Notas iniciais
Não sei dizer se eles são pequenos.

–Eu sinto muito.- a voz do homem vem de novo. -Você falhou dessa vez.

As luzes preenchem os meus olhos. As luzes brancas. Volto para a torre, para o meu tempo.

–Como? Eu não morri. -digo.

–Não, não mesmo.- ele mexe no computador, e eu tento sair da cadeira. Estou amarrada. Olho ao redor: nada mudou. Tudo é a mesma coisa, e nenhuma guerra voltou a acontecer.

–Então como foi que eu falhei?- eu penso. Talvez fosse o lugar em que eu deveria ir. Mas não penso muito. Ainda estou paralisada com a guerra. É uma guerra bem mais antiga. Mais antiga que a terceira mundial, a bio inteligência, que nos levou a criar milhares de criaturas novas, com apenas matar como objetivo.

–Você não salvou as crianças. Julie Damien. 16 anos. Resultados: falhou na segunda temporada.- ele fala simplesmente, como se eu não tivesse visto elas serem mortas a sangue frio. Como se elas não tivessem morrido com o sangue morno nas escadarias do beco.

–Eu não preciso que me lembrem disso.- digo, cheia de raiva.

–Você será retirada daqui. Preciso que se vacine com isso.- ele me entrega uma seringa com liquido azul.- Vai ajudá-la a esquecer.

Tem algo errado. Me lembro das pessoas que saíram do teste. Como elas ficam... diferentes. Então pergunto:

–O quanto da minha memória será apagada?-eu não me sinto bem.

–Não importa.

Definitivamente, tem algo errado.

Minha mão ainda está amarrada, mas movo a seringa, enquanto o homem continua a vasculhar os dados de seu computador. Depois de um tempo, ele demanda:

–Me dê a seringa. Vou vaciná-la.

A sua mão vai ao encontro da minha. Jogo a seringa em seu pulso, e aperto o liquido dentro dele. Ele berra, e logo depois ele para, em estado de pânico.

–O que fizeram com você? Como está amarrada? E... a propósito... onde estamos?

Tento me aproveitar da situação, e digo:-Você pode me soltar? Eu te explico tudo.

Ele olha ao redor, procurando algo que me solte. Ele olha para a cadeira em que estou amarrada, e me diz:

–Esse botão branco atrás? Pode ser?

Ele parece confuso, ainda tentando processar todas as informações possíveis. Mesmo com pena dele, continuo.

–Deve ser! Aperte!

As tiras e cinto me libertam. Então digo:

–Você deve ser... eu não sei. Só saiba que o mundo está todo quebrado, e que qualquer informação sua deve estar nesse computador. Sabe usar?

Ele faz que sim com a cabeça.

–Ótimo. Estou indo.

Ele tenta me chamar, mas eu continuo a correr. Passo por corredores iluminados e vazios, de vez em quando com cientistas, que não sabem o que está acontecendo. É só uma questão de tempo até eles me alcançarem.

Um barulho enorme abre. O alarme foi ativado.

Guardas começam a fechar os corredores, e todos atiram. O que saem são grandes raios em roxo, que queimam as paredes, e agora eles estão tentando atirar em mim. Corro ainda mais, esquivando de alguns, outros até aquecendo o meu corpo só de passar por perto.

Um atinge a minha perna, e eu paro, pronta para cair no chão. Alguém me agarra, e o tempo parece ir mais lento ainda...

Volto a correr no corredor, esquivando dos tiros, a temperatura aquecendo, e percebo que voltei no tempo. De novo o tiro que vai atingir minha perna... mas não acontece. Alguém corre do meu lado, sorrindo. Não é um guarda. É outro jovem, como eu, mas carregando uma das armas com a qual eu devia ter sido atingida, cabelo loiro, quase branco, e uma roupa azul escuro. Carrega do lado uma pequena máquina dourada.

Um Tempo-Misto.

Ele passou nos testes. Ele é um Viajante.

A saída está barrada por meia dúzia de Inumanos. Eles apontam para nós, e o tempo para novamente. O garoto Viajante some. Os Inumanos caem um por um, atingidos pelas próprias armas. E tudo volta.

O garoto está ao meu lado. Disfarçando o espanto, tento brutalmente abrir as portas. Estão fechadas. É claro que não iam nos deixar sair tão fácilmente.

–Droga! Está trancada.

Mas o Viajante tem um ideia, porque ele diz:-Eu cuido disso. -e teclando algumas coisas no Tempo-Misto, uma máquina que lembra um relógio de bolso, mas com teclado, ele volta.

Espero. E as portas se abrem. O garoto aparece de novo, dizendo:-Os Inumanos que ficam para vigiar não tem um bom jeito de guardar os comandos.

–Tá bom.

–Não vai me agradecer? Se não fosse por mim, você não estaria aqui.

–Eu mal te conheço.- só olho para as portas, pronto para abri-las inteiramente.

–Eu também não te conheço, mas te salvei.

–Valeu.- digo, sem emoção na voz.

–Se você quiser saber, mesmo que eu duvide, meu nome é Thomas.

Não sei se devo dizer meu nome, mas digo mesmo assim.

–Julie... Julie Damien.

–Bom te conhecer.- ele diz, brincando. Como é que ele pode brincar depois daquele teste?

Mas forço a sorrir.

–Se quiser sobreviver a isso, vamos ter que ficar juntos.- diz Thomas. -Eles nunca vão parar de procurar por você. Mas eu posso te ajudar.

–Por que você faria isso?

–Eu posso ver o futuro agora.- responde ele.

–O que você vê?

–Chances.

Juntos, nós tocamos as abas de abrir, e empurramos as portas, olhando o mundo do outro lado.