Timore
1 Único
Notas iniciais
Antigamente, Lovino não tinha medo de nada. Considerado muito corajoso para seus seis anos, enfrentava o escuro, o desconhecido, a sopa de bolinho de peixe e a bronca dos pais com o peito estufado. Também defendia o irmãozinho mais novo que choramingava por qualquer coisa, e era totalmente dependente do mais velho.
Eu disse antigamente. Em tempos difíceis, fizeram uma proposta aos pais. Dolorosamente aceitaram trocar seus pequenos por algumas moedas na promessa de os filhos viverem melhor.
Enganaram-se.
Os irmãos foram enviados a uma mansão na Áustria, para trabalhar como serviçais. O filho do dono estudava piano e violino, o que deixou o pequeno Feliciano empolgado. Vestiram-lhes roupas que foram usadas pela noiva do jovem Edelstein. Os ursinhos de pano surrado foram substituídos por vassouras e esfregões. As brincadeiras barulhentas foram trocadas por limpezas quase silenciosas.
Quase. Devido a falta de treino e habilidade, além de serem pequenos e desajeitados, os irmãos viviam quebrando coisas da mansão. Seja um vaso, um prato, não varrer direito um dos quartos... Isso gerava grandes broncas em ambos.
Mas o que fez o sangue de Lovino ferver foi quando o Edelstein filho ergueu a mão para Feliciano. Ah, mas como seus dentes trincaram ao ver o garotinho que tinha apenas três anos e meio chorando. Reuniu sua coragem e foi tirar satisfação com o moreno de óculos sentado em frente ao piano. Levou uma surra e ficou três dias sem comer a lavagem que lhe davam.
Passaram-se dias e um estranho jovem, que deveria ter a idade de Roderich, filho do chefe, aparecia com certa frequência na casa. Lovino observou que eram amigos, mas aparentemente, seu chefinho não gostava das visitas do rapaz de olhos verdes.
Mais dias se passaram e o bochechudo topetudo reparara que as visitas do amigo de Roderich saíram da sala secreta (como os pequenos chamavam a saleta onde recebia-se visitas íntimas) para o pátio. Os mais velhos conversavam, o moço de pele bronzeada numa expressão alegre e Roderich parecia entediado. Lovino passara por ali varrendo folhas secas caídas. Sem querer, mirou o amigo do chefe que lhe encarava, agora de forma avaliativa. E começou a sentir uma cosquinha esquisita na barriga; e não era nada boa.
As visitas periódicas transformaram-se em visitas diárias. Após a saída do outro jovem, Roderich ficava irritadíssimo e descontava nos pequenos, com palavras cortantes.
Apesar de tudo, Feliciano não conseguia odiar aquele jovem homem. Tampouco sabia o que era ódio. Escondia-se na sala de piano para ouvir seu chefe tocar. Ficava encantado com as notas, que julgava ser o barulho que as estrelas fazem. O mesmo acontecia quando ouvia o violino. O pequenino se afeiçoou tanto a Roderich, que um dia o surpreendeu com um abraço apertado e forte, na sua limitação, deixando seu chefe sentindo-se culpado pela maldade que acometia naquelas criancinhas. Mas não era culpa dele, afinal.
–x-
Roderich estava impaciente com a sua visita. Queria despachá-la logo, mas ele veio com um ultimato e uma sacola cheia de moedas. O austríaco queria negar o pedido, mas o amigo era tão exigente e tão chato que resolveu ceder às chantagens. Ia vender um dos criados.
Chamou-os para a sala principal. Vestiam roupas gastas e sujas, as bochechas manchadas e a pele levemente queimada. O pianista apresentou-os muito contrariado. Não queria se livrar daqueles pequenos, tinha simpatizado com eles até, principalmente com o menorzinho.
O moreno de olhos verde estava pensativo. Olhava de um para o outro. Achou Feliciano o mais amável. Mas Roderich não queria separar-se daquela criaturinha amorosa.
– O mais velho pode ser seu. – Não era uma opção. Sussurrou com a voz alterada.
– O Lovino...? – lembrou-se do garotinho com a vassoura. Sorriu – claro. Lovino, você terá uma nova casa hoje – abriu mais o sorriso e estendeu a mão ao pequeno. Ele sentiu a cosquinha estranha de novo. Não tinha escolha. Talvez aquele tal de Antônio não o fizesse trabalhar tanto.
Tão inocente, o pobrezinho...
Antigamente, Lovino não tinha medo de nada. Nem de quando fora vendido para um austríaco, nem quando apanhou do filho deste, nem quando machucou-se feio. Antigamente. A casa do pianista parecia um paraíso agora, perto do inferno que era a casa de Antônio, seu novo chefe.
Tinha medo da solidão, da chuva, dos trovões, do escuro, dos animais, do bicho-papão. Mas nada o fazia mais chorar quando a porta era aberta lentamente e olhos verdes sedentos o arrastava para a cama, machucando-o por dentro, sem direito de defesa.
Era o pior monstro de todos, e ele nunca sabia se iria escapar.
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