Tinha Que Acontecer
27 Capítulo 27
Assim que o manobrista entregou as chaves de seu automóvel escuro, eles ouviram o barulho de pneus e estalos que pareciam tiros.
E eram tiros.
A sirene da polícia, depois mais alguns disparos.
Eles se abaixaram e um dos projéteis estilhaçou o vidro de seu carro.
Grissom se jogou sobre ela e protegeu seu corpo com o dele.
Alguns segundos se passaram e ele foi ajudado por Alex, que extremamente preocupado, tentava saber se tudo estava bem.
_Dr. Grissom, o senhor está bem ?
Suas costas estavam cobertas por minusculas partes do vidro temperado, seus braços envoltos sobre o corpo dela ainda a protegendo.
Ele se levantou, a puxando para ele.
_Sim ...
_Senhora, está tudo bem ?
Ela estava em estado de choque, aqueles barulhos tão conhecidos, invadiram sua mente e ela reviveu um passado recente, o motivo pelo qual tirara sua licença.
Tudo ainda parecia muito vivo e alarmante. E ela que julgava ter superado ! Estava indo bem, se sentia forte o bastante para não se lembrar mais, e muito menos ter os horríveis pesadelos que a acompanhou por semanas.
_Sara ... você está bem ?
A voz dele parecia longe, as luzes se tornaram imagens disformes com coloridos confusos, sua mente parecia entorpecida.
_Sara ?
Mais uma vez ele a chamou, seus dedos pressionavam seu braço e ela sentiu uma leve dor.
_Sim...
Ela finalmente conseguiu balbuciar alguma coisa, mas não sentia suas pernas, e as batidas de seu coração ultrapassavam o limite de velocidade de seu corpo.
Ele a abraçou com força, querendo dissipar a expressão assustadora que ela mantinha no rosto.
_Acho melhor trazê – la para dentro, ela não parece bem, doutor !
Algumas pessoas pareciam apavoradas e uma confusão de vozes encheram seus ouvidos, enquanto ela sentiu sendo amparada por ele, que como uma automata tentava seguir para dentro.
Alex providenciou uma generosa garrafa de água.
_Aguarde aqui, por favor. Vou falar com nosso gerente.
Alguns segundos depois, Grissom foi avisado que o prejuízo seria ressarcido pelo Cassino e que um motorista estaria disponível para levá – los para casa.
Foi uma sequência estranha, ela não conseguiu precisar o tempo que durou entre estar dentro da limusine, agarrada a ele e sentada no sofá de sua sala.
_Sara ... por favor querida ... fale comigo !
Ela estava com o paletó dele em seus ombros e chorava copiosamente.
Por alguns minutos mais, ela escondeu o rosto em seu peito e desabou feito uma criança assustada.
As lágrimas vinham com uma força descomunal e descontroladas.
Ele a embalou com carinho e esperou pacientemente que a crise passasse.
Alguma coisa estava errada, ela estava acostumada com aquele tipo de coisa, mas parecia totalmente fragilizada.
Ele enxugou seus olhos, ajeitou uma mecha de cabelos atrás de sua orelha e sussurrou suavemente.
_Está tudo bem, estamos em casa e acabou !
Como se saísse de seu transe ela o encarou.
_Me desculpe, Grissom ... eu ... eu sinto muito !
..........
_Por quase um ano, acompanhamos de perto um quadrilha de latinos que mantinham um cartel de drogas em Boston e mais algumas cidades vizinhas. Até que conseguimos uma tocaia e metade dela foi desmantelada. O mentor Carlos, mais conhecido como “El Padre”, conseguiu se fortalecer e retomar seu posto. Seu irmão havia sido morto por um dos nossos e ele queria se vingar ! Conseguiu destruiu a família de um companheiro da equipe, Brian ... poupou apenas o filho mais novo de apenas dois anos, que estava escondido dentro do armário. Foi horrível. Mais uma vez conseguimos uma abordagem em uma festa que organizaram, cercamos o local e agimos depressa. Ele conseguiu fugir.
Grissom, sentado de lado, um braço apoiado no encosto e as mãos cruzadas, a ouvia com atenção. Seus olhos tão brilhantes, agora ganhavam uma sombra assustadora e ele viu terror estampados neles.
Ela estava com as pernas encolhidas no sofá e o corpo coberto ainda pelo seu paletó, enxugou uma lágrima que insistia em cair, voltou seus olhos para um ponto distante e continuou.
_Eu estava correndo atrás dele quando senti sendo puxada por alguém, fui arrastada alguns metros, com o carro ainda em movimento, depois levada por alguns quilômetros, sentindo uma arma engatilhada em minha cabeça. Todo aquele barulho de vidro se despedaçando, os carros em movimento, até que conseguimos acertar o motorista e o carro invadiu as paredes de vidro de uma concessionária, enquanto travava uma luta com meu agressor. As balas dele haviam acabado, então ele quebrou meu braço, abriu a porta e correu para o outro carro, gritando que aquilo não havia terminado ! Dois dias depois, ele invadiu a minha casa, e conseguiu atirar em mim, pegou de raspão, em meu braço engessado. Como mantinha uma arma ao alcance no armário da sala, consegui alvejá – lo. E acabou ! Descobrimos uma nova facção e eu fui afastada, já não conseguia mais me concentrar, ficamos temerosos pelo garoto de Brian, ele se mudou com uma família e uma nova identidade.
_Eles … conseguiram, depois … mesmo sem você ?
_Eu não sei … afastada, não tenho permissão para me inteirar do caso. Mas pelo que Stan me disse, está tudo sob controle. Não tenho detalhes.
Ele diminuiu a distância entre eles e a embalou em seus braços.
_Eu sinto muito … de verdade !
_Achei que … já havia superado … mas … estava enganada .. tudo pareceu … tão familiar … sempre achei que nunca deixaria isso acontecer comigo, mas não consegui !
_Somos humanos, querida … e como tal suscetíveis a emoções, a mente tem mistérios que jamais conseguiremos desvendar. Temos um limite e você ultrapassou a linha delimitada. Não se culpe.
_Brian confessou a mim, alguns dias antes … que … estava com medo … e eu não fiz nada … pode imaginar … como fiquei quando … quando .. tudo aconteceu ?
_Não justifique a maldade dos outros, Sara ! Poderia ter acontecido com você … ou qualquer outro !
Ele a apertou ainda mais em seus braços e beijou seus cabelos, pensando naquela horrível possibilidade.
_Venha … precisa descansar um pouco.
Ele a levou para seu quarto e se deitou com ela, acariciando suas costas, enquanto ela se encolhia feito um bicho acuado.
….......
Ela acordou devagar, tivera um sono agitado e seu corpo parecia dolorido. Olhou ao redor, ainda perdida pelo sono recente. Não reconhecia aquele lugar. Aos poucos foi se acostumando com o ambiente e caiu em si.
Estava no quarto ele, na cama dele e coberta por lençóis macios.
Estava vestida apenas com sua lingerie, não se lembrava de ter se despido, tinha sido ele, talvez para lhe dar mais conforto.
Sua cabeça estava dolorida e ela sentiu vontade de estar em seu refúgio, precisava voltar.
Enrolou seu corpo nos lençóis e foi procurar por ele pelo apartamento.
_Grissom !
Ele estava terminado de arrumar a mesa, e levantou seus olhos surpresos para ela.
_Olá … dormiu bem ?
Ela apertou o tecido macio em seu corpo e balançou a cabeça, piscando os olhos diversas vezes.
_Sim … preciso de um banho.
_Fique à vontade, Sara. Preparei um pequeno almoço e … estarei esperando … precisamos conversar !
Ele estava vestido com uma calça clara de moletom, camiseta escura com um pequeno detalhe na manga de uma grife famosa e descalço.
_Não me demoro.
O banho foi rápido e ela se sentiu mais animada, sempre se sentia depois de uma boa ducha.
….......
_Isso tem cheiro bom !
_Espero que aprecie.
_Você está sendo tão gentil, e eu aqui incomodando … sinto muito pelo que aconteceu … por fazê – lo ouvir sobre …
Ele levantou uma das mãos e disparou.
_Não está sendo incomodo algum, e pare com isso … por favor !
_Desculpe.
_Desculpas aceitas e agora … coma !
Ela sorriu e obedeceu em silêncio !
Aquele apartamento lhe fazia bem, tinha um ar de limpeza impecável e um cheiro característico que a fez se sentir bem ali, mas mesmo assim … a vontade de estar longe , em seu cantinho, foi maior.
_Você queria falar comigo ?
_Sim … queria que soubesse que gostaria muito … que ficasse mais uns dias ..
_Eu não posso Grissom ! Preciso voltar …. ficar com você aqui foi … maravilhoso, mas quero estar em meu canto …
_Então … vou voltar com você ! Ainda tenho um tempo … sabe, minha licença … se importaria com a ... minha companhia ?
Importar ? Como ela poderia ? Sua vontade era de que ele se instalasse em sua casa e que fizessem amor todas as manhãs que ele permanecesse por lá.
Ela sorriu para ele.
_Seria ótimo e … eu não poderia ficar mais … feliz !
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