Timeless
3 Cap 3 - Alma duplicada
Notas iniciais
Ergueu a cabeça e viu o garoto acariciar o Pastor Alemão que se mantinha sentado ao seu lado . Ele sabia que o garoto deveria ser muito mais velho do que aparentava, mas seu aspecto franzino em conjunto aos grandes olhos infantis lhe dava a aparência de um inocente menino de 13 anos.
Sebastian acordou de seus devaneios quando uma melodia ecoou pelo cômodo. Abanou a cabeça como se isso fosse expulsar o flashback. O pai de Ciel logo estava na porta, deixando entrar um homem engravatado que terminava de digitar alguma coisa no celular. Era sempre nessa data que aquele homem o visitava, falando sobre dinheiro.
— Vincent! Que bom vê-lo. — O homem engravatado entrou na residência sem pedir licença e logo se sentou na poltrona mais próxima.
— Poderia nos deixar a sós, Ciel? — Vincent pediu para o filho de forma educada. Embora não fosse necessário, já que o garoto se levantara para ir até seu quarto logo que a campainha soou.
Ciel não fez mesura ou pediu licença para deixar a sala. O recém-chegado também não esperou que o garoto saísse do aposento para fazer uma careta e estalar a língua audivelmente.
— Não gosto desse garoto. — Ele disse, como se pedisse para ser ouvido. Mas Ciel o ignorou.
— Ciel pode ser cego, Peter, mas ele escuta muito bem. — Disse o pai do garoto, encarando aquilo como uma brincadeira.
— Ele já irá ao colegial e ainda parece uma criança mimada! Você deveria clonar um olho novo para ele e ver se Ciel para de frescura. — Peter parecia esperar algum repreendimento, mas o outro apenas se sentou em um banco a sua frente e suspirou cansado. Como não houve resposta, Peter voltou a falar. — Se eu fosse o filho do melhor geneticista do mundo, já teria exigido olhos novos!
— Sabe que não é tão simples.
— Ambos sabemos que você consegue.
— Pare de enrolar, Peter. Não veio aqui para falar do meu filho. — Vincent disse impaciente, enquanto massageava as têmporas com as pontas dos dedos.
— Ok, vou ser direto. — Peter fez uma pausa dramática, ligando o celular que tinha em mãos para ver as horas. — Tememos pela sua segurança. Logo você terá que deixar essa casa. — Vincent suspirou de maneira ainda mais pesada, parando os dedos no meio da testa. — Sei que gosta dela, mas alguns extremistas religiosos ficaram mais violentos depois que clonou o Head. — Peter estava preocupado. Só não saberia dizer se sua preocupação era com Vincent sofrendo um atentado ou com o dinheiro que ele deixaria de receber caso isso acontecesse. — E você sabe do que eles são capazes. As palavras escritas no seu muro e sua casa quase pegando fogo são prova disso.
— Head nasceu perfeito. Isso poderia salvar vidas e reduzir drasticamente a lista de espera por doação de órgãos!
— Mas a maioria das pessoas não consegue entender isso. Eles acham que você está brincando de Deus.
Vincent espremeu os olhos por um tempo, inclinando a cabeça. Começava a se arrepender de ter feito um clone e levado isso a público. Mas era necessário — repetia a si mesmo — era pelo bem do próprio filho.
— Vim somente para avisar, Vincent. Sabe que não sou eu que faço as regras. Esteja pronto em uma semana, e tente não se preocupar tanto.
— Head está dando muito mais trabalho do que eu imaginava. — O cientista sussurrou, se lamentando.
— Cedo ou tarde alguém faria um clone perfeito. O fato é que você foi o primeiro a conseguir, deveria estar orgulhoso.
— Não foi exatamente assim que aconteceu. Sabe disso.
— Dê a si mesmo um pouco de crédito. — Peter sorriu com sinceridade, dando tapinhas nas costas do homem antes de voltar sua atenção ao celular. — Agora deixe de lamentar e vamos falar sobre seus projetos deste mês.
Percebendo que a conversa iria caminhar para os negócios, Sebastian decidiu ir olhar Ciel uma última vez antes de voltar ao trabalho.
O quarto do garoto estava sempre escuro, enquanto Ciel ouvia novamente o que parecia ser sua música favorita. Uma ópera francesa antiga tocava no megafone, uma música que provavelmente só ele apreciava. O pastor alemão se encolheu e soltou um rosnado quando Sebastian chegou perto de Ciel. Aquele cachorro sempre agia da mesma forma em todas as suas visitas.
— Head tem medo de você. — Ciel disse, enquanto afagava a cabeça do cão para tentar fazer ele se acalmar.
— Não entendo porque você deu nome a essa coisa. — Sebastian respondeu, olhando torto para o animal.
— Ele é um cachorro como outro qualquer. — Sebastian riu com ironia, e Ciel fez uma careta de desgosto. — Meu pai fez Head como um cão. O clone perfeito.
— Vida falsa, alma falsa. Teoricamente ele não devia existir.
— Existir? — Ciel sorriu. Um sorriso estranho para alguém tão novo. — Existência é relativa. Não é preciso existir para ser real.
— Não? — Sebastian franziu o cenho, curioso com a afirmação. — Diga um exemplo.
Ciel ficou um momento quieto, pensando na resposta. Permaneceu daquela forma um bom tempo, brincando com as pontas da faixa enrolada sobre seus olhos.
— A paz. — Finalmente disse, em um tom meio arrogante de quem tinha certeza de estar ganhando a discução. — Não existe paz na humanidade, mas todos sabem que ela não é uma simples invenção.
Sebastian sorriu. O garoto havia provado seu ponto de vista com um argumento extremamente interessante. Mas também não queria simplesmente admitir que o garoto tivesse razão.
Head apoiou a pata na mesa ao seu lado, fazendo o LP da ópera pular e voltar a música alguns segundos.
— Não acha ópera um pouco antiquada para um garoto tão novo quanto você? — Sebastian perguntou, ignorando a óbvia mudança de assunto.
— Clássicos nunca são antiquados. — O tom de voz arrogante de Ciel irritaria qualquer um. Mas Sebastian achava as respostas ácidas do garoto divertidas. — E óperas não são só músicas, elas descrevem romances.
O demônio soltou uma risada curta pelo nariz, pigarreando com desdém.
— Gosta de romances?
— Por que sinto ironia no seu tom de voz? — Ciel fechou a cara.
— Romances são sentimentos humanos processados de forma infantil pelo cérebro. Foram criados única e exclusivamente para a reprodução, e eu não preciso me reproduzir.
Ciel desligou a vitrola antes de virar o corpo totalmente para a direção do outro.
— Não é como se eu entendesse também. Mas gosto de ver o modo como uma pessoa pode mudar tanto por causa de outra. O nível como os sentimentos são contados nestas óperas são complexos e... Intrigantes.
A concepção dos humanos para Sebastian era generalista: Egoístas, idiotas e romântico-socialmente melodramáticos ao extremo. Definição essa que não parecia se encaixar em Ciel de forma alguma. E aquilo o agradou desde a primeira vez que conversaram, resultando nas consecutivas visitas seguintes. Eles são parecidos, pensou, parecidos demais.
— Intrigante é uma palavra que te define bem. — Ele disse mais para si mesmo, pensando alto.
Ciel não pareceu entender e franziu as sobrancelhas com os lábios entreabertos, como se estivesse pronto para perguntar mais alguma coisa. Mas Head jogou a cabeça para debaixo dos braços de Ciel, como se tentasse se esconder do demônio.
— Seu pai podia ter feito Head menos medroso. — Sebastian disse assim que se aproximou dos dois, vendo o cão soltar um rosnado choroso.
— Ele o criou para eu não me sentir sozinho, gosto dele assim.
— E eu não sirvo como companhia?
— Você não está sempre aqui. E quando chega, fica apenas me observando. Não é muito diferente do que Head faz.
— Está me comparando com um animal?
— Não. Ele não fala.
Sebastian não conseguiu reprimir uma risada curta. Ciel tinha uma língua afiada, mesmo que fosse incrivelmente inocente. “Parecidos até mesmo na petulância” O demônio segurou o frasquinho que mantinha pendurado no pescoço para ter certeza de que estava lá.
— O que quer que eu faça? — Perguntou, se aproximando o bastante para que o garoto sentisse que ele estava de pé a sua frente.
— Fale mais comigo. Conte-me como é o mundo lá fora.
— Por que não sai e descobre por si próprio?
— Sou cego. O mundo não tem a mesma graça pra mim como tem pra quem enxerga.
— Pode ter certeza de que você vê muito mais do que qualquer outro humano que conheço. Me peça para lhe dar a visão, então. Sabe que é tão simples quanto acender uma vela.
— Não vai me ganhar assim, demônio. Confio no meu pai. — Ciel empurrou Sebastian de leve, virando o rosto para o outro lado. — Prefiro que me conte como é. Na minha cabeça o mundo pode ser perfeito, ainda não vou estragar essa visão com algo tolo como imagens.
Sebastian se calou um instante para contemplá-lo. Ciel era com certeza um humano interessante. Muito mais maduro do que aparentava, arrogante sem igual, e carente de afeto como uma criança.
— Então? — O garoto estendeu a mão para se certificar de que o outro ainda estava lá, mas seus dedos apenas conseguiram lhe roçar o tecido da camisa de leve. — Onde está indo?
— Eu preciso trabalhar, te conto histórias quando voltar. — Sebastian disse se afastando, indo em direção da janela aberta.
— E quando vai ser? — Sua voz pareceu uma ordem, como se tivesse receio da ausência do outro.
— Quando eu terminar por hoje. De noite.
E Sebastian saiu, sem esperar resposta. Deu uma olhada na sua lista que recebera no começo do dia, percebendo que ela não continha muitos detalhes. “Esses Shinigamis estão ficando cada vez mais preguiçosos”
Cruzou a rua, vendo no horizonte o sol sumindo aos poucos. Logo abaixo, conseguiu ouvir as vozes de alguém que berrava enquanto estava sendo assaltado. Sebastian então se lembrou da conversa que teve com Ciel alguns minutos atrás.
Sentiu algo dentro de si remexer, e ele teve de segurar novamente o frasquinho que carregava no pescoço para se lembrar de que estava errado. “Ele não é aquele Ciel”
Sebastian crispou os lábios. Lembrou-se daquele dia em que conversara com Grell sobre isso. Foi no mesmo dia em que Sebastian encontrou Ciel pela primeira vez e voltou para o mundo espiritual.
O mundo espiritual não era muito diferente do mundo humano. E diferente dos humanos e shinigamis, demônios não dormem (embora muitos o façam para passar o tempo). Fora isso, era exatamente igual. Com turnos de trabalho e uma hierarquia rígida.
Ele havia acabado de chegar a sua moradia, e pensava seriamente em dormir naquele dia.
— Está cheirando a humanos... — Soou uma voz atrás de Sebastian, mas ele não se virou para saber quem era. Já conhecia aquela voz. — Voltou a ter aquele mau hábito?
O demônio não respondeu. Retirou o fraque que usava e se virou, dizendo ainda sem encarar o recém-chegado:
— Grell, já disse que não gosto que entre na minha casa sem permissão.
— Ranzinza como sempre, Sebastian. Não posso visitar um velho amigo?
— As visitas pedem permissão antes de entrar. O que faz aqui?
Grell era, para a infelicidade de Sebastian, o responsável por supervisionar o seu trabalho. Era parte do acordo feito anos atrás.
— Já fazem 10 anos desde a última vez. Eu vim para relembrá-lo do seu trabalho. — Grell cantarolou, andando em círculos enquanto chutava o chão com um sorriso travesso nos lábios.
— Eu sei o que tenho que fazer, Grell. Pode ser mais rápido com isso?
Sebastian andou calmamente até uma poltrona e se sentou, sendo seguido de perto pelo ruivo, que continuou de pé a sua frente. Sebastian não tinha outro móvel para que visitantes pudessem se acomodar, e não era como se ele se importasse em ser um bom anfitrião.
— Sabe, nunca entendi porque não devorou a alma daquele garotinho naquela época. Todo aquele trabalho pra nada? — Grell disse da sua forma anormalmente séria, embora o sorriso ainda permanecesse nos lábios.
— Ao devorar uma alma, o gosto e a sensação é efêmero.
— Não vejo a importância deste pirralho.
Sebastian suspirou pesadamente, se irritando com a presença do outro ser. Se ergueu na poltrona para se sentar melhor, encarando Grell com impaciência.
— Faça logo o que veio fazer, ok?
— Calma, Sebb. Apesar do seu olhar ser fascinante e eu apreciar muito sua companhia, também quero terminar logo com isso. — Grell lançou uma piscadela para o demônio e retirou uma folha de papel do seu sobretudo, desdobrando e começando a ler o conteúdo em voz alta. — “No ano de 1940, com a grande proliferação e falta de controle de demônios de classe baixa que trouxe caos ao mundo espiritual, o conselho dos Shinigamis decidiu, para um bem de toda a existência, que seriam contratados exterminadores de demônios. Para o demônio de classe 1 que se auto-intitula Sebastian, em troca de seus serviços nós lhe devolveremos a alma de posse perdida do humano Ciel Phantomhive e livre escolha pela alma que necessitar. Bla, bla, bla...” Você sabe o resto. — Grell estendeu o contrato para Sebastian, indicando o espaço em branco no final do papel. — Agora assine com seu sangue e acabamos por hoje.
O demônio mordeu seu próprio pulso, furando a pele branca e deixando o sangue escorrer por dentro da manga. Estendeu a mão até onde Grell ainda segurava o papel e deixou que três gotas escarlates pingassem, sendo imediatamente absorvidas pela folha, sumindo como se nunca houvessem existido.
Sebastian lambeu a ferida do pulso para limpar as manchas de sangue que ali haviam.
— É tão sensual ver você selando um contrato, Sebb. — Grell ronronou, esfregando o papel no próprio rosto como este fosse o próprio Sebastian.
O demônio o olhou enviesado enquanto terminava de abotoar as mangas da camisa. Dançou os dedos sobre o acessório pendurado em seu pescoço enquanto sua mente se distanciava. Uma ideia havia se fixado em sua mente, ridícula e teimosa.
— Grell, almas podem reencarnar? — Sebastian disse interrompendo seu falatório.
— Não. Cada alma tem um corpo. Se uma alma fosse reencarnar, precisaria de um corpo novo. — Grell ajeitou os óculos vermelhos no rosto, piscando algumas vezes. — O que está tramando?
Sebastian ergueu os olhos para olhá-lo, mas nada respondeu. Ele estava pensativo, e seus olhos perderam levemente o foco. “O mesmo discurso ensaiado de Willian” o demônio pensou.
— Mas soube de um Shinigami que conseguia fazer uma duplicata falsa da alma. — Grell pensou alto, recebendo o olhar interessado do moreno. — Foi há muito tempo, e não lembro quem foi, mas ele conseguia misturar as Cinematic Record de duas almas, fazendo parecerem as mesmas. Mas isso foi proibido, então não sei o que aconteceu com ele.
Sebastian parecia ainda mais submerso em seus próprios pensamentos. Grell olhava fixamente para seus movimentos, atento.
— Não sei o que está pensando, Seby. Mas não importa o que pode acontecer, não tem como o pirralho reencarnar.
— Não estou pensando em nada. — O demônio voltou a se recostar na cadeira, suspirando audivelmente em sinal de desinteresse. — Já não estava de saída?
— Aff, você é mesmo muito grosso. — Grell disse abanando a mão, se dando por vencido ao perceber o desinteresse acima do normal. — Já estou indo mesmo, ou Will me fará escrever o dobro de relatórios.
Se virou e foi saindo do cômodo, enquanto Sebastian voltava a fechar os olhos.
O cheiro humano já era bem mais fraco. Mas ele não se permitiu relaxar, a imagem daquele garoto de olhos acinzentados não lhe saia da cabeça. Havia algo de diferente nele, algo que Sebastian nunca viu em outro humano.
— Besteira. — Sussurrou pra si mesmo, como se praguejasse seus próprios pensamentos. Segurou o frasquinho em seu pescoço mais uma vez naquele dia. Aquilo já havia virado um costume. — Você está aqui, Ciel.
Mas algo em Sebastian não parecia acreditar naquilo completamente.
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