriu a porta mesmo assim. Do lado de fora estava Estrela, com os longos cabelos louros presos num rabo-de-cavalo e vestida num macacão jeans surrado, com uma mochila nas costas.

- Boa tarde, mestre Ali. – Ela sorriu com todos os dentes, e Shaka a deixou passar.

- O que faz aqui? – O homem perguntou, olhando-a longamente.

- É quarta-feira, oras. – Ela tirou a mochila das costas e colocou num cantinho do sofá. – Não é o dia de nossa aula?

- Mas o Ikki... – O loiro começou. Não estava com raiva do outro, mas desde que recebera a mensagem, decidira apenas aguardar. Ikki não confiava nele e deixou isso bem claro. Ele não iria ceder e Shaka também não correria atrás daquele ranzinza, de forma alguma.

- O achi só estava sendo superprotetor. – Estrela deu de ombros. – Não é a primeira vez e nem será a última. Espero que não me expulse daqui...

- Não vou expulsá-la. – O mais velho sorriu. – Vamos subir, então?

Estrela assentiu. Como sempre, a empatia entre os dois começou a surgir imediatamente. A moça era inteligente, sagaz e, muitas vezes, irônica. Shaka descobria um lado de Estrela que não tinha notado antes: sua perspicácia. A moça era delicada e gentil, e o mais velho mal notava quando sua opinião, habilmente, começava a ir pelos caminhos que ela queria. Estrela não era um demônio disfarçado de anjo; era mais como um demônio convertido.

- Queria te contar uma história, mestre Ali. – A loira falou, com uma expressão meiga, depois de quase duas horas de aulas sobre como dissolver as tintas corretamente e aplicá-las à tela.

- Conte... Não, misture um pouco mais devagar... Isso. – O outro respondeu, ainda dando instruções para que ela soubesse como trabalhar com o dissolvente.

- Era uma vez uma família bonita e temente à Deus, que morava num dos bairros nobres de uma cidade sagrada. – Ela começou, e Shaka foi tomado por uma espécie de angústia. Estrela contaria sua história, e ela não parecia divertida, apesar da voz calma com que ela era contava. – Eles estavam sendo perseguidos por serem uma família de fé minoritária, então fugiram para a Grécia, que parecia ser uma boa opção. Poucos anos depois, a mãe da família morreu, deixando o pai e as duas filhas sozinhos. O pai delas, então, começou a beber, mas mesmo assim, as duas se mantinham fiéis aos ensinamentos de Deus e a seu pai. Um dia, a filha mais velha arrumou um namorado. Ele era bonito e inteligente. A irmã mais nova gostava muito dele e de seu irmão menor, e logo eles viraram grandes amigos... – Ela mordeu os lábios. Shaka já não prestava mais atenção na aula, e os pincéis e as tintas estavam pousados no chão, onde ambos estavam sentados. – O pai delas não gostava do garoto, mas enquanto ela fosse fiel à Deus, ele não se intrometeria em seu relacionamento. Com o tempo, o que era uma simples preocupação, virou obsessão. Ele observava tudo da filha: desde material escolar, até suas calcinhas.

Estrela passou a mão no rabo-de-cavalo que usava, nervosa, manchando-o de tinta esverdeada.

- Houve um dia em que a mais velha foi até o quarto da irmã. Ela estava perguntando que roupa deveria usar naquele encontro, pois ele seria especial. Seria o dia em que ela se entregaria completamente ao amado. – A loira começou a fungar. Shaka respirava pela boca, seu coração palpitando acelerado. – Sem que elas soubessem, o pai escutava atrás da porta... Ele disse que ninguém que não fosse ele tiraria a virgindade de suas filhas. O homem era grande e forte, e as duas não conseguiram fugir quando ele as amarrou na cama, rasgando suas roupas. Primeiro, foi a mais velha. Ele não só a possuiu, como a bateu e maltratou. A mais nova apenas assistia e rezava para que aquilo fosse um pesadelo. Quando ele partiu para a mais nova, a outra já estava desacordada. A campainha tocou, mas o homem não saiu de cima dela... Estava enlouquecido. Ela gritava o máximo que podia, mas ninguém aparecia para salvá-la... – As lágrimas desciam pelo rosto sereno da loira, mas ela não perdia o sorriso. – Foi quando ele surgiu, quebrando a porta. Parecia um cavaleiro mitológico... Ele voou para cima do pai delas com uma faca e... Ela não sabia como tinha acontecido, mas o cavaleiro apareceu em seu campo de visão com um corte feio no dorso do nariz, dizendo que ninguém nunca mais iria machucá-la...

Shaka sentiu quando suas próprias lágrimas caíram em seu colo. Por que não conseguia se controlar?

- A mais velha não resistiu aos machucados e morreu algumas horas depois. A mais nova conseguiu resistir bem. O namorado da outra nunca mais conseguiu confiar em ninguém depois disso, ao passo que a irmã sobrevivente prometeu que não mais maltrataria ou brigaria com ninguém.

Estrela virou-se para o homem e, delicada, enxugou as lágrimas no rosto dele.

- Perdoe o achi, mestre. – Ela sorriu. – Porque ele é igualzinho ao namorado dessa irmã mais velha...

- Você... Sabe o nome dela? – Shaka perguntou, segurando as mãos dela.

- Esmeralda. – Estrela falou, enxugando as próprias lágrimas. – Não queria continuar a aula agora... Quero te ensinar uma coisa. – Olhou para Shaka e sorriu. Um sorriso que de puro não tinha nada.

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Shaka estava sentado na cama do quarto, se perguntando o que ela queria dizer quando falou que ia lhe ensinar uma coisa. Olhou o relógio do celular. Já eram cinco horas, e há uns 15 minutos ela tinha ido para o banheiro com sua mochila, lhe perguntando se tinha um aparelho de som.

Ouvindo um tilintado quase imperceptível, Shaka virou-se em direção ao banheiro da suíte, vendo sair de lá uma estrela praticamente transfigurada. Os olhos verdes, tão meios, estavam tomados por uma seriedade que chegava a ser sexy. Os cabelos loiros, soltos, caiam por seus ombros até sua cintura, e combinavam com a roupa que vestia: a parte de cima como um sutiã dourado com cortinhas de miçangas dando-lhe movimento e uma saia branca, presa por um elaborado cinto com as mesmas cortininhas.

- Dança do ventre? – O loiro perguntou, incrédulo, enquanto ela lhe entregava um cd.

- Racks Baladi¹ com elementos do Dabke². – Ela sorriu. – Passei um dia inteiro elaborando os passos para que fiquem perfeitos, sexys e masculinos em ti.

- Mas... Para quê? – Ele perguntou, indo para o ateliê. O microssystem ficava lá, e o lugar era espaçoso.

- Para quando você fizer as pazes com o achi... Que tal? – Estrela semicerrou os olhos, sorrindo sugestivamente. Shaka não conseguiu controlar a vermelhidão que se seguiu. Será que tinha demonstrado demais o que sentia pelo outro?

- Pode tirar sua camisa...? – Ela perguntou, depois que ele colocou o cd no aparelho. Dando de ombros, o loiro puxou a túnica manchada de tinta pela cabeça, mostrando-lhe o torso magro, mas definido. A mais nova balançou a cabeça, suspirando. – Que desperdício de homem, Senhor...!

O homem riu com a reação da mais nova amiga, enquanto ela amarrava uma fita com moedas douradas em sua cintura.

- A dança do ventre é, basicamente, sobre o ritmo e fazer sons. As moedinhas servem para que os sons possam ser feitos com o seu corpo. A cintura se move de acordo com as batidas, imitando os movimentos de uma serpente. No meu caso, é bem suave... Mas quero que você faça o mesmo com mais força, certo? – Ela mostrou um movimento de cintura, incentivando-o a imitá-la. Ele o fez, se sentindo estranho.

- Isso não é muito... Gay, não? – Ele perguntou, enquanto ela ria, apertando o play no aparelho.

- Não se você fizer assim... – Quando a percussão da música batia, a cintura dela ia junto. Não de uma maneira delicada como ela tinha feito anteriormente, mas de uma maneira mais forte e direta. Shaka se sentiu hipnotizado. Era aquela a sensação que ele causaria se dançasse isso? Essa felicidade, adrenalina e desejo de tocar? De sua parte, não era um desejo sexual, mas ele não podia negar que aquilo era de fato encantador.

- Vai demorar muito pra me ensinar isso? – Ele perguntou, com um súbito interesse. – Vou sair hoje à noite.

- Só o básico. Próxima quarta a gente continua. – A moça riu, e começou a ensiná-lo o que tinha feito. Mesmo que no começo tivesse achado estranho, não parecia tão esquisito agora. Os movimentos que a loira o ensinava não eram, de forma alguma, femininos, apesar de manter a característica sensualidade. Eram umas seis e meia quando Shaka se jogou no chão frio do ateliê, respirando descompassado e alisando uma parte em sua barriga quase que completamente lisa.

- Dor. É só isso o que sinto... – O loiro gemeu, fazendo-a rir.

- Você vai se acostumar depois. – Estrela sentou-se ao lado dele, massageando sua barriga onde doía. O mais velho deixou-se tocar, sem se sentir envergonhado. Não mais pensava que ela era uma ameaça, mas uma aliada.

- Você não gosta de ninguém, estrela? – Ele perguntou, mirando dentro dos olhos verdes da moça.

- Está com medo que eu goste do achi? – Ela perguntou, com um sorriso sarcástico, fazendo Shaka desviar o olhar. Em parte, era isso mesmo.

- Não é isso...

- Acho que eu adquiri um certo medo de namorar. – A loira deu de ombros, parando a massagem. – Ainda não gostei de ninguém tão forte assim. E não gosto agora.

- Nunca amou ninguém? – O indiano perguntou, sentando-se, enquanto ela ia até o microssystem e tirava o cd de lá.

- Amo o Shun, o Ikki e o Hyoga. – Ela sorriu. – Talvez até esteja te amando. Não é o suficiente?

- Sabe que não é desse amor que falo... – O homem levantou-se, mas ela saiu do ateliê, indo até o banheiro, onde deixara sua mochila.

- Não ia sair, mestre Ali? – Ela desconversou, fechando a porta, e ele gritou, assustado:

- O ANIVERSÁRIO DO MILO! – Correu feito um tufão para o quarto, caçando roupas no guarda-roupa, enquanto escutava o barulho do chuveiro.

Quando finalmente pegou tudo o que queria, Estrela já estava vestida com outra roupa – um vestido verde, rodado, que acentuava ainda mais a cor de seus olhos. Ela penteava os cabelos molhados, o que fazia com que o quarto ficasse impregnado com um delicado cheiro de flores de laranjeira.

- Como você vai pra casa? – O mais velho perguntou, pegando uma toalha.

- De ônibus, como eu vim. – Ela guardou a escova na mochila, indo para a sala para que ele pudesse tomar banho e se trocar.

Uma espécie de preocupação se apossou do homem. Não queria que ela voltasse para casa de ônibus, sozinha. Se acontecesse algo a ela, nunca se perdoaria. Ikki nunca o perdoaria.

Começou a tomar banho, notando que ela não tocara em nada seu. Começou a calcular o que faria. Não podia deixá-la ir sozinha, e também não podia se atrasar mais do que já estava atrasado – Milo o mataria. A única solução seria...

Saiu do banho, se enxugando e colocando uma toalha branca em torno da cintura, enquanto com outra, enxugava seus cabelos cor de trigo. Procurou o celular em cima da cama, colocando a toalha extra em cima de um dos ombros, e discou um número rapidamente.

- ONDE ESTÁ VOCÊ? – Foi a primeira coisa que Shaka escutou.

- Calma, já to indo. – O loiro riu. – Ei... Tem muita gente ai? – O virginiano perguntou. O amigo falou “pizza”, mas ele sabia o quanto Milo era exagerado. Provavelmente, estava rolando uma “festa de arromba” por lá. Ligara pela manhã para lhe desejar feliz aniversário e, segundo o escorpiano, a festa já estava sendo organizada.

- Claro que tem! – Milo pareceu indignado. – Tá todo mundo aqui. Menos o meu melhor amigo.

- Oww, Milo! – Shaka respirou fundo, sentando-se na cama. – Escuta... Posso levar alguém?

- Tava tirando o atraso, é? – Milo perguntou, fazendo o outro mudar a expressão para uma careta.

- É só uma amiga, Milo! Posso? – O indiano volveu, escutando uma risadinha do outro lado. O grego era do tipo que perdia o amigo, mas não perdia a piada.

- Traga. E seja rápido. – O aniversariante não esperou uma resposta e desligou o telefone. Shaka rapidamente se aprontou, penteando os cabelos compridos, escovando os dentes e se perfumando.

Correu para a sala, encontrando Estrela escrevendo algo num caderninho. Ao notá-lo, ela guardou o caderno na bolsa, sorrindo para ele.

- Você vai fazer algo agora? – Shaka perguntou, enquanto a moça se levantava.

- Não. Iria para casa, apenas. – Ela colocou a mochila nas costas, dando de ombros.

- Vamos para uma festa então. – O homem lhe dirigiu um sorriso. Ela pareceu ponderar sobre a situação e perguntou:

- Festa?

- Sim. É apenas um aniversário. De lá te levo pra casa. – Ele falou, recebendo um sorriso em trocar.

- Por que não? – A moça perguntou, batendo com um dos pés no chão, animada.

Seguiram até o carro prateado dele, enquanto conversavam sobre gostos musicais e bandas favoritas e, no meio da viagem, Shaka estava decidido a procurar alguma música de Loreena Mckennitt.

Chegaram à casa que Milo dividia com o namorado, Camus, e da esquina já se podia ouvir a música eletrônica que badalava o local.

- Que festa de aniversário, hein? – Estrela brincou quando eles estacionaram numa vaga ao lado da casa.

- Bem vinda ao mundo do Milo, o aniversariante. – O loiro sorriu, virando-se para o banco de trás e pegando uma caixa embrulhada de tamanho médio no banco de trás.

- Não tenho um presente. – Ela choramingou, fazendo-o rir.

- Não se preocupe com isso.

Os dois entraram no local depois que um amigo de Shaka, um homem muito alto e moreno, abriu o portão. Ele se apresentou como Aldebaran, e foi muito simpático com a menina.

O lugar estava cheio de pessoas. A casa tinha dois andares; a parte de baixo era onde estavam as comidas e bebidas e havia várias almofadas grandes onde várias pessoas se sentavam. Na parte de cima estava a boate, que era de onde saia aquela música alta.

- Finalmente, hein? – Shaka ouviu a voz do amigo, e o escorpiano se aproximou do outro, dando-lhe um abraço apertado e, logo após, arrancando o presente de sua mão, com um sorriso. – Eu já estava pensando que você tinha me abandonado.

- Nem que eu quisesse eu conseguiria. – O indiano brincou. – Essa aqui é a amiga sobre quem falei. Lembra que te falei da Estrela?

- A guria que era tipo parente do seu namoradinho? – Milo perguntou, fazendo Shaka ficar vermelho na hora e a mulher soltar uma gargalhada.

- Sou irmã dele. – Ela abraçou Milo, carinhosa. – Você é o Milo, não é? Parabéns! Desculpe por não ter um presente.

- Sem problemas. – O aniversariante passou a mão pelos cabelos, rindo. – Falar em seu irmão... Me apresentaram um carinha hoje de nome... Ikki. Não é aquele ali, não? Acho que era ele o carinha do bar daquele dia... – O rapaz de cabelos ondulados apontou, fazendo os outros dois virarem-se para a direção em que ele apontava.

Ikki estava com uma bebida na mão, conversando com um homem de expressão dura, mas um sorriso no rosto. O cara abraçava um rapaz loiro muito bonito pelos ombros, que sorria feliz.

- É o Ângelo e o Dite! – Estrela exclamou. – É por isso que o achi está aqui.

Shaka continuava sem expressão. Ficou parado, sem saber o que fazer. Não tinha falado com ele desde o dia em que brigaram e estava dividido entre o dever de respeitar o próprio orgulho e a vergonha de nem ao menos ter respondido a mensagem que ele lhe enviara. Não conseguiu pensar muito, pois Afrodite estava dando um tchauzinho para Estrela, que retribuía, feliz, chamando a atenção de Ikki para eles.

Milo, com o pretesto de apresentá-la a Camus, puxou a moça de lado no momento em que viu o moreno ir em direção a eles.

- Oi, loiro. – O leonino o cumprimentou, com um sorriso.

- Oi, Ikki. – O loiro retribuiu o sorriso, inconscientemente. O sorriso de Ikki nunca deixaria de ser lindo aos seus olhos.

- Então, você ficou bem amigo da Estrelinha, um? – O mais novo perguntou, enfiando as mãos dentro dos bolsos da calça escura que usava. Sua camisa azul era um pouco justa, mostrando os músculos bem formados e fazendo Shaka ter que se controlar para não ficar olhando para ele.

- Ela é uma menina muito legal. – O virginiano falou, tentando não demonstrar interesse. Viu como o outro estava nervoso. Estaria ainda com ciúmes? Viu quando Milo deixou Estrela com Afrodite e o namorado dele. Seus olhos se encontraram quando o aniversariante se virou e, com um sorriso pervertido, apontou para o indiano e Ikki, depois fazendo um gesto obsceno com as duas mãos. Shaka ficou vermelho, pegando um drinque de um garçom que passava, enquanto o rapaz ao seu lado colocava o copo vazio na bandeja e pegava um cheio.

Apesar do estranhamento inicial, os dois começaram a conversar normalmente. Nada parecia ter se passado para Ikki, e ele conversava e abraçava o amigo do mesmo jeito que sempre fizera. Por um lado, o indiano gostava, mas por outro, era como se Ikki estivesse fugindo dos problemas.

A noite correu tranquila. A festa estava animada, e Milo fazia questão que tudo continuasse ótimo, conversando com todos os presentes como se fossem melhores amigos. Lá pelas tantas, Shaka começou a notar que os abraços do amigo estavam cada vez mais constantes, e que ele já estava bem corado.

“Já bêbado?”, suspirou. “Você só tomou uns 40 desses trecos”, o loiro pensou, ainda com o segundo drinque na mão. Já haviam cantado os “parabéns pra você” e Milo estava agradecendo pelos presentes.

Acabou se desequilibrando quando Ikki apertou seus ombros com mais força, o que o fez derrubar parte do conteúdo do copo no chão.

- Amamiya! – O virginiano empurrou o amigo, notando suas bochechas vermelhas.

- Você... É lindo, sabia? – O moreno falou, com um sorriso pervertido no rosto. O outro suspirou. Ele estava muito bêbado. Teria que tirá-lo daquela festa antes que ele fizesse alguma besteira. – Por que você não gosta de mim, hein?

O indiano ficou corado, mas tentou ignorar o que escutara. Ele estava bêbado e sem saber o que falava. Puxou o rapaz, indo em direção à Estrela, que conversava com Milo, Camus, Afrodite e Ângelo, parecendo bem entretida.

- Estrela... O que faço com esse traste? – O pintor perguntou, indicando o moreno com uma das mãos.

A loira botou pra rir, segurando-se no ombro de Afrodite. Aparentemente, Shaka parecia meio desesperado.

- Você tem uma vaga no seu carro, Máscara? – Ela perguntou para o namorado de Afrodite, que riu.

- Tenho. Ikki veio comigo, mas não sei se quero levá-lo de volta. – O homem fez uma careta, olhando para Ikki, que estava agarrado ao braço de Shaka, com um sorriso bobo no rosto e a cabeça no ombro do indiano.

- Não se preocupe. – Afrodite sorriu, olhando para o sofrido rapaz de cabelos loiros e lisos. – O nosso querido pintor pode cuidar dele essa noite, não é? – O sueco perguntou, com um sorriso sugestivo e uma piscadinha. Maldita hora em que falara do Ikki para o fofoqueiro do Milo. Sabia que Dite era outro grande amigo do escorpiano, e ele deve ter dito que o indiano estava interessado em alguém.

Shaka fechou a cara. Agora tinha que ficar de babá do historiador.

- Não se preocupe, Ali. – Estrela sorriu. – Vou com o Máscara pra casa. O Ikki é amigo dele faz tempo, não precisa se preocupar.

Shaka assentiu. Se despediu do pessoal, procurando Milo para explicar o que estava acontecendo, sempre tendo que afastar os braços de Ikki sobre si. Depois de tudo resolvido, ele arrastou o leonino para o carro. Não daria trabalho para o pobre Shun, que provavelmente estaria se acabando de estudar. O levaria para sua casa, e ele iria para a própria casa no outro dia.

Ao chegar em casa, arrastando Ikki por um dos braços, levou-o para o banheiro social. Tirou uma toalha e um sabonete do balcão do banheiro, entregando para o moreno.

- Você ainda consegue tomar banho só, não é? – Perguntou, sem esperar uma resposta e saindo do banheiro.

- Não quer tomar banho comigo? – O loiro ouviu-o perguntar, antes de fechar a porta. “Sim, eu quero!”, pensou, mas não o faria. Ikki estava longe de seu tino normal e estava destituído de raciocínio lógico. Decidiu tomar um banho também. Talvez assim se acalmasse.

Não demorou no banho. Saiu, parcialmente enxuto, vestindo uma calça de pijama e procurando lençóis limpos para Ikki. Estava tão distraído que não notou o moreno entrando no quarto. Quando percebeu, Ikki já estava próximo. Os cabelos negros molhados, os olhos semicerrados, bochechas levemente rosadas. Estava sem camisa, com o tórax moreno levemente molhado. Shaka imediatamente lembrou-se de quando jogaram tacobol e do quanto imaginou Ikki na mesma situação de agora. Não conseguiu evitar a excitação, a respiração falha. Teve que morder os lábios para se controlar e não jogar os lençóis no chão quando o moreno colocou uma das mãos no guarda-roupa que estava atrás do loiro, meio que prendendo-o, mas não conseguiu segurá-los quando ele enfiou a cabeça entre seu pescoço e o ombro, aspirando seu cheiro.

- Faz meses que penso em te tocar, loiro... – Shaka arrepiou-se inteiro com o toque dos lábios e avoz rouca de Ikki perto do seu ouvido. Mordeu mais forte os lábios, contendo um gemido quando o mais novo começou a depositar beijos em seu pescoço pálido, lhe dando pequenos calafrios.

- Ikki... Você está bêbado... – Shaka tentou ser racional, mas sua voz saiu embargada de desejo. O leonino o segurava pela cintura, friccionando seu corpo contra o dele. O loiro podia sentir o quanto Ikki estava excitado... O quanto ele próprio estava excitado.

- Não tanto pra não saber o que estou fazendo... – Aquela voz rouca de novo; o pintor já fechava os olhos, lambendo os lábios, lutando contra a tentação. – Eu quero você, Shaka... – Uma lambidinha em seus lábios. – Eu sou louco por você...

Jogando o autocontrole de lado, o indiano agarrou o pescoço do outro, beijando seus lábios com fervor. Já estava cansado de ser racional. Gemeu quando o mais novo abriu suas pernas, se encaixando entre elas e puxando a esquerda para o que o loiro o segurasse pela cintura com ela. Shaka só conseguia gemer, enquanto o historiador descia os lábios pelo seu peito, sugando um de seus mamilos, fazendo-o gemer mais alto.

Ainda com aquele olhar ébrio de desejo, Ikki puxou o mais velho para a cama, deitando-se por cima dele. Shaka não conseguia conter seus gemidos, o que só fazia com que o outro avançasse ainda mais em suas carícias. Sentiu uma das mãos ásperas do moreno descendo pelo seu abdômen, pousando em seu membro e massageando-o por cima da calça. O loiro arfou, tentando puxar o ar que parecia ter sumido de seus pulmões. Isso teve o poder de trazê-lo ao mundo real. Ikki estava bêbado, sem consciência de suas ações, e Shaka estava se aproveitando dele.

Puxou a mão do moreno, terminando o toque, e segurou-lhe o rosto com as duas mãos, forçando-o a olhar em seus olhos.

- Não... Isso não está certo. – Shaka empurrou o outro para o lado, e Ikki o olhou com tristeza e frustração. Tentou reaproximar-se do outro, que o empurrou novamente, delicado. – Não, Ikki. Você não está em plena consciência do que está fazendo. Melhor a gente se acalmar e fazer algo somente quando estivermos ambos sóbrios.

Ikki respirou fundo, sério. O loiro levantou-se e pegou os lençóis do chão, voltando para a cama. O moreno estava com os olhos fechados, ressonando levemente.

“Tão lindo...”, o pintor pensou, deitando-se ao seu lado e cobrindo a ele e a si mesmo com um dos lençóis. Não fez questão quando o moreno o abraçou pela cintura, e Shaka pousou a cabeça em seu peito. Era impensado, sabia, mas queria aproveitar ao menos um tantinho enquanto ele estava li, dormindo tranquilo ao seu lado.

Continua...

Notas finais
1: Racks Baladi: A dança do ventre popular é tradicionalmente passada de mãe para filha, cuja estrutura de passos é bem elementar.
2: Dabke: Não há movimentos de braços e ou de quadril. A movimentação se restringe aos pés, que realizam uma variedade de batidas e passos no chão. Dança tipicamente masculina.
Bem, espero que tenham gostado desse cap! Espero que não me matem depois do corte desse "quase" lemon!
Obrigada à Vanessa, Cah, Sion, Alexia, Pandora (espero que tenha gostado um pouquinho mais da Estrela nesse cap) e Victoriana! Muito obrigada por estarem me acompanhando e incentivando o avanço dessa fic!
Beijos da Polly!